Correr a Ronda de sol a sol (II): da Lameira à Queimadela

A primeira parte da série, dedicada ao segmento Lapinha-Lameira, está disponível aqui.

Alto da Pedreira (851m)

Alto da Pedreira (851m)

Quando retomámos o percurso na Lameira, já levávamos uma hora de atraso face às piores expetativas. Pensava eu que depois da Serra do Marco iríamos conseguir recuperar algum tempo perdido… Mas estava a esquecer-me que a temperatura estava cada vez mais próxima dos 30 graus e isso faz toda a diferença! O Frederico e o Gil subiam muito bem à minha frente. Eu tinha alguma dificuldade em acompanhá-los e contentava-me em manter a distância de algumas dezenas de metros que levavam de mim. Ouvia-os a conversar, bem queria aproximar-me e participar, mas o peso no estômago desanimava-me. Antes de atingirmos o alto da Pedreira, o ponto mais alto do percurso (851m), eles tiveram piedade de mim e deixaram-me apanhá-los.

Sagrada sombra da Senhora da Guia

Sagrada sombra da Senhora da Guia

À nossa volta, víamos nitidamente toda a beleza das montanhas de Fafe, Basto, Cabreira, Gerês… e falávamos dos cumes ali ao lado a que já tínhamos subido ou que gostaríamos de escalar brevemente, quem sabe numa próxima Ronda… Fazer os altos do Ervideiro e da Senhora da Orada de uma assentada deve ser fantástico! E olha a Senhora da Graça ali ao fundo… Já a sonhar com a próxima e ainda não tinha feito metade desta! A brisa que nos tinha acompanhado nas primeiras horas ainda se sentia, mas o calor começava a sobrepor-se. Sobrepunha-se tanto que mesmo a descida à Senhora da Guia me custou. “Tenho de parar para ir à casa de banho”, disse eu. O que eu queria era uma boa desculpa para retomar fôlego! Mas estavam também visíveis os primeiros sintomas de desidratação… E eu que me esforcei tanto para beber convenientemente! Quando me juntei aos meus companheiros junto à capela, só queria uma sombra. E eles também! O Gil já não parecia tão fresco como no início da subida, mas continuou depois a puxar por nós, serra abaixo, pelo meio da poeira levantada pelos carros que subiam talvez para assistir ao rali que por ali passaria pouco depois.

No alto do Malhadouro

No alto do Malhadouro

Chegados ao Confurco, apesar de ser tentador atalhar pelo estradão até Lagoa, mantivemos os planos de seguir o PR10, muito mais interessante do que a monotonia de terra batida. Além disso, havia umas sombritas durante alguns metros e até mesmo um riacho! Que maravilha! Um verdadeiro oásis! Mas não foi fácil chegar até lá… A vegetação densa agravava a sensação de estufa. A visão começava a turvar-se. Com exceção do Frederico, que parecia que tinha saído do frigorífico, cambaleávamos por entre o mato. Finalmente chegámos ao riacho, mas deparámo-nos com a visão desoladora do massacre de jovens carvalhos que alguém perpetrou há pouco tempo… Para quê? O que vão fazer ali junto àquele moinho em ruínas? Quase não havia sombra! Porra! Parecia de propósito para arrumar connosco! Bem… Restava-nos tentar aproveitar o melhor possível a água fresca que corria num estreito fluxo junto aos nossos pés! Molhámos repetidamente a cabeça, quase que bebíamos daquela água. Talvez bebemos, já nem sei… Dava vontade de ficar por ali muito tempo, mas ainda acreditávamos que iríamos conseguir chegar a horas à Queimadela! Toca a subir o trilho até ao Malhadouro! Arrastei-me até conseguir sair daquele estreito vale. Lá em cima, senti-me um pouco melhor, com a brisa a simular novamente um refrescamento. Ensaiámos uma corrida pelo estradão, mas estava a custar a pegar. Decidimos parar na próxima sombra que encontrássemos. O Gil não se estava a sentir muito bem – “afinal é mesmo o calor que nos está a fazer isto”, chegava eu finalmente à conclusão genial, “não sou eu que estou a fraquejar”. Há sempre um certo alívio quando vemos os outros a sofrer tanto como nós. Suponho não ser um pensamento sádico. É talvez uma auto-defesa, espero eu! Percebemos que não estamos assim tão mal como julgávamos estar e surgem do nada algumas energias extra.

Fontanário de Campo Dianteiro

Fontanário de Campo Dianteiro

Mas por pouco tempo… Não fizemos nem um quilómetro e já estávamos a desesperar por mais água e sombra. Felizmente, em Campo Dianteiro, o Gil descobriu um pequeno fontanário! Milagre! Atirou o boné para o chão, parecia zangado com o sol, dava a impressão de que se iria vingar furiosamente da marretada que tinha levado. Mergulhámos novamente a cabeça e os pés na água, substituímos a água quase a ferver dos bidões pela água de qualidade duvidosa – mas fresca! – da bica e fizemo-nos novamente ao caminho. Próxima marretada: alto da Toura!

A caminho da Toura

A caminho da Toura

Este era o segmento menos preparado do percurso e, como seria de esperar, hesitámos em alguns trilhos. As ervas altas tornavam o cenário ainda mais bonito, mas baralhavam-me a capacidade de orientação, já afetada pelo calor. Perdemos alguns minutos a ziguezaguear pelas colinas, ou seja, mais uns minutos de fornalha! Quando chegámos à Toura, já tinha alguma dificuldade em segurar-me em pé. Aquela descida até à Queimadela, com que tinha sonhado uns minutos antes, viria a ser um verdadeiro inferno! O Frederico e o Gil seguiam ligeiros monte abaixo e eu descia tão lentamente que parecia que estava a subir uma parede daquelas! Temia que o trilho de acesso à zona da albufeira estivesse com vegetação cerrada… e estava! Foram 10 minutos de calvário. Arrastei-me pela estufa, arrumando como podia as silvas, levando com flores e folhas de codessos e giestas nos olhos, nas orelhas, na boca… Já não pensava. Só queria sair dali, mas nem forças tinha para avançar. Já não me segurava. Eram os arbustos que me seguravam. No final da experiência de filme de terror, já no trilho dos PRs da Queimadela, encontramos uma família que procurava um restaurante para almoçar. A muito custo, quase sem conseguir falar, expliquei-lhes onde poderiam encontrá-lo. Duvidaram da minha resposta e, apoiando-me no muro de pedra, quase perdi a paciência. Finalmente perceberam que, se continuassem a duvidar, me iriam ver cair estendido no chão e acabaram por arredar pé.

Maravilhoso banho na Queimadela

Maravilhoso banho na Queimadela

Os meus pais estavam há meia hora à nossa espera junto à barragem, mas tínhamos de aproveitar aquela cachoeira fantástica na extremidade nascente da albufeira. Dirigimo-nos para lá com dificuldade, descalçámo-nos e enfiámo-nos durante alguns minutos na água gelada! Maravilha! Do melhor! À nossa volta, o cheiro a grelhados, gente com ar refrescado, limpo, hidratado… Que inveja! Mas essa gente talvez nunca venha a perceber o verdadeiro valor que a água fresca e limpa tem! São estas experiências que nos deixam maravilhados perante as dádivas da natureza.

Saímos animados da água e lá fomos procurar os meus pais, que o meu irmão já tinha ido acalmar uns minutos antes. O apetite era quase nulo. Os nossos estômagos não estavam recetivos a sólidos. A sopa que a minha mãe preparou já não estava quente, mas para que queria eu uma sopa quente num dia daqueles? Soube muito bem! Mas não deu para comer mais nada, a não ser um pouco de tomate salgado, de melancia… Eu parecia um defunto, como dizia a minha mãe. O Gil estava com melhor aspeto, mas também não conseguiu comer grande coisa. Deu duas dentadas na sandes de bife e teve de a guardar para outra altura… Os meus pais tentavam desmotivar-me de continuar, mas, como sempre, esquecem-se que esse discurso só me motiva ainda mais a continuar! Preocupados, pediam encarecidamente ao Gil para estar atento ao meu estado… Estava na hora de seguir! Eram duas da tarde e ainda só tínhamos feito 40 e poucos quilómetros! Levantei-me cheio de dúvidas sobre se iria aguentar até Santa Marinha – a besta do percurso! -, mas com a certeza de que não iria estragar a aventura ao Gil. O Frederico ficava pela Queimadela, com a missão mais que cumprida! Seguimos o Gil e eu determinados ao longo da marginal, de regresso ao trilho…

A última parte da série, dedicada ao segmento Queimadela-Lapinha, está disponível aqui.

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3 thoughts on “Correr a Ronda de sol a sol (II): da Lameira à Queimadela

    • Acessível a quem não seja suicida e não esteja preocupado com tempos… Foi difícil, penamos mas, com calma, a coisa fez-se sem grandes valentias. Valente é quem não dorme quase nada, tem N coisas para fazer e ainda se atira para apoiar os amigos nas suas loucuras 🙂

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