A Ronda do Marão contra os relógios

NOTA: Este é um relato produzido por Fernando Santos e Isaac Costa, baseado na experiência de ambos na Ronda do Marão realizada a 18 de abril de 2016.

Bip..Bip..Bip… cinco da manhã toca o telemóvel. Hora de levantar para um dia de aventura no Marão! Rapidamente me levanto e vou tomar o pequeno almoço, flocos de aveia com passas e nozes. A mochila já está pronta com todo o material para enfrentar os quase 57km e 2400d+ da Ronda do Marão, em autonomia total. 5:30 e arranco para casa do Isaac. Este já está à minha espera e rapidamente metemo-nos a caminho, sigaaaa prá montanha.

blog1

Vista sobre o Marão

 

Quando li pela primeira vez algo sobre a Ronda dos Cumes Sagrados e Ronda do Marão, rapidamente esta ficou no meu imaginário. O Marão afinal é aqui tão perto, moro perto de Espinho, e está perfeitamente ao alcance de qualquer doido por trail dar lá um salto para fazer uma perninha. No fundo o que me atraiu para esta aventura foi também a ligação à historia da região e a ligação dos cumes… enfim a envolvência dada a este tipo de desafio. Para dizer a verdade nem me tinha apercebido do contra-relógio. Apenas queria voltar ao Marão pois tenho uma dívida ainda por pagar com essa montanha… Mas isso são outros 500! Além disso tenho como objectivo deste ano o Grand Raid dos Pirenéus e tenho de treinar para ele.

A minha ideia inicial era organizar um dia de trail com a minha equipa ( Núcleo de Montanha de Espinho), mas o pessoal achou muitos kms e aos fins de semana para mim é complicado. Tento o mais possível conciliar os treinos com a vida familiar e laboral, e como trabalho por turnos e a minha esposa também trabalha ao fim-de-semana, além das actividades dos Putos, fica difícil. Assim desde que o meu amigo e colega de trabalho Isaac veio trabalhar para o meu turno, ambos combinamos começar a fazer uns treinos juntos, e foi ele que escolhi para me acompanhar nesta Ronda. Que me desculpem outros amigos de “combate “ mas é complicado estar a convidar muitas pessoas, por causa de horários e marcar dias, é complicado.

13072986_929107963854483_827730209_o

Prontos para a partida

Chegámos a Gondar às 7:00h, mas, e encontrar o Mosteiro… Valeram-nos as novas tecnologias pois o dito aparece no Meo Drive. A manhã estava fresca, cerca de cinco graus com algum vento, mas as previsões eram bastante animadoras, um dia de céu quase sem nuvens neste abril é como agulha em palheiro. Tinha planeado a Ronda para que nada falhasse pois já sei que ir para a montanha em autonomia total e sem conhecer o terreno não é brincadeira. O Hélder Pinto autor do blog dos Cumes Sagrados, deu-me várias dicas e foi muito prestável … obrigado Hélder! Tinha sacado o track para o meu relógio, o A-rival, mas o plano A era seguir o track pelo Garmin do Isaac, pois eu nunca tinha utilizado o relógio a seguir rotas, aliás, raramente utilizo o relógio, só quando vou para provas ou em treinos longos. Este tem a função trackbak que pode ser muito útil se nos perdermos, serve também como orientação pois podemos a qualquer momento ver o mapa do percurso já feito, e ter uma noção da nossa localização. Entretanto como o Isaac comprou a mais recente versão da Garmim, esse seria o plano B, pois ele ficou de levar os dois relógios. Entretanto quando chegamos ao mosteiro de Gondar este diz-me que não conseguiu passar o track para o Garmin antigo. Plano A foi ao ar! E quando liga o outro Garmin este mostrava o percurso sem a ligação final… faltavam cerca de 9km ao percurso… Bonito. Restava-nos o plano C… o meu A-rival.

O inicio foi complicado pois andámos uns 10 minutos para conseguirmos perceber qual o rumo a seguir … e isto era só o principio. O track aparecia sempre ao lado do caminho e nas bifurcações de caminhos tínhamos de andar uns 50 metros para saber se era o trilho correto. O inicio foi complicado com muitas paragens e alguns enganos. A primeira parte da Ronda era quase sempre a subir, e assim o frio rapidamente desapareceu ….mas não por muito tempo.

13073044_929108933854386_101490116_o

Alto do Picoto

Atingimos por fim o primeiro cume, o alto do Picoto, km 4, e começámos a ganhar alento! Seguimos sempre a subir para o Outeiro Santo a 860m, desde o mosteiro já iam 660 de desnível positivo. Mas não estávamos a aquecer! Começava a soprar um vento gelado com rajadas que nos faziam abanar. O Isaac começava a arrefecer e vestiu o impermeável, este vento manteve-se quase todo o percurso, e em alguns locais quase nos atirava para os lados. Curiosamente no ponto mais alto, lá em cima não estava muito forte. Durante essa parte do trajecto recebo uma chamada do Hélder Pinto. Já tinha tentado ligar-lhe informando-o do início desta aventura, mas sem sucesso. Este deu-me mais algumas dicas, e desejou-nos sorte para a nossa viagem… obrigado pela disponibilidade demonstrada!

13023722_929108337187779_982378234_n

Alto da Neve

Chegados ao alto da Neve, não havia neve, heheh mas o vento soprava terrivelmente forte. Aproveitámos o marco geodésico para nos abrigarmos e comer alguma coisa, mas tínhamos de arrancar pois o frio começava a fazer mossa. As paisagens durante esta subida eram soberbas, com vista para o Alvão e Srª da Graça.

13046200_929108833854396_530562761_n

Vista para Senhora da Graça e Alvão

 

A partir do alto da Neve eu sabia que até ao próximo cume faltavam apenas três km, pois levava comigo um pequeno croquis … nisto de andar em sítios que não conheça não gosto de facilitar. Mas mesmo assim foi aqui que metemos água a rodos. O relógio do Isaac ia a ler a 800 m e o meu eu ia alternando entre os 10 e os 100 metros e às vezes afastava mais para ver o percurso completo. O problema é que nessa parte do trajecto precorremos um caminho que nos relógios dava a leitura sempre ao lado, e como não vimos bifuracação nenhuma continuamos a correr e distraídos não nos aprecebemos que o track fazia uma saída à direita, retornando depois quase ao mesmo ponto.

Aqui fizemos cerca de 2 a 2,5km a mais e quando depois de muitas dúvidas finalmente vimos lá atrás a Srª de Moreira, cume 4, nem queriamos acreditar! Tínhamos de lá ir! Estavamos ali para fazer a Ronda, o cronómetro era meramente acesório! Mais 2 a 2,5km para trás foram quatro ou 5 a mais só nesse engano. Não fosse o meu croquis e tínhamos falhado a Ronda… e isso sim tinha sido muito mau!

croquis

O croquis

Sigaaa que o caminho é em frente!

E continuava a subir, primeiro quase em recta até à pousada de São Gonçalo e depois a subir até ao alto de Freitas a 1347m. Aqui pairavam algumas nuvens que estacionaram todo o dia no cume do Marão e não mais de lá saíram. Curiosamente o vento aqui em cima era bastante menos intenso. Fantástico o Alto de Freitas. Acho fascinantes estas fortificações no topo dos montes, verdadeiros arquivos da historia dos nossos antepassados e de como estes se defendiam de ataques inimigos. Adoro!

freitas

Portal da Freita

Daqui descemos um pouco para voltarmos a subir, desta feita até ao cume mais elevado da nossa Ronda. As pernas já começavam a ressentir-se de tanta subida, e eu ia incentivando o Isaac dizendo-lhe …. – a seguir é sempre a descer ….. o pior é que a descer também dói. Depois da Srª da Serra a 1416m realmente foi muita descida, mas antes andamos de novo à nora a tentar encontrar o caminho correcto.

Faltavam apenas três cumes para terminar a Ronda, mas ainda muitos kms. Um dos pontos desta Ronda que não gostei muito, foi ter bastantes partes de estradão e estrada principalmente nos kms finais. Sei que é difícil arranjar alternativas, e se fossem trilhos a leitura pelo relógio seria muito mais difícil.

As descidas não facilitaram muito. O Isaac tinha feito a Geira a abrir há apenas uma semana e começava a ressentir-se a sério do acumular de km e desnível. Conseguia motivá-lo dizendo-lhe:  – Treino para a Ultra Pirenéus, a caminho dos Pirenéus, ainda consegues correr mais 50km …. Heheheh

O pior foi que durante uma descida mais pronunciada voltamos a sair do track, e aí metemos, meti, mais água . Não quisemos voltar a subir aquilo tudo e metemos a corta mato. Heheheheheheheh sem tojo não metia piada, aliás, quem me conhece destas andanças sabe que para ir comigo tem de levar sempre perneiras. Por acaso não levamos e fez falta. Mais meia hora a traçar tojo da nossa altura, agora sim, acabar em menos de 9:22h recorde da Ronda estava praticamente fora de questão! Paciência! O pior é que o raio do caminho nunca mais aparecia. O desvio não foi grande, mas perdemos muito tempo! Não me lembro bem se este lapso foi entre o alto do Penedo Ruivo e a Chorida, ou entre esta e o Alto do Mirador …. Mas pouco importa!

Durante este trajecto tivemos também um encontro imediato de 1ª grau com dois cavalos que desciam a galope um caminho em terra. Não sei se estariam perdidos ou se fugiram, mas quando nos viram travaram a fundo e ficaram no caminho a olhar para nós.

13015017_929108173854462_422175754_n

Encontro imediato

Ainda perguntei ao Isaac se sabia montar …. Mas ele não estava muito receptivo!

A caminho de Gondar ainda pensámos que chegaríamos a tempo de alcançar o recorde apesar de todas as peripécias e enganos. Apareceu-os uma tabuleta “Gondar “ 3km ainda não tínhamos 9:00h e metemos pernas ao caminho. Chegados a Gondar perguntamos a uns camponeses onde era o Mosteiro. Azar! Era do outro lado da Freguesia e segundo estes a uns quatro km . Aí a moral de tentar bater o tempo desmoronou completamente e fomos lentamente, muitas vezes a caminhar até ao fim do percurso.

Valeu a pena! Percurso fantástico, e aventura fantástica!

Revelou-se muito difícil “navegar” pelo relógio principalmente a correr, mas valeu muito a pena, e aprendi muito. Valeu também pelo treino e pelo fantástico Marão e arredores. No fim foram 64.22km e 3220 de desnível positivo pelo Garmin do Isaac, e 63.79km e 2386 de desnível positivo no meu A-rival! Cerca de 6 ou 7 km a mais e muitas paragens e desvios de rota. O Garmin é muito mais preciso a nível de medição de desnível pois tem altímetro e o A-rival não. Nesse ponto já tinha reparado na imprecisão do meu relógio. Outro dos pontos fracos é que traça linhas rectas entre pontos, o que no terreno dificulta a leitura em zona de curva, pois pensamos sempre que estamos a sair da rota.

marao3

Parabéns ao Helder Pinto e amigos por esta iniciativa. Espero ter ajudado a difundir a Ronda e o seu Blog assim como outras Rondas que se avizinham. Excelente iniciativa!

Voltarei ao Marão certamente, e quem sabe se a esta Ronda, desta vez sim para o contra relógio.

Saudações Trailianas ;D

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s