A conquista do Monte Farinha

Há muito que este reconhecimento era aguardado com expectativa, não só por mim, mas por todos aqueles que costumam participar nestes treinos-aventura. Infelizmente, provavelmente por anúncio demasiado em cima da data, só 3 pessoas puderam estar presentes neste desafio que se antecipava duro (35km com 1400m D+), mas com elevada probabilidade de ficar para sempre nas nossas memórias.

Para mim, além do reconhecimento da ligação ao alto da Senhora da Graça e ao vértice geodésico de Crespo, seria um ótimo treino e também uma boa oportunidade para testar equipamento antes da Ronda do Marão – coisas que raramente ou nunca uso, como luvas, gorro, ou buff, mas que serão fundamentais para aguentar os rigores da montanha daqui a três semanas.

À medida que nos aproximávamos de Mondim de Basto, o termómetro aproximava-se dos zero graus, mas a previsão prometia um belo dia de sol. O centro da vila não tinha qualquer movimento àquela hora. Com o dente a bater de frio, não nos demorámos nos aquecimentos. Relógios a postos, percurso mais ou menos localizado, e lá seguimos pelo parque florestal acima. Pouco depois, apercebemo-nos de que o PR1 não era por ali, mas começámos bem, com beleza natural logo a abrir. De novo na rota, fomo-nos aproximando da aldeia de Campos, no sopé do Monte Farinha, onde principia a calçada que os peregrinos seguem há séculos. E que bela calçada! Tão bem preservada e de traçado muito agradável, ziguezagueando com declive acessível, com bela vegetação e com as paisagens do vale do Tâmega a revelarem-se gradualmente. Primeira surpresa do dia! É um percurso definitivamente recomendável a todos os públicos. Nem demos pelos mais de 500m que subimos até ao santuário da Senhora da Graça! Lá cima, o frio fez-se sentir novamente, e lá tive de voltar a colocar tudo aquilo que fui despindo ao longo da ascenção.

Depois da pausa para registar os horizontes a 360º, com destaque para o belo manto de nevoeiro que se avistava lá longe sobre Amarante, iríamos agora entrar pelo maciço dentro, para conhecer verdadeiramente esta montanha. Abandonámos o santuário escoltados por uns cãezinhos agitados e voltámos a outra calçada, desta vez a descer, e na vertente norte. Quem diz norte, diz sombra; quem diz sombra num dia tão frio, diz gelo; e quem diz calçada com gelo, diz… grande malho! Mal tínhamos percorrido as primeiras dezenas de metros da calçada e já o Gil aterrava no granito. Ainda não tinha acabado de rebolar e levava com o Mauro em cima! Olhei para trás e não vi o Gil em bom estado. Com dores fortes no braço, ficámos com receio de ter de terminar a aventura por ali. Lá fomos continuando calçada abaixo, desta vez a medo, muito medo, sempre que víamos o brilho do gelo. A singular Pedra Alta, que a natureza ou o sobrenatural assim quiseram deixar, era como que um aviso para os aventureiros mais incautos.

As dores do Gil foram-se dissipando e o sol espreitava de vez em quando por trás da montanha, animando-nos e aquecendo-nos. Hora de voltar a guardar na mochila a roupa em excesso! Com o Alto dos Palhaços e o santuário já bem para trás, a montanha transformava-se. Deixava de ser tão escarpada e dava lugar a belos prados. A paisagem fazia lembrar outras paragens. Alguns garranos pastavam tranquilos, sem nos darem grande atenção. Pouco se mexiam à nossa aproximação. Percebemos que o dono lhes tinha prendido as patas direitas uma à outra, com uma corrente. Infelizmente, uma técnica bem humana. Ah, animais!

Quando deixámos os prados e enquanto descíamos ligeiros um largo estradão, opera-se nova transformação na montanha: desta vez surgiam as colinas bem típicas das serranias de Fafe e Basto. Entre as colinas, alguns vales bem cavados, cada um com o seu ribeirinho a sulcá-lo. Descemos um desses precipícios por um trilho vertiginoso. Já não havia calçada e a confiança estava em cima. Momento de alegre brincadeira até enfrentarmos a encosta do outro lado, desta vez a subir mais suavemente. Pouco depois, encontrávamos o segundo objetivo geodésico da manhã: o alto de Crespo. Sem possibilidade de seguir caminho a partir do talefe, retrocedemos umas centenas de metros e retomámos o trilho para deixarmos a vertente norte da montanha e passarmos para a face voltada para Ribeira de Pena.

Talvez por estarmos agora a levar com os raios de sol de frente, mas também devido ao relevo muito mais suave desta vertente, a paisagem muda novamente. A vegetação é mais dispersa, o solo é mais árido, mas a beleza continua lá. Com a estrada asfaltada não muito longe, optámos por evitá-la e preferimos seguir pelos caminhos de cabras entre a carqueja e o tojo. Uma longa subida em que nos sentimos a trilhar outro mundo. Abrandamos o ritmo e saboreamos. A alma enche-se. Grandes sortudos que somos por vivermos num território como este!

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A longa subida pelas Covas da Raposa

À nossa frente, prefila-se o pesado maciço de Bentozelos – a entrada para o Alvão. Inesperadamente, surge à nossa esquerda um enorme tanque de apoio ao combate aos incêndios. Se estivessem mais 20 graus de temperatura, talvez lá mergulhássemos! Com o Alvão ao fundo, é obrigatório tirar umas fotos para impressionar a audiência com esta piscina do outro mundo! De regresso ao trilho, passamos por uma manada de vacas que raramente devem ver humanos, tal é o medo com que fogem de nós, a várias centenas de metros de distância.

É então que se inicia a descida para mais uma vertente da montanha, desta vez a voltada a sul. E, adivinhem… mais uma transformação! Surge-nos agora muito mais verdura, novamente as escarpas de granito, campos em socalcos encaixados na encosta… Pasmamos com tanta diversidade. Tantas referências a outras montanhas e outros lugares que nos ocorrem em tão pouco espaço! O traçado leva-nos então até uma cancela. Quando desenhei o percurso, sabia que iria provavelmente encontrar um obstáculo deste tipo, mas queria mesmo atravessar aquela propriedade, pois antevia algo de interessante. Uns metros depois, dois póneis e um burrito pastam calmamente as ervas do caminho. Ao contrário das vacas de lá de cima, estão habituados ao contacto com humanos e toleram-nos. Mais um momento Heidi!

Saímos da propriedade antes que viesse o dono com a sua caçadeira e voltámos ao caminho. Esperava-nos agora um estradão até ao alto dos Palhaços, mas decidimos descer em direção a Bezerral, por mais uma calçada centenária. Adrenalina de novo no máximo, apesar dos músculos já não estarem frescos. Depois de seguirmos em direção à extremidade poente da montanha durante cerca de um quilómetro, só nos faltava agora nova subida até perto do santuário. Era quase outra ascensão à Senhora da Graça. Trepámos por mais uma calçada, que deve servir os peregrinos da povação de Vilar de Ferreiros, e, a custo, reconquistámos novamente o cume. Missão cumprida! Que grande fartote de trail running!

Descíamos agora pelos quilómetros finais do PR1, bem menos interessante do que a primeira parte, com muito estradão e asfalto. A entrada em Mondim fez-se tarde, muito além do estimado, mas ninguém se sentiu incomodado com isso. Estas experiências são únicas e, mesmo que cá voltemos em breve, já não será como da primeira vez, neste dia especial de inverno.

O Monte Farinha é muito mais do que a Senhora da Graça. É muito mais do que o cone gigantesco com uma estrada a serpentear pela encosta que avistamos de poente. O Monte Farinha e o seu prolongamento a nordeste têm muitas faces, todas diferentes, todas com a sua impressionante beleza. Diversidade de vegetação, diversidade geológica, diversidade de paisagens e vistas, calçadas centenárias e muito bem preservadas que irrompem de todos os lados… O Monte Farinha contém um património rico e surpreendente que merece explorações demoradas. Da próxima vez que subirem à Senhora da Graça, não se fiquem pelo santuário. Há um mundo maravilhoso lá atrás para descobrir!

Quem quiser atrever-se a viver esta montanha por 35km e 1400m de desnível positivo, pode encontrar o percurso aqui. O álbum completo de fotografias pode ser visto aqui.

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One thought on “A conquista do Monte Farinha

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