Ronda de Basto: o epílogo

A poucos dias da Ronda e ainda com memórias bem vivas das dificuldades na Serra da Freita, sentia-me como um bovino a caminho do matadouro. As temperaturas constantemente elevadas pioravam o meu estado de espírito. À medida que se aproximava a hora do desafio, fui metendo na cabeça que o mais importante em todas as Rondas é a experiência em si, o convívio, a aprendizagem – o caminho, portanto, em detrimento do fim. E de bovino condenado fui evoluindo para um equídeo livre e confiante. Só não sabia ainda se o equídeo viria a ser cavalo ou burro!

Vistas para o Alvão e Marão

Vistas para o Alvão e Marão

Às 4 da manhã do dia da Ronda, acordo bem disposto e com ganas de me atirar ao desafio. Depois de me ter encontrado com o Miguel, o Gil e o Frederico, lançámo-nos estrada fora até Mondim. Com o sol a levantar-se por trás do Monte Farinha, durante a descida pelas curvas da Gandarela, este apresentava-se-nos com um vulto ameaçador, encimado por uma luz verde medonha. Afastamos os maus pensamentos, antecipando os bons momentos que lá passaríamos dali a pouco mais de uma hora. Conseguimos chegar a Mondim ainda antes das 6, ao mesmo tempo que o Fernando que vinha de Espinho. Depois dos últimos preparativos, arrancámos cheios de pressa, querendo galgar a calçada da Senhora da Graça enquanto o ar ainda estava fresco. Tal como no reconhecimento de janeiro, a aparentemente temível subida de 600m fez-se muito bem, sem danos no ânimo e nas forças. Pelo caminho, fomos passando por alguns caminheiros e vários campistas à espera da etapa da Volta a Portugal. Lá em cima, perto dos 1000m, o sol brilhava e já não encontrámos a frescura que esperávamos. Depois de apreciarmos calmamente as vistas para as serranias do Alvão e do Marão e, do outro lado, todas as elevações que nos esperariam durante o dia, seguimos rapidamente em direção ao segundo vértice geodésico, o Alto de Crespo.

Vale cavado antes do Crespo

Vale cavado antes do Crespo

Como estávamos agora na vertente noroeste do maciço do Farinha, ainda sem luz direta do sol e com vários cursos de água a escorrer pela encosta, a temperatura era agradavelmente baixa. O Miguel ia ficando para trás, mas achávamos que se tratava simplesmente de gestão do esforço. Numa zona escondida por arbustos, sentimos repentinamente um forte odor a bicho morto. À nossa direita, encontrava-se um cadáver de um cavalo em avançado estado de decomposição, parcialmente devorado, talvez por algum lobo proveniente do Alvão. Mau augúrio, mesmo que certamente nenhum de nós fosse uma presa apetecível. O susto veio logo a seguir, quando encontrámos dois grandes bois negros à nossa frente, mas os rapazes assustaram-se com a nossa virilidade e deram a fugir pelo trilho fora.

Parte do grupo na Senhora da Graça

Parte do grupo na Senhora da Graça

Depois de passarmos pelo Crespo, descíamos em direção ao rio Tâmega. À chegada à aldeia de Fontelas, a minha cabeça começava a acusar a falta de café e fizemos o primeiro desvio para abastecimento. O café da aldeia não ficava muito longe do trajeto e pudemos repor os níveis de cafeína ou de malte de cevada. Era a primeira vez que queimávamos tempo. Estas paragens atrasam a Ronda e acrescentam quilómetros, mas são fundamentais para que a experiência se mantenha em níveis de desfrute aceitáveis. Retomámos o trajeto pelo asfalto que nos leva à ponte sobre o Tâmega e, ali chegados, descemos à margem do rio para encetar a longa subida a Leiradas. Foi a partir daqui que sentimos que o Miguel não estava nos seus dias. As pernas não queriam colaborar. Apesar do nosso apoio, tivemos de nos separar em Leiradas, após uma pausa no café da aldeia. Ficou melhor do que nós, à sombrinha, aguardando pela boleia. Mas quando se perde um colega de luta, por mais ânimo que ainda se tenha, é sempre menos um. Há sempre um qualquer impacto psicológico negativo, mesmo que inconsciente. Mas continuámos seguindo confiantes.

Vista para o Monte Farinha na subida para Cambeses

Vista para o Monte Farinha na subida para Cambeses

Após paparmos o terceiro vértice geodésico, descemos a Asnela, ao km 31, onde nos refrescámos um pouco antes de subir a Cambeses. A temperatura estava próxima do auge e, sempre que passávamos por água, havia um forte motivo para parar. À nossa volta, a paisagem que na primavera tinha um verde vivaço era agora de um amarelo pálido. No alto de Cambeses, fizemos um pequeno desvio para fotografar o quarto vértice e iniciámos a descida ao vale do rio Ouro. O single track após a igreja de Rio Douro fez-se cuidadosamente, embora eu não conseguisse evitar uma queda estúpida que quase me partia alguns dentes. O golpe não me desanimou e o banho que tomámos à sombra do arvoredo junto à ponte medieval reforçou a vontade de continuar a luta.

Pausa na Levada da Víbora

Pausa na Levada da Víbora

Iniciávamos agora aquilo que considerávamos ser o aperitivo antes do almoço que planeávamos tomar em Abadim. Uma penosa subida, em terreno seco, cercado de giestas, onde o calor se sente ainda mais. Agora era a vez do Gil evidenciar sinais de exaustão. A cara não escondia as marcas do desgaste. Conhecendo eu bem o Gil e já o tendo visto morrer e ressuscitar várias vezes, julguei ser coisa passageira. Mas a verdade é que nunca tinha visto aqueles olhos cavados… Tínhamos desejado estar às 13h em Abadim; chegámos às 14h. Depois de nos termos perdido um pouco antes do quinto vértice (perto da Levada da Víbora), tivemos ainda de fazer um grande desvio para encontrar um dos dois cafés da aldeia. Depois de muitas minis e umas boas sandes, voltámos à estrada e depois ao caminho que nos levaria à travessia do rio Peio. O Frederico estava visivelmente satisfeito por ter batido o seu máximo de distância e por ser inclusivamente maratonista.

Quando descemos ao rio, o Gil estava determinado em abandonar naquele ponto, pois Cabeceiras estava a poucos quilómetros de distância. O Frederico, apesar de ainda estar com forças, já tinha ultrapassado em muito o seu objetivo. Levávamos 47 km nas pernas e vinha agora a segunda maior dificuldade da Ronda: a subida à Lapela. O relógio já passava das 15h. Sabíamos que tínhamos feito metade do percurso ou, de outro ponto de vista, ainda faltava metade! Antes de nos despedirmos do Frederico e do Gil, decidimos ir novamente a banhos numa magnífica piscina natural do rio Peio, no meio do nada. Um tesouro desconhecido de muitos, pois éramos os únicos no local, apesar de não distar muito da civilização.

A caminho da Lapela

A caminho da Lapela

O Fernando e eu tínhamos agora a missão de levar esta Ronda a bom porto. Sentia que o Fernando era gajo para fazer duas Rondas – afinal, tinha vindo ali fazer um treino para as 100 milhas do Grand Raid des Pyrénées. Quanto a mim, surpreendia-me por me estar a sentir incrivelmente bem. Nem uma ponta de fraqueza, ânimo a 100%. Sem darmos oportunidade à razão para nos fazer duvidar, lançámo-nos monte acima, pelo meio do mato e das silvas. A progressão era muito lenta, para evitarmos rasgar muito a pele. A vegetação tinha crescido imenso desde os reconhecimentos. Caminhos que se faziam sem problemas estavam agora semi ou totalmente obstruídos. De quando em vez, valiam-nos as aberturas feitas pelos javalis… Mas lá conseguimos chegar à base do monte da Lapela, onde parámos um pouco à sombra de um carvalho, para comer umas barritas antes do ataque.

Vistas para a Cabreira

A meio da última subida para a Lapela

Naquela tarde, sentia que poderia caminhar e correr ainda horas a fios. Ia ao meu ritmo lentito, mesmo suspeitando que o Fernando estava a fazer um enorme treino de paciência. Sabia que se subisse a fasquia, rebentaria rapidamente. Por isso, lá ia eu, desbravando calmamente tojo e carqueja, tentando encontrar a passagem menos má até ao penedo seguinte – o granito é um material preciosíssimo neste tipo de terreno! Finalmente, depois de escalarmos os enormes calhaus do topo da Lapela, lá estávamos, junto ao sexto vértice, com o sol a perder força a poente. Pedi ao Fernando para ficarmos ali um bom pedaço a desfrutar da imensidão das vistas e do silêncio. Valera a pena ficarmos com as nossas pernas ensanguentadas. Aquele momento zen ficará seguramente gravado na minha mente para sempre. Deitados no granito, sentido a ligeira brisa, ouvindo apenas o som dos insetos, observando as várias montanhas à nossa volta… Mas toda aquela reflexão despertou também a razão e dei por mim a fazer contas… E quando terminei de fazer as contas, partilhei as conclusões com o Fernando: eram 5 da tarde, tínhamos feito 57 km, mais oito do que o previsto, estávamos com um ritmo de 5km/hora e, a manter-se a andança e os desvios à distância, provavelmente chegaríamos a Mondim às 1h ou 2h da manhã de domingo. Não aprecio correr de noite, muito menos por longas horas. Até àquele momento, a experiência da Ronda tinha superado as minhas expetativas. Se continuássemos por muito mais tempo, correríamos o risco de passarmos a fazer um frete. E para fretes a correr não contem comigo. O Fernando concordou com esta conclusão. Se uns quilómetros antes o via determinado a concluir a Ronda, depois da esfrega no mato da Lapela, ficou com muitas dúvidas relativamente às condições do que ainda faltava percorrer. E o homem precisava mesmo de descansar. Com tantos incêndios a combater e com falta de sono, era o que faltava andar com um maluquinho a fazer noitadas em silvados!

Portanto, nem é tarde nem é cedo: assim que chegámos à civilização, demos por concluída a nossa aventura. A aldeia de Bastelo foi o ponto final, com 61 km percorridos em 12 horas. Ainda aproveitámos para despachar mais umas minis e um chouricito e ver a incrível e refrescante aparição de umas loiraças de vestido justinho na aldeola de montanha, enquanto aguardávamos pela boleia do Frederico. À esplanada da tasca, um aldeão ia entretendo-nos com as suas histórias de vida, por Espinho, rua 19, rua 8, Guiné-Bissau…

Momento zen no topo da Lapela

Momento zen no topo da Lapela

A caminho de Mondim de Basto, voltávamos a olhar de perto o Monte Farinha, agora de modo indiferente. Aquela montanha parecia-me agora vulgar, como tantas outras pelas quais tinha passado durante o dia. Talvez fosse da cor que àquela hora a vestia. Talvez fosse pela facilidade com que a subi. Talvez fosse apenas blues. A Ronda chegava ao fim e neste dia senti que se tinha encerrado um ciclo. Um ciclo motivado pelo simples desejo de descobrir e dar a conhecer, mas também pela ambição de marcar o território. A verdade é que as duas marcas que desenhei no território, para além de algo megalómanas para quem quer correr e divertir-se ao mesmo tempo num só dia, estão a ficar esbatidas pelo tempo. A desertificação, o abandono de muitos caminhos, e a rapidez com que a natureza reclama aquilo que sempre foi seu tornaram ou tornarão impraticáveis muitos dos trilhos que idealizei.

As Rondas, como qualquer percurso pedestre, necessitam de manutenção. Como tal, o percurso tem de seguir por caminhos que cumpram um dos seguintes requisitos: serem muito frequentados, terem manutenção anual, ou serem estradões/estrada. As Rondas de Lapinha-Montelongo e de Basto não cumprem totalmente estes requisitos e, como tal, dificilmente poderão voltar a ser realizadas no percurso idealizado, sendo necessário estudar/improvisar alternativas. A exceção será a Ronda do Marão, que oferece melhores condições de auto-preservação.

Quanto a mim, apesar de não ter condições para continuar a descobrir novas Rondas (as distâncias a partir de casa começam a ser injustificáveis), irei procurar ajudar a manter transitáveis algumas partes dos percursos existentes e dedicar-me a outras descobertas territoriais. Entretanto, pode ser que despontem outros Rondeiros por aí que nos proponham novos percursos e novas aventuras!

Podem consultar o álbum completo desta aventura aqui.

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