Rondámos o Marão, mas nunca o venceremos (II)

[veja a primeira parte deste relato aqui]

Depois de passarmos a manhã toda a trepar por vários flancos do Marão, estávamos quase a atingir a cota mais alta. Apesar da nebulosidade, ainda tínhamos conseguido, durante boa parte do tempo, desfrutar de algumas vistas para as belas paisagens maronesas. No entanto, agora que subíamos ao ponto ideal para panorâmicas da Serra, o denso nevoeiro envolvia-nos e apenas conseguíamos avistar até algumas dezenas de metros. Seguíamos eu, André, Gil, Isaac, e Jorge, acompanhados pelo Frederico, que tinha astuciosamente evitado o empeno da manhã para se juntar a nós quando já não tínhamos grandes forças para correrias. Mas essa vantagem também jogou a nosso favor, pois ele ajudou a puxar pelo comboio monte fora. Ele e a locomotiva André, que continuava a correr ao mesmo ritmo dos quilómetros iniciais.

Seguimos pelo estradão de acesso ao Alto do Marão. À chegada, tivemos dificuldade em localizar imediatamente o vértice geodésico e a capela da Senhora da Serra, no meio da bruma cerrada e de tantas construções. Ficámos com a impressão que tudo o que é empresa de comunicações em Portugal possui um naco de território naquele alto. Antes de navegar pelo labirinto de betão, decidimos parar para um breve almoço, abrigados como podíamos do vento. Falávamos pouco. Não chovia, mas pressentíamos que não devia faltar muito para começar a cair. Custou-nos levantar e enfrentar novamente a invernia, mas lá nos animamos para fazer mais uma foto de grupo junto ao vértice geodésico. Depois, escapulimo-nos monte abaixo, passando pela capela, novamente em direção ao estradão.

Sem os guias da manhã e ainda desconfiado da precisão do relógio, hesitei em seguir o trajeto assinalado. Por momentos, confundi o maciço dos Seixinhos com as colinas do Penedo Ruivo. Um rápido telefonema ao António resolvou o problema. O Jorge confirmava no seu telemóvel que estávamos no caminho certo. Dissipadas as dúvidas, atirámo-nos cascalho abaixo até ao caminho de acesso ao Penedo Ruivo. Os quilómetros seguintes foram calmos, correndo a um ritmo moderado, sempre puxados pelo André e Frederico. Serpenteávamos pelas cristas da Serra, perdendo gradualmente altitude. A paisagem mudava de feições, mais suave, mais árida, e mais decorada por penedos de diversos tamanhos. Ali começa uma outra secção do Marão, mais velha, prima direita da Aboboreira.

Saímos um pouco do estradão para visitar o vértice do Penedo Ruivo e logo regressámos à cadência anterior, agora descendo por entre as turbinas eólicas em direção à Chorida. O Gil continuava a lutar contra a sua lesão, decidido em levá-la até ao fim, custasse o que custasse. Os restantes corriam ao ritmo que mais lhes convinha. Por vezes, sentiam-se uns pingos de água. Seria imaginação? A verdade é que as nuvens estavam cada vez mais com aquele aspeto denso que antecede uma descarga. Quando cantávamos de alegria a ultrapassagem da maratona, víamos à nossa esquerda o vértice da Chorida. Nem valia a pena lá subir, tal seria a escalada perigosa que teríamos de fazer. Mais valia mantermo-nos em linha e continuar a descer o mais rápido possível.

Assim chegámos rapidamente à cota dos 900m, no ponto em que o percurso vira para norte. Psicologicamente, esta viragem marca um momento importante, pois estamos com a sensação de que dificilmente algo nos parará. No entanto, é neste momento que a chuva começa a cair. Primeiro sentimos umas gotas grossas dispersas e rapidamente levamos com uma torrente gelada, puxada a vento. Creio que quase todos fomos surpreendidos pelos estragos que esta chuva poderia ainda causar-nos. Com o corpo a produzir menos calor e os músculos a fraquejar, quaisquer paragens agravavam o nosso estado. A descida ao vale da Ribeira do Jogal, que separa as aldeias de Carneiro e Murgido, permitiu-nos distrair um pouco da monotonia dos estradões das cristas, mas por pouco tempo. Um quilómetro acima, estávamos novamente na crista, agora em direção à capela de Nossa Senhora de Corvachã e ao vértice do Mirador.

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No vale da Ribeira do Jogal

À chegada à capela, a chuva antigia maior intensidade e em boa hora pudemos abrigar-nos num cantinho de um edifício de apoio. Oportunidade para atestar bidões numa pequena fonte e para despachar os últimos sólidos que ainda tínhamos na mochila. À vez, íamos rodando pelo cantinho, tentando distribuir equitativamente a exposição à chuva, pois não cabíamos todos no espaço seco. Mas a sensação de frio aumentava a cada minuto que ficávamos parados. Ninguém estava com vontade para fotos e arrancámos logo que recompusemos as mochilas. O vértice do Mirador, a poucos metros da capela, ficou a ver-nos passar, sem lhe termos dado o merecido destaque. Antes de iniciarmos a descida para Bustelo, surpreendemos um casal entretido a embaciar os vidros do carro. Não pudemos fazer nada para evitar que nos vissem. Estávamos mais embaraçados do que eles e obviamente que não quisemos interromper qualquer momento de euforia e tentámos passar pelo carro o mais despercebidos possível. Oxalá tenham continuado felizes a cavalgada. A nossa ia penosa pelo monte abaixo.

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Vértice do Mirador

À chegada a Bustelo, os nossos radares procuravam qualquer sinal do café da aldeia. A nossa necessidade primária era agora uma bebida quente. Não ligámos à rudeza do trato e do serviço, sem quaisquer considerações de higiene. Para desapontamento meu, a cevada foi servida numa chávena de café. Soube a muito pouco. Melhor que nada, mas… Ainda tentei pedir um cheirinho de bagaço, recordando a experiência da GR43 de Fafe, mas o dono do café tardava em voltar para o balcão. Não havia tempo a perder e deixámos rapidamente o café em direção a Gondar.

Os quilómetros finais têm pouca história, embora se destaque a passagem pela bela aldeia de Ovelhinha, a merecer uma nova visita com mais e melhor tempo. A subida até ao Mosteiro de Gondar fez-se lenta mas animadamente. Tínhamos conseguido o objetivo, conscientes da sorte que nos acompanhou durante todo o percurso. Não podíamos queixar-nos de nada. O frio e a dureza do percurso faziam parte obrigatória da experiência e todos, no fundo, queríamos viver algo assim no Marão. Não atravessámos toda a Serra, ficando alguns pontos emblemáticos por visitar (Seixinhos, Fraga da Ermida, Pena Suar, …), mas ficámos com uma amostra representativa da beleza e dureza do Marão e com uma certeza: rondámos o Marão mas nunca o venceremos, pois a montanha é sempre mais forte do que nós, seja qual for a época do ano.

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De regresso ao Mosteiro de Gondar

Infelizmente, não pudemos despedir-nos dos colegas de aventura convenientemente, pois a chuva gelada e persistente obrigou-nos a recolher rapidamente aos carros. Mas fica aqui a devida homenagem individual aos meus quatro colegas finishers desta Ronda do Marão, sem esquecer a devida vénia a António «arquiteto do Marão» Mendes, Frederico Pinto e Urbano Ribeiro, por todo o apoio dado ao longo do percurso, e ainda ao Pedro Lopes que ficou todo o dia de prevenção com o seu jipe, não fosse algo correr mal. E então os novos membros do Clube de Caçadores de Cumes Sagrados são:

  • André Cunha – Neste tipo de desafios, em que as dificuldades podem atingir extremos, é fundamental os participantes serem solidários e evitarem qualquer centelha de discórdia. O André encarna muito bem esta atitude: sempre bem disposto, positivo, orientado aos objetivos, só pensava em papar quilómetros e trepar paredes e puxou pelo grupo durante grande parte do trajeto. Talvez também porque temia que o assadinho que o esperava em casa se estragasse…
  • Gil Oliveira – Já tinha no palmarés a Ronda de Lapinha-Montelongo, feita no dia mais quente de 2015. Foi o meu colega de provação nesse dia infernal e, com a sua persistência e companheirismo, ajudou-me a vencer um desafio que por vários momentos julguei intransponível. Nesta Ronda do Marão, o seu carácter persistente voltou a evidenciar-se, arrastando por dezenas de quilómetros uma incómoda lesão, sem reduzir o ritmo de corrida. Um grande guerreiro!
  • Isaac Costa – Um verdadeiro aventureiro, não só pela determinação desde cedo em participar nesta Ronda, mas por ter seguido um grupo de desconhecidos num desafio tudo menos simpático, durante um dia inteiro. Não é para qualquer um! Fez esta Ronda certamente com o mesmo espírito com que já venceu outros desafios ainda maiores, sem pressas, com determinação e a certeza de que, passada a passada, haveria de chegar ao fim! E não pode ser de outra forma.
  • Jorge Figueiredo – O padrinho da Ronda dos Cumes Sagrados deu-me uma grande satisfação ao anunciar que iria participar nesta Ronda. O Jorge, grande desportista e aventureiro, um dos que já praticava trail running quando ainda era uma modalidade para maluquinhos, despertou em 2011 a minha curiosidade por este tipo de corrida e ajudou-me a preparar para enfrentar as minhas primeiras montanhas. Na Ronda do Marão, foi, como sempre, um exemplo de preparação: levou equipamento para ele e para outros e estava mentalmente pronto para o que desse e viesse. Se a coisa desse para o torto, seria certamente o último a bater a bota!

Um grande obrigado a todos os Rondeiros e a todos os que têm acompanhado estas aventuras e… até à Ronda de Basto!

Podem consultar o track registado nesta ronda aqui e o álbum fotográfico completo aqui e aqui.

 

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4 thoughts on “Rondámos o Marão, mas nunca o venceremos (II)

  1. Pingback: Rondámos o Marão, mas nunca o venceremos (I) | Ronda dos Cumes Sagrados

  2. Hélder, és o Pai das Rondas, um conceito de Trail, que explora as melhores qualidades do Trail: desafio, superação, aventura, companheirismo e passeio.
    Na minha opinião não há trail mais trail do que as tuas Rondas!
    Os teus méritos vão muito além da paternidade do conceito de Ronda.
    A forma como as tens organizado é absolutamente irrepreensível.
    Agendamento com antecedência, que nos permite organizar a vida e os treinos para as poder fazer.
    A informação sobre a ronda cobre os mais variados aspetos, o percurso, a história, os lugares.
    Depois passas toda a Ronda a tirar fotografias, a indicar o caminho, e sem fazer ninguém esperar por isso. Estás forte também a correr.
    No final ainda nos ofereces estes relatos quase épicos, em que nos tratas como heróis.
    Obrigado Hélder, és GRANDE!
    Se tivesse que te pagar por isto, não teria dinheiro.

    Obrigado pelo título de Padrinho desta Ronda do Marão, foi um prazer e uma honra.
    Tenho grande orgulho em ter despertado o enorme trailer que há em ti!

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  3. Caro Hélder, muito nos engrandeces com as tuas apreciações a nosso respeito. Mas enriquece-nos ainda mais a experiência que nos proporcionaste.
    Como não te incluíste, por modéstia, na lista dos novos membros do Clube dos Caçadores dos Cumes Sagrados, tomo a liberdade para o fazer:
    – Hélder Pinto – O líder. Um amante da natureza, com um conceito de trail muito particular, que transporta para os desafios que organiza uma determinação contagiante. Preparou ao pormenor esta Ronda, acrescentando à dose de loucura, necessária para esta aventura, a lucidez suficiente para nos lembrar, sempre, que é a serra que manda. Foi, como sempre, um companheiro de corrida preocupado e atento com os demais camaradas, sensível aos seus sinais e aos sinais da natureza. Após uma primeira parte da Ronda com sensações menos boas, correu a segunda parte em grande nível, evidenciando uma excelente forma. Finaliza, depois, esta aventuras com narrativas deslumbrantes.
    Foi, pois, um prazer e uma honra ter partilhado estes trilhos contigo e com os demais Rondeiros.
    Até à Ronda de Basto!

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