Uma via sacra na primeira lua cheia da Primavera

Partilhamos o e-mail enviado pelo Miguel Bandeira Duarte, descrevendo a sua aventura de 63 km pelos montes de Guimarães e Braga, numa espécie de via sacra de celebração do início de Primavera, na primeira lua cheia da estação. Foi neste dia que, há um par de milhar de anos, um tal de Jesus galgou um monte antes do sacrifício. O Miguel galgou muitos mais mas preferiu continuar entre nós. Esperemos que o relato sirva de inspiração para mais aventuras trailo-sacras!

Caro Helder

Eis o relato do treino longo que realizei.

Há muito que colocas na natureza estes traçados que simbolicamente designas por ronda. Parece inequívoco dado o seu carácter circular, no entanto a escolha dos locais por onde passa parece enunciar que o acto de correr é investido de referências que ultrapassam o rigor da geometria da informação no terreno. Global positioning system referencia também a experiência egocêntrica (centrada no corredor) a qual, na sua subjetividade, permite o prazer e o desprazer, o gozo da corrida. Quiçá uma sensibilidade treinada sobre as forças telúricas nos permitisse deixar de lado os instrumentos de medida, no entanto somos hoje demasiado eficientes.

Há muito que pretendia continuar a conhecer as elevações entre Guimarães e Braga, que emolduram o Ave. Realizei alguns reconhecimentos, sem sistematização, entre treinos e provas, os quais utilizei mais para encontrar referências visuais do que para voltar a percorrer os trilhos. Sou adepto de passar poucas vezes pelo mesmo caminho por isso o traçado preparatório pelo Google privilegiava novos caminhos nem sempre os mais diretos. Está na altura de dizer que a ideia que antecedeu a corrida não foi propriamente a de uma ronda mas a de passar boa parte de um dia a correr. Isto é sair de casa bem cedo e voltar quando estivesse cansado. Claro que, com outras tarefas já marcadas para o dia, havia um tempo a cumprir de aproximadamente 10 horas. Assim, sair de Guimarães em direção ao Sameiro e depois voltar cumpria também alguns requisitos de quilometragem e segurança, nomeadamente rede de telemóvel, pontos de hidratação e a proximidade de outros meios de auxílio caso algo corresse mal. Como sabes pretendia percorrer os caminhos da primeira ronda de Fafe, porém a intenção de correr mesmo sem companheiros, implicou a alteração do percurso e das condições (assim, felizmente, mantenho a possibilidade de a realizar).

Saí do Salgueiral pelas 5:56, já nascia o dia, em direção à Veiga de Creixomil. A caminho das Ruas da Agrela e da Ressa a “primeira Lua cheia da Primavera” elevada à minha frente. Bom tempo, boa temperatura. Na mochila uma sandes, barritas, magnésio, 1100 ml de líquidos, luz química, manta térmica, frontal, apito e muita vontade para correr. A ideia seria passar na ponte sobre o Ave em Brito que me posicionava para a subida à capela de S. Miguel em Vermil. Da Ressa para Correlos e daí para a Ameixoeira rapidamente cheguei ao Ave para enfrentar alguns metros de asfalto. É difícil atravessar algumas zonas de ligação sempre por terra, por isso procurei minorar por ruas secundárias como Valdante. Por aí ainda tentei fazer parte do monte mas deparei-me com um portão de estaleiro. Seguindo a João Paulo II, iniciei ao km 10 a subida ao S. Miguel [foto 01], 200 metros de elevação com trilhos bastante inclinados e desafiantes. Depressa percebi o desfasamento entre o Google e a realidade, porém os trilhos mais marcados conduziram-me ao topo: um cume bastante aprazível com o marco do Anjo (386m) o qual fotografei e te dediquei [foto 02]. A descida aos 195 metros é rápida e sobre terra fofa bastante confortável. Apesar de tantos eucaliptos ficou a impressão de um monte com grande potencial para treinos curtos mas intensos. De novo a transição para passar por baixo da A11 em Figueiredo e ascender à Sra. da Saúde. Em zona familiar passei bem perto do Outinho (495m), não sem antes entrar, por engano, por um trilho cerrado de tojos. Trata-se de uma zona com rasgos novos não documentados e outros já esquecidos. Do Outinho a Sta. Marta (564m), com um pequeno engano encontro uma descida rápida em ‘single track’, depois atravesso a N101 (278m) na Costa do Gaio. Cheguei à nacional com 3 horas de caminho em 22km percorridos, tudo muito tranquilo! A subida a Sta. Marta são 4 km com forte inclinação cujo atrativo é a bem conhecida parte final. Uma vez no topo a vista da Sra. da Assunção sobre o vale é extremamente agradável. Retomei o caminho, o Sameiro (569m) encontrava-se perto e faria uma pausa mais longa para comer e descansar. A descida pelas traseiras da Falperra é espetacular, tão bruta quanto a subida da N585 ao planalto verdejante já próximo da Sra. do Sameiro [foto 03].

 

Passaram 5 horas e 31km desde Guimarães. Metade do caminho estava percorrido, talvez o mais familiar, sem preocupações de médias e mais importante sem dores. O escadório é monumental [foto 04], a vista sobre Braga assoberbante. Repus as reservas de água e tomei um café, seguindo o caminho na direção das proximidades da Citânia de Briteiros. O percurso tomado não foi o mais curto, o afastamento da estrada permitiu aproveitar um declive suave para percorrer um trilho seco, sem enganos, a bom ritmo, no caminho da Capela de Sto. António [foto 05] nas proximidades de Soutelo. Com um enquadramento aprazível é um ponto fresco com água ideal para recuperar, que bem me soube! Daí até Portuguediz foi um percurso completamente desconhecido, que me deu a boa sensação de não fazer a mínima ideia de onde estava. Neste caso, a segurança do trilho no relógio é fundamental para a perfeita fruição. Para quem ainda tem pernas, o divertimento espreita num percurso variado de piso e paisagem [foto 06]. Adiante, sem prestar atenção, coloquei o trilho a atravessar o Febras, com água acima da cintura, alcançando o lageado na direção de Donim na N309 [foto 07].

Estavam percorridos 40 km, os próximos 5 seriam uma descida animada não fosse o abandono em que se encontra. No final vi marcas de PR ficando sem saber se toda a descida faria parte, mas é um trilho que merece ser percorrido com frequência porque desaparecerá nos próximos anos [foto 08]. Em Santo Emilião notei alguns sinais de cansaço, a temperatura estava quente, tomei uma cola no café e segui à ponte para atravessar de novo o Ave, 30 metros mais alto, para Souto Sta. Maria. A passada estava pesada e o asfalto tardava em ser substituído. Da Rua do Sobreiro tomo, pelo monte, a direção da Gonça. A subida começa a ganhar inclinação em poucos metros, é dura, com pedra solta e restos de corte de eucalipto. A magnífica vista sobre o vale do Ave e todo o percorrido durante o dia [foto 09] aligeira a fadiga. Apesar das dificuldades físicas a satisfação é evidente e motivadora. No sopé do aterro, um campo de cultivo abandonado baralha as dicas do Google, vejo-me rodeado de ortigas e silvas e sem referências para seguir caminho. Foi um momento difícil, se tivesse encontrado o caminho teria atalhado 4km em apenas 100m. Voltei atrás, encontrei habitações e segui a estrada até encontrar o trilho que liga pelos cumes Gonça a Fermentões. Estava nos 50, nos últimos kms do dia, faltariam mais 13. Escolhi o trajeto mais direto num compromisso com o tempo que dispunha. Nesta altura cresceu a sensação que deveria ter realizado uma alimentação mais substancial, precisava de mais energia e o cansaço surgia com facilidade. Felizmente, os últimos kms são a descer e o facto de ser um percurso familiar tornou-o menos penoso. De novo na veiga, estava no ponto de partida 10h e 20min depois.

08_Donim

[8] Donim

Entre os aspetos mais positivos deste percurso estão a proximidade de casa, a variedade de pisos e paisagens, o acumulado de 4200m, pontos de água e passagem por pontos de elevado interesse, a gestão de esforço e um novo ‘record’ pessoal. Entre o menos positivo está a presença significativa do asfalto nas transições e as minhas dúvidas na interpretação das informações do relógio.

09_vale_ave

[9] Vale do Ave

Uma nota especial para o apoio nos bastidores, sei que correram tanto quanto eu: a Micaela, o Mauro e Tu.

Terei muito gosto em tornar a realizá-lo como treino de longa distância ou a utilizá-lo como base para mais uns tantos desafios! Estás convidado!

Um abraço, boas corridas, Miguel

Para quem estiver interessado em repetir a façanha, partilhamos o track cedido pelo Miguel.

 

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