Roteiro da Ronda de Basto

Após 10 meses de reconhecimentos, em que contámos com a preciosa colaboração de vários amigos, é chegado o momento de desvendar o resultado dessas explorações. A Ronda de Basto será provavelmente o percurso mais exigente até hoje, não só pela distância, mas também pelo perfil altimétrico, muito irregular e com elevado desnível positivo. A região de Basto caracteriza-se por vales profundos e serras de altitude geralmente acima dos 600/700 metros. Além disso, é atravessada pelo caudaloso rio Tâmega, onde as travessias viáveis não abundam. Portanto, com todas estas condicionantes e sendo a Ronda um percurso circular, com requisitos geodésicos e culturais particulares e que evita ao máximo zonas urbanizadas, conseguimos um trajeto cheio de pontos de interesse mas naturalmente duro.

A partida/chegada

Mondim de Basto e o Monte Farinha (F. Azevedo)

Mondim de Basto e o Monte Farinha (F. Azevedo)

Cada rondeiro escolherá o ponto de partida que mais lhe convier. No entanto, a vila de Mondim de Basto afigura-se como sendo o local ideal para iniciar e terminar um desafio desta natureza. Acessos, estacionamento, e as comodidades da civilização à chegada são importantes. O largo Adriano Pinto Coelho, perto dos Paços do Concelho e do Parque Florestal, é a proposta para o local de partida. É aqui que tem inicio o PR1 – Caminhos da Senhora da Graça, que servirá de base aos primeiros kms da Ronda. Ao longe, poderemos avistar a primeira dificuldade, o majestoso Monte Farinha. Mas nada de receios, pois é melhor subi-lo no início do que mais tarde!

Senhora da Graça (km 6)

A conquista da Senhora da Graça

A parte final da subida

Os primeiros 2 kms da Ronda atravessam o Parque Florestal e depois sobem gradualmente, passando pelos lugares de Serra e Campos. É um curto aquecimento para a enorme subida ao Alto da Senhora da Graça, o ponto mais alto da Ronda, logo a abrir! Esta subida de mais de 600m em cerca de 3km deve ser respeitada e convém ser feita calmamente, por duas razões: a bela calçada merece ser apreciada até ao topo e… só faltam 80 kms para o fim! Trata-se de um caminho de peregrinação, mantido ao longo de séculos, e ainda em muito bom estado, ladeado por vegetação diversa. Um regalo para a vista, sobretudo à medida que vamos ganhando altitude, com o vale do Tâmega por trás de nós. Tome-se o tempo que for necessário para gozar deste privilégio, sobretudo quando ainda há cabeça e corpo para tal! Chegados aos 961m do topo do Monte Farinha, preste-se homenagem aos peregrinos que ainda sobem o monte a pé, ou às povoações que tiveram a coragem de aqui se instalar no passado (cf. Castro dos Castroeiro e Senhora da Graça). Se já estiver a faltar água, não é má ideia aproveitar o santuário para encher os cantis…

Alto do Crespo (km 13)

Adios, Señorita...

Adios, Señorita…

Tal como relatado no reconhecimento de janeiro, a travessia do maciço do Farinha está repleta de motivos de interesse: a diversidade geológica, de relevo, de vegetação, e de pisos torna estes 7 kms até ao alto do Crespo num divertimento constante. Sentimo-nos viajar por várias montanhas numa só. É uma zona bastante selvagem, onde não será possível encontrar água, a não ser pontualmente em alguns regatos. O alto do Crespo (592m) não oferece grande dificuldade, a não ser o acesso sem qualquer trilho. Tal como muitos cumes desta Ronda, também foi local de assentamento de um antigo povoado. Eram tempos certamente bem difíceis, pois só perante grandes ameaças as pessoas optariam viver em locais tão inóspitos.

Alto de Leiradas (km 26)

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A suave subida até Leiradas

Do Alto do Crespo inicia-se uma longa descida até à passagem sobre o rio Tâmega, na ponte do Arco de Baúlhe. Os primeiros 2 kms dessa descida são muito rápidos, em terreno quase sempre rolante. Na aproximação à ponte, já na aldeia de Fontelas, não há alternativas razoáveis a um troço menos interessante, de pouco mais de 1 km em asfalto. Atravessada a ponte, descemos ao nível do rio e passamos sob aquela em direção a montante, por um trilho marginal. Aqui deixamos o distrito de Vila Real e entramos no de Braga, no concelho de Cabeceiras. Depois de deixarmos o rio, a partir do km 18, iniciamos a subida a Leiradas. É uma subida de 8 km, que se faz gradualmente, quase sempre isolados pelo monte, ao longo de caminhos pouco exigentes, mas descobertos. A única exceção a esta subida é a travessia do belo vale da ribeira de Campelo, onde poderemos se necessário refrescar-nos e gozar de alguma sombra. À chegada a Leiradas, passaremos por um pequeno povoado, onde poderemos encontrar água. Mais acima, teremos o vértice com o mesmo nome, que nos espera no alto dos seus 590m. Podem consultar aqui um álbum com algumas vistas do troço Crespo-Leiradas.

Alto de Cambeses (km 30)

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Vista do alto de Cambeses (foto tontonFredo13)

A partir de Leiradas, começaremos a correr em direção a oeste, para o interior do concelho de Cabeceiras. Desceremos ao vale da ribeira de Asnela, onde poderemos apreciar mais uma típica paisagem de Basto, com velhas calçadas lajeadas e verdes lameiros rodeados de árvores autóctones. Em Asnela, teremos nova oportunidade para abastecer de água, antes de encetar a difícil subida ao alto de Cambeses. Esta subida, além de íngreme, é bastante exposta. Lá cima, a 697m, poderemos avistar um pouco abaixo os remanescentes da atalaia do Outeiro dos Mouros, onde ainda se denotam as antigas muralhas defensivas.

Alto de Abadim (km 36)

De Cambeses a Abadim, percorremos seguramente um dos troços mais bonitos desta Ronda. O vale da ribeira de Rio Douro é bastante cavado, com muita vegetação nas suas encostas, proporcionando muitas sombras e permitindo seguir vários single tracks até ao lugar de Eiró. Aqui, antes e depois da travessia da ribeira, passaremos por uma bela calçada lajeada ainda em muito bom estado. Não esquecer de aproveitar para abastecer de água neste povoado! Depois espera-nos mais uma dura subida, descoberta q.b., até ao alto de Abadim, muito próximo do aeródromo de Cabeceiras. Perto do cume, teremos de atalhar por entre o mato, para evitar fazer uma larga e desnecessária volta. O vídeo abaixo, apesar de ter sido registado num dia de muita chuva, é um bom resumo de muito do que poderão ver nesta parte da Ronda.

Alto da Lapela (km 49)

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Levada da Vibora (foto Basto Radical)

Do alto de Abadim, desceremos até à aldeia ao longo da Levada da Víbora. Será certamente um momento de muita adrenalina e diversão e também uma boa oportunidade para ir refrescando! Depois de Abadim, continuaremos a descer até ao vale do rio Peio (km 40). Aqui teremos de atravessar o rio a vau, razão pela qual se desaconselha realizar esta Ronda no inverno ou em alturas de grande precipitação. Contem com água gélida! Será uma boa oportunidade para uma sessão revigorante de crioterapia, para preparar o corpo para a dureza que se segue.

E o que se segue é a subida ao segundo ponto mais alto desta Ronda, o alto da Lapela (866m). Será uma ascensão de 500m de altitude em cerca de 9 kms. Ao passar pelas aldeias do Queiroal e Casal (capela de Santo António), teremos a última oportunidade de abastecer de água antes de entrar no oeste selvagem de Cabeceiras. Além de não ser fácil, esta parte do percurso atravessa na segunda metade zonas bastante selvagens, onde nem sequer há trilho. A aproximação ao alto da Lapela é particularmente exigente e vai requerer muita paciência para escolher as melhores passagens por entre a vegetação e o penedio. Preparem-se para alguns arranhões e picadas! Na Lapela, estaremos na fronteira com o concelho de Fafe. Podem consultar aqui um álbum com vistas deste troço.

Alto do Ervideiro (km 55)

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A caminho de Bastelo

Depois da tareia da subida à Lapela, desceremos à nascente da ribeira de Bastelo e seguiremos do lado direito da ribeira, por velhos caminhos rurais, até à aldeia com o mesmo nome. Estaremos de volta à civilização e teremos mais algumas oportunidades para reabastecer de água, mas olhem para a água que vão beber, pois às vezes pode estar turva e… já sabem! Deixamos Bastelo e continuamos a descida ao longo do vale, por uma velha calçada, até passarmos sobre a ribeira e iniciarmos a subida ao alto do Ervideiro. Esta ascensão não é muito dura, apesar de exposta, mas com 55 km e muito D+ nas pernas, já não há nada que não seja violento! Do alto dos 793m do Ervideiro, de novo no concelho de Cabeceiras, avistaremos a sul os cumes que nos faltam, com destaque para a imponente Orada que, vista de norte, até nem parece grande coisa… Até lá chegar!

 

Senhora da Orada (km 64)

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Penouta

Logo abaixo do Ervideiro, passaremos sobre a E.N. que liga Fafe a Cabeceiras e estaremos na aldeia de Fojos, no sopé de outro monte – a Penouta – que, apesar de não ter um vértice geodésico, não é brincadeira de se subir. A vantagem desta subida é ser quase toda por caminhos de terra, sem exigências técnicas. Na Penouta, poderemos desfrutar de uma vista espetacular sobre o vale da ribeira de Petimão. Lá em baixo, espera-nos a aldeia de Passos, que iremos visitar de raspão, depois de uma divertida descida pela calçada que peregrinos de outrora faziam à Cruz da Missão – certamente uma cristianização de algum penedo sagrado. Quem ainda tiver pernas no alto da Penouta, ficará com elas empenadas depois desta descida vertiginosa. Segue-se uma zona de terreno mais ou menos plano, embora por vezes acidentado, até à aldeia da Cucana, onde será possível reabastecer de água. É então que chega o momento da subida à Senhora da Orada, inicialmente por uma zona de floresta densa (até ao santuário) e na parte final por um trilho de downhill bastante exposto. No topo dos 798m, há um posto de vigia, onde poderemos subir (se ainda tivermos pernas e cabeça!) e ter uma magnífica vista panorâmica sobre São Clemente de Basto, Gandarela, Alvite… Podem consultar aqui um álbum de fotos de um reconhecimento feito no verão do ano passado.

 

Alto do Ladário (km 74)

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Downhill da Orada

É uma pena descermos da Senhora da Orada com as pernas muito mal tratadas, pois o single track de 1 km pela pista de downhill em direção a Alvite é pura adrenalina! Depois deste momento de divertimento (e risco!), passaremos perto de Alvite e Petimão, por zonas onde a vegetação está a ganhar aos trilhos, e iniciamos a subida ao alto do Ladário, por Quintela, seguindo um trilho de BTT. Nos últimos kms até ao cimo do Ladário, agora no concelho de Celorico, não encontraremos zonas de grande interesse, pois a exploração florestal intensiva e a construção da A7 descaracterizaram aquela vertente do monte. O Ladário, a 642m de altitude, já foi local de implantação de um povoado castrejo. E que sorte que aqueles tipos tinham, pois tinham uma vista fabulosa para o vale do rio de Veade! A paisagem formada por este amplo vale é seguramente das imagens mais belas que se poderá levar desta Ronda!

Chegados ao Ladário, bem se pode dizer que o pior está feito e que só falta descer o monte e terminar a Ronda. Mas ainda faltam uns kms e uma última dificulmaldadezinha…

 

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Vale do rio de Veade (à direita), com o Monte Farinha e o Alvão ao fundo (foto JonSepulveda)

Senhora da Piedade (km 84)

Logo à saída do Ladário, teremos mais um single track divertido, antes de entrarmos nos caminhos florestais que nos levarão encosta abaixo até às quintas do vinho verde de Celorico. A passagem pela Quinta da Raza impressionará pela extensão dos vinhedos. Se ainda tivermos luz solar, voltaremos a ver de perto a Senhora da Graça e recordaremos as primeiras dores do dia. Chegados novamente ao rio Tâmega, no ponto de mais baixa altitude desta Ronda, atravessamos a ponte de Mondim e reentramos no distrito de Vila Real. A meta está a pouca distância, mas ainda nos falta um vértice geodésico! A Senhora da Piedade é mais um antigo povoado da Idade do Bronze, transformado em templo cristão. Iremos subir a este monte sobranceiro ao Tâmega pelo lado menos urbanizado e, portanto, mais selvagem e mais íngreme. Depois desta última dificuldade, só nos falta descer pela rua até ao centro de Mondim e dar graças por ainda estarmos inteiros e termos concluído este enorme desafio, que nos permitiu conhecer as terras de Basto como poucos alguma vez conhecerão!

Ficha técnica

  • Distância estimada: 90 km
  • Desnível positivo estimado: 3500m
  • Duração estimada: 13 a 15 horas (depende de muitos fatores)
  • Traçado do percurso (desenhado com base em vários reconhecimentos, nunca feito na totalidade)

Perfil altimétrico

As distâncias e altitudes abaixo são calculadas pelo Google Earth. A experiência de trabalho com esta ferramenta tem demonstrado que o desnível positivo é sempre inferior em pelo menos 200m ao estimado e a distância superior em cerca de 10%.

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Visão geral

O percurso da Ronda de Basto passa pelos distritos de Vila Real e Braga e por 4 concelhos: Mondim de Basto, Cabeceiras de Basto, Fafe e Celorico de Basto. As freguesias atravessadas pelo percurso são as seguintes:

  • Mondim de Basto: São Cristóvão de Mondim de Basto, Vilar de Ferreiros, Atei.
  • Cabeceiras de Basto: Pedraça, Cavez, Rio Douro, Abadim, Painzela, São Nicolau de Cabeceiras de Basto, Outeiro, Passos, Refojos de Basto, Alvite, Basto, Faia.
  • Fafe: Aboim, Várzea Cova.
  • Celorico de Basto: São Clemente de Basto, Ribas, Vale de Bouro, Corgo, Canedo de Basto, Veade.

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One thought on “Roteiro da Ronda de Basto

  1. Pingback: Ronda de Basto: a logística | Ronda dos Cumes Sagrados

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