O eterno retorno ao Maroiço

Os trilhos de Fafe têm um apelo especial que me faz lá voltar repetidamente, sem me cansar, como se houvesse sempre algo em falta… A Rota do Maroiço tem esse não sei o quê. Serão os carreirinhos e as sombras ao longo do Vizela? Serão as extensas cumeadas pontilhadas de afloramentos graníticos ou as vistas para os longínquos Gerês, Cabreira, Alvão, Marão? Serão os garranos que encarnam a sonhada liberdade definitiva? Ou será a Laje Branca, local mágico que nos transporta para os tempos dos druídas? Talvez seja isto tudo e muito mais!

Cavalos selvagens no Maroiço

Garranos no planalto do Maroiço. Créditos: “Caminhantes” @ Wikiloc

Já lá tinha ido há poucos meses, mas o meu irmão Frederico andava a pedir uma visita guiada. Aproveitei para convidar mais uns amigos dos trilhos – Miguel e Leonardo – e lá arrancámos, quatro bravos, às 6h30 (antes que o sol nos queimasse!), da Barragem da Queimadela. Estava bem fresco e fomos subindo sem dificuldade, por Pontido e depois Queimadela, acompanhando os cursos de água, molhando os pés, tentando não escorregar nas pedras… Até aqui, poucas vezes sentimos o sol a aquecer-nos. Depois da aldeia da Queimadela, o terreno fica descoberto e já se sente o bafo quente a subir da terra. Vamos seguindo o trilho, animados pelo perfurme das giestas e pelas cores da urze. Temos de ir recorrendo à memória para nos orientarmos, pois as marcações da PR estão a degradar-se e a ser consumidas pela vegetação, tal como tudo o que é obra do homem naquelas terras. Mas a memória nem sempre é de confiar e, de quando em vez, hesitamos numa encruzilhada. Por isso é que se deve escrever, para lutar contra as erosões do tempo. E o que há mais a escrever sobre a Rota do Maroiço? Ficou hoje claro, talvez porque corremos a um ritmo elevado, que este caminho deve ser saboreado lentamente, deve-se parar muitas vezes, deve-se observar e refletir. Deve-se perceber os trajetos que os aldeões percorreram durante séculos e a importância que tais caminhos tiveram. Quais destes caminhos eram usados nas vezeiras e quais eram vias de trânsito para outras regiões? São pormenores que ajudam a perceber a localização das aldeias. Porque está Luílhas encostada ao Maroiço, escondida de tudo? Será por estar no enfiamento de alguma rota em direção ao Barroso? Encontrar resposta para estas questões talvez seja esforço fútil, mas aquelas aldeias vão desaparecer e pouca gente quer saber do seu futuro e muito menos do passado! Divagações à parte, atingimos entretanto o planalto do Maroiço e seguimos em linha reta até à Laje Branca, para o momento especial do dia. Sessão fotográfica obrigatória! O atrevimento do Leonardo levou-me a subir ao topo daquele monte de penedos pela primeira vez. Interessante a quantidade de covinhas que por lá se vêem, em forma de assento, com o tamanho da bacia de uma pessoa. Terão sido tronos de sacerdotes em cerimoniais pagãos? Terão sido locais de descanso de pastores? Ou são simplesmente obra dos elementos da natureza? É claro que prefiro especular sobre uma intenção humana! Ah! Mas, já agora, pensem no significado de “maroiço”: “construção piramidal ou cónica, formada por amontoamento de pedras”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Vamos especular mais um pouquinho?

Miguel e Leonardo na Laje Branca

Miguel e Leonardo na Laje Branca

Pouco antes da longa e por vezes vertiginosa descida de regresso, encontrámos finalmente os garranos que estranhamente tinham desaparecido. E que grande família que era! Eram tantos que nem sequer se incomodaram com a nossa presença. Fiquei feliz por ver quatro potros saudáveis atrás das progenitoras.

A história do regresso à Queimadela foi semelhante à da subida ao Maroiço, mas desta vez a descer. Calcámos calçadas encharcadas, deslizámos no saibro traiçoeiro, atravessámos aldeias quase vazias, até que, com as pernas maçadas pela descida acelerada, atingimos a margem da albufeira… E tudo muda. Sente-se que entramos noutra dimensão, a da modernidade. Talvez por isso começamos a arrastar-nos pesadamente pelo estradão marginal. Ou então, “deixa-te de tretas pá!”, estou apenas cansado!

Na Laje Branca, Ermal ao fundo

Com Frederico e Leonardo na Laje Branca, com o Ermal ao fundo

A primeira Ronda dos Cumes Sagrados irá percorrer uma pequena parte da Rota do Maroiço, num segmento junto à albufeira da Queimadela. Será provavelmente o local onde os corredores-peregrinos se irão refrescar, mais ou menos a meio do trajeto. NOTA: as fotografias deste registo foram quase todas conseguidas graças ao telemóvel do Miguel Bandeira Duarte.

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