Ronda da Cabreira

Após tantos anos a trotar pelos montes da região, é inexplicável como nunca tinha aprofundado o meu conhecimento sobre a Serra da Cabreira, apenas a 45 minutos de casa. As minhas experiências por lá resumiam-se a curtas caminhadas, curiosamente nas extremidades norte e sul da serra, sem nunca ter subido aos pontos mais altos. Também já tinha corrido pelas Torrinheiras, perto de Cabeceiras de Basto, mas aqui já estamos um pouco afastados da área nevrálgica da Cabreira. Foi por isso com determinação que decidi colmatar esta lacuna. Reuni vários percursos conhecidos e defini vários objetivos: subir ao cume do Talefe (1262m) , visitar pelo menos mais um vértice geodésico, explorar a zona da nascente do rio Ave, passar por todas as vertentes da Serra e visitar a mata do Turio, tudo isto sem fazer mais do que 50 km e tentando acumular um desnível positivo decente. Após vários dias a desenhar o percurso, cheguei ao que considero ser um passeio bem demonstrativo pela Cabreira, que pude concretizar com três amigos já habituados a estas andanças – Frederico, Gil e Isaac.

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Como ponto de partida, escolhi a aldeia de Agra, que considero ser o local ideal para uma atividade deste tipo. Com um casco histórico bem preservado, com as suas ruelas empedradas e belas habitações de granito, sentimo-nos a entrar pela Serra sem ainda lá termos subido. A altitude da aldeia (660m) e o seu carácter algo deserto também contribuem para esta sensação. Os locais para estacionamento não abundam, mas como só levámos um carro, não foi difícil aparcar junto à igreja. Antes das 8h00, deixámos a aldeia rumo à Serra.

Durante os primeiros 3 kms fomos subindo calmamente em direção à nascente do rio Ave. O céu ainda com muitas nuvens deixava o sol espreitar e anunciava um belo dia para correr. Já não sentia tanta humidade na terra talvez há mais de meio ano! Que sensação agradável voltar a correr com charcos de água, ficar com o corpo a escorrer depois de raspar pelas giestas cobertas de água, sentir o frio matinal… Estamos finalmente a livrar-nos deste verão interminável! Um verão que deixou as cotas mais altas do rio Ave num estado lastimável. Vêem-se mais pedregulhos do que água no seu leito. Apesar de tudo, fico impressionado e reconfortado pela incansável montanha ainda jorrar água depois de tanta seca. Aforradora sensata, a montanha vai amealhando sempre que pode e guarda muito bem o tesouro líquido nas suas entranhas. Sem exigir nada em troca, vai libertando a sua poupança a toda a hora, distribuindo vida pelos seus vales.

A nossa homenagem à montanha foi prosseguindo encosta acima, contornando a nascente do Ave pelo norte. Por entre uns arbustos, surgiu-nos uma égua com ar muito desgastado. Sozinha, sem energias, cabisbaixa, parecia chorar a perda de entes queridos. Provavelmente, perdeu-se da manada durante os incêndios da semana anterior. O caminho entretanto ficou plano e mais largo e avistava-se ao longe o muro de um dos fojos da Serra. Sendo um local de massacres recorrentes e simbólico da arrogância dos homens sobre os restantes animais, preferi evitar a proximidade com estes vestígios no percurso que desenhei. Enquanto conversávamos, íamos passando por pequenos ribeiros que, no seu conjunto, formam a nascente do Ave. A falta de um ponto de referência que se possa efetivamente chamar de “nascente” e a vegetação alta fizeram com que nos afastássemos sem saber bem onde estava o rio no vale. Pouco depois, já estávamos novamente a subir uma encosta, desta vez em direção ao alto do Trovão.

A conversa girava agora à volta das provas e da saúde dos atletas, que é colocada em risco à medida que se submetem regularmente a esforços extremos. É verdade que uma corrida de 45 km, mesmo num ritmo de passeio, não é propriamente uma dose recomendável, mas estou convencido que, se acontecer com pouca frequência, deixando o corpo descansar devidamente entre os esforços, mal não faz! Sobretudo quando nos permite vivenciar locais e experiências especiais, como a passagem pelo agradável parque de merendas do Seirrão, com a sua verdura e sombra, no sopé do Trovão, ou mesmo a própria subida ao Trovão, com as suas vistas para todas as serranias a sul, que quase todos estamos bem habituados a galgar.

Ainda era cedo e o vento batia forte naquele alto despido e coberto de granito. Voltámos rapidamente para o refúgio do bosque e continuámos agora em direção ao Talefe. O cume da Cabreira apresentava-se misterioso, envolto em nevoeiro escuro. Estávamos apenas a uma diferença de 100m de altitude, mas as condições climatéricas eram bem distintas. Não nos preocupámos, pois as nuvens não tardariam a abandonar o seu poiso noturno. Em vez de seguirmos o caminho mais fácil para o pico, fletimos para nascente e descemos pelo vale da ribeira das Ladeiras, por entre os bosques de bétulas, já amareladas apesar do outono atípico. Iríamos subir ao Talefe pelo lado norte, o mais selvagem, como convém. Continuávamos a observar uma natureza rica, bela e diversa, sem sinais evidentes de ter tido um verão penoso.

À chegada às Fragas do Tremonha, parámos para apreciar o espetáculo da enorme muralha de granito do Gerês, logo ali em frente, do outro lado do Cávado que brilhava na albufeira de Salamonde. Sentimo-nos com sorte por poder viver aquele momento num dia particularmente favorável. Lá em cima, esperava por nós a penumbra e o frio, mas isso animava-nos! Não há nada como uma boa escalada por entre o granito e a carqueja! Sem ligar muito ao percurso desenhado, fomos seguindo montanha acima pelas passagens mais abertas ou que nos arranhassem menos.

Quando finalmente atingimos as eólicas, seguimos pelo estradão já um pouco iluminado pelo sol difuso, até ao Talefe. O frio fez-me sentir vontade de vestir o corta-vento, as mãos já estavam a gelar, com a temperatura a rondar seguramente os 5 graus. Não estivemos muito tempo junto ao gigante de betão e rapidamente voltámos ao estradão, agora para descer para o novo objetivo, a mata do Turio. Um pouco abaixo do Talefe, encontrámos um belo prado e um curral com sinais de ter sido abandonado à pressa. Uma calamidade repentina tinha-se abatido sobre a Serra uns dias antes. O coberto vegetal calcinado que se começava a ver iria tornar-se uma constante no resto do dia. Sem o sabermos naquele momento, esta seria a fronteira entre a Cabreira bela e imponente e a Cabreira desfigurada e destroçada.

Enquanto descíamos até ao parque de merendas da Serradela, tínhamos à nossa frente o cenário desolador da mata do Turio parcialmente queimada. Aos diferentes tons de verde que caracterizam aquele belo vale juntaram-se, nas orlas mais elevadas, as cores da morte. A partir daquele momento, o meu estado de espírito cambiou e foi com algum desânimo que parei no parque para um curto almoço. Depois de repormos os níveis energéticos e de recarregarmos as reservas de água, seguimos pela estrada de asfalto até à entrada para o interior do Turio. Incrivelmente, após uma semana de chuva, os tocos de algumas árvores calcinadas ainda fumegavam… Descíamos o vale pelo caminho largo, tendo do lado esquerdo a vegetação queimada e do lado direito a diversidade vegetal, combinando espécies autóctones com exóticas, com predominância para as acácias. Após alguns quilómetros um pouco monótonos, o percurso voltou a ficar interessante, levando-nos a sair da mata e subir novamente à montanha.

IMG_20171021_141325 (960x1280)Infelizmente, quando chegámos às zonas mais descobertas, deparamo-nos com um cenário ainda pior. À nossa volta, era tudo negro, com poucos sinais de vida. A partir daqui, não há muito a contar, pois a paisagem é quase sempre a mesma, só voltando a ficar verde a poucos quilómetros de Agra. E quando voltámos a ver vida, não foi a mais entusiasmante, pois entrávamos num extenso e pobre bosque de mimosas. A boa disposição só voltou quando apanhámos uma velha calçada que nos levou por entre um belo arvoredo até à ponte medieval da Parada, sobre o rio Ave. Estávamos às portas da aldeia e discutíamos agora os planos para a reposição de proteínas, com Agra na boca!

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