Caça ao tesouro no monte de São Jorge / PR3 de Felgueiras

Na semana passada, concentrei esforços na exploração, bem perto de casa, de uma região geralmente desconhecida, mas com um passado importante, devido à sua localização estratégica na ligação entre as terras do Baixo Tâmega e do Alto Ave. Os parágrafos seguintes relatam as minhas investidas por Cepães (Fafe), Jugueiros e Sendim (Felgueiras).

Na quinta-feira, fui finalmente fazer algo que vinha adiando desde o início do ano… A exploração do monte de São Jorge, encaixado entre os vales do Vizela e do Ferro, não é fácil. Os poucos que conhecem os segredos que aquele monte esconde não têm disponibilidade para me guiar durante várias horas por entre o penedio e o mato. O pouco que eu conhecia estava confinado ao percurso da Rota do Milénio (PR9 de Fafe) e ao triângulo imaginário que liga a antiga fábrica de cartão (junto ao Vizela), a ponte de Travassós, e a margem do Ferro perto de Mures. A experiência neste triângulo, há uns meses, apesar de ter revelado locais interessantes junto ao leito cavado do Vizela, foi dificultada pela densa vegetação que cobre aquelas encostas. Talvez por isso foi faltando apetite para voltar ao mato grosso.

Arquéologos na obra da REN. Clicar na imagem para ver notícia.

Arquéologos na obra da REN. Clicar na imagem para ver notícia.

Há poucas semanas, fui falar com o presidente da Junta de Freguesia de Cepães/Fareja, um conhecedor de alguns tesouros do monte de São Jorge, que me deu algumas indicações vagas sobre locais de interesse ao longo do PR9. Munido dessas notas e de muita vontade, lá me atirei à exploração, ainda com o sol a despontar por trás das serras de Montelongo. O primeiro objetivo era uma mamoa junto à recém instalada subestação da REN, na Regedoura. Já tinha estado junto a essa mamoa, mas, por ignorância, julguei tratar-se de vestígios de um poço medieval. Mas, para grande desapontamento, redescobri desta vez o local completamente arrasado. As pedras da mamoa encontravam-se espalhadas nas bordas do caminho aplanado! Davam a impressão de desprezo, tanto pela ignorância de quem as moveu com as máquinas, como pela insensibilidade de quem deu as ordens. Na minha mente, incredulidade e raiva! Por muito irrelevantes que fossem aqueles vestígios, sempre seria melhor preservá-los, pois atrairiam curiosos àquelas paragens. Assim, fica apenas a paisagem estéril dos postes de alta tensão, do asfalto, e dos largos caminhos de terra batida. Decisões que custam a perceber.

O abrigo da coruja

O abrigo da coruja

A segunda pista era uma gruta entre penedos, na encosta a sul do PR9. Retomei o trilho e, logo acima da subestação, subi a um pequeno morro, para tentar avistar algo por entre os eucaliptos. Antes sequer de conseguir ver o que me reservava a encosta, fui surpreendido por vestígios de ocupação castreja no topo do morro. O típico amontoado de pequenas pedras, espalhadas em pequenas áreas circulares, com os inevitáveis penedos de várias formas, com marcas de mão humana, à volta… Não muito longe, vestígios de uma possível muralha. Naquele local, como o tojo não vinga, ficou uma manta de fetos e, por baixo, interessantes túneis cavados nas ramagens, provavelmente por raposas ou outros animais de pequeno porte. A coisa estava a começar a ficar interessante! Desci então um pouco a encosta, à procura da tal gruta. A densidade de arvoredo diminuía a luz e, com a anormal quantidade de velhas árvores caídas, o ambiente ficava sinistro. Subitamente, levanta disparada do seu refúgio uma coruja assustada, num belo voo determinado! Não lembra ao diabo andar um tipo por ali! Julgava ela que aquele pequeno abrigo debaixo de duas lajes era o local mais secreto do universo!

Sofá de granito

Sofá de granito

Regressei ao caminho, decidido a continuar a procurar a tal gruta. Umas poucas centenas de metros mais à frente, um ajuntamento de penedos de grande porte despertou-me a curiosidade. Até lá, um pequeno trilho, apesar de muito pouco usado, fazia-me pensar que não seria o primeiro a passar ali. No local, descubro uma espécie de sofá de duas camadas de encosto, trabalhado no granito. Experimento a mobília e confirmo a sensação de boa vida que alguns ali terão sentido. Só faltou mesmo uma caipirinha da Idade do Ferro! Dou a volta aos penedos e encontro uma grande frincha, por onde cabe uma pessoa, e que pode perfeitamente ser um abrigo. Será esta a tal gruta?

Vestígios de mamoa?

Vestígios de mamoa?

A riqueza de monumentos – imaginados ou reais – que aquele monte contém é um sem-fim de descobertas e corria o risco de passar lá todo o dia na brincadeira. Tinha de acelerar as pesquisas e agora também tenho de abreviar as descobertas, senão os meus leitores largam rapidamente o texto! De outeiro em outeiro, lá fui então saltitando pelas pedras, tentando seguir os caminhos de javalis ou de caçadores. E o que fui descobrindo? Mais vestígios castrejos – uns mais óbvios, outros mais ideais -, mais penedos com formas incomuns (ainda hei de encontrar explicação para os rochedos em forma de dente de tubarão que encontro frequentemente), mais uns restos de mamoas há muito despedaçadas, covinhas nas pedras, algumas boas vistas abrangentes sobre os vales de um lado e doutro… Era um fartote! Quase três horas depois, ainda nem tinha feito 10km. Estava prestes a faltar às promessas que fizera à família. Tinha finalmente de correr para o carro e deixar o resto para outra manhã louca!

No final destas explorações, concluo que o monte de São Jorge, pela quantidade de vestígios de ocupação remota, deve ter tido outrora uma grande importância geo-estratégica: com uma vertente abrupta do lado sul, encaixado entre dois rios de vale profundo que se unem perto da encosta poente, e com uma crista com aspeto planáltico em certas zonas, é o local ideal para implantar uma grande população. Não é por acaso que, no sopé deste monte, encontramos duas vilas – Cepães e Jugueiros – com história milenar e, não muito longe, a cidade de Fafe. Foram provavelmente onde se instalaram as populações daquele monte durante a romanização.


Rio Bugio em Corvete

Rio Bugio em Corvete

Menos insensata mas com o mesmo interesse foi a manhã de sábado, em que parti de Jugueiros com o objetivo de seguir na totalidade as marcações preliminares daquele que virá a ser o PR3 de Felgueiras. Iria compensar a falta de treino da aventura anterior, dedicando-me exclusivamente à corrida. À partida, não fazia ideia da distância que iria percorrer, nem do desenho da rota. Os primeiros quilómetros, por Travassós e Perlonga, são bem conhecidos, pois constituem o percurso que habitualmente faço para ascender a São Salvador. A um terço da subida, o trajeto regressa ao sopé do monte, para nos levar a conhecer o carvalhal de Lourido. O arquiteto do PR não nos deixa gozar por muito tempo estas sombras saudáveis, pois voltamos rapidamente a subir a encosta íngreme, por entre o eucaliptal. Demasiado duro para um PR, mas tem de ser, se queremos levar os caminheiros até São Salvador! Com a capela à vista, descemos abruptamente em direção a Corvete, onde encontramos a mini-hídrica e, do outro lado, os moínhos do rio Bugio. Depois, a segunda grande subida do percurso, em direção ao Calvário, a partir de onde é sempre a descer.

Ponte sobre o rio Bugio, em Escavanca

Ponte sobre o rio Bugio, em Escavanca

Suspeitava não estar muito longe de Sendim, quando surgiram as indicações para a famosa vila romana. Decorrem grandes obras de melhoramento da estrutura de cobertura das ruínas e também no centro interpretativo. Inauguração prevista lá para outubro, provavelmente quando irão aproveitar para finalmente publicar o PR. Nesta parte do trajeto, percorre-se muito asfalto, mas, em Gondim, desce-se ao rio Bugio e acompanha-se o leito por baixo de frondosos carvalhos. Esta é talvez a zona mais bonita do percurso, em que avistamos frequentemente velhos e novos moínhos, na zona de Escavanca. E, sem mais elevações, rapidamente se chega ao destino, no velho centro de Jugueiros! 17km de PR, 600m de desnível positivo, talvez algo puxado para o público-alvo. Não seria má ideia haver uma variante do percurso que ligasse diretamente Lourido a Corvete, sem subir a São Salvador. Seriam menos 4km e provavelmente muito menos dores nos joelhos, tanto mais que, excetuando o alto de São Salvador, esta parte do percurso não tem grandes motivos de interesse.

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2 thoughts on “Caça ao tesouro no monte de São Jorge / PR3 de Felgueiras

  1. De resposta/comentário rápido e sem rascunho, quero afirmar “publicamente”, o apreço pelo texto e pelo autor. Além de sucinto, é esclarecedor, abarca um perímetro geográfico interessante, e a redação é digna de ser explorada numa aula de “Português numa escola secundária !. Parabéns. Desconhecia a ilustração intelectual e científica do Amigo Hélder, a respeito de observação, leitura e interpretação de tais dados arqueológicos.
    Eu tive a oportunidade de visitar a mamoa que foi destruída no interior do perímetro da plantação de postes de alta tensão.
    Quanto lamentei a sua eliminação !!!
    Obrigado pela aula de História !

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    • Amigo Artur, agradeço o seu amável comentário. O que me move na escrita destes artigos é a paixão pelo nosso património, seja ele natural ou produto do Homem. Como qualquer pessoa apaixonada, corro o risco de me exceder naquilo que escrevo. A minha análise daquilo que observo no monte de São Jorge carece de base científica e de validação por pessoas com muito mais autoridade do que eu – um mero amador. O objetivo destes artigos é somente a divulgação e valorização deste património, para que não caia no esquecimento e possa despertar outras paixões. Até breve!

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