GR43: um ultra-passeio pelas Terras Altas de Fafe (I)

Não é fácil convencer alguém a correr 50 km a feijões, muito menos em novembro, com frio, poucas horas de luz natural e com tantas provas a competir com os feijões. Mas, na verdade, o desafio proposto era bem mais do que um treino mais longo. Era sobretudo uma oportunidade única para conhecer grande parte da zona norte de Fafe e a sua luxuosa coleção de trilhos e paisagens multifacetados, tudo na companhia de gente preciosa, que sabe valorizar e traz grande valor a estas experiências. E também de fazer história, pois seríamos os primeiros a completar a GR43 a correr! E assim oito malucos se decidiram a levantar-se bem cedo numa madrugada gelada de outono, para viver mais uma experiência inesquecível.

Ao contrário de vários ultra-trails em que já participei, não senti qualquer ansiedade antes do desafio. É verdade que a distância já não era novidade para mim, mas sabia também que não iria sentir qualquer pressão durante a longa jornada. Iríamos correr ao ritmo que conviesse a todos e esperar as vezes que fossem necessárias para nos reagruparmos, sem pressões horárias, e isto tudo apesar da heterogeneidade do grupo – desde os rookies até aos atletas com extenso currículo.

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Pedro, Rui, André, Miguel, Frederico, Gil, Mauro e eu atrás da câmara. Não parece, mas estamos todos a tremer de frio!

Antes da hora combinada, já todos estavam a esfregar as mãos de frio à frente da igreja de Várzea Cova. Uma forte geada cobria os campos à volta. Com uma temperatura muito próxima de zero, todos estavam com vontade de arrancar o mais rapidamente possível. Depois das boas-vindas e apresentações dos aventureiros Rui e Pedro, vindos expressamente do Porto para conhecer as montanhas de Fafe, o grupo seguiu calmamente viagem em direção a Bastelo.

Ainda não tinha decorrido 1 km e surgia a primeira hesitação no percurso, devido a marcação deficiente da GR. Valeu-nos o Gil, que já tinha feito o trajeto naquela direção há poucos meses e que rapidamente reconheceu o trilho a seguir. Dali até Bastelo, seguimos a já conhecida Rota dos Espigueiros (PR5), que coincide com a GR. O sol já ia mais alto e já começávamos a libertar-nos de alguma roupa que trazíamos a mais. Deixávamos também para trás os campos, os regatos, e os agradáveis cheiros da aldeia, e entrávamos na montanha, onde são outras as fragrâncias e as vistas, já descritas em anterior aventura.

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Troço exclusivo da GR43, entre Bastelo e Aboim

Lá em cima, avistávamos o Gerês envolto num nevoeiro que mais parecia um manto de neve. Seguíamos agora pelo troço que corresponde à rota de Aboim (PR3). Nesta zona, costumam estar garranos a pastar às primeiras horas do dia, mas é agora difícil avistá-los, com a temperatura mais agreste. Invadimos calmamente a aldeia e trepamos ao morro onde se encontra o ícone da freguesia, em boa hora recuperado. Depois das fotografias obrigatórias ao moínho de vento, regressámos à GR.

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Primeiro postal da manhã, ao lado do moínho de Aboim

Num momento de distração, junto à igreja, quase que perdíamos o trilho, que até nem estava mal sinalizado. De novo no monte, seguimos um belo carreiro que nos leva a Figueiró do Monte. Sabia de antemão que encontraríamos ali uma dificuldade, que se confirmou: o desvio por um pequeno trilho que acompanha um regato está completamente coberto de fetos e tojo, sendo necessário forçar passagem por entre a vegetação. Estes momentos mais selvagens também tornam especiais estas experiências. Todos se queixam dos arranhões, mas, lá no fundo, fica sempre uma sensação de vitória.

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Roça-mato algures entre Aboim e Figueiró do Monte

Pouco depois, estávamos novamente em terreno acessível. Desembocámos numa estrada asfaltada e percorremos assim algumas centenas de metros até à aldeia-fantasma de Figueiró, onde parámos para o primeiro abastecimento, após cerca de 1h30 de corrida. O ponto de água da aldeia estava seco, mas ainda tínhamos algumas reservas nos cantis. Demoramo-nos um pouco, a alimentar uma boa conversa.

Retornámos ao caminho, enérgicos, em direção a Barbeita. Deixámos de correr para norte e estávamos agora a rumar a ocidente, junto aos limites de Vieira do Minho. Não perdemos a oportunidade de tirar umas boas fotos no caminho que ladeia uma bela torre megalítica natural. Está toda a gente bem disposta. Os colegas do Porto deliciam-se com as esplendorosas vistas para a barragem do Ermal e fazem promessas de voltar com mais amigos. É a boa nova do paraíso fafense a espalhar-se.

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A caminho de Barbeita, por um dos trilhos mais bonitos da GR

Chegados às imediações de Barbeita de Cima, enfiámo-nos frequentemente em terras ensopadas e em lamaçais. De nada serve tentar evitar o contacto desagradável, pois há água por todo o lado. Se não entrar bosta de vaca para dentro das sapatilhas, menos mau! Até Mós, iremos encontrar frequentemente este tipo de terreno, com exceção de uma descida vertiginosa e ziguezagueante por entre um belo carvalhal. Lá em baixo, junto ao lameiro, encontrámos uma expressão clara de afirmação de propriedade de alguém que ainda deve estar a disputar a passagem com a PR3/GR43. Saltamos as vedações e subimos até Mós, onde somos recebidos à entrada da aldeia por um cavalo, no meio da estrada, com ar de não saber muito bem o que estava ali a fazer.

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Monte das Lameiras, com a Cabreira ao fundo

Esperava-nos agora uma das subidas mais difíceis da GR, até ao monte das Lameiras, não muito longe do ponto mais alto do concelho de Fafe – o alto de Morgair. Corremos depois ao longo da crista, com vistas ímpares para vários monumentos naturais da região. É obrigatório parar para mais umas fotos e também para recuperar fôlego. Estávamos a chegar à bifurcação onde nos iríamos separar do grupo que vinha fazer os 25 km. O Mauro, que tinha de regressar mais cedo, ia agora acompanhar o Pedro e o Rui – vieram para fazer 15 km e entusiasmaram-se para mais 10 – até Várzea Cova, pelos belos trilhos de São João da Ramalheira, enquanto o restante grupo seguia em direção a Gontim. Estávamos quase a meio da GR, com cerca de 3 horas de corrida. Ninguém se queixava de dores ou de cansaço. O sol continuava a aquecer-nos. Estava um dia perfeito para correr 50 km!

[clique aqui para ler a segunda parte]

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3 thoughts on “GR43: um ultra-passeio pelas Terras Altas de Fafe (I)

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