Senhora da Graça à vista!

5h30. Corto rapidamente o pio ao despertador e descolo facilmente da cama. É um daqueles dias em que um gajo não precisa do café para acordar! Pouco depois, encontro-me com o Mauro e o Miguel, habitués destes passeios de descoberta, e seguimos viagem até Gandarela de Basto. A chuva miudinha e as nuvens não prometem uma grande manhã para observar a paisagem. Apressamo-nos a equipar-nos e a acertar o percurso nos relógios, para não termos tempo de nos arrependermos de correr de manga curta! Bem dispostos, como é habitual, disparamos pelo monte do Ladário acima.

Nesta zona das terras de Basto, o território é bastante mais explorado economicamente do que nas serras mais a norte. Nestas, muito menos povoadas, surgem aqui e acolá alguns rebanhos de cabras ou ovelhas, e a vegetação é composta essencialmente pelo mato característico do norte de Portugal e, nos vales, há muitos carvalhos, castanheiros, e sobreiros. Quando chegamos ao Ladário, a paisagem transforma-se: abundam os pinheiros e eucaliptos assim como os estradões de terra batida usados pelos lenhadores. Não é tão agradável à vista e à passada, mas também tem as suas vantagens: corre-se mais rápido!

Em Canedo de Basto, com o Monte Farinha ao fundo.

Em Canedo de Basto, com o Monte Farinha ao fundo.

Vamos descendo pela freguesia de Canedo de Basto até ao Tâmega e a paisagem não muda muito, apesar de no vale começarem a surgir os primeiros vinhedos. Lá à frente, cada vez maior no horizonte, surge o perfil do Monte Farinha e do santuário da Senhora da Graça. Primeira paragem para a fotografia! Depois de atravessarmos a ecopista da antiga Linha do Tâmega, atingimos rapidamente um caminho marginal ao rio. Este corre com pouco caudal, apesar das chuvas recentes. Imagino o que será deste rio se vierem a construir as barragens previstas – absolutamente inúteis e não geradoras de emprego e desenvolvimento, como muitos credulamente pensam.

Chegados à ponte sobre o Tâmega, à entrada para Mondim de Basto, paramos para abastecer e apreciar as vistas de um lado e do outro. Na margem de lá, está o distrito de Vila Real e Trás-os-Montes, embora na verdade ainda estejamos à frente dos montes (Alvão e Marão). Antes de entrarmos na vila, fazemos um pequeno desvio ao longo do rio para abordarmos mais um cume, aparentemente modesto mas com vários motivos de interesse. A subida faz-se por um longo corta-fogo de inclinação abrupta, com o Tâmega em pano de fundo. Lá em cima, espera-nos a bela capela barroca da Senhora da Piedade, trasladada há quase 100 anos da Casa do Eirô. O monte tem vestígios da existência de um povoado da Idade do Ferro. Não surpreende, pela sua localização estratégica e atributos defensivos. É mais um caso de uma conversão de remota ocupação pagã em templo católico, como se vê em quase tudo que é monte nesta região.

Descemos à vila de Mondim de Basto, para uma voltinha de consagração pelo centro histórico e para uma boa mini, na Taverna do Marchante! Nos reconhecimentos da Ronda, dá-se prioridade à camaradagem, à descontração, a ritmos de corrida que possibilitem apreciar o que nos rodeia, e à liberdade de seguir por onde nos der na telha. É uma espécie de “slow-food” do trail running!

Os infindáveis vinhedos da Quinta da Raza

Os infindáveis vinhedos da Quinta da Raza

Mas convém não ser demasiado “slow”, porque há gente que se chateia se chegarmos tarde a casa! Então retomamos o percurso, para enfrentar o melhor possível a longa subida de regresso ao Ladário. Seguimos um percurso mais interior, por Veade e Corgo. Vinhedos infindáveis de um lado e do outro… A panorâmica leva-nos a parar várias vezes para observar a beleza do que fica para trás, com o imponente e omnipresente Monte Farinha. Voltamos a entrar no eucaliptal, onde lenhadores e caçadores labutam sob o sol que começa a surgir timidamente por entre as nuvens.

Já em Vale de Bouro, a maior altitude, temos novamente o mato e a serra nua, sempre mais bonita assim. À nossa frente, um gigantesco vale, de uma beleza que nenhuma fotografia consegue expressar fielmente, espraiado por vários quilómetros, de Mondim a Celorico. Esta é provavelmente a vista mais bonita das terras de Basto. Durante o deslumbre, o Mauro deslinda no cimo de um outeiro um single track muito promissor. Fazê-lo com a companhia daquela paisagem é algo certamente especial.

De regresso ao carro, vou a pensar que este troço da Ronda de Basto, aparentemente resolvido antes de irmos para o terreno, tem ainda muito para correr. E há ainda um mistério para resolver, que poderá ter impacto nestas contas. Há duas semanas, quando reconhecemos o trajeto entre a Orada e o Ladário, encontrámos ao longo de uma boa parte do percurso as marcações de uma rota com n.º 24. Apesar de várias pesquisas, ainda não foi possível descobrir a razão da existência dessa rota. Hoje descobrimos outra rota “irmã”, a 23, mais próxima do rio Tâmega, sempre no concelho de Celorico de Basto. Se analisarmos o traçado completo dessas rotas, certamente que encontraremos mais motivos de interesse. A Senhora da Graça, ali tão perto, talvez ainda tenha de esperar mais umas semanas para ser conquistada!

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