Missões impossíveis nas fragas de Cabeceiras…

Penouta e Orada, os primeiros montes de Cabeceiras que se apresentam a quem vem de Fafe, impressionam pela proeminência, pelas encostas abruptas e pela dureza dos seus cumes, cobertos de penedos de variadas formas e dimensões. Quem os aprecia, por exemplo, da Senhora da Guia, fica fascinado e imagina facilmente um trajeto de aventura entre os dois altos.

Depois da primeira abordagem, há semanas, ficou a certeza de que os single tracks de downhill da Orada são indiscutivelmente a única maneira de servir naquele monte um prato gourmet a qualquer trail runner com bom gosto. Ficou no entanto a dúvida sobre a descida da Penouta e posteriormente a ligação à Orada, no vale entre Cucana e Passos. Razão para lá voltar e tentar o impossível!

Cruz da Missão

Cruz da Missão

A manhã começou atribulada, com a bateria do carro descarregada, o relógio quase a ficar para trás e o esquecimento do café, carteira e dinheiro! Com tanta pressa de ir para o monte, tinha de sair asneira! A viagem até Passos fez-se em modo sonâmbulo – foi então que me apercebi da falta de café. Já em Passos, acordei com o monte da Penouta à minha frente, convidando-me a subir ao ritmo que bem quisesse. E assim fiz, em corrida compassada até à primeira atração da manhã: a Cruz da Missão, no seu poiso estratégico, dando proteção divina à aldeia de Passos. Foram também as primeiras arranhadelas do dia.

Dentro do esconderijo da Penouta

Dentro do esconderijo da Penouta, com a geocache à esquerda, ao lado da mochila

Continuei a subida, perdendo fôlego, até às grandes fragas da Penouta, onde se encontra escondida uma geocache muito interessante. Fui prevenido com o frontal, pois iria ter de rastejar às escuras numa cova entre penedos. E assim foi: esbracejei no chão áspero da pedra e o frontal rapidamente denunciou numa frincha a caixinha de plástico. Missão despachada com tranquilidade! Fiquei-me um pouco a apreciar a paisagem e a fazer umas fotos, e voltei de seguida ao trilho, para ascender às antenas e dali avistar a segunda geocache da manhã, no Outeiro da Pena.

Panorâmica a partir da Penouta (obrigado, Google!)

Panorâmica a partir das fragas da Penouta (thanks, Google!)

Saltando por entre o mato, sempre que possível de pedra em pedra, cheguei rapidamente ao local da geocache. Surpreendi umas cabras que se divertiam a trepar pelos penedos, com muito mais agilidade do que eu, mas que se assustaram com tamanha invasão de privacidade. A geocache fez-se menos facilmente do que a anterior, pois incluía um certo risco de fazer uns dói-dóis inconvenientes. Ao longe, avistei outro maluco, com outra panca, acompanhado dos seus cães, mas sem ares de estar a ter sucesso na caçada, ao contrário de mim, imparável a somar triunfos.

O abrigo dos Fojos sob uma grande laje

O abrigo dos Fojos sob uma grande laje

E pronto, agora só faltava ir até aos Fojos para conquistar todas as caixinhas do monte! E foi um calvário: teimei em ir em linha reta e teimei em picar-me durante várias centenas de metros de tojo bem bastinho. Pensei pela primeira vez numas calcinhas de corrida… Sacrilégio que afastei rapidamente da mente! O abrigo de Fojos é um local muito agradável, onde se pode fazer uma fogueirinha, protegido dos elementos, apreciar as vistas, tudo evitando imaginar a maldade que por ali se fez a tantos lobos há poucos anos atrás. A geocache foi canja. Interessante não haver registos no logbook desde 2012, o que aumentou a importância do triunfo! E agora, era tempo de voltar ao principal objetivo do dia!

As ovelhas espavoridas

As ovelhas espavoridas

A descida da Penouta para o vale da Cucana não tem muitas opções: ou se dá uma volta gigantesca pelo lado nascente ou se tenta ir em linha reta para sul, pelo meio do mato e dos penedos inclinados. Aproximei-me da zona crítica, onde não havia qualquer trilho, tentando aproveitar os penedos. Mas estes rareavam à medida que descia, sendo devorados pelo tojo e pelas silvas, que também me iam dando umas boas mordidas! A custo, lá atingi um velho caminho que estranhamente começava ali, bem no meio da encosta. Depois de andar às voltas numa quinta meio abandonada no sopé do monte, grande surpresa: debaixo dos meus pés, vejo sair disparado para o campo um rebanho de ovelhas atarantadas! Mas não se tratou de um milagre. Estavam apenas a beber numa mina que estava ali por baixo. Logo de seguida, mais uma surpresa, menos agradável: um pastor alemão a mirar-me estacado. Eu também estaquei, enquanto pensava em como sair dali incólume. Mas ouço pouco depois uns passos que me aliviaram. As habituais desculpas ao dono do cão e provavelmente do terreno: “estou perdido, nem sei como vim aqui parar, pode dizer-me o caminho para a Orada?” Este também foi na conversa, ou fez de conta, e lá me explicou aquilo que eu já sabia.

Até aqui, apesar das dificuldades do terreno, tudo estava a correr como planeado. Agora era só achar um trilho para a Orada que não me obrigasse a ir até à Cucana. Atravessei a estrada e segui por um caminho promissor, que desembocou no fundo do vale. Do outro lado, uma encosta coberta de silvados. Continuei ao longo do vale, mas o panorama do outro lado não se alterava. Intransponível. Só com roçadeira! Cheguei à Cucana de cabeça caída, a perder forças. Parecia tudo perdido. Já estava resignado a subir à Orada pelo asfalto, até que dois cãezitos muito chatos foram atrás de mim, um deles tentando cravar-me os dentes, sempre a levar com a sola da sapatilha nas fuças. Esse percalço despertou-me e fez-me avistar um caminho à direita, em direção aos campos. Perguntei a um nativo se o caminho permitia chegar à Orada, mas o homem não sabia e duvidava que fosse possível. Na verdade, quase ninguém conhece os trilhos das suas próprias terras, e por isso decidi continuar. E foi aposta ganha: tratava-se provavelmente do caminho original para a Senhora da Orada. Quase no final do trilho, surpreendi uma coruja que acordou sobressaltada do seu curto sono e que provavelmente viu o primeiro humano a cruzar aquele caminho por muito tempo.

Um dos single tracks da Orada

Um dos single tracks da Orada

A partir da capela, começou o single track, a subir até ao posto de vigia do alto da Orada e depois a descer serpenteando em direção a Alvite. Diversão total, embora à custa de esforço extra para manter o equilíbrio àquela velocidade! Lá em baixo, nova desilusão: o atalho que pensei que iria conseguir até ao monte de Santa Catarina revelou-se um martírio, completamente infestado por silvas e barrado por duas vezes por uma vedação de propriedade, que me obrigou a praticar os dotes de saltador em altura. Voltaram a faltar as forças, desta vez irremediavelmente. Passei por Petimão como um cão vadio estonteado e subi finalmente a custo até Passos. Após quatro horas e meia de travessuras, sentia um misto de satisfação e frustração. Lá vou ter de mergulhar novamente no Google Earth e desta vez procurar um mal menor, pois o caminho ideal é mesmo missão impossível.

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