Correr a Ronda de sol a sol (I): da Lapinha à Lameira

Começámos com um sol a nascer por detrás das serras de Fafe, cheio de pujança ardente para o seu maior dia do ano, e terminámos com outro sol, já sem força, deitando-se pesaroso sobre o Atlântico, prenunciando o declínio que o espera até ao próximo solstício. Mas também corremos com a sensação de que tínhamos dois sóis sobre nós, tal era a intensidade dos seus raios e do bafo quente vindo de todos os lados, que quase nos varreram para fora da Ronda.

Boa disposição no santuário da Lapinha

Gil, Mauro e Hélder prontos para a partida

A aventura começou bem cedo. Às 5h30, saía eu de casa, subindo calmamente a encosta até ao santuário da Lapinha. Surpreendi-me com a azáfama àquela hora: os comerciantes montavam as suas tendas, os escuteiros ultimavam os preparativos para a grande festa, e chegavam alguns peregrinos que tinham optado por fazer a Ronda da Lapinha de madrugada. Entretanto, chegam os meus companheiros de aventura, Gil e Mauro. A falta de sono estampada nas nossas caras era disfarçada pela boa disposição e ânimo, reforçados pela brisa refrescante que se sentia. Estávamos prontos para enfrentar a grande Ronda! A Inês fez-nos as fotos da praxe enquanto o sol se erguia desafiante e, pouco depois, já descíamos a escadaria do santuário rumo ao vale do Vizela.

Os primeiros quilómetros fizeram-se muito bem, conversando descontraidamente, e em piso quase sempre liso. Chegámos rapidamente às pontes medievais de Jugueiros e iniciámos a subida a São Salvador pelo (futuro) PR3 de Felgueiras. Optámos por não queimar energias demasiado cedo, caminhando sempre que as subidas ficavam mais íngremes. Nunca esta ascensão foi tão fácil de fazer. Mas foi a última facilidade do dia… O sol esperava-nos com a sua marreta do outro lado do monte!

Nos campos da Coutada do Balsa

Nos campos da Coutada do Balsa

Deixámos a capela de São Salvador com dificuldade, pois o trilho até à Fonte do Santo está completamente cerrado por silvas e codessos. Primeiras marcas da Ronda gravadas na pele! Passámos ao lado do vértice de São Sabagudo e descemos a São Martinho por trilhos sombreados e ainda com ar fresco. Passámos ao lado da fábrica que engarrafou muita da água que iríamos beber ao longo do dia e enfiámo-nos logo depois novamente no mato grosso. Calçadas e caminhos que foram outrora percorridos diariamente e que agora se transformam em selva. Com mais uns arranhões para recordar, lá conseguimos chegar à Coutada do Balsa, onde nos esperavam campos de densas ervas e flores altas, cobertas de centenas de abelhas a devorarem o pequeno-almoço. Atravessámos a vegetação sem pensar em picadas e deixámos para trás, sem o perceber de imediato, a última grande sombra de que iríamos beneficiar durante os seguintes 25 quilómetros.

A subida ao Santinho

A subida ao Santinho

Começava a subida ao Santinho. Gosto daquela subida, porque não é demasiado íngreme, vai tendo umas curtas descidas de vez em quando, e o terreno é interessante, com vegetação e piso variados. No final, temos aquela escalada quase a pique que nos faz imaginar de assalto a uma fortificação. Provavelmente, houve muito soldado romano que levou com azeite a ferver de lá de cima atirado pelos últimos resistentes celtiberos! Lá atrás, o Mauro começava a sentir-se mal e anunciava a provável retirada precoce. Não liguei muito, julgando que no planalto da Lameira a coisa se recompusesse… Mas, infelizmente, a enxaqueca do Mauro piorava e, sem nenhum remédio milagroso que pudesse ajudar, ameaçava transformar-lhe a corrida num inferno.

O garanhão da Lameira

O garanhão da Lameira

A poucas centenas de metros do vértice de Foles, em pleno mini-mercado do sexo da Lameira, encontramos já vários carros a fazerem fila. Ainda não eram 9 horas! Vemos um tipo de meia-idade aflito, num desportivo dos anos 90, lamentando-se de ter deixado o carro cair parcialmente num buraco, enquanto mirava avidamente ao longe as suas habituais fornecedoras. Que fazer? Telefonar à mulher dele para o vir ajudar a tirar o carro dali? Ou sermos uns diabinhos e livrarmos rapidamente o homem da encrenca em que se tinha metido? Como maus samaritanos que somos, demos um empurrão ao bólide! Se pudesse fazer a fita voltar atrás, tê-lo-ia ignorado e seguido a corrida… Mas o mal já estava feito! Adiante, já faltava pouco para chegarmos à igreja de Nossa Senhora da Saúde (de onde nos contaram que o garanhão do bólide vermelho tinha acabado de sair!).

Reforço na Senhora da Saúde

Reforço na Senhora da Saúde

Esperavam-nos junto à igreja, ao quilómetro 23, o meu irmão Frederico, que iria juntar-se ali à nossa corrida, a Célia e o pequeno Simão, que mesmo com febre teve energias para nos aturar. Tinham preparado um agradável mini-reforço. Atestar bidões, comer algo fresco, e aproveitar a sombrinha da igreja… O Mauro demorava a chegar. Voltei à estrada para evitar que ele se perdesse e vejo-o finalmente a chegar, claramente em dificuldades. A enxaqueca piorava e não valia a pena insistir. E ficar na Lameira foi a melhor decisão, face ao que iria enfrentar lá no alto da Serra do Marco. Mas ficávamos com menos um companheiro e, como se sabe, nestas andanças, quanto mais cabeças houver a pensar e quanto mais braços houver para ajudar, menos difícil se torna a luta! Despedimo-nos, desejos de melhoras e boa sorte, e lá seguimos os três, com o Frederico fresquinho a puxar por nós… Mas assim que saímos da aldeia da Lameira, eu já estava a acusar qualquer coisa. Talvez tivesse comido em demasia ou talvez fosse simpatia com o Mauro, mas não me sentia bem. E ainda faltavam 50 quilómetros!

Para ler os capítulos seguintes desta série, siga as ligações: Lameira-Queimadela e Queimadela-Lapinha.

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5 thoughts on “Correr a Ronda de sol a sol (I): da Lapinha à Lameira

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