Rondámos o Marão, mas nunca o venceremos (I)

Faltavam cinco dias para a Ronda e a meteorologia anunciava o pior. Um dia de chuva forte no Marão invernal só poderia obrigar-nos a adiar o desafio ou então levar-nos a arriscar uma aventura que poderia terminar mal. Os dias iam passando, a ansiedade aumentando e as previsões inseguras agravavam a indecisão: por um lado, sonhava atravessar o agreste Marão num dia frio e ventoso; por outro lado, imaginava o nosso grupo aparecendo nos noticiários da noite como mais um bando de tontos que arriscaram infantilmente uma aventura na montanha. A dois dias do evento, sondei os colegas de loucura e os poucos que responderam mantiveram a indecisão, embora sentisse que estavam determinados em pelo menos tentar! Finalmente, na véspera, a previsão menos pessimista prevaleceu: iríamos ter uma manhã de bonança; a tempestade iria abater-se sobre nós apenas durante a tarde. Decidimos então apostar forte na previsão!

À hora marcada, lá estávamos todos em Gondar, mesmo os que vieram de mais longe, como o Isaac, o primeiro a chegar, ou como o Gil, que nos trouxe a boa notícia de que no Alto de Espinho estavam uns tropicais 6 graus. Queríamos arrancar rapidamente, mas ainda faltava um companheiro, que tinha tido uma “fraqueza” súbita! Lá apareceu ele finalmente, já a madrugada se tinha despedido. Seguiram-se as bocas do costume e a sessão de fotos da partida, pelo cameraman Filipe que se levantou expressamente de madrugada, sem ninguém lhe pedir, para aturar uns aluados! E, sem mais demoras, arrancámos para o contra-relógio. Uma luta sobretudo contra o tempo que levaria a sermos fustigados pela chuva, que ameaçava cinzentona lá longe vinda do Atlântico.

Os primeiros quilómetros fizeram-se ligeiros, subindo calmamente pelo Marancinho, primeiro o Picoto, depois até à capela de São Bento e a sua estalagem. Avistávamos à nossa direita os contornos das cristas do Penedo Ruivo, que esperávamos atravessar ainda secos durante a tarde. À esquerda, o Monte Farinha coberto de névoa e as Serras de Fafe ainda iluminadas pelo sol. Quando deixámos São Bento, sabíamos que tinham terminado as facilidades. À nossa frente erguia-se a “terrível”, um longo corta-fogo retilíneo até ao Outeiro Santo. Mas, como ainda nem 10 km tínhamos feito, a terrível até foi mansinha. O Jorge não fez por menos e subiu-a toda a correr. E nós deixamo-lo saborear o primeiro prémio de montanha do dia. Lá no alto, já acima de 800m de altitude, o vento soprava feroz e obrigava-nos a ir à mochila buscar conforto.

Atiramo-nos divertidos à bela descida até Covelo do Monte, inicialmente por um corte de cascalho e depois por caminhos de cabras. Devido à falha do meu relógio, que insistia em dizer que estávamos a 4km do track, dependíamos agora todos do arquiteto desta Ronda, o António, que conhece aqueles trilhos de cor. Em Covelo, o único café da aldeia mantinha o ar desolador e poeirento, fechado há anos. Parámos então no fontanário para um breve reforço e, depois de atravessarmos o labirinto de ruelas, fomos visitar a capela de Santo António. Deixámos a aldeia por uma velha calçada, desgastada com profundos sulcos de rodados. Fomos passando por vários abrigos de rebanhos de ovelhas e cabras. Um destes abrigos era guardado por cães furiosos e, alguns de nós, já traumatizados de encontros passados, estacaram à espera de um sinal de acalmia. É então que o Urbano, intrépido domador de cães, se aproxima confiante dos bichos e lhes transmite a mensagem apaziguadora que eles queriam sentir.

Esperava-nos agora a penosa subida pela Portela dos Trigais até às minas de Fonte Figueira. Era agora a vez do André brilhar, galgando aquela encosta como se nada fosse. Ainda só tínhamos 16 km nas pernas, mas estas já doíam de tanto escalar. O Gil queixava-se de uma pequena lesão contraída nas últimas semanas, que começava a incomodá-lo. Primeira preocupação séria do dia… No final da subida, alguns achavam que a “terrível” do Outeiro Santo tinha sido mais dura do que esta. Para mim, a última é sempre a mais difícil. Faltava pouco para chegarmos ao Alto da Neve. O António e o Urbano alertavam-nos para o perigo de sairmos do trilho, pois havia buracos das minas por todo o lado. Lá cima, não havia pinta de neve, mas voltávamos a levar com o vento a toda a força e eu rendia-me novamente às luvas e ao gorro.

Íamos agora em direção à Lameira, uma bela zona húmida encaixada a 900m de altitude. Pelo caminho, avistámos as ruínas da “casa da neve”, onde no passado se mantinha de inverno e até bem tarde na primavera o gelo que era depois vendido nos vales. Seguimos por entre o arvoredo até à capela da Senhora da Moreira. O meu relógio tinha finalmente atinado e em boa hora, pois faltava pouco para os nossos sherpas António e Urbano nos deixarem. Da capela, avistava-se o vale de Ansiães e agora mais próximo o perfil do trajeto que iríamos ter de percorrer durante o resto do dia. As nuvens escuras mantinham-se ainda longe, embora o Alto do Marão e a nossa próxima dificuldade – o Portal da Freita – já estivessem cobertos de névoa.

Descemos até ao IP4 e à Pousada de São Gonçalo, onde parámos para um novo reforço. Ficámos à entrada do parque de estacionamento, de onde se sentia já o perfume do almoço em preparação. Já levávamos 4 horas de corrida/escalada. Com tantas paragens para fotografias e reagrupamentos, até estávamos a avançar bem! O grupo estava forte e sentia-se o ânimo enquanto se mastigavam umas sandes de presunto. Mas quando retomámos a corrida em direção à fábrica das Águas do Marão, as pernas estavam pesadas. Demasiado pesadas para tão pouca distância. Efeitos do frio e de paragens frequentes! Felizmente, estávamos quase a concluir a longa série de subidas e ainda nem uma pinga tinha caído do céu. Mas faltava a mãe de todas as escaladas desta Ronda: a ascensão ao Portal da Freita.

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Reforço na Pousada de São Gonçalo

Depois de corrermos por cima da entrada do futuro túnel do Marão, tínhamos agora mais um interminável corta-fogo. Ninguém queria agora fugir para o prémio da montanha. Subíamos a par, enganando as dores com a conversa. Aquilo que lá em baixo parecia uma monstruosidade de subida até nem custou muito. Sem darmos por ela, chegámos à velha e desgastada estrada de asfalto de acesso ao Alto do Marão. Passámos por um grupo de ciclistas que deviam estar a sentir menos as pernas do que nós e continuámos a trote até chegar ao caminho de acesso à Freita. O Jorge voltou a destacar-se. A camisola azul parecia definitivamente dele. Mas esta subida, apesar de curta, era mais exposta ao vento e ao frio, e foi a mais custosa de todas. Quase a chegar ao topo, adensava-se o nevoeiro. Estávamos a mais de 1300 metros de altitude. O frio era insuportável e não podíamos ficar parados muito tempo. Surgiu então por entre a névoa o Frederico e o pequeno Simão, como salvadores, munidos de um providencial saco de batatas fritas e de um garrafão de água. Seria a última oportunidade de reforçar as nossas provisões e esquecemos por uns minutos o tempo glacial para nos deliciarmos com aquelas batatinhas! Mas deixámos ficar algumas para o Simão, coitado, que nos via a devorá-las sem se queixar! Já passava há muito das 12 horas e era chegado o momento de nos despedirmos do António e do Urbano que, depois do empeno dos Abutres da semana anterior, ainda fizeram uma perninha na Ronda. Subimos a custo até ao cume da Freita e conseguimos manter-nos por uns momentos agarrados ao chão e sorridentes para uma foto de grupo junto às ruínas da capela.

Estava metade do percurso feito. O grupo reduzia-se agora a seis elementos. O rigor da montanha estava no auge, mas a chuva continuava ausente. A sorte estava connosco. Se conseguíssemos subir à Senhora da Serra e iniciar a descida sem precipitação, estaríamos próximos de alcançar o objetivo.

[veja a segunda parte do relato aqui]

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One thought on “Rondámos o Marão, mas nunca o venceremos (I)

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