Terá Portugal daqui a poucos anos o maior silvado do mundo?

Muitos de nós lembram-se das maravilhosas brincadeiras de infância passadas a jogar aos índios e cowboys no meio dos campos, a mergulhar em tanques de rega, ou a roubar os frutos da época diretamente das árvores. Foi há 20 ou 30 anos. Havia vida nas quintas e nos campos, encontrávamos sempre alguém pelos caminhos, e as habitações, apesar de velhas, iam sendo mantidas.

Entretanto, foi-se uma geração e a que se lhe seguiu já tinha deixado os campos. Os idosos que ainda lá ficaram, esses últimos lutadores após séculos e séculos de exploração de terras férteis, foram perdendo as forças. As suas casas degradavam-se, mas eles já não tinham energias ou meios para as reparar. Os campos mais afastados da habitação e os respetivos caminhos de serventia foram sendo abandonados. Os seus filhos já só lá voltavam de visita ao fim de semana e não tinham vontade nem eram motivados a investir na terra que os viu crescer. Quando aqueles velhos resistentes desapareceram, começou a rápida decadência do mundo rural.

Em poucos anos, os telhados e as paredes das casas foram abatendo. Os campos e os caminhos foram invadidos pela vegetação que crescia descontroladamente. E ascendeu então ao poder a imparável e implacável silva. Cobriu e recheou ruínas, bloqueou caminhos, atapetou densamente os campos, tornando-os intransponíveis. A natureza reconquistou finalmente, após muitas gerações de resistência humana, aquilo que sempre lhe pertenceu.

Este não é um cenário ainda generalizado. Há muitas zonas rurais em que ainda sobrevivem aqueles últimos guerreiros do campo, que batalham diariamente contra a desordem natural. Mas esses também irão desaparecer e é razão para perguntar: não terá Portugal, daqui a poucos anos, o maior silvado do mundo?

IMG_8880Como podemos evitar isso? É um esforço gigantesco. Implica retomar as terras e retomar o ciclo de vida das gerações que nos antecederam. Não vai ser fácil, pois abundam os incentivos no sentido inverso. No entanto, podemos contribuir para pelo menos manter os caminhos transitáveis. Se, todas as semanas, em corrida ou em caminhada, percorrermos aqueles caminhos que outrora eram calcados de manhã à noite, não daremos azo a que a silva ou o codesso os conquistem definitivamente. Por isso, que não passe uma semana sem que repisemos esses trilhos e, talvez, quem sabe, continuaremos a prolongar uma parte da ordem que os nossos antepassados conseguiram estabelecer e manter por séculos. Se não fizermos nada, podem crer que perderemos definitivamente esta “guerra” e uma vasta extensão de território português transformar-se-á num caos de vegetação inacessível.

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