Da Lapela ao Ervideiro, por bosques e fragas perpétuas

Depois do treino da semana passada com os Fafe Runners, em que tentámos ligar os PR3 e PR5, fiquei com duas pulgas atrás da orelha: uma a dizer-me que tinha algum dia de conseguir fazer o PR5 sem me perder; a outra a soprar-me as maravilhas dos altos da Lapela e do Ervideiro ali ao lado, já em terras de Cabeceiras. Não resisti nem uma semana! Saltei para o Google Earth e tentei destrinçar um percurso que aproveitasse o PR e também ligasse o alto da Lapela ao Ervideiro. Ficaria assim completo um belo esboço da sequência que termina na Penouta e Orada. Os companheiros de aventura do dia foram o meu irmão Frederico, que me tem dado grande apoio nestes reconhecimentos por terras de Basto, e a Inês Medeiros, a quem o treino encaixava bem na preparação para a Maratona Trail de Vilar de Perdizes.

Arrancámos de Várzea Cova bem cedo, antes das 7h30, ainda com o ar bem fresco. Seguimos ligeiros sob o maravilhoso carvalhal ao longo do ribeiro até Bastelo. A sensação de correr neste belo trilho faz-me recordar uma leitura desta semana, em que João Baptista de Castro descrevia o Minho de 1745, como um “bosque perpétuo e mui aprazível”. Estes PRs de Fafe permitem-nos contactar com os resquícios desse bosque perpétuo, um verdadeiro tesouro do nosso património natural.

Na Montanha, por entre outeiros

Na Montanha, por entre outeiros

Em Bastelo, um ajuntamento de populares espera… não por nós, mas pelo táxi que os há de levar à missa. Deixamos a aldeia e continuamos a subir, pelo GR43, em direção à Lapela. De um lado e de outro, os outeiros amarelecidos pela seca protegem-nos da brisa matinal. Gosto especialmente deste trilho, muito inspirador e que nos faz sentir a Montanha pela primeira vez esta manhã. Quase a chegar aos limites de Aboim, avistamos, por entre dois pequenos montes, o seu famoso moínho de vento, e, lá longe, o castelo da Póvoa de Lanhoso. Daria um belo postal!

A conquista da Lapela

A conquista da Lapela

Muito próximos da Lapela, percebemos que nos esperava um castelo de penedos, muito bem guardado por altas muralhas. Antes de lá chegarmos, porém, teríamos de atravessar aquela grande chaga aberta na montanha: uma enorme pedreira que descaracteriza toda a encosta poente. À entrada, um portão e um conjunto de avisos ameaçadores tenta desmotivar-nos mas, com vontade e loucura, nada nos impede de avançar. Lá dentro, sigo atento a quaisquer movimentos de um enorme cão imaginário e preparo-me para saltar para cima dos penedos a qualquer momento. Mas o cão não aparece e nós seguimos pedreira acima até bem perto do castelo. Depois de treparmos por todos aqueles gigantescos monolitos, finalmente o quase inalcançável vértice geodésico! Depois de fitarmos calmamente todas as montanhas e vales à volta, vinha o grande desafio da manhã. Descer daqueles penedos em segurança e conseguir alcançar sem grandes desvios o trilho que nos levaria pelo vale em direção ao Ervideiro.

A chegada ao Ervideiro

A chegada ao Ervideiro

Como vem sendo hábito nestes reconhecimentos de má fama, experimentámos a aspereza do mato das encostas da Lapela, por sorte bastante condescendente, talvez por estar uma donzela entre nós! E uma guerreira, também, que sorria de cada vez que acabava de atravessar uma zona de tojo mais densa! Finalmente, demos com o velho caminho e descemos alegremente ao longo dos lameiros até Bastelo. Retomado o PR5, esperava-nos uma divertida descida pela calçada até ao carvalhal de Couto, de onde saímos novamente do PR para a longa subida até ao Ervideiro. Mas, nas calmas, tudo se faz, e lá chegámos a mais um cume com vistas ainda mais deslumbrantes. Então aquele tapete ondulado de fragas até à Lapela é de ficar gravado num lugar especial da nossa memória!

Depois de descermos por um trilho paralelo à estrada até Fojos, tivemos de seguir pela N311 até retomarmos o PR5. Aqueles 10 minutos de asfalto demoraram uma eternidade e já sentia as pernas a entorpecer. Já no PR, e aplicando as lições da semana passada, seguimos sem enganos em direção a Várzea Cova, onde chegámos com o sol já a começar a apertar o garrote. Missão cumprida e acompanhada de boas sensações! Após quase dois meses de prospeção, ainda não tenho nenhum percurso fechado entre os cinco cumes que explorei – Lapela, Ervideiro, Penouta, Orada e Ladário -, mas aprendi que por estas bandas o alimento é rico e deve ser saboreado sem pressas, repetidamente. Concluo com um agradecimento à Inês, por algumas das belas fotos deste registo!

Anúncios

One thought on “Da Lapela ao Ervideiro, por bosques e fragas perpétuas

  1. Pingback: GR43: um ultra-passeio pelas Terras Altas de Fafe (I) | Ronda dos Cumes Sagrados

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s