Caracterização topográfica de Guimarães

Após algum tempo de investigação e amadurecimento de ideias, partilho aquilo que julgo ser uma ferramenta interessante para qualquer estudioso do relevo/topografia de uma determinada região, neste caso do concelho de Guimarães. Este trabalho foi produzido com base em mapas topográficos e cartas militares digitais e duas ferramentas preciosas: Google Earth e, sobretudo, o poderoso winprom. A referência que serviu de mote a esta investigação é o blog Garcias, uma verdadeira enciclopédia sobre as montanhas de Portugal, do vimaranense Pedro Macedo.

Enquanto o Garcias se dedicou às montanhas de elevada altitude e proeminência, eu decidi focar a minha análise a um âmbito geográfico mais restrito. Como não existia até à data informação detalhada e facilmente acessível sobre os cumes do concelho de Guimarães nem sobre as linhas de cumeada que dividem as várias bacias hidrográficas do concelho, mergulhei nos mapas e cheguei ao resultado que, embora correndo o risco de ser impreciso, será um bom ponto de partida para outras investigações mais aprofundadas.

Os cumes

Se perguntarmos a qualquer vimaranense qual é o ponto mais elevado do concelho, a maioria irá acertar: a Penha. Mas e os restantes lugares do pódio? E quais são os cumes mais proeminentes? E qual é o cume-pai da Penha? Para responder a estas perguntas já seria necessário partir muita pedra. Se o conceito de altitude é bastante simples de entender, o mesmo já não se poderá dizer do conceito de proeminência, para o qual se recomenda a leitura prévia da Wikipedia. Definido de forma muito simples, a proeminência é o desnível que há que descer desde o cume de uma montanha para chegar a outra qualquer, desde que esta tenha maior altitude, indo sempre pela linha de cumeada, i.e., sem passar por cursos de água. Quanto mais proeminente é um cume, mais se destaca dos vizinhos.

A figura abaixo e a tabela que se segue descrevem a lista dos cumes do concelho de Guimarães com maior proeminência, ordenados alfabeticamente. Foram considerados todos os cumes com mais de 30 metros de proeminência, critério utilizado por exemplo por referências como o Peakhunter. O nome de alguns cumes – obtido da cartografia militar – pode não corresponder à identificação dada pelos habitantes da vizinhança, pelo que se agradece eventuais correções. Ao lado da informação sobre altitude e proeminência encontra-se o lugar que o cume ocupa na classificação concelhia.

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Nr. Nome Localização Lat./Long. Alt. Proem.
1 Areeiro Infantas 41°25’24″N 8°13’21″W 392m
(#12)
49m
(#16)
2 Lagedas Gonça 41°31’03″N 8°14’33″W 543m
(#3)
148m
(#4)
3 Lijó Polvoreira 41°24’18″N 8°18’39″W 352m
(#16)
68m
(#14)
4 Listoso Rendufe 41°28’36″N 8°13’12″W 574m
(#2)
34m
(#21)
5 Meninas Lordelo 41°22’51″N 8°23’03″W 254m
(#21)
94m
(#9)
6 Monte da Santa Selho (S. Jorge) 41°25’51″N 8°21’48″W 249m
(#22)
99m
(#8)
7 Outeiro de São Pedro São Faustino 41°23’36″N 8°16’57″W 478m
(#8)
83m
(#11)
8 Outinho Balazar 41°29’51″N 8°22’51″W 473m
(#9)
171m
(#3)
9 Pedra Fina São Torcato 41°29’57″N 8°15’42″W 498m
(#7)
69m
(#13)
10 Pedral Candoso (S. Tiago) 41°25’00″N 8°18’57″W 281m
(#18)
32m
(#22)
11 Penedo da Bandeira Gonça 41°30’48″N 8°15’48″W 530m
(#4)
146m
(#5)
12 Penedo da Cruz Lordelo 41°22’57″N 8°22’36″W 236m
(#24)
31m
(#24)
13 Penha Costa 41°25’48″N 8°16’06″W 603m
(#1)
254m
(#1)
14 Pinhal dos Cubelos Rendufe 41°27’57″N 8°13’57″W 516m
(#5)
37m
(#19)
15 Pombeiro Candoso (S. Tiago) 41°25’24″N 8°19’06″W 299m
(#17)
70m
(#12)
16 Portela Selho (S. Jorge) 41°26’12″N 8°20’45″W 247m
(#23)
65m
(#15)
17 Sabroso Sande (S. Lourenço) 41°30’42″N 8°20’30″W 266m
(#20)
37m
(#19)
18 Santa Eulália Fermentões 41°27’09″N 8°19’15″W 276m
(#19)
89m
(#10)
19 Santiago Selho (S. Lourenço) 41°28’39″N 8°17’51″W 375m
(#14)
44m
(#17)
20 Santo Antonino Mesão Frio 41°26’36″N 8°14’21″W 509m
(#6)
120m
(#6)
21 São Bartolomeu Leitões 41°28’45″N 8°23’00″W 412m
(#10)
38m
(#18)
22 São Miguel-o-Anjo Vermil 41°27’30″N 8°23’09″W 376m
(#13)
116m
(#7)
23 Senhoras do Monte Nespereira 41°24’18″N 8°20’36″W 402m
(#11)
190m
(#2)
24 Venda da Serra Calvos 41°24’24″N 8°14’27″W 371m
(#15)
32m
(#22)

 

A Penha destaca-se claramente de todos os restantes cumes, com uma altitude de 603m, apresentando uma proeminência significativa (quase metade da sua altitude). O Listoso, em Rendufe, apesar de ser o segundo mais alto do concelho (574m), tem uma proeminência bem mais modesta. O terceiro cume mais elevado de Guimarães é o de Lagedas (543m), em Gonça, também conhecido por Senhora do Monte – a capela com o mesmo nome fica umas centenas de metros mais abaixo.

Quanto à proeminência, para além da Penha, com 254m, destacam-se as Senhoras do Monte (190m) que, apesar de terem uma altitude modesta, também se destacam bastante na paisagem. Em terceiro lugar, temos um cume perto da fronteira com Braga, o Outinho, com 171m, situado um pouco acima da capela da Senhora da Sáude, em Balazar.

As linhas de cumeada

A análise das linhas de cumeada permite-nos identificar claramente as bacias hidrográficas e as relações de hierarquia entre os diferentes cumes. Uma linha de cumeada corresponde ao caminho que alguém faz de cume a cume sem cruzar cursos de água, i.e., caminhando sempre na crista da montanha. De cada lado da linha temos bacias hidrográficas distintas, com os rios e ribeiros a escorrerem cada um para a sua vertente da linha de cumeada. Em cada continente ou ilha, uma linha de cumeada termina no cume mais elevado dessa área. As linhas de cumeada do continente euro-asiático terminam no monte Evereste.

Em Guimarães, como se pode observar pelo mapa acima, podemos distinguir três grandes linhas de cumeada, todas com orientação sudoeste-nordeste, tomando novamente como ponto de partida os cumes com proeminência superior a 30 metros:

  • Meninas (Lordelo) – Santa Marinha (Freitas, Fafe), à qual confluem outras linhas de cumeada menores do sul do concelho. Esta linha divide as bacias hidrográficas do Vizela (a sul e este) e do Selho (a norte e oeste).
  • Monte da Santa (S. Jorge de Selho) – Santa Marinha (Freitas, Fafe), sem ramificações relevantes. Esta linha divide as bacias do rio Selho (a sul e este) e do rio Ave (a norte e oeste).
  • São Miguel-o-Anjo (Vermil) – Sameiro (Braga), com uma ramificação menor ao cume de Sabroso. Esta linha divide as bacias do rio Ave (a sul e este) e do rio Este (a norte e oeste).

Como se percebe, as duas primeiras linhas confluem em Santa Marinha – perto da nascente do Selho – e prosseguem numa só cumeada em direção à Serra do Maroiço, em Fafe, aqui já apenas dividindo a bacia do Ave da do Vizela.

Ao longo de uma linha de cumeada, existe uma relação de paternidade entre os vários cumes que a compõem. Por exemplo, na linha que principia no Lijó (352m), vamos encontrar pelo caminho até à Penha vários outros cumes sem proeminência significativa, mas que são cumes-pai do Lijó: Samarões (375m), São Simão (455m), Lapinha (505m), entre outros.

Sendo a Penha o cume de maior altitude em Guimarães, coloca-se a questão de saber qual o seu cume-pai. Seguindo a linha de cumeada em direção à Serra do Maroiço, vamos encontrar um cume desconhecido mas que é na verdade o cume-pai da Penha: um alto a 619m de altitude, entre os lugares de Arribas e Pardelhas, na freguesia da Queimadela, em Fafe. Trata-se de um cume anónimo e muito pouco proeminente mas que, na linha de cumeada, é mais elevado do que a Penha e é portanto o cume-pai desta.

E agora?

Seria interessante ver este trabalho desenvolvido em direção ao concelho de Fafe e outros por diante, para continuarmos a seguir as linhas de cumeada em direção às serras mais interiores e identificar as bacias hidrográficas relacionadas. Se houver interessados em prosseguir este estudo, darei todo o apoio necessário.

Como nota final, devo lembrar que esta caracterização foi feita por um amador e, como tal, é mais propensa a erros, pelo que se solicitam correções sempre que se justificar.

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Ronda da Cabreira

Após tantos anos a trotar pelos montes da região, é inexplicável como nunca tinha aprofundado o meu conhecimento sobre a Serra da Cabreira, apenas a 45 minutos de casa. As minhas experiências por lá resumiam-se a curtas caminhadas, curiosamente nas extremidades norte e sul da serra, sem nunca ter subido aos pontos mais altos. Também já tinha corrido pelas Torrinheiras, perto de Cabeceiras de Basto, mas aqui já estamos um pouco afastados da área nevrálgica da Cabreira. Foi por isso com determinação que decidi colmatar esta lacuna. Reuni vários percursos conhecidos e defini vários objetivos: subir ao cume do Talefe (1262m) , visitar pelo menos mais um vértice geodésico, explorar a zona da nascente do rio Ave, passar por todas as vertentes da Serra e visitar a mata do Turio, tudo isto sem fazer mais do que 50 km e tentando acumular um desnível positivo decente. Após vários dias a desenhar o percurso, cheguei ao que considero ser um passeio bem demonstrativo pela Cabreira, que pude concretizar com três amigos já habituados a estas andanças – Frederico, Gil e Isaac.

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Como ponto de partida, escolhi a aldeia de Agra, que considero ser o local ideal para uma atividade deste tipo. Com um casco histórico bem preservado, com as suas ruelas empedradas e belas habitações de granito, sentimo-nos a entrar pela Serra sem ainda lá termos subido. A altitude da aldeia (660m) e o seu carácter algo deserto também contribuem para esta sensação. Os locais para estacionamento não abundam, mas como só levámos um carro, não foi difícil aparcar junto à igreja. Antes das 8h00, deixámos a aldeia rumo à Serra.

Durante os primeiros 3 kms fomos subindo calmamente em direção à nascente do rio Ave. O céu ainda com muitas nuvens deixava o sol espreitar e anunciava um belo dia para correr. Já não sentia tanta humidade na terra talvez há mais de meio ano! Que sensação agradável voltar a correr com charcos de água, ficar com o corpo a escorrer depois de raspar pelas giestas cobertas de água, sentir o frio matinal… Estamos finalmente a livrar-nos deste verão interminável! Um verão que deixou as cotas mais altas do rio Ave num estado lastimável. Vêem-se mais pedregulhos do que água no seu leito. Apesar de tudo, fico impressionado e reconfortado pela incansável montanha ainda jorrar água depois de tanta seca. Aforradora sensata, a montanha vai amealhando sempre que pode e guarda muito bem o tesouro líquido nas suas entranhas. Sem exigir nada em troca, vai libertando a sua poupança a toda a hora, distribuindo vida pelos seus vales.

A nossa homenagem à montanha foi prosseguindo encosta acima, contornando a nascente do Ave pelo norte. Por entre uns arbustos, surgiu-nos uma égua com ar muito desgastado. Sozinha, sem energias, cabisbaixa, parecia chorar a perda de entes queridos. Provavelmente, perdeu-se da manada durante os incêndios da semana anterior. O caminho entretanto ficou plano e mais largo e avistava-se ao longe o muro de um dos fojos da Serra. Sendo um local de massacres recorrentes e simbólico da arrogância dos homens sobre os restantes animais, preferi evitar a proximidade com estes vestígios no percurso que desenhei. Enquanto conversávamos, íamos passando por pequenos ribeiros que, no seu conjunto, formam a nascente do Ave. A falta de um ponto de referência que se possa efetivamente chamar de “nascente” e a vegetação alta fizeram com que nos afastássemos sem saber bem onde estava o rio no vale. Pouco depois, já estávamos novamente a subir uma encosta, desta vez em direção ao alto do Trovão.

A conversa girava agora à volta das provas e da saúde dos atletas, que é colocada em risco à medida que se submetem regularmente a esforços extremos. É verdade que uma corrida de 45 km, mesmo num ritmo de passeio, não é propriamente uma dose recomendável, mas estou convencido que, se acontecer com pouca frequência, deixando o corpo descansar devidamente entre os esforços, mal não faz! Sobretudo quando nos permite vivenciar locais e experiências especiais, como a passagem pelo agradável parque de merendas do Seirrão, com a sua verdura e sombra, no sopé do Trovão, ou mesmo a própria subida ao Trovão, com as suas vistas para todas as serranias a sul, que quase todos estamos bem habituados a galgar.

Ainda era cedo e o vento batia forte naquele alto despido e coberto de granito. Voltámos rapidamente para o refúgio do bosque e continuámos agora em direção ao Talefe. O cume da Cabreira apresentava-se misterioso, envolto em nevoeiro escuro. Estávamos apenas a uma diferença de 100m de altitude, mas as condições climatéricas eram bem distintas. Não nos preocupámos, pois as nuvens não tardariam a abandonar o seu poiso noturno. Em vez de seguirmos o caminho mais fácil para o pico, fletimos para nascente e descemos pelo vale da ribeira das Ladeiras, por entre os bosques de bétulas, já amareladas apesar do outono atípico. Iríamos subir ao Talefe pelo lado norte, o mais selvagem, como convém. Continuávamos a observar uma natureza rica, bela e diversa, sem sinais evidentes de ter tido um verão penoso.

À chegada às Fragas do Tremonha, parámos para apreciar o espetáculo da enorme muralha de granito do Gerês, logo ali em frente, do outro lado do Cávado que brilhava na albufeira de Salamonde. Sentimo-nos com sorte por poder viver aquele momento num dia particularmente favorável. Lá em cima, esperava por nós a penumbra e o frio, mas isso animava-nos! Não há nada como uma boa escalada por entre o granito e a carqueja! Sem ligar muito ao percurso desenhado, fomos seguindo montanha acima pelas passagens mais abertas ou que nos arranhassem menos.

Quando finalmente atingimos as eólicas, seguimos pelo estradão já um pouco iluminado pelo sol difuso, até ao Talefe. O frio fez-me sentir vontade de vestir o corta-vento, as mãos já estavam a gelar, com a temperatura a rondar seguramente os 5 graus. Não estivemos muito tempo junto ao gigante de betão e rapidamente voltámos ao estradão, agora para descer para o novo objetivo, a mata do Turio. Um pouco abaixo do Talefe, encontrámos um belo prado e um curral com sinais de ter sido abandonado à pressa. Uma calamidade repentina tinha-se abatido sobre a Serra uns dias antes. O coberto vegetal calcinado que se começava a ver iria tornar-se uma constante no resto do dia. Sem o sabermos naquele momento, esta seria a fronteira entre a Cabreira bela e imponente e a Cabreira desfigurada e destroçada.

Enquanto descíamos até ao parque de merendas da Serradela, tínhamos à nossa frente o cenário desolador da mata do Turio parcialmente queimada. Aos diferentes tons de verde que caracterizam aquele belo vale juntaram-se, nas orlas mais elevadas, as cores da morte. A partir daquele momento, o meu estado de espírito cambiou e foi com algum desânimo que parei no parque para um curto almoço. Depois de repormos os níveis energéticos e de recarregarmos as reservas de água, seguimos pela estrada de asfalto até à entrada para o interior do Turio. Incrivelmente, após uma semana de chuva, os tocos de algumas árvores calcinadas ainda fumegavam… Descíamos o vale pelo caminho largo, tendo do lado esquerdo a vegetação queimada e do lado direito a diversidade vegetal, combinando espécies autóctones com exóticas, com predominância para as acácias. Após alguns quilómetros um pouco monótonos, o percurso voltou a ficar interessante, levando-nos a sair da mata e subir novamente à montanha.

IMG_20171021_141325 (960x1280)Infelizmente, quando chegámos às zonas mais descobertas, deparamo-nos com um cenário ainda pior. À nossa volta, era tudo negro, com poucos sinais de vida. A partir daqui, não há muito a contar, pois a paisagem é quase sempre a mesma, só voltando a ficar verde a poucos quilómetros de Agra. E quando voltámos a ver vida, não foi a mais entusiasmante, pois entrávamos num extenso e pobre bosque de mimosas. A boa disposição só voltou quando apanhámos uma velha calçada que nos levou por entre um belo arvoredo até à ponte medieval da Parada, sobre o rio Ave. Estávamos às portas da aldeia e discutíamos agora os planos para a reposição de proteínas, com Agra na boca!

Trilhos de Sistelo e Serra do Soajo

As expedições da Ronda têm estado em pousio, tendo havido outros interesses mais prioritários, mas a atração por novas montanhas e territórios continua insaciável. No âmbito de uma caminhada que estou a ajudar a organizar para a Associação Vimaranense para a Ecologia, fui fazer o reconhecimento de dois trilhos na zona de Sistelo, nas faldas da Serra do Soajo. Como o somatório dos percursos mal dava para aquecer a máquina, decidi juntar ao reconhecimento uma boa aventura: uma senhora subida a um dos pontos mais altos da Serra do Soajo, o cume da Peneda (conhecido pelos locais por Castelo do Pedrinho), a 1374m de altitude.

Como em casa já tinha comprado o sábado todo para a aventura, não foi preciso chegar muito cedo ao Sistelo. Apesar do horário tardio e de ser época alta, não tive dificuldade em estacionar na aldeia. O dia prometia ser simpático, com algumas nuvens e temperatura amena. Depois de um pequeno reconhecimento das valências e pontos de interesse da pequeníssima aldeia, carreguei o máximo de água que pude e ataquei sem mais demoras as tarefas do dia. Comecei com o trilho de 13 km ao longo do rio Vez, a jusante de Sistelo. Este percurso não está sinalizado mas em cerca de metade da extensão utiliza vários kms da Ecovia do Vez assim como a totalidade do Trilho dos Passadiços (PR 25). E diga-se que é bem agradável começar a manhã a correr ao lado do rio, à sombra do arvoredo, e divertindo-nos nos passadiços de madeira. É um verdadeiro carrocel, tanto pelo sobe e desce constante, como pelas sucessivas repetições do tema passadiço-arvoredo-ruínas-de-moínhos. Soube bem, mas a montanha ali ao lado chamava por mim!

 

Deixo o rio e, depois de atravessar a N202-2, paro na antiga casa do guarda florestal, perto da Sobreira, antes de começar a subida para a antiga branda da Tabarca. Após as primeiras centenas de metros pouco interessantes, ao lado do asfalto e sob um pinhal, afasto-me da civilização e a montanha começa a perfilar-se à minha direita. Ainda estamos a cotas baixas, a rondar os 300m de altitude, mas a paisagem e a vegetação já estão a mudar. A ascensão começa a ficar mais dura, bastante técnica, e o mato já faz os primeiros rasgos nas pernas. Por entre as nuvens, o sol já brilha mais forte. A meio da subida, passo ao lado de um singular cortelho, a anunciar a branda que não deve estar muito longe.

 

O trilho fica mais selvagem, com muita vegetação, mas já se vêem à esquerda os muros da branda e, pouco depois, deparo-me com uma cancela em muito mau estado. Em tão mau estado que nem sequer tento abri-la, para não a desconjuntar ainda mais. Salto-a com a ajuda dos muros, com muito cuidado, pois estes também se estão a desmoronar. Na dúvida se não estaria a invadir propriedade alheia e focado em sair dali rapidamente, nem sequer me lembrei de tirar fotos da branda, que me pareceu um pouco abandonada. À chegada à aldeia de Tabarca, nova cancela, mas desta vez funcional. Fiquei um pouco desapontado por ver tanto lixo enfiado nas velhas minas que ladeiam a calçada. Passo pela aldeia e inicio a descida para regressar ao vale, atravessando os socalcos, por uma calçada bastante escorregadia. Regresso também ao arvoredo e à sombra que já me estava a fazer falta. Poucos minutos depois, já me encontro junto ao rio Vez e de regresso ao trilho sinalizado. Se tivesse cá passado de tarde, ter-me-ia seguramente refrescado naquelas águas límpidas!

 

À chegada a Sistelo, não há tempo a perder, pois a aventura só agora vai começar. Recarrego os bidões de água, vou ao carro buscar o corta-vento (o céu a escurecer não augura facilidades nas cotas mais altas) e sigo no encalço do Trilho das Brandas de Sistelo (PR 14). Os primeiros metros denunciam rapidamente o que vai ser este trilho: subir, subir, subir sem complacência. Vou caminhando, mais do que correndo, por uma calçada bem preservada que liga Sistelo à branda de Rio Covo. A subida é tão íngreme que a calçada foi feita aos ziguezagues, para aligeirar um pouco o esforço. Penso na deslocação que os aldeões faziam por esta calçada, acompanhados pelo seu gado e eventualmente carregados com mantimentos, para uma estadia em altitude nas pastagens de verão. Provavelmente, deslocavam-se mais ligeiramente do que eu! À minha esquerda, avisto os socalcos que tornaram a aldeia de Sistelo famosa. No final do verão, não têm tanto encanto, de tão amarelecidos que estão!

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Os agora pálidos socalcos de Sistelo

Quando atinjo a Chã da Armada, a paisagem torna-se espetacular. À minha direita, um vale profundo e escarpado, onde ao fundo corre o rio do Outeiro, afluente do Vez. A calçada ao lado do precipício faz-me pensar numa foto que o malogrado João Marinho tirou nos Picos da Europa pouco tempo antes de desaparecer. Mal ultrapasso os 700m de altitude, sinto o ar a refrescar repentinamente e umas gotículas de chuva que começam a cair. Com o céu cada vez mais escuro, preparo-me mentalmente para enfrentar dificuldades sérias no alto da Peneda. As gotículas entretanto aumentam de espessura e o vento sopra mais forte. Aproximo-me de um bosque e fico animado com a perspetiva de ficar mais protegido. À chegada, percebo que estou finalmente na branda do Rio Covo e que a primeira grande subida terminou! À beleza do local, um misto de intervenção humana e força da natureza, junta-se um sentimento de desolação e abandono. Estamos a devolver o território à natureza, talvez para o seu bem.

 

À saída de Rio Covo, atravesso um bosque misto onde predominam coníferas e bétulas. Um perfeito contraste com a vegetação que me acompanhou até ao cimo da serra. Ali, na nascente da Corga da Saramangeira, sinto uma forte humidade que nem nas margens do Vez senti… Pouco depois, volto ao terreno descoberto e encontro o primeiro grande obstáculo do dia: um grande grupo de bovinos com ar de rufias a barrar-me a passagem. Visto a pele de macho ómega e esgueiro-me discretamente pela lateral e depois por entre umas vaquitas mais distraídas. Mal sabia que iria ter muitos mais encontros destes ao longo do dia…

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Vacas, vacas e mais vacas…

Rapidamente alcancei a Branda do Alhal, debaixo de intensa chuva miudinha. Esta branda, anexa à aldeia do Padrão, ainda tem bastante atividade e, por entre os muros e as construções típicas, vêem-se edifícios mais modernos. Uma branda dos novos tempos? Estava com pressa de sair dali, de deixar o trilho marcado e de entrar na fase mais selvagem do dia, que me levaria, quem sabe, ao alto da Peneda. Assim que deixei a rota das brandas, encontrei um casal de idosos que tentou desmotivar-me, alegando que o caminho estava muito fechado. “Vou pelo mato. Já estou habituado!”, respondi. A verdade é que o caminho estava mesmo dificilmente transponível, com várias barreiras feitas de ramos e tábuas e com vegetação densa ao longo daquilo que já foi um caminho de serventia para cortelhos e campos agora semi-abandonados. Fui avançando até ao próximo desafio: uma matilha de cães furiosos que, do outro lado do murinho que ladeava o caminho, ameaçava saltar para o meu lado. Livrei-me rapidamente deles e, um pouco acima, decidi fazer o lanche da manhã, dentro das ruínas de um cortelho. Era quase meio dia e o sol voltava a brilhar por entre as nuvens. De estômago cheio, parti em direção ao ermo da Branda da Gémea. O caminho melhorou durante cerca de 1 km, no vale da Corga do Porto Novo, mas não demorou muito a voltar a ficar bastante selvagem. Se não tivesse o percurso no relógio, ter-me-ia seguramente perdido, sem quaisquer referências na paisagem. Limitava-me a ziguezaguear por entre o mato que, felizmente, era maioritariamente carqueja – bem mais gerível do que o tojo! Por vezes, o caminho voltava a emergir do mato ou caminhava por uma zona com mais granito ou com mais intervenção humana, o que me permitia avançar mais rapidamente e até correr!

 

Depois de uma subida íngreme pelo meio dos afloramentos graníticos, cheguei finalmente à Branda da Gémea, agora abandonada. Era preciso ter muito coragem para vir até aqui com o gado. Estamos muito perto dos 1000m de altitude. À minha volta, muitos cortelhos em ruínas e imensos campos separados por pequenos muros. Foi certamente um assentamento importante. Percorro o arruamento principal da branda e sigo por um caminho que atravessa a Corga dos Cortelhos e desemboca umas centenas de metros acima numa habitação isolada, na Chã do Sono. Tento encontrar pontos de água, mas está tudo seco nesta altura do ano. E a civilização termina aqui, pois agora é só mato e granito até ao alto da Peneda. Mato, granito e… vacas, mesmo muitas… É incrível como se consegue encontrar tanta vaca nesta zona. Vi dezenas espalhadas pela encosta, isoladas, em pequenos grupos, a pastar, a descansar… A concorrer em número com elas só os gafanhotos de asas-azúis, que saltam e voam constantemente à minha volta.

 

A subida torna-se cada mais íngreme e a progressão muito lenta, por entre a carqueja. Sempre que encontro granito é um alívio! Acima dos 1300m, a vegetação começa a rarear e deixo de ver uma parede à minha frente. O cume está próximo! Finalmente, revela-se o marco geodésico da Peneda, a 1374m de altitude, no meio de um grande planalto de granito – o Pedrinho, como lhe chamam as gentes da terra. À minha volta, uma vista esplendorosa sobre todas as serras circundantes: Serra d’Arga, Serra da Peneda, maciço do Gerês… São 13h e, apesar de não ter fome, decido almoçar um presunto bem consistente. A água está quase a acabar, mas a descer não faz tanta falta. Sem vontade de ficar parado, decido ir caminhando enquanto mastigo a sandes, cume abaixo, pela vertente sul, por entre os agrupamentos de vacas.

 

Após várias horas de mato e pedra, atinjo finalmente um estradão, perto da Chã da Cruz. Feliz por poder voltar a correr normalmente, acelero um pouco e vou olhando para o relógio, já sem esperanças de estar às 14h30 em Sistelo. Para surpresa minha, o relógio manda-me sair do estradão, poucos metros mais à frente. À minha direita, vejo umas alminhas. Quem raio se lembraria de construir umas alminhas a 1300m de altitude? Só mesmo os devotos de São Brás e Santo António! Gente de fé fervorosa, que certamente é recíproca no espanto de ver maluquinhos a subir a esta serra só porque sim!

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Alminhas com o Pedrinho (alto da Peneda) em fundo

Não tenho estradão, mas por este lado o mato é menos basto e consigo correr rapidamente, à medida que vou descendo pela Costa do Menjoeiro. Deixo o território das vacas e entro no pasto dos garranos. Não são muitos e são mais medrosos. Avisto um juvenil que corre a proteger-se junto da progenitora. Identifico-me mais com estes animais sociáveis, apesar de socializarem apenas entre eles! Rapidamente atinjo o caminho que dantes ligava as brandas do Alhal e da Gémea. De volta às calçadas, os meus joelhos começam a protestar. Lembro-me da última tareia que lhes dei, quando descia a Serra da Freita, e abrando ligeiramente. Já vejo o Alhal lá em baixo. A calçada fica cada vez mais larga à medida que me aproximo. À entrada da branda, sou recebido em ovação, por uns cães muito pouco amistosos. Tento cativá-los, mas não querem conversa. Já me estava a preparar para mudar de linguagem quando ouço a dona a chamar por eles. Estou salvo! Muito obrigado e boa tarde!

Desço como uma seta pela branda do Alhal e retomo o trilho sinalizado. De volta à zona de conforto, vou correndo mais descontraído, sempre pela calçada que me levará até ao Padrão, o lugar onde vivem no inverno os proprietários da branda do Alhal. É fácil perceber quando se chega à aldeia do Padrão, pois à entrada há mesmo um padrão que não deixa quaisquer dúvidas. Com os cantis vazios há já alguns kms, começo a sentir os efeitos da desidratação. A aldeia é bastante pequena e, para minha desgraça, sem quaisquer pontos de água. Mas, felizmente, esta desgraça ficou só, pois tive a sorte de falar com a Dona Esperança, uma senhora com 82 anos, apoiada numa muleta, que se encontrava a varrer a entrada da casa. Oferece-me água, apesar de estar “choca”, diz. Que preciosidade! Quem tem verdadeiramente sede não olha à temperatura da água! Bebo duas malgas muito rapidamente, enquanto a Dona Esperança me fala do seu único filho, que vive em Vidago e trabalha nas termas de Pedras Salgadas. É o filho que a ajuda a cuidar da pequena vinha, carregadíssima de uvas. Aos meus elogios à vinha, a Dona Esperança responde com a proposta de provar do seu vinho. Rejeito várias vezes a oferta, com receio de ficar arrumado para a corrida, mas, face a tamanha generosidade, acabo por aceitar. Acompanho-a à adega e bebo uma malga cheia de um vinho verde tinto que me soube mesmo muito bem. Não sei se foi da sede, mas o vinho da Dona Esperança é do melhor!

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A Dona Esperança, com a malga que mata a sede

Escusado será dizer que, nos minutos seguintes, senti a cabeça ourada. Era um risco correr muito rápido e redobrei a atenção à calçada. Mas não consegui evitar um pequeno engano no percurso, pois já não estava a conseguir seguir bem as indicações! Felizmente que Sistelo se aproximava rapidamente. Dois quilómetros abaixo, atravessei a N202-2 e continuei a descer em direção ao rio Vez, a montante de Sistelo. Finalmente, após várias horas, volto a estar à sombra das árvores! Mas a temperatura continua alta. Apesar da ameaça de chuva e tempestade, acabei por ter um dia com muito sol e bastante quente. Só me faltava agora atravessar as duas velhas pontes oitocentistas, uma para a margem direita e outra de volta para a margem esquerda. Lá em cima, vejo a igreja de Sistelo, mas ainda tenho uma penosa escadaria para subir. Não havia necessidade, depois de 35 km, quase 2000m D+ e 6 horas de corrida-caminhada-escalada!

À chegada à aldeia, corro refrescar-me no fontanário e bebo sofregamente. No tasco da aldeia, bebo finalmente o café que desejava há várias horas. Missão cumprida e que boa aventura! Mais uma que nunca esquecerei. Ou, se esquecer, terei sempre estas linhas que ma relembrarão! 🙂

O percurso pode ser consultado aqui.

 

Grande Ronda pela Serra Amarela

“Um dia pela Serra Amarela, a percorrer vezeiras, a visitar fojos de lobos e a quebrar a cabeça no enigma de quinze ou vinte casarotas perdidas numa chapada.”

Miguel Torga, numa visita à Serra Amarela, em 25 de Julho de 1945

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Tendo por base o percurso da GR34, a grande rota interpretativa da Serra Amarela, promovida pela Adere Peneda Gerês, e da qual se podem consultar mais detalhes aqui, pretendemos realizar uma jornada de trail running norteada pelos princípios da Ronda dos Cumes Sagrados – diversão, descoberta, autonomia, espírito aberto àquilo que a montanha nos pode dar de bom (ou de mau!), tudo corrido de cume em cume em ritmo de passeio.

A aventura terá como ponto de partida a aldeia de Campo do Gerês, em Terras de Bouro. Dali rumaremos em direção à albufeira da barragem de Vilarinho da Furna, e entraremos no trilho da GR do outro lado da barragem. O trilho circular tem cerca de 35 km e percorre em caminhos de pé posto, carreteiros ou calçadas, as duas vertentes da Serra Amarela – a norte voltada para o rio Lima e a sul inclinada sobre o rio Homem e barragem de Vilarinho da Furna. Os principais pontos de interesse da GR34 são, entre outros, o Alto da Louriça (1364m), Branda de Bilhares, Ermida, Vale de Carcerelha, Campos do Vidoal, Germil, Cutelo, Chã do Salgueiral, Vilarinho da Furna, Curral de Porto Covo, Curral do Ramisquedo, Cabana de Bentozelo, Cabana de Martinguim.

Dependendo das condições que encontrarmos, é provável que façamos desvios à GR para visitarmos o Alto da Carvalhinha (1092m) ou o Penedo do Eido.

Logística

Partida

A partida de Campo do Gerês será por volta das 7h30 do dia 12 de novembro, nas imediações da Albergaria Stop, na rua da Geira. Esta data poderá ter de ser alterada caso as condições meteorológicas se prevejam adversas a este tipo de atividade.

Equipamento

Recomenda-se equipamento adequado à dificuldade da atividade e aos riscos inerentes, nomeadamente:

  • mochila com capacidade para água e alimentação suficientes para um dia inteiro na montanha, contando com a existência de pontos de água em vários locais
  • preparação para o percurso: relógio com o track carregado, estudo prévio do percurso
  • preparação para o frio: corta-vento, camisola térmica, luvas, gorro, manta térmica, etc.
  • preparação para imprevistos: telemóvel, frontal, backup do percurso noutro dispositivo

IMPORTANTE: esta atividade é totalmente gratuita e não é coberta por qualquer seguro.

Percurso

O percurso terá entre 40 km e 45 km, contando com o trajeto entre Campo do Gerês e o trilho da GR34 e dependendo dos desvios que se fizerem à rota. Podem obter o track da GR34:

Prevê-se o regresso a Campo do Gerês antes do pôr-do-sol, por volta das 17h00.

 

Ronda de Basto: o epílogo

A poucos dias da Ronda e ainda com memórias bem vivas das dificuldades na Serra da Freita, sentia-me como um bovino a caminho do matadouro. As temperaturas constantemente elevadas pioravam o meu estado de espírito. À medida que se aproximava a hora do desafio, fui metendo na cabeça que o mais importante em todas as Rondas é a experiência em si, o convívio, a aprendizagem – o caminho, portanto, em detrimento do fim. E de bovino condenado fui evoluindo para um equídeo livre e confiante. Só não sabia ainda se o equídeo viria a ser cavalo ou burro!

Vistas para o Alvão e Marão

Vistas para o Alvão e Marão

Às 4 da manhã do dia da Ronda, acordo bem disposto e com ganas de me atirar ao desafio. Depois de me ter encontrado com o Miguel, o Gil e o Frederico, lançámo-nos estrada fora até Mondim. Com o sol a levantar-se por trás do Monte Farinha, durante a descida pelas curvas da Gandarela, este apresentava-se-nos com um vulto ameaçador, encimado por uma luz verde medonha. Afastamos os maus pensamentos, antecipando os bons momentos que lá passaríamos dali a pouco mais de uma hora. Conseguimos chegar a Mondim ainda antes das 6, ao mesmo tempo que o Fernando que vinha de Espinho. Depois dos últimos preparativos, arrancámos cheios de pressa, querendo galgar a calçada da Senhora da Graça enquanto o ar ainda estava fresco. Tal como no reconhecimento de janeiro, a aparentemente temível subida de 600m fez-se muito bem, sem danos no ânimo e nas forças. Pelo caminho, fomos passando por alguns caminheiros e vários campistas à espera da etapa da Volta a Portugal. Lá em cima, perto dos 1000m, o sol brilhava e já não encontrámos a frescura que esperávamos. Depois de apreciarmos calmamente as vistas para as serranias do Alvão e do Marão e, do outro lado, todas as elevações que nos esperariam durante o dia, seguimos rapidamente em direção ao segundo vértice geodésico, o Alto de Crespo.

Vale cavado antes do Crespo

Vale cavado antes do Crespo

Como estávamos agora na vertente noroeste do maciço do Farinha, ainda sem luz direta do sol e com vários cursos de água a escorrer pela encosta, a temperatura era agradavelmente baixa. O Miguel ia ficando para trás, mas achávamos que se tratava simplesmente de gestão do esforço. Numa zona escondida por arbustos, sentimos repentinamente um forte odor a bicho morto. À nossa direita, encontrava-se um cadáver de um cavalo em avançado estado de decomposição, parcialmente devorado, talvez por algum lobo proveniente do Alvão. Mau augúrio, mesmo que certamente nenhum de nós fosse uma presa apetecível. O susto veio logo a seguir, quando encontrámos dois grandes bois negros à nossa frente, mas os rapazes assustaram-se com a nossa virilidade e deram a fugir pelo trilho fora.

Parte do grupo na Senhora da Graça

Parte do grupo na Senhora da Graça

Depois de passarmos pelo Crespo, descíamos em direção ao rio Tâmega. À chegada à aldeia de Fontelas, a minha cabeça começava a acusar a falta de café e fizemos o primeiro desvio para abastecimento. O café da aldeia não ficava muito longe do trajeto e pudemos repor os níveis de cafeína ou de malte de cevada. Era a primeira vez que queimávamos tempo. Estas paragens atrasam a Ronda e acrescentam quilómetros, mas são fundamentais para que a experiência se mantenha em níveis de desfrute aceitáveis. Retomámos o trajeto pelo asfalto que nos leva à ponte sobre o Tâmega e, ali chegados, descemos à margem do rio para encetar a longa subida a Leiradas. Foi a partir daqui que sentimos que o Miguel não estava nos seus dias. As pernas não queriam colaborar. Apesar do nosso apoio, tivemos de nos separar em Leiradas, após uma pausa no café da aldeia. Ficou melhor do que nós, à sombrinha, aguardando pela boleia. Mas quando se perde um colega de luta, por mais ânimo que ainda se tenha, é sempre menos um. Há sempre um qualquer impacto psicológico negativo, mesmo que inconsciente. Mas continuámos seguindo confiantes.

Vista para o Monte Farinha na subida para Cambeses

Vista para o Monte Farinha na subida para Cambeses

Após paparmos o terceiro vértice geodésico, descemos a Asnela, ao km 31, onde nos refrescámos um pouco antes de subir a Cambeses. A temperatura estava próxima do auge e, sempre que passávamos por água, havia um forte motivo para parar. À nossa volta, a paisagem que na primavera tinha um verde vivaço era agora de um amarelo pálido. No alto de Cambeses, fizemos um pequeno desvio para fotografar o quarto vértice e iniciámos a descida ao vale do rio Ouro. O single track após a igreja de Rio Douro fez-se cuidadosamente, embora eu não conseguisse evitar uma queda estúpida que quase me partia alguns dentes. O golpe não me desanimou e o banho que tomámos à sombra do arvoredo junto à ponte medieval reforçou a vontade de continuar a luta.

Pausa na Levada da Víbora

Pausa na Levada da Víbora

Iniciávamos agora aquilo que considerávamos ser o aperitivo antes do almoço que planeávamos tomar em Abadim. Uma penosa subida, em terreno seco, cercado de giestas, onde o calor se sente ainda mais. Agora era a vez do Gil evidenciar sinais de exaustão. A cara não escondia as marcas do desgaste. Conhecendo eu bem o Gil e já o tendo visto morrer e ressuscitar várias vezes, julguei ser coisa passageira. Mas a verdade é que nunca tinha visto aqueles olhos cavados… Tínhamos desejado estar às 13h em Abadim; chegámos às 14h. Depois de nos termos perdido um pouco antes do quinto vértice (perto da Levada da Víbora), tivemos ainda de fazer um grande desvio para encontrar um dos dois cafés da aldeia. Depois de muitas minis e umas boas sandes, voltámos à estrada e depois ao caminho que nos levaria à travessia do rio Peio. O Frederico estava visivelmente satisfeito por ter batido o seu máximo de distância e por ser inclusivamente maratonista.

Quando descemos ao rio, o Gil estava determinado em abandonar naquele ponto, pois Cabeceiras estava a poucos quilómetros de distância. O Frederico, apesar de ainda estar com forças, já tinha ultrapassado em muito o seu objetivo. Levávamos 47 km nas pernas e vinha agora a segunda maior dificuldade da Ronda: a subida à Lapela. O relógio já passava das 15h. Sabíamos que tínhamos feito metade do percurso ou, de outro ponto de vista, ainda faltava metade! Antes de nos despedirmos do Frederico e do Gil, decidimos ir novamente a banhos numa magnífica piscina natural do rio Peio, no meio do nada. Um tesouro desconhecido de muitos, pois éramos os únicos no local, apesar de não distar muito da civilização.

A caminho da Lapela

A caminho da Lapela

O Fernando e eu tínhamos agora a missão de levar esta Ronda a bom porto. Sentia que o Fernando era gajo para fazer duas Rondas – afinal, tinha vindo ali fazer um treino para as 100 milhas do Grand Raid des Pyrénées. Quanto a mim, surpreendia-me por me estar a sentir incrivelmente bem. Nem uma ponta de fraqueza, ânimo a 100%. Sem darmos oportunidade à razão para nos fazer duvidar, lançámo-nos monte acima, pelo meio do mato e das silvas. A progressão era muito lenta, para evitarmos rasgar muito a pele. A vegetação tinha crescido imenso desde os reconhecimentos. Caminhos que se faziam sem problemas estavam agora semi ou totalmente obstruídos. De quando em vez, valiam-nos as aberturas feitas pelos javalis… Mas lá conseguimos chegar à base do monte da Lapela, onde parámos um pouco à sombra de um carvalho, para comer umas barritas antes do ataque.

Vistas para a Cabreira

A meio da última subida para a Lapela

Naquela tarde, sentia que poderia caminhar e correr ainda horas a fios. Ia ao meu ritmo lentito, mesmo suspeitando que o Fernando estava a fazer um enorme treino de paciência. Sabia que se subisse a fasquia, rebentaria rapidamente. Por isso, lá ia eu, desbravando calmamente tojo e carqueja, tentando encontrar a passagem menos má até ao penedo seguinte – o granito é um material preciosíssimo neste tipo de terreno! Finalmente, depois de escalarmos os enormes calhaus do topo da Lapela, lá estávamos, junto ao sexto vértice, com o sol a perder força a poente. Pedi ao Fernando para ficarmos ali um bom pedaço a desfrutar da imensidão das vistas e do silêncio. Valera a pena ficarmos com as nossas pernas ensanguentadas. Aquele momento zen ficará seguramente gravado na minha mente para sempre. Deitados no granito, sentido a ligeira brisa, ouvindo apenas o som dos insetos, observando as várias montanhas à nossa volta… Mas toda aquela reflexão despertou também a razão e dei por mim a fazer contas… E quando terminei de fazer as contas, partilhei as conclusões com o Fernando: eram 5 da tarde, tínhamos feito 57 km, mais oito do que o previsto, estávamos com um ritmo de 5km/hora e, a manter-se a andança e os desvios à distância, provavelmente chegaríamos a Mondim às 1h ou 2h da manhã de domingo. Não aprecio correr de noite, muito menos por longas horas. Até àquele momento, a experiência da Ronda tinha superado as minhas expetativas. Se continuássemos por muito mais tempo, correríamos o risco de passarmos a fazer um frete. E para fretes a correr não contem comigo. O Fernando concordou com esta conclusão. Se uns quilómetros antes o via determinado a concluir a Ronda, depois da esfrega no mato da Lapela, ficou com muitas dúvidas relativamente às condições do que ainda faltava percorrer. E o homem precisava mesmo de descansar. Com tantos incêndios a combater e com falta de sono, era o que faltava andar com um maluquinho a fazer noitadas em silvados!

Portanto, nem é tarde nem é cedo: assim que chegámos à civilização, demos por concluída a nossa aventura. A aldeia de Bastelo foi o ponto final, com 61 km percorridos em 12 horas. Ainda aproveitámos para despachar mais umas minis e um chouricito e ver a incrível e refrescante aparição de umas loiraças de vestido justinho na aldeola de montanha, enquanto aguardávamos pela boleia do Frederico. À esplanada da tasca, um aldeão ia entretendo-nos com as suas histórias de vida, por Espinho, rua 19, rua 8, Guiné-Bissau…

Momento zen no topo da Lapela

Momento zen no topo da Lapela

A caminho de Mondim de Basto, voltávamos a olhar de perto o Monte Farinha, agora de modo indiferente. Aquela montanha parecia-me agora vulgar, como tantas outras pelas quais tinha passado durante o dia. Talvez fosse da cor que àquela hora a vestia. Talvez fosse pela facilidade com que a subi. Talvez fosse apenas blues. A Ronda chegava ao fim e neste dia senti que se tinha encerrado um ciclo. Um ciclo motivado pelo simples desejo de descobrir e dar a conhecer, mas também pela ambição de marcar o território. A verdade é que as duas marcas que desenhei no território, para além de algo megalómanas para quem quer correr e divertir-se ao mesmo tempo num só dia, estão a ficar esbatidas pelo tempo. A desertificação, o abandono de muitos caminhos, e a rapidez com que a natureza reclama aquilo que sempre foi seu tornaram ou tornarão impraticáveis muitos dos trilhos que idealizei.

As Rondas, como qualquer percurso pedestre, necessitam de manutenção. Como tal, o percurso tem de seguir por caminhos que cumpram um dos seguintes requisitos: serem muito frequentados, terem manutenção anual, ou serem estradões/estrada. As Rondas de Lapinha-Montelongo e de Basto não cumprem totalmente estes requisitos e, como tal, dificilmente poderão voltar a ser realizadas no percurso idealizado, sendo necessário estudar/improvisar alternativas. A exceção será a Ronda do Marão, que oferece melhores condições de auto-preservação.

Quanto a mim, apesar de não ter condições para continuar a descobrir novas Rondas (as distâncias a partir de casa começam a ser injustificáveis), irei procurar ajudar a manter transitáveis algumas partes dos percursos existentes e dedicar-me a outras descobertas territoriais. Entretanto, pode ser que despontem outros Rondeiros por aí que nos proponham novos percursos e novas aventuras!

Podem consultar o álbum completo desta aventura aqui.

Ronda de Basto: a logística

Falta uma semana para a Ronda de Basto! A previsão meteorológica, apesar de não ser das melhores, não é uma calamidade. Em julho, não se espera outra coisa, não é?

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Previsão para Cabeceiras de Basto

Se estás interessado/a em participar na primeira edição da Ronda de Basto, presta atenção aos pormenores abaixo, pois podem fazer a diferença se quiseres passar muitas horas na montanha repletas de boas memórias!

Horário

A partida será no centro de Mondim de Basto, perto do Tribunal Judicial, no ponto onde começa o PR1, às 6h00 da manhã do dia 30 de julho. Este horário vai ser ainda sujeito a votação pelos participantes, podendo sofrer alterações, pelo que agradecemos o teu contributo preenchendo o questionário neste link.

Podes consultar o local exato da partida aqui.

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Percurso

MUITO IMPORTANTE:

  • Deves levar o percurso no teu relógio e deves ser capaz de o seguir autonomamente. Consulta o Roteiro da Ronda para obteres o percurso.
  • Não podes depender de outros para te orientares. Se aqueles de que dependes têm algum problema que os impeça de prosseguir, acaba ali a tua aventura.
  • Se nunca ou raramente usas a função de seguir percurso no teu relógio, deves ensaiar o processo com antecedência.
  • É aconselhável levares um backup do percurso noutro dispositivo, por exemplo no telemóvel. Aplicações como o Maverick são muito boas para esta função.

Deves estar mentalmente preparado para enfrentar dificuldades várias ao longo do percurso: passagens fechadas pela vegetação ou por vedações, calor excessivo, problemas físicos contigo ou com algum colega, etc. Tudo isto pode obrigar-te a fazer alterações ao percurso originalmente previsto e terás de pacientemente procurar retomar o caminho correto ou apoiar o teu colega em dificuldades.

Abastecimentos

Como sabes, na Ronda não há os habituais abastecimentos que vês nas provas. Tens de tratar dos teus próprios abastecimentos, da forma que melhor te convier: carregados na mochila, comprados em algum café/mini-mercado durante a Ronda, ou disponibilizados no percurso por alguém da tua confiança. Deixamos aqui algumas referências que podem ser úteis:

  • Pontos de água (fontanários, bicas de água, civilização)
    • km 6: Senhora da Graça
    • km 15: Fontelas
    • km 25-37: Leiradas-Abadim (várias aldeias)
    • km 44: capela de Santo António
    • km 52-63: Bastelo-Cucana (várias aldeias)
    • km 70: Petimão
    • km 85: Mondim de Basto
  • Sólidos (civilização mais avançada)
    • km 37: Abadim
    • km 52: Bastelo
    • km 85: Mondim de Basto
  • Pontos de encontro – locais mais conhecidos e acessíveis, onde qualquer pessoa pode chegar facilmente:
    • km 6: Senhora da Graça
    • km 18: Ponte do Arco de Baúlhe (sobre o Tâmega, pois há outra sobre o rio Ouro)
    • km 33: Igreja de Rio Douro (fica a poucas dezenas de metros do percurso)
    • km 37: Igreja de Abadim (idem)
    • km 52: Bastelo
    • km 57: Fojos (fica na estrada Norte Fafe – Cabeceiras de Basto, após Várzea Cova)
    • km 70: Petimão (ponte sobre a ribeira de Petimão na estrada que liga a Quintela, abaixo da estrada Leste Fafe – Cabeceiras de Basto, após Gandarela)

Como já percebeste, não é um percurso excessivamente selvagem e terás várias oportunidades para repor as tuas provisões de líquidos e sólidos ou encontrar-te com alguém que te possa ajudar em alguma dificuldade.

Material recomendado

  • Reservatório de líquidos para pelo menos 1 litro
  • Alimentação suficiente para pelo menos 10 horas na montanha
  • Telemóvel com bateria carregada
  • Relógio com função de seguimento de percurso
  • Backup do percurso no telemóvel ou outro dispositivo onde possa ser seguido
  • Protetor solar
  • Manta térmica
  • Frontal

Banhos

O Centro BTT de Mondim de Basto, a 5 minutos (de carro) da zona de partida/chegada, disponibiliza os chuveiros para um banho no final do desafio. O custo do duche é 1€ por sessão. A sua utilização não depende da presença do staff do Centro BTT, pois funciona com um dispositivo de pagamento automático.

Podes consultar o percurso de Mondim de Basto até ao Centro BTT aqui.

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Contactos Úteis

  • Hélder Pinto (Rondeiro organizador): 917 045 555
  • Polícia Municipal de Cabeceiras: 253 669 105
  • Bombeiros Cabeceirenses: 253 662 133
  • Bombeiros de Celorico: 255 321 223
  • Bombeiros de Mondim: 255 381 251
  • GNR de Cabeceiras: 253 669 060
  • GNR de Celorico: 255 321 337
  • GNR de Mondim: 255 381 122
  • Táxis Cabeceirenses: 253 662 893
  • Mondim Táxi: 255 389 000 | 965 398 201
  • Taberna do Carvalho (Bastelo, km 52): 253 118 860
  • Duarte Martins (Centro BTT de Mondim de Basto): 963 423 153

Correr a Ronda da Lapinha

Depois de 18 meses a correr os montes da região, inventando ou redescobrindo percursos e trilhos, chegou finalmente o dia de prestar homenagem ao evento que esteve na base da criação deste projeto, a Ronda da Lapinha, uma das mais longas procissões religiosas do mundo, que anualmente atrai milhares de fiéis à encosta da montanha da Penha sobranceira ao vale do Vizela. Trata-se de uma procissão incomum, pela sua motivação, pela extensão do percurso, e pela sua longa história. Realiza-se ininterruptamente há pelo menos quatro séculos e teve supostamente origem numa reação popular desesperada face aos flagelos das condições climatéricas de inícios do séc. XVII. Mas já iremos à história da Ronda…

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Saio de casa ouvindo a voz do padre lá no alto do monte. Inicio a minha corrida calmamente, ultrapassando os vários peregrinos que pela rua acima vão subindo em direção ao santuário. A meio da subida, atalho pelo meio da floresta e chego rapidamente à escadaria que, nos tempos em que treinava mais para o desempenho do que para a fruição, galgava nas minhas fúteis séries. No topo, apesar do dia ainda estar a começar, já se encontra uma enorme multidão que acaba de assistir à primeira missa campal da Ronda. Os peregrinos estão constantemente a chegar e a partir. Apesar da procissão arrancar às 13h00, muitos fiéis decidem fazer a penitência em horários em que o sol pesa menos.

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A primeira missa do dia

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A Ronda da Lapinha é uma procissão mariana com origens remotas, com a primeira referência documental ao culto da Senhora da Lapinha registada em 1612 [LEITE, 2012]. O nome “Senhora da Lapinha” estará relacionado com uma lenda, bastante comum em Portugal, segundo a qual a imagem da Senhora terá aparecido junto de uma lapa (rocha formando uma pequena gruta), neste caso em Calvos, uma freguesia periférica e rural de Guimarães. Segundo o mesmo autor, só em 1663 surge registada a primeira menção à Ronda, embora seja de crer que a procissão se realizasse já antes dessa data. A Ronda da Lapinha terá, segundo a lenda, sido estabelecida devido a uma praga de gafanhotos que surgiu naquele tempo e que levou ao desespero os agricultores do vale do Vizela, que viam as suas culturas serem devoradas pelos insetos. Decidiram levar a imagem da Senhora da Lapinha até à vila de Guimarães, à igreja da Senhora da Oliveira, implorando alívio para as colheitas ameaçadas. Quando regressaram a Calvos, viram o desejo realizado, pois os gafanhotos teriam supostamente morrido.

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Hoje já não há pragas de insetos ou outras maleitas a derrotar, pois a agricultura definha e já poucos querem saber das culturas e, além disso, a indústria química oferece todo o tipo de “milagres”. No entanto, o número de devotos da Senhora não parece diminuir e a Ronda é também uma oportunidade de convívio, romaria e até de atividade física. E por falar nisso, voltemos à corrida! Já passa um pouco das 8h00 e está na hora de iniciar verdadeiramente a minha Ronda, antes que o calor comece a fazer estragos. Sigo em direção à Penha, pela estrada municipal que serpenteia pela floresta, e vou cruzando-me constantemente com peregrinos que caminham em ambas as direções. É agradável sentir a presença de tanta gente por perto. À chegada a São Mamede, a primeira dificuldade, com a subida ao Santuário da Penha. É uma rampa relativamente curta, mas depois do conforto dos primeiros quilómetros a subir gradualmente, custa mais. A Senhora do Carmo ainda não se levantou, pois as portas do santuário ainda estão fechadas. Há pouca gente nas imediações, apesar de hoje ser também dia de festa na Penha, com a romaria de Santa Catarina, a padroeira desta montanha, cujas celebrações coincidem com as da Ronda da Lapinha – coincidência ou não! Contorno o penedo onde está esculpida a homenagem a Sacadura Cabral e Gago Coutinho e inicio a descida para Guimarães, via Mesão Frio.

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Peregrinos partindo e chegando

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A Ronda da Lapinha realiza-se estatutariamente no terceiro domingo de junho, com o solstício de verão sempre próximo. Este ano, realizou-se a 19 de junho, na véspera do solstício. Em 2015, a Ronda coincidiu com o solstício, tendo sido um Ano Magno. Mas, mais do que o simbolismo da data, pretendemos aqui abordar a temática do caminho, pois uma Ronda é acima de tudo um percurso, circular, em que as condições do caminho não devem limitar significativamente a progressão dos peregrinos. O percurso da Ronda terá tido certamente muitas variações ao longo dos séculos, em consequência sobretudo da evolução da rede viária. É difícil determinar qual foi o percurso original, embora haja estudiosos [MACHADO, 2012] que apontam para o caminho romano-medieval Amarante-Guimarães que passava muito próximo da Lapinha. A Ronda saía então da Lapinha, descia ao caminho romano-medieval e seguia-o por Abação, Pinheiro, Urgezes, Campo da Feira, até à igreja da Senhora da Oliveira. O regresso far-se-ia pelo mesmo caminho. Se assim fosse, é de duvidar que a procissão se denominasse então de Ronda, pois com um traçado linear, ninguém concebe uma “ronda”.

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Caminho romano-medieval entre Pinheiro e Abação (abril 2013)

Um segundo trajeto da Ronda poderá mais tarde ter passado pela Penha, admitindo-se que já havia caminho transitável por entre o mato, com descida a Guimarães mais ou menos por onde hoje circula o teleférico. O regresso continuaria a fazer-se pelo caminho romano-medieval de Abação. Fica a dúvida se não teria sido este efetivamente o percurso original, pois não é improvável que já houvesse caminhos até à Penha no início do séc. XVII – já lá poderia haver uma ermida anterior à capela de Santa Catarina! O terceiro e atual percurso, o mais longo de todos, terá sido desenhado sobretudo tendo em conta as melhores condições viárias que o progresso entretanto trouxe a Guimarães – é bem melhor caminhar com um andor em empedrado ou asfalto, faça chuva ou faça sol, do que em terra batida ou enlameada. Assim, a Ronda da Lapinha é atualmente um percurso essencialmente por estradas municipais ou arruamentos secundários, com cerca de 20km, e atravessa 14 freguesias: Calvos, Infantas, Costa, Mesão Frio, Azurém, Oliveira do Castelo, São Paio, São Sebastião, Creixomil, Urgezes, Polvoreira, Tabuadelo, São Faustino, e Abação.

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Como foi bom descer confortavelmente pelo asfalto até à escola de São Romão, em Mesão Frio! A brisa a soprar agradavelmente, as vistas para Santo Antonino e Atães, poucos carros ainda na estrada… Sigo pela estrada nacional até à Cruz d’Argola e, no entroncamento junto ao Lidl/Intermarché, sigo pela velhinha Rua da Arcela. É por aqui que os rondeiros da Lapinha entram com o andor da Senhora em Guimarães, parando obrigatoriamente frente à capela de Santo António. A Senhora da Lapinha é, pode dizer-se, uma imagem que aprecia os passeios e as visitas às imagens de santos e senhoras das redondezas, prestando-lhes as devidas honras.

Não conhecia em toda a sua extensão a Rua da Arcela, que pertence ao Caminho de Santiago e já foi um dos principais eixos viários que ligava Guimarães a Fafe, e fiquei surpreendido por ainda se observarem construções muito antigas, algumas seguramente ainda a resistir pelo menos desde o séc. XIX. À chegada à igreja de São Dâmaso, viro à direita e sigo pela estrada que passa ao lado do campo de São Mamede até ao Convento de Santo António dos Capuchos (Hospital Velho). Aqui, viro à esquerda e sigo para o centro histórico, até ao Largo da Oliveira. Mais uma vez, apanho mais uma Senhora a dormir. Ainda não são 9 horas e a Senhora da Oliveira ainda está em sono profundo. Quase ninguém cruza o largo e os cafés iniciam timidamente a sua atividade. Tenho dúvidas sobre o trajeto a seguir e questiono um velhote que se arrasta penosamente para um dos cafés. Diz-me, com toda a segurança do mundo, para seguir pela Rua Egas Moniz (antiga Rua Nova). Poucos metros depois, questiono-me se o homem não estaria ébrio, e decido confirmar com uma moradora se vou no caminho certo. Em boa hora o fiz! Regresso ao Largo da Oliveira e sigo agora pela Rua da Raínha D. Maria II até ao Toural. Aqui, já sabia que teria de descer pela Rua de Camões e depois iniciar a subida de 11 kms até à Lapinha!

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Uma rara sombrinha perto do castelo

Rua da Liberdade, Cruz de Pedra (mais um Santo António!), Rua Manuel Tomás e cá estamos perto da antiga fábrica do Castanheiro! Antes das obras de requalificação do caminho-de-ferro, seguia-se em frente para Urgezes. Agora, é necessário ir até à rotunda do Hotel de Guimarães. São mais umas centenas de metros, mas o andor não tem alternativa viável! O sol começa agora a tornar-se desagradável: com os raios de frente, sem óculos de sol, e com o calor a aumentar, a subida vai ser penosa e longa. Felizmente, do cimo de Urgezes até Covas, apanho uma pequena descida e alguma sombra. Depois de passar junto ao apeadeiro de Covas e de passar sobre a ribeira de Nespereira, acabaram as dúvidas de orientação e as benesses do relevo. O percurso não tem nada que saber: é só seguir a estrada até à Lapinha e ir puxando a carroça sob o sol fustigador!

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A procissão à chegada ao Toural (foto Guimarães Digital)

Polvoreira, Tabuadelo, São Simão… Ao longo de toda a subida, vou sempre ultrapassando peregrinos. Deste lado da montanha, ninguém desce. Todos sobem animados de uma vontade de caminhar que dificilmente se observa na rotina do dia-a-dia. Provavelmente, são os mesmos que à semana estacionam o carro em segunda fila à porta do café ou da farmácia. Mas nos momentos sagrados revela-se o melhor das pessoas e tudo se perdoa!

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A azáfama da Lapinha em dia de Ronda

Depois de São Simão, entro em piloto-automático, habituado que estou a correr nestra estrada nos meus treinos a meio da semana. Atravesso Abação e, depois de deixar a Fornalha – é mesmo nome de lugar! -, enceto a última subida até à Lapinha. Anseio por atingir o bosque que antecede a Devesa Escura, um dos poucos troços com sombra de toda a Ronda. Olho para o relógio e estou quase a fazer duas horas de corrida. Meto na cabeça que tenho de terminar abaixo das duas horas e acelero, sempre a ultrapassar, cada vez mais gente. À chegada, não resisto a parar para tirar uma fotografia do santuário e da multidão. No relógio 1h59mh47s… Já não vou conseguir. Último sprint, ainda com muito fôlego e está feito! 23 segundos depois da hora. Temos trabalho a fazer no próximo ano!

No adro, ao lado das centenas de peregrinos, há vários ciclistas que também vieram cumprir alguma tradição. Sou o único corredor, mas talvez não seja o único a correr a Ronda naquele dia. A Ronda tem uma hora e um percurso marcado, mas cada um é livre de a fazer como quer, à hora e ao ritmo que quiser… Desde que passe por todas as capelinhas!

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A vista a partir do Santuário da Lapinha

Dirijo-me até à outra extremidade do santuário. Dali avistam-se as Serras de Fafe, o vale do Vizela, um pouco do vale do Sousa, o Marão, a Aboboreira, Montemuro lá ao fundo… Está na hora de voltar a casa, hoje bem mais cedo do que o habitual. A estrada tem esta virtude de nos despachar mais cedo. Para o ano, voltarei à Ronda da Lapinha e será tradição para manter enquanto as pernas deixarem.

Ficha técnica

Referências

LEITE, Artur M., “Senhora-à-Vila: quatro séculos de fé e tradição cultural”, 2012.

MACHADO, Narciso, “Os Caminhos da Ronda da Lapinha”, Notícias de Guimarães, 23 e 30 de março de 2012.