GR43: um ultra-passeio pelas Terras Altas de Fafe (II)

[recomenda-se a prévia leitura da primeira parte do relato]

Depois da primeira vintena de quilómetros muito entretida, com pisos, relevo e vegetação diversificados, entrávamos agora numa nova fase, com declives suaves e os típicos estradões das cristas das montanhas de Fafe, com o Maroiço no horizonte. Estávamos também em menor número e menos faladores, pensando no desgaste acumulado e no que aí vinha. O percurso por Gontim, Luílhas, Argande e São Miguel do Monte contrastou com o início da manhã. Fez-se mais rapidamente embora tenha sido menos interessante: muita terra batida, asfalto demasiado frequente, e paisagem por vezes monótona. A mente divaga… Pela arquitetura portuguesa do séc. XVIII, pelo espólio do Museu Nogueira da Silva, sobre o significado de “maroiço”, que o Gil nos recorda ser “amontoado de algo”. É realmente uma pena não subirmos ao Maroiço ali ao lado, um belo amontoado de formações graníticas.

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Um pedaço de arquitetura paisagista em Gontim

Ainda não é meio-dia e a larica torna-se cada vez mais incómoda. A GR43 foi concebida para ser feita por pedestrianistas, em várias etapas. Como tal, não é por acaso que as etapas começam e terminam em aldeias onde se pode conseguir dormida e um bom jantar. Para nós, corredores, esses pormenores logísticos não são tão relevantes, mas também precisamos de algumas paragens técnicas, para reforçar mantimentos ou simplesmente para beber uma cerveja ou um café, tão importantes quando o ânimo dá sinais de quebrar. A aldeia do Pontido, tão agradável e munida de um restaurante e de um café, é portanto o sítio ideal para o primeiro abastecimento a sério. Decidimos aguentar até lá.

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O Gil correndo pela margem da albufeira da Queimadela…

Finalmente, o trilho volta a ficar interessante, com a descida pela Rota do Maroiço (PR1) até à barragem da Queimadela. Momentos de adrenalina e brincadeira. Como crianças, saltitamos de pedra em pedra ou imitamos um bobsleigh a fazer curvas. Junto à albufeira, corremos por entre as sombras das árvores e a luz do sol no zénite. Belas sensações visuais que perdurarão nas nossas memórias.

Finalmente em frente ao café da Aldeia do Pontido, as primeiras coisas primeiro: a mais que merecida mini! Descalçamos sapatilhas, soltamo-nos das mochilas, e sacamos das sandes de presunto e dos panados para acompanhar a cerveja. Quase caio na tentação de comer uma sopa, mas as lições do passado lembram-me que encher o estômago mais do que o suficiente costuma trazer maus resultados. Mantenho o regime restrito, se é que se pode falar em restrições de presunto e cerveja na mão. Saboreamos calmamente o alimento e o som da corrente do rio Vizela. Despedimo-nos entretanto do Frederico, que também tinha de regressar a casa mais cedo. Levou trinta e três quilómetros nas pernas e certamente a pena de não poder acompanhar-nos até ao fim. Éramos agora só quatro, mas estávamos convencidos de que os restantes 18 km não iriam resistir à nossa passada.

A verdade é que mal deixámos a barragem foi sempre a subir, a subir, a subir, algumas quase a pique, em que tínhamos de nos esforçar para não cair para trás. Afinal ainda era cedo para estarmos tão convencidos. A ascensão ao alto da Toura era uma das últimas grandes dificuldades, mas poderia deixar mossa. A meio da encosta, tivemos uma nova hesitação devido a marcação deficiente da GR. Desta vez, valeu-nos o relógio que indicava nordeste. Siga!, por entre a vegetação amarelecida pela falta de água e pelo frio. No meio de uma depressão, surge-nos isolado um velho eucalipto que surpreende pela beleza incomum. Tenho um forte preconceito contra eucaliptos, mas este tolero. Parece inofensivo e fica bem na foto.

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A Toura, o seu eucalipto, e o Maroiço ao fundo

Tínhamos combinado não gastar as fichas todas no Pontido e deixar algumas para um bom café em Pedraído. À entrada em Calcões, fechámos os olhos às tentações e continuámos pela estrada. Víamos ao lado do asfalto uns bons trilhos e estranhávamos a GR não passar por lá. Opção estética não será certamente. Para nós, foi mesmo uma obrigação. Já estávamos a ficar saturados de asfalto. Pouco depois, a rota desvia para os campos e leva-nos finalmente à aldeia de Pedraído, fundindo-se com a Rota das Margens do Vizela (PR2). Duplo alívio: não voltaríamos a ver asfalto naquela tarde e o café estava muito próximo.

Perto da igreja, encontramos uma venda de portas abertas, sem ninguém a atender. Chamamos e surge-nos uma mulher de idade avançada embora de aparência enérgica. Sim, tinha mesmo café! Pede-nos para entrarmos para as traseiras da venda e penetramos na… Tasca do Senhor Abel! Uma espécie de lugar secreto de onde jorra um famoso arroz de cabidela e aquele bom vinho. Nós só queríamos café, mas anotámos o contacto, não vá a gente arrepender-se daqui a uns quilómetros e voltar desesperada para trás! O Miguel lembra-se de pedir um cheirinho… Aquele cheirinho. Vem-nos a senhora com uma curiosa garrafa de conhaque. Da torneirinha saem umas gotinhas de precioso cheirinho com o qual lavamos o fundo da chávena de café e aquecemos o estômago. Nunca uma aguardente me soube tão bem!

Deixámos a tasca e, depois de umas voltinhas pelo casario da aldeia, tomámos o trilho em direção a Lagoa. Continuamos em terreno conhecido, tanto de treinos anteriores pelo PR2, como até de provas recentes, como o Trail Serras de Fafe, cujo percurso longo passou por aqui. E, para nosso espanto e revolta, ainda se encontram no trilho as fitas das marcações, sete meses depois. Muitas caídas, semi-cobertas pela lama e folhas, consistentemente espalhadas ao longo de vários quilómetros. Não foi descuido, tão somente falta de respeito pelo ambiente e pela população local.

Com a náusea das fitas para trás, enfrentávamos agora a última grande subida. Uma interminável e muito desgastada calçada a serpentear por entre um denso carvalhal. Sentia o homem da marreta a aproximar-se. Já levávamos mais de 40 km nas pernas. O Miguel galgava as pedras com a motivação de quem estava a bater um recorde. O Gil nem parecia que tinha tido febre nos dias anteriores e puxava por nós. O André continuava a fazer aquilo como se nada fosse. E entretanto o homem da marreta já tinha trepado para as minhas costas! Tinha de me livrar do gajo! Aproveitei um troço mais plano para acelerar o passo e dei um coice impiedoso no tipo, que deve ter ficado a ganir entre os galhos de uma árvore!

Lagoa, enfim! O eldorado da GR43, com a Senhora das Neves a cumprimentar os quase-vitoriosos. Reabastecemos cantis, esticamos tendões, fletimos músculos e ‘bora lá que se faz tarde! Partilhávamos agora o trilho com o PR7, mais uma pérola de Fafe. Pequeno mas mágico, com os seus carreiros escuros, cobertos de musgo e folhas secas. A meio da descida, passamos ao lado da capela mais antiga do concelho – São João de Latrão -, por onde supostamente passavam outrora peregrinos de Santiago.

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Ruínas da capela de São João

No fundo do vale, atravessámos a ribeira de Abrunheiros – que mais abaixo muda de nome para ribeira de Várzea Cova e depois para ribeira de Petimão até desaguar no rio de Ouro. Dali até Várzea Cova, continuámos por belos trilhos de floresta, com os raios de sol cada vez mais oblíquos. Já corríamos ligeiros, com a certeza de completar a Grande Rota. As últimas centenas de metros foram feitas sem pressas. Finalmente, revemos a igreja de Várzea Cova e os nossos carros, mais de sete horas e meia e 51 km depois! Dores? Cansaço? Já esquecemos tudo! A satisfação de chegar ao fim supera sempre tudo!

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Está feito! Venham lá as minis e os rojões!

Era agora chegado o momento de hidratar com mais umas minis, provar as iguarias de rojões que o chefe Miguel partilhou, e refletir sobre a aventura. Não sendo um trajeto duro, esta GR43, pela sua extensão, deve ser encarada com a devida preparação. As expetativas devem contar com um percurso que privilegia os núcleos rurais e as vias de ligação entre estes, em detrimento dos trilhos mais selvagens da montanha. O piso é bastante acessível, apesar de muitas vezes assentar em calçadas e, no nosso entender, demasiadas vezes em asfalto. Há também algumas falhas de marcação que deveriam ser corrigidas pela entidade promotora. Mas, no cômputo geral, a GR43 é uma excelente mostra do melhor que o concelho de Fafe tem para dar aos amantes de natureza e de património rural. Deve ser apreciada ao ritmo certo, em corrida não excessivamente rápida ou, preferivelmente, em caminhada. Ah! E sempre temperada com algumas paragens pelas tascas!

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2 thoughts on “GR43: um ultra-passeio pelas Terras Altas de Fafe (II)

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