Derrota da Citânia

ATUALIZAÇÃO (22/07/2015): Em nova incursão na Rota da Citânia, há uns dias, verificou-se que o percurso se encontra agora devidamente sinalizado e limpo, permitindo a qualquer visitante usufruir plenamente deste belíssimo traçado.

Derrotar. verbo transitivo. […] fazer sair da rota

A manhã não se anunciava boa para correr, com a chuva a cair a cântaros ininterruptamente. Além disso, ninguém me quis acompanhar para mais uma travessura pelo monte. Mas, como a corridinha do fim de semana não pode falhar, lá fui eu para a aventura do dia: tentar fazer a Rota da Citânia (PR2 GMR). Sim, tentar, porque os comentários de outros aventureiros [1][2] não são abonatórios para a qualidade das marcações. Mas, julgava eu, armado com o meu mapa e com a experiência acumulada de PRs, lá me hei de safar!

O pesadelo

Não, não me safei. A corrida desta manhã foi má, muito má. Ainda bem que ninguém me acompanhou. Esta PR é um atentado à segurança e é um insulto a quem tenta percorrê-la. Se eu me tivesse magoado seriamente esta manhã, teria avançado para vias judiciais. Mas vamos ao resumo dos factos: à saída do Museu da Cultura Castreja, não se vislumbra qualquer marcação e só quem vier munido de um mapa terá uma noção vaga do percurso a seguir. A partir daí, as marcações estão muito pouco visíveis – em muitas, apenas se avista a marca amarela. Fui obrigado a fazer o percurso no sentido dos ponteiros do relógio, contrariando a minha mania, pois não consegui ver as indicações do percurso em sentido inverso. Quando entramos na floresta mais densa, junto ao rio, as marcações desaparecem pura e simplesmente! Durante cerca de 30 minutos, andei para trás e para a frente, várias centenas de metros, e nada, absolutamente nada. Ainda estive tentado a atravessar o rio a vau, mas como o caudal estava forte, preferi seguir um trilho pela margem esquerda. Pedras escorregadias, várias quedas… Sinalética nem vê-la… Insisti no trilho e cheguei a um ponto em que é impossível prosseguir. Já estava prestes a desistir de fazer a PR quando olhei para uns metros acima e vi aquilo que me parecia ser o perfil de uma calçada. Subi a encosta e retomei a rota! Milagre! Mas o pesadelo não termina aqui: perdi a conta às encruzilhadas em que não havia sinalética ou esta induzia em erro. A minha ansiedade aumentava sempre que me aproximava de um cruzamento. Foi demasiado mau. Foi a PR com a pior marcação que já percorri e acreditem que infelizmente já vi muitas PR mal assinaladas.

A Câmara Municipal de Guimarães foi o promotor deste e de outros percursos pedestres do concelho. Segundo a Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal, a Rota da Citânia não está homologada (dados de 2013) e ainda bem! Mas o que me perturba e irrita profundamente é uma autarquia investir numa infraestrutura de promoção cultural e ambiental e depois deixá-la ao abandono, sabendo que a manutenção de um percurso pedestre não é onerosa: bastam no máximo umas poucas centenas de euros em material e dois ou três dias de trabalho anual! Será que a Capital Europeia da Cultura 2012, Capital Europeia do Desporto 2013, candidata a candidata a Capital Verde Europeia 20?? não tem meios para manter os seus percursos pedestres? Ou andarão obcecados com outros projetos mais virados para o betão e asfalto?!

A beleza dos vales e montes de Briteiros e Donim

Apesar da frustração que deu nos parágrafos acima, também houve um lado belo nesta aventura. Todo o percurso ao longo do rio Febras evoca um passado em que uma comunidade trabalhava diariamente na exploração sustentável de um pequeno curso de água e das encostas do seu vale. As ruínas dos moinhos, apesar da sua beleza, ameaçam transformar-se rapidamente em amontoados de pedras em poucas décadas, se não forem objeto de preservação.

Num dia chuvoso como o de hoje, o caudal do Febras tinha uma pujança que obrigava a muitas cautelas em qualquer aproximação. A vegetação, rica em árvores frondosas, torna aquele vale estreito numa garganta sombria. Um cenário inspirador, particularmente num dia em que os raios de sol consigam atravessar a teia de ramos e folhas.

A subida ao monte de São Romão faz-se por uma calçada milenar, provavelmente anterior à nação ou até à civilização romana. Note-se que todo o monte é circundado por calçadas deste tipo, comprovando a importância geo-estratégica e económica que este modesto cume desempenhou num passado longínquo. Quando passamos para a vertente sul do monte, avistamos lá em baixo o vale de Donim. O trilho da calçada sobranceira e a vista sem obstáculos para os campos que cobrem o vale provocam a nossa imaginação. Como seria a vida dos povos que ocuparam a Citânia de Briteiros e diariamente percorriam aqueles trilhos?

Chegado a Donim, vou atravessando campos por entre altos muros de pedra. Não estou habituado a ver com tanta frequência muros robustos e imponentes a ladear as calçadas, o que me faz refletir sobre o sentido de propriedade destas gentes. Já na aldeia, pode-se apreciar o belo moinho de Donim, muito bem preservado e acompanhado de um painel com ilustrações sobre o complexo sistema de moagem.

O regresso a Salvador de Briteiros faz-se por novamente por calçadas milenares, atravessando quintas que outrora tiveram um poder provavelmente equivalente às grandes empresas de hoje. Perto da igreja, idosos regressam da missa pela velha calçada, num ritual que se repete há séculos. Olham espantados para um maluco em calções e manga curta, todo ensopado e com ar atarantado, à procura de mais uma marcação invisível.

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