Trilhos de Sistelo e Serra do Soajo

As expedições da Ronda têm estado em pousio, tendo havido outros interesses mais prioritários, mas a atração por novas montanhas e territórios continua insaciável. No âmbito de uma caminhada que estou a ajudar a organizar para a Associação Vimaranense para a Ecologia, fui fazer o reconhecimento de dois trilhos na zona de Sistelo, nas faldas da Serra do Soajo. Como o somatório dos percursos mal dava para aquecer a máquina, decidi juntar ao reconhecimento uma boa aventura: uma senhora subida a um dos pontos mais altos da Serra do Soajo, o cume da Peneda (conhecido pelos locais por Castelo do Pedrinho), a 1374m de altitude.

Como em casa já tinha comprado o sábado todo para a aventura, não foi preciso chegar muito cedo ao Sistelo. Apesar do horário tardio e de ser época alta, não tive dificuldade em estacionar na aldeia. O dia prometia ser simpático, com algumas nuvens e temperatura amena. Depois de um pequeno reconhecimento das valências e pontos de interesse da pequeníssima aldeia, carreguei o máximo de água que pude e ataquei sem mais demoras as tarefas do dia. Comecei com o trilho de 13 km ao longo do rio Vez, a jusante de Sistelo. Este percurso não está sinalizado mas em cerca de metade da extensão utiliza vários kms da Ecovia do Vez assim como a totalidade do Trilho dos Passadiços (PR 25). E diga-se que é bem agradável começar a manhã a correr ao lado do rio, à sombra do arvoredo, e divertindo-nos nos passadiços de madeira. É um verdadeiro carrocel, tanto pelo sobe e desce constante, como pelas sucessivas repetições do tema passadiço-arvoredo-ruínas-de-moínhos. Soube bem, mas a montanha ali ao lado chamava por mim!

 

Deixo o rio e, depois de atravessar a N202-2, paro na antiga casa do guarda florestal, perto da Sobreira, antes de começar a subida para a antiga branda da Tabarca. Após as primeiras centenas de metros pouco interessantes, ao lado do asfalto e sob um pinhal, afasto-me da civilização e a montanha começa a perfilar-se à minha direita. Ainda estamos a cotas baixas, a rondar os 300m de altitude, mas a paisagem e a vegetação já estão a mudar. A ascensão começa a ficar mais dura, bastante técnica, e o mato já faz os primeiros rasgos nas pernas. Por entre as nuvens, o sol já brilha mais forte. A meio da subida, passo ao lado de um singular cortelho, a anunciar a branda que não deve estar muito longe.

 

O trilho fica mais selvagem, com muita vegetação, mas já se vêem à esquerda os muros da branda e, pouco depois, deparo-me com uma cancela em muito mau estado. Em tão mau estado que nem sequer tento abri-la, para não a desconjuntar ainda mais. Salto-a com a ajuda dos muros, com muito cuidado, pois estes também se estão a desmoronar. Na dúvida se não estaria a invadir propriedade alheia e focado em sair dali rapidamente, nem sequer me lembrei de tirar fotos da branda, que me pareceu um pouco abandonada. À chegada à aldeia de Tabarca, nova cancela, mas desta vez funcional. Fiquei um pouco desapontado por ver tanto lixo enfiado nas velhas minas que ladeiam a calçada. Passo pela aldeia e inicio a descida para regressar ao vale, atravessando os socalcos, por uma calçada bastante escorregadia. Regresso também ao arvoredo e à sombra que já me estava a fazer falta. Poucos minutos depois, já me encontro junto ao rio Vez e de regresso ao trilho sinalizado. Se tivesse cá passado de tarde, ter-me-ia seguramente refrescado naquelas águas límpidas!

 

À chegada a Sistelo, não há tempo a perder, pois a aventura só agora vai começar. Recarrego os bidões de água, vou ao carro buscar o corta-vento (o céu a escurecer não augura facilidades nas cotas mais altas) e sigo no encalço do Trilho das Brandas de Sistelo (PR 14). Os primeiros metros denunciam rapidamente o que vai ser este trilho: subir, subir, subir sem complacência. Vou caminhando, mais do que correndo, por uma calçada bem preservada que liga Sistelo à branda de Rio Covo. A subida é tão íngreme que a calçada foi feita aos ziguezagues, para aligeirar um pouco o esforço. Penso na deslocação que os aldeões faziam por esta calçada, acompanhados pelo seu gado e eventualmente carregados com mantimentos, para uma estadia em altitude nas pastagens de verão. Provavelmente, deslocavam-se mais ligeiramente do que eu! À minha esquerda, avisto os socalcos que tornaram a aldeia de Sistelo famosa. No final do verão, não têm tanto encanto, de tão amarelecidos que estão!

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Os agora pálidos socalcos de Sistelo

Quando atinjo a Chã da Armada, a paisagem torna-se espetacular. À minha direita, um vale profundo e escarpado, onde ao fundo corre o rio do Outeiro, afluente do Vez. A calçada ao lado do precipício faz-me pensar numa foto que o malogrado João Marinho tirou nos Picos da Europa pouco tempo antes de desaparecer. Mal ultrapasso os 700m de altitude, sinto o ar a refrescar repentinamente e umas gotículas de chuva que começam a cair. Com o céu cada vez mais escuro, preparo-me mentalmente para enfrentar dificuldades sérias no alto da Peneda. As gotículas entretanto aumentam de espessura e o vento sopra mais forte. Aproximo-me de um bosque e fico animado com a perspetiva de ficar mais protegido. À chegada, percebo que estou finalmente na branda do Rio Covo e que a primeira grande subida terminou! À beleza do local, um misto de intervenção humana e força da natureza, junta-se um sentimento de desolação e abandono. Estamos a devolver o território à natureza, talvez para o seu bem.

 

À saída de Rio Covo, atravesso um bosque misto onde predominam coníferas e bétulas. Um perfeito contraste com a vegetação que me acompanhou até ao cimo da serra. Ali, na nascente da Corga da Saramangeira, sinto uma forte humidade que nem nas margens do Vez senti… Pouco depois, volto ao terreno descoberto e encontro o primeiro grande obstáculo do dia: um grande grupo de bovinos com ar de rufias a barrar-me a passagem. Visto a pele de macho ómega e esgueiro-me discretamente pela lateral e depois por entre umas vaquitas mais distraídas. Mal sabia que iria ter muitos mais encontros destes ao longo do dia…

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Vacas, vacas e mais vacas…

Rapidamente alcancei a Branda do Alhal, debaixo de intensa chuva miudinha. Esta branda, anexa à aldeia do Padrão, ainda tem bastante atividade e, por entre os muros e as construções típicas, vêem-se edifícios mais modernos. Uma branda dos novos tempos? Estava com pressa de sair dali, de deixar o trilho marcado e de entrar na fase mais selvagem do dia, que me levaria, quem sabe, ao alto da Peneda. Assim que deixei a rota das brandas, encontrei um casal de idosos que tentou desmotivar-me, alegando que o caminho estava muito fechado. “Vou pelo mato. Já estou habituado!”, respondi. A verdade é que o caminho estava mesmo dificilmente transponível, com várias barreiras feitas de ramos e tábuas e com vegetação densa ao longo daquilo que já foi um caminho de serventia para cortelhos e campos agora semi-abandonados. Fui avançando até ao próximo desafio: uma matilha de cães furiosos que, do outro lado do murinho que ladeava o caminho, ameaçava saltar para o meu lado. Livrei-me rapidamente deles e, um pouco acima, decidi fazer o lanche da manhã, dentro das ruínas de um cortelho. Era quase meio dia e o sol voltava a brilhar por entre as nuvens. De estômago cheio, parti em direção ao ermo da Branda da Gémea. O caminho melhorou durante cerca de 1 km, no vale da Corga do Porto Novo, mas não demorou muito a voltar a ficar bastante selvagem. Se não tivesse o percurso no relógio, ter-me-ia seguramente perdido, sem quaisquer referências na paisagem. Limitava-me a ziguezaguear por entre o mato que, felizmente, era maioritariamente carqueja – bem mais gerível do que o tojo! Por vezes, o caminho voltava a emergir do mato ou caminhava por uma zona com mais granito ou com mais intervenção humana, o que me permitia avançar mais rapidamente e até correr!

 

Depois de uma subida íngreme pelo meio dos afloramentos graníticos, cheguei finalmente à Branda da Gémea, agora abandonada. Era preciso ter muito coragem para vir até aqui com o gado. Estamos muito perto dos 1000m de altitude. À minha volta, muitos cortelhos em ruínas e imensos campos separados por pequenos muros. Foi certamente um assentamento importante. Percorro o arruamento principal da branda e sigo por um caminho que atravessa a Corga dos Cortelhos e desemboca umas centenas de metros acima numa habitação isolada, na Chã do Sono. Tento encontrar pontos de água, mas está tudo seco nesta altura do ano. E a civilização termina aqui, pois agora é só mato e granito até ao alto da Peneda. Mato, granito e… vacas, mesmo muitas… É incrível como se consegue encontrar tanta vaca nesta zona. Vi dezenas espalhadas pela encosta, isoladas, em pequenos grupos, a pastar, a descansar… A concorrer em número com elas só os gafanhotos de asas-azúis, que saltam e voam constantemente à minha volta.

 

A subida torna-se cada vez mais íngreme e a progressão muito lenta, por entre a carqueja. Sempre que encontro granito é um alívio! Acima dos 1300m, a vegetação começa a rarear e deixo de ver uma parede à minha frente. O cume está próximo! Finalmente, revela-se o marco geodésico da Peneda, a 1374m de altitude, no meio de um grande planalto de granito – o Pedrinho, como lhe chamam as gentes da terra. À minha volta, uma vista esplendorosa sobre todas as serras circundantes: Serra d’Arga, Serra da Peneda, maciço do Gerês… São 13h e, apesar de não ter fome, decido almoçar um presunto bem consistente. A água está quase a acabar, mas a descer não faz tanta falta. Sem vontade de ficar parado, decido ir caminhando enquanto mastigo a sandes, cume abaixo, pela vertente sul, por entre os agrupamentos de vacas.

 

Após várias horas de mato e pedra, atinjo finalmente um estradão, perto da Chã da Cruz. Feliz por poder voltar a correr normalmente, acelero um pouco e vou olhando para o relógio, já sem esperanças de estar às 14h30 em Sistelo. Para surpresa minha, o relógio manda-me sair do estradão, poucos metros mais à frente. À minha direita, vejo umas alminhas. Quem raio se lembraria de construir umas alminhas a 1300m de altitude? Só mesmo os devotos de São Brás e Santo António! Gente de fé fervorosa, que certamente é recíproca no espanto de ver maluquinhos a subir a esta serra só porque sim!

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Alminhas com o Pedrinho (alto da Peneda) em fundo

Não tenho estradão, mas por este lado o mato é menos basto e consigo correr rapidamente, à medida que vou descendo pela Costa do Menjoeiro. Deixo o território das vacas e entro no pasto dos garranos. Não são muitos e são mais medrosos. Avisto um juvenil que corre a proteger-se junto da progenitora. Identifico-me mais com estes animais sociáveis, apesar de socializarem apenas entre eles! Rapidamente atinjo o caminho que dantes ligava as brandas do Alhal e da Gémea. De volta às calçadas, os meus joelhos começam a protestar. Lembro-me da última tareia que lhes dei, quando descia a Serra da Freita, e abrando ligeiramente. Já vejo o Alhal lá em baixo. A calçada fica cada vez mais larga à medida que me aproximo. À entrada da branda, sou recebido em ovação, por uns cães muito pouco amistosos. Tento cativá-los, mas não querem conversa. Já me estava a preparar para mudar de linguagem quando ouço a dona a chamar por eles. Estou salvo! Muito obrigado e boa tarde!

Desço como uma seta pela branda do Alhal e retomo o trilho sinalizado. De volta à zona de conforto, vou correndo mais descontraído, sempre pela calçada que me levará até ao Padrão, o lugar onde vivem no inverno os proprietários da branda do Alhal. É fácil perceber quando se chega à aldeia do Padrão, pois à entrada há mesmo um padrão que não deixa quaisquer dúvidas. Com os cantis vazios há já alguns kms, começo a sentir os efeitos da desidratação. A aldeia é bastante pequena e, para minha desgraça, sem quaisquer pontos de água. Mas, felizmente, esta desgraça ficou só, pois tive a sorte de falar com a Dona Esperança, uma senhora com 82 anos, apoiada numa muleta, que se encontrava a varrer a entrada da casa. Oferece-me água, apesar de estar “choca”, diz. Que preciosidade! Quem tem verdadeiramente sede não olha à temperatura da água! Bebo duas malgas muito rapidamente, enquanto a Dona Esperança me fala do seu único filho, que vive em Vidago e trabalha nas termas de Pedras Salgadas. É o filho que a ajuda a cuidar da pequena vinha, carregadíssima de uvas. Aos meus elogios à vinha, a Dona Esperança responde com a proposta de provar do seu vinho. Rejeito várias vezes a oferta, com receio de ficar arrumado para a corrida, mas, face a tamanha generosidade, acabo por aceitar. Acompanho-a à adega e bebo uma malga cheia de um vinho verde tinto que me soube mesmo muito bem. Não sei se foi da sede, mas o vinho da Dona Esperança é do melhor!

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A Dona Esperança, com a malga que mata a sede

Escusado será dizer que, nos minutos seguintes, senti a cabeça ourada. Era um risco correr muito rápido e redobrei a atenção à calçada. Mas não consegui evitar um pequeno engano no percurso, pois já não estava a conseguir seguir bem as indicações! Felizmente que Sistelo se aproximava rapidamente. Dois quilómetros abaixo, atravessei a N202-2 e continuei a descer em direção ao rio Vez, a montante de Sistelo. Finalmente, após várias horas, volto a estar à sombra das árvores! Mas a temperatura continua alta. Apesar da ameaça de chuva e tempestade, acabei por ter um dia com muito sol e bastante quente. Só me faltava agora atravessar as duas velhas pontes oitocentistas, uma para a margem direita e outra de volta para a margem esquerda. Lá em cima, vejo a igreja de Sistelo, mas ainda tenho uma penosa escadaria para subir. Não havia necessidade, depois de 35 km, quase 2000m D+ e 6 horas de corrida-caminhada-escalada!

À chegada à aldeia, corro refrescar-me no fontanário e bebo sofregamente. No tasco da aldeia, bebo finalmente o café que desejava há várias horas. Missão cumprida e que boa aventura! Mais uma que nunca esquecerei. Ou, se esquecer, terei sempre estas linhas que ma relembrarão! 🙂

O percurso pode ser consultado aqui.

 

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