Correr a Ronda de sol a sol (III): da Queimadela à Lapinha

Para ler os capítulos anteriores desta série, siga as ligações: Lapinha-Lameira e Lameira-Queimadela.

Se a Ronda fosse uma prova convencional, teríamos muitos fatores de pressão: o limite horário, os outros atletas que nos vão ultrapassando e que diminuem a nossa confiança, o receio de nos afastarmos por demasiado tempo do percurso e o vassoura deixar-nos para trás… Mas a Ronda, sendo um desafio completamente livre, permite-nos gerir o esforço como bem entendermos, sem quaisquer pressões e, como tal, permite-nos desfrutar muito mais do que numa prova. Questiono-me se teríamos chegado ao fim caso estivéssemos numa prova convencional. Mas voltemos ao relato dos acontecimentos…

Do alto de Vale Bom a mirar Santa Marinha

Do alto de Vale Bom a mirar Santa Marinha

Quando voltámos ao trilho marginal da albufeira da Queimadela, tentámos correr um pouco, mas tivemos de parar quase de imediato devido a uma dor de burro do Gil. Caminhámos um pouco. Sugeri que controlássemos melhor a respiração, mas não parecia estar a resultar. Pouco depois, fui eu que tive de parar de correr. Fui subitamente atacado por uma forte vontade de dormir. Naquele momento, cheguei mesmo a pensar que deveria deitar-me um pouco. Partilho esta preocupação com o Gil e foi então que começou a reviravolta no nosso estado físico e mental. O Gil chegou mais depressa do que eu à conclusão de que deveríamos mudar de estratégia e começar a cuidar de nós antes que o sol e o calor arrumassem definitivamente connosco. “E se fôssemos tomar um café?”, sugeriu ele. Eureka! Parece uma coisa óbvia, mas se eu estivesse sozinho talvez não tivesse esse cuidado comigo próprio e insistisse no erro de batalhar contra o calor. Concluímos também que seria contraproducente qualquer tentativa de correr enquanto se mantivessem aquelas condições. Iríamos caminhar calmamente e parar as vezes que fossem necessárias e iríamos atirar-nos à agua sempre que possível. E assim foi! Que se lixe se fizermos um tempo fraquinho. Hoje, mais do que nunca, o que interessa é chegar ao fim!

No fontanário de Vila Cova

No fontanário de Vila Cova

Desviámo-nos do percurso e caminhámos calmamente até à aldeia do Pontido, onde estavam um cafézinho e uma fabulosa Mini à nossa espera! Depois deste prémio, voltei ao percurso com outro ânimo. O defunto tinha ressuscitado! Não me lembro de ter passado por novas dificuldades de relevo desde aquele momento decisivo. Fomos subindo ligeiros em direção ao alto de Vale Bom. Íamos tão absorvidos na conversa que nem notámos os quilómetros a desfilar sob nós. Continuávamos a não conseguir digerir alimentos e muito menos ingeri-los, mas isso não nos impedia de irmos avançando. Quando chegámos a Vila Cova, surgiu-nos um café manhoso em que nunca antes tinha reparado. Água fresca, outra cerveja, conselhos sobre o melhor spot para dar um mergulho… De um lado, estava o percurso previsto, em que optaríamos por um tanque de água suja ou pelo rio Pequeno. Do outro, um desvio significativo da rota, mas um tanque de água limpa e fresca. Não foi preciso pensar muito para seguir pela via municipal até ao centro de Vila Cova. Os putos da aldeia brincavam no fontanário como eu já não via há muitos anos. Evitavam a zona mais fria do tanque e nós agradecemos, pois era aí mesmo que queríamos mergulhar e ficar um bom pedaço. Entretanto, o sol começava a descer no horizonte e a subida a Santa Marinha já não era aquela besta que temíamos umas horas antes.

Repouso em Santa Marinha (foto de Inês Medeiros)

Repouso em Santa Marinha (crédito: Inês Medeiros)

Quando deixámos Vila Cova, reparámos que o alto de Santa Marinha estava mesmo à nossa frente e que seria um erro voltar atrás para retomar o trilho inicialmente previsto. Além de agora mais curta, a abordagem ao monte pelo lado norte tinha mais sombras. Seguimos então pelas vias asfaltadas e empedradas até ao sopé do monte. Finalmente, após várias horas, estávamos a conseguir novamente correr consistentemente. Depois de uma pequena paragem para tentar comer alguma coisa, atacámos a subida a Santa Marinha, que até nem custou muito! Lá em cima, descansámos mais um pouco e tivemos a visita da Inês e dos filhotes do Gil, que nos trouxeram um reforço fresquinho. Uma maçã, para tentar provocar gases que aliviassem o estômago, um pouco de limonada e, claro, não podia faltar mais uma cerveja! Já passava das 18h30 e ainda nos faltavam cerca de 20km. Pelos nossos cálculos, se não houvesse surpresas, iríamos conseguir fechar a Ronda ao pôr-do-sol.

O pôr-do-sol que não vimos

O pôr-do-sol que não vimos (crédito: Inês Medeiros)

Com o sol a fraquejar e algumas nuvenzinhas a ajudar, pudemos correr normalmente, ao ritmo a que 55km nas pernas permitem, e rapidamente chegámos aos vértices seguintes, em Rendufe e Atães. Só nos faltavam dois cumes: Santo Antonino e a Penha. Nem que o corpo não quisesse, haveríamos de conseguir chegar à Lapinha! A subida a Santo Antonino fez-se com alguma dificuldade – a fraqueza e o mal-estar agravavam-se. O Gil, como durante quase todo o percurso, seguia na frente. Lá em cima, sentámo-nos nas escadas de acesso ao parque de merendas, enquanto esperávamos que a Simona nos trouxesse o último reforço. O mal-estar passou entretanto a vontade de vomitar, aumentada pelo cheiro que emanava dos contentores do lixo. Afastei-me um pouco e desatei a vomitar imenso… ar! Não havia nada no estômago para pôr cá fora? Entretanto chega a Simona e estava indeciso sobre se deveria tentar ingerir algo. Comemos um pouco de melancia – esse fruto maravilhoso – e pouco depois já nos sentíamos um pouco melhor. As minhas filhas aproveitavam entretanto para devorar as batatas fritas que nós não conseguíramos comer… Pouco depois, descíamos em direção a Paçô Vieira, para a nossa última grande subida. A motivação estava em alta. Subíamos aquela encosta a passadas largas e rápidas. Entretanto, a Inês telefona ao Gil para perguntar se ainda estávamos longe, pois o sol iria deitar-se em poucos minutos. Acelerámos ainda mais o passo. Pela primeira vez em todo o percurso, tínhamos pressa! Quando chegámos ao santuário da Penha, o sol já se tinha deitado… Foi por pouco!

Missão cumprida!

Missão cumprida!

Da Penha à Lapinha, foi um tirinho. Optámos por ir pela estrada em vez do trilho inicialmente previsto, pois quase não havia luz. Corremos a um ritmo elevado (perto dos 5m/km), naquele que foi o troço mais perigoso de todo o percurso. Os carros que vinham de frente apertavam-nos contra os rails de proteção e por várias vezes temi que a festa terminasse mal. Felizmente, chegámos rapidamente ao alto que antecede o santuário da Lapinha e dali foi só deixar o corpo deslizar até à meta, onde nos aguardavam as nossas famílias, já sob o manto da noite! Depois de 73,54km e 15h45m de corrida/caminhada, estávamos radiantes e ainda cheios de energia. Pudera! Poupámo-nos o dia inteiro!

Apesar de termos demorado bem mais do que o previsto, sabemos que fizemos aquilo que era possível fazer num dia impróprio para a prática desportiva. Mas, acima de tudo, partilhámos uma grande experiência de companheirismo e entreajuda e aprendemos imenso sobre o poder da natureza e de como podemos adaptar-nos e conseguir ultrapassar as dificuldades, com os meios que a própria natureza nos dá! É de ficar profundamente maravilhado! Aprendi também a respeitar mais o meu corpo em situações de dificuldade e a saber parar quando é preciso parar. Se voltasse atrás no tempo, não iria alterar a data nem a hora a que partimos para esta Ronda, pois nunca teríamos desfrutado e aprendido tanto como foi possível naquele dia. Foi uma epopeia memorável, em que, com a preciosa ajuda da família e amigos e com sabedoria, conquistámos algo mais de nós próprios e da natureza e deixámos a nossa modesta marca nos sagrados montes desta região. E agora, venham mais Rondas! Já falta pouco para o solstício de inverno!

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