Ronda de Basto: o epílogo

A poucos dias da Ronda e ainda com memórias bem vivas das dificuldades na Serra da Freita, sentia-me como um bovino a caminho do matadouro. As temperaturas constantemente elevadas pioravam o meu estado de espírito. À medida que se aproximava a hora do desafio, fui metendo na cabeça que o mais importante em todas as Rondas é a experiência em si, o convívio, a aprendizagem – o caminho, portanto, em detrimento do fim. E de bovino condenado fui evoluindo para um equídeo livre e confiante. Só não sabia ainda se o equídeo viria a ser cavalo ou burro!

Vistas para o Alvão e Marão

Vistas para o Alvão e Marão

Às 4 da manhã do dia da Ronda, acordo bem disposto e com ganas de me atirar ao desafio. Depois de me ter encontrado com o Miguel, o Gil e o Frederico, lançámo-nos estrada fora até Mondim. Com o sol a levantar-se por trás do Monte Farinha, durante a descida pelas curvas da Gandarela, este apresentava-se-nos com um vulto ameaçador, encimado por uma luz verde medonha. Afastamos os maus pensamentos, antecipando os bons momentos que lá passaríamos dali a pouco mais de uma hora. Conseguimos chegar a Mondim ainda antes das 6, ao mesmo tempo que o Fernando que vinha de Espinho. Depois dos últimos preparativos, arrancámos cheios de pressa, querendo galgar a calçada da Senhora da Graça enquanto o ar ainda estava fresco. Tal como no reconhecimento de janeiro, a aparentemente temível subida de 600m fez-se muito bem, sem danos no ânimo e nas forças. Pelo caminho, fomos passando por alguns caminheiros e vários campistas à espera da etapa da Volta a Portugal. Lá em cima, perto dos 1000m, o sol brilhava e já não encontrámos a frescura que esperávamos. Depois de apreciarmos calmamente as vistas para as serranias do Alvão e do Marão e, do outro lado, todas as elevações que nos esperariam durante o dia, seguimos rapidamente em direção ao segundo vértice geodésico, o Alto de Crespo.

Vale cavado antes do Crespo

Vale cavado antes do Crespo

Como estávamos agora na vertente noroeste do maciço do Farinha, ainda sem luz direta do sol e com vários cursos de água a escorrer pela encosta, a temperatura era agradavelmente baixa. O Miguel ia ficando para trás, mas achávamos que se tratava simplesmente de gestão do esforço. Numa zona escondida por arbustos, sentimos repentinamente um forte odor a bicho morto. À nossa direita, encontrava-se um cadáver de um cavalo em avançado estado de decomposição, parcialmente devorado, talvez por algum lobo proveniente do Alvão. Mau augúrio, mesmo que certamente nenhum de nós fosse uma presa apetecível. O susto veio logo a seguir, quando encontrámos dois grandes bois negros à nossa frente, mas os rapazes assustaram-se com a nossa virilidade e deram a fugir pelo trilho fora.

Parte do grupo na Senhora da Graça

Parte do grupo na Senhora da Graça

Depois de passarmos pelo Crespo, descíamos em direção ao rio Tâmega. À chegada à aldeia de Fontelas, a minha cabeça começava a acusar a falta de café e fizemos o primeiro desvio para abastecimento. O café da aldeia não ficava muito longe do trajeto e pudemos repor os níveis de cafeína ou de malte de cevada. Era a primeira vez que queimávamos tempo. Estas paragens atrasam a Ronda e acrescentam quilómetros, mas são fundamentais para que a experiência se mantenha em níveis de desfrute aceitáveis. Retomámos o trajeto pelo asfalto que nos leva à ponte sobre o Tâmega e, ali chegados, descemos à margem do rio para encetar a longa subida a Leiradas. Foi a partir daqui que sentimos que o Miguel não estava nos seus dias. As pernas não queriam colaborar. Apesar do nosso apoio, tivemos de nos separar em Leiradas, após uma pausa no café da aldeia. Ficou melhor do que nós, à sombrinha, aguardando pela boleia. Mas quando se perde um colega de luta, por mais ânimo que ainda se tenha, é sempre menos um. Há sempre um qualquer impacto psicológico negativo, mesmo que inconsciente. Mas continuámos seguindo confiantes.

Vista para o Monte Farinha na subida para Cambeses

Vista para o Monte Farinha na subida para Cambeses

Após paparmos o terceiro vértice geodésico, descemos a Asnela, ao km 31, onde nos refrescámos um pouco antes de subir a Cambeses. A temperatura estava próxima do auge e, sempre que passávamos por água, havia um forte motivo para parar. À nossa volta, a paisagem que na primavera tinha um verde vivaço era agora de um amarelo pálido. No alto de Cambeses, fizemos um pequeno desvio para fotografar o quarto vértice e iniciámos a descida ao vale do rio Ouro. O single track após a igreja de Rio Douro fez-se cuidadosamente, embora eu não conseguisse evitar uma queda estúpida que quase me partia alguns dentes. O golpe não me desanimou e o banho que tomámos à sombra do arvoredo junto à ponte medieval reforçou a vontade de continuar a luta.

Pausa na Levada da Víbora

Pausa na Levada da Víbora

Iniciávamos agora aquilo que considerávamos ser o aperitivo antes do almoço que planeávamos tomar em Abadim. Uma penosa subida, em terreno seco, cercado de giestas, onde o calor se sente ainda mais. Agora era a vez do Gil evidenciar sinais de exaustão. A cara não escondia as marcas do desgaste. Conhecendo eu bem o Gil e já o tendo visto morrer e ressuscitar várias vezes, julguei ser coisa passageira. Mas a verdade é que nunca tinha visto aqueles olhos cavados… Tínhamos desejado estar às 13h em Abadim; chegámos às 14h. Depois de nos termos perdido um pouco antes do quinto vértice (perto da Levada da Víbora), tivemos ainda de fazer um grande desvio para encontrar um dos dois cafés da aldeia. Depois de muitas minis e umas boas sandes, voltámos à estrada e depois ao caminho que nos levaria à travessia do rio Peio. O Frederico estava visivelmente satisfeito por ter batido o seu máximo de distância e por ser inclusivamente maratonista.

Quando descemos ao rio, o Gil estava determinado em abandonar naquele ponto, pois Cabeceiras estava a poucos quilómetros de distância. O Frederico, apesar de ainda estar com forças, já tinha ultrapassado em muito o seu objetivo. Levávamos 47 km nas pernas e vinha agora a segunda maior dificuldade da Ronda: a subida à Lapela. O relógio já passava das 15h. Sabíamos que tínhamos feito metade do percurso ou, de outro ponto de vista, ainda faltava metade! Antes de nos despedirmos do Frederico e do Gil, decidimos ir novamente a banhos numa magnífica piscina natural do rio Peio, no meio do nada. Um tesouro desconhecido de muitos, pois éramos os únicos no local, apesar de não distar muito da civilização.

A caminho da Lapela

A caminho da Lapela

O Fernando e eu tínhamos agora a missão de levar esta Ronda a bom porto. Sentia que o Fernando era gajo para fazer duas Rondas – afinal, tinha vindo ali fazer um treino para as 100 milhas do Grand Raid des Pyrénées. Quanto a mim, surpreendia-me por me estar a sentir incrivelmente bem. Nem uma ponta de fraqueza, ânimo a 100%. Sem darmos oportunidade à razão para nos fazer duvidar, lançámo-nos monte acima, pelo meio do mato e das silvas. A progressão era muito lenta, para evitarmos rasgar muito a pele. A vegetação tinha crescido imenso desde os reconhecimentos. Caminhos que se faziam sem problemas estavam agora semi ou totalmente obstruídos. De quando em vez, valiam-nos as aberturas feitas pelos javalis… Mas lá conseguimos chegar à base do monte da Lapela, onde parámos um pouco à sombra de um carvalho, para comer umas barritas antes do ataque.

Vistas para a Cabreira

A meio da última subida para a Lapela

Naquela tarde, sentia que poderia caminhar e correr ainda horas a fios. Ia ao meu ritmo lentito, mesmo suspeitando que o Fernando estava a fazer um enorme treino de paciência. Sabia que se subisse a fasquia, rebentaria rapidamente. Por isso, lá ia eu, desbravando calmamente tojo e carqueja, tentando encontrar a passagem menos má até ao penedo seguinte – o granito é um material preciosíssimo neste tipo de terreno! Finalmente, depois de escalarmos os enormes calhaus do topo da Lapela, lá estávamos, junto ao sexto vértice, com o sol a perder força a poente. Pedi ao Fernando para ficarmos ali um bom pedaço a desfrutar da imensidão das vistas e do silêncio. Valera a pena ficarmos com as nossas pernas ensanguentadas. Aquele momento zen ficará seguramente gravado na minha mente para sempre. Deitados no granito, sentido a ligeira brisa, ouvindo apenas o som dos insetos, observando as várias montanhas à nossa volta… Mas toda aquela reflexão despertou também a razão e dei por mim a fazer contas… E quando terminei de fazer as contas, partilhei as conclusões com o Fernando: eram 5 da tarde, tínhamos feito 57 km, mais oito do que o previsto, estávamos com um ritmo de 5km/hora e, a manter-se a andança e os desvios à distância, provavelmente chegaríamos a Mondim às 1h ou 2h da manhã de domingo. Não aprecio correr de noite, muito menos por longas horas. Até àquele momento, a experiência da Ronda tinha superado as minhas expetativas. Se continuássemos por muito mais tempo, correríamos o risco de passarmos a fazer um frete. E para fretes a correr não contem comigo. O Fernando concordou com esta conclusão. Se uns quilómetros antes o via determinado a concluir a Ronda, depois da esfrega no mato da Lapela, ficou com muitas dúvidas relativamente às condições do que ainda faltava percorrer. E o homem precisava mesmo de descansar. Com tantos incêndios a combater e com falta de sono, era o que faltava andar com um maluquinho a fazer noitadas em silvados!

Portanto, nem é tarde nem é cedo: assim que chegámos à civilização, demos por concluída a nossa aventura. A aldeia de Bastelo foi o ponto final, com 61 km percorridos em 12 horas. Ainda aproveitámos para despachar mais umas minis e um chouricito e ver a incrível e refrescante aparição de umas loiraças de vestido justinho na aldeola de montanha, enquanto aguardávamos pela boleia do Frederico. À esplanada da tasca, um aldeão ia entretendo-nos com as suas histórias de vida, por Espinho, rua 19, rua 8, Guiné-Bissau…

Momento zen no topo da Lapela

Momento zen no topo da Lapela

A caminho de Mondim de Basto, voltávamos a olhar de perto o Monte Farinha, agora de modo indiferente. Aquela montanha parecia-me agora vulgar, como tantas outras pelas quais tinha passado durante o dia. Talvez fosse da cor que àquela hora a vestia. Talvez fosse pela facilidade com que a subi. Talvez fosse apenas blues. A Ronda chegava ao fim e neste dia senti que se tinha encerrado um ciclo. Um ciclo motivado pelo simples desejo de descobrir e dar a conhecer, mas também pela ambição de marcar o território. A verdade é que as duas marcas que desenhei no território, para além de algo megalómanas para quem quer correr e divertir-se ao mesmo tempo num só dia, estão a ficar esbatidas pelo tempo. A desertificação, o abandono de muitos caminhos, e a rapidez com que a natureza reclama aquilo que sempre foi seu tornaram ou tornarão impraticáveis muitos dos trilhos que idealizei.

As Rondas, como qualquer percurso pedestre, necessitam de manutenção. Como tal, o percurso tem de seguir por caminhos que cumpram um dos seguintes requisitos: serem muito frequentados, terem manutenção anual, ou serem estradões/estrada. As Rondas de Lapinha-Montelongo e de Basto não cumprem totalmente estes requisitos e, como tal, dificilmente poderão voltar a ser realizadas no percurso idealizado, sendo necessário estudar/improvisar alternativas. A exceção será a Ronda do Marão, que oferece melhores condições de auto-preservação.

Quanto a mim, apesar de não ter condições para continuar a descobrir novas Rondas (as distâncias a partir de casa começam a ser injustificáveis), irei procurar ajudar a manter transitáveis algumas partes dos percursos existentes e dedicar-me a outras descobertas territoriais. Entretanto, pode ser que despontem outros Rondeiros por aí que nos proponham novos percursos e novas aventuras!

Podem consultar o álbum completo desta aventura aqui.

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Correr a Ronda da Lapinha

Depois de 18 meses a correr os montes da região, inventando ou redescobrindo percursos e trilhos, chegou finalmente o dia de prestar homenagem ao evento que esteve na base da criação deste projeto, a Ronda da Lapinha, uma das mais longas procissões religiosas do mundo, que anualmente atrai milhares de fiéis à encosta da montanha da Penha sobranceira ao vale do Vizela. Trata-se de uma procissão incomum, pela sua motivação, pela extensão do percurso, e pela sua longa história. Realiza-se ininterruptamente há pelo menos quatro séculos e teve supostamente origem numa reação popular desesperada face aos flagelos das condições climatéricas de inícios do séc. XVII. Mas já iremos à história da Ronda…

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Saio de casa ouvindo a voz do padre lá no alto do monte. Inicio a minha corrida calmamente, ultrapassando os vários peregrinos que pela rua acima vão subindo em direção ao santuário. A meio da subida, atalho pelo meio da floresta e chego rapidamente à escadaria que, nos tempos em que treinava mais para o desempenho do que para a fruição, galgava nas minhas fúteis séries. No topo, apesar do dia ainda estar a começar, já se encontra uma enorme multidão que acaba de assistir à primeira missa campal da Ronda. Os peregrinos estão constantemente a chegar e a partir. Apesar da procissão arrancar às 13h00, muitos fiéis decidem fazer a penitência em horários em que o sol pesa menos.

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A primeira missa do dia

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A Ronda da Lapinha é uma procissão mariana com origens remotas, com a primeira referência documental ao culto da Senhora da Lapinha registada em 1612 [LEITE, 2012]. O nome “Senhora da Lapinha” estará relacionado com uma lenda, bastante comum em Portugal, segundo a qual a imagem da Senhora terá aparecido junto de uma lapa (rocha formando uma pequena gruta), neste caso em Calvos, uma freguesia periférica e rural de Guimarães. Segundo o mesmo autor, só em 1663 surge registada a primeira menção à Ronda, embora seja de crer que a procissão se realizasse já antes dessa data. A Ronda da Lapinha terá, segundo a lenda, sido estabelecida devido a uma praga de gafanhotos que surgiu naquele tempo e que levou ao desespero os agricultores do vale do Vizela, que viam as suas culturas serem devoradas pelos insetos. Decidiram levar a imagem da Senhora da Lapinha até à vila de Guimarães, à igreja da Senhora da Oliveira, implorando alívio para as colheitas ameaçadas. Quando regressaram a Calvos, viram o desejo realizado, pois os gafanhotos teriam supostamente morrido.

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Hoje já não há pragas de insetos ou outras maleitas a derrotar, pois a agricultura definha e já poucos querem saber das culturas e, além disso, a indústria química oferece todo o tipo de “milagres”. No entanto, o número de devotos da Senhora não parece diminuir e a Ronda é também uma oportunidade de convívio, romaria e até de atividade física. E por falar nisso, voltemos à corrida! Já passa um pouco das 8h00 e está na hora de iniciar verdadeiramente a minha Ronda, antes que o calor comece a fazer estragos. Sigo em direção à Penha, pela estrada municipal que serpenteia pela floresta, e vou cruzando-me constantemente com peregrinos que caminham em ambas as direções. É agradável sentir a presença de tanta gente por perto. À chegada a São Mamede, a primeira dificuldade, com a subida ao Santuário da Penha. É uma rampa relativamente curta, mas depois do conforto dos primeiros quilómetros a subir gradualmente, custa mais. A Senhora do Carmo ainda não se levantou, pois as portas do santuário ainda estão fechadas. Há pouca gente nas imediações, apesar de hoje ser também dia de festa na Penha, com a romaria de Santa Catarina, a padroeira desta montanha, cujas celebrações coincidem com as da Ronda da Lapinha – coincidência ou não! Contorno o penedo onde está esculpida a homenagem a Sacadura Cabral e Gago Coutinho e inicio a descida para Guimarães, via Mesão Frio.

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Peregrinos partindo e chegando

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A Ronda da Lapinha realiza-se estatutariamente no terceiro domingo de junho, com o solstício de verão sempre próximo. Este ano, realizou-se a 19 de junho, na véspera do solstício. Em 2015, a Ronda coincidiu com o solstício, tendo sido um Ano Magno. Mas, mais do que o simbolismo da data, pretendemos aqui abordar a temática do caminho, pois uma Ronda é acima de tudo um percurso, circular, em que as condições do caminho não devem limitar significativamente a progressão dos peregrinos. O percurso da Ronda terá tido certamente muitas variações ao longo dos séculos, em consequência sobretudo da evolução da rede viária. É difícil determinar qual foi o percurso original, embora haja estudiosos [MACHADO, 2012] que apontam para o caminho romano-medieval Amarante-Guimarães que passava muito próximo da Lapinha. A Ronda saía então da Lapinha, descia ao caminho romano-medieval e seguia-o por Abação, Pinheiro, Urgezes, Campo da Feira, até à igreja da Senhora da Oliveira. O regresso far-se-ia pelo mesmo caminho. Se assim fosse, é de duvidar que a procissão se denominasse então de Ronda, pois com um traçado linear, ninguém concebe uma “ronda”.

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Caminho romano-medieval entre Pinheiro e Abação (abril 2013)

Um segundo trajeto da Ronda poderá mais tarde ter passado pela Penha, admitindo-se que já havia caminho transitável por entre o mato, com descida a Guimarães mais ou menos por onde hoje circula o teleférico. O regresso continuaria a fazer-se pelo caminho romano-medieval de Abação. Fica a dúvida se não teria sido este efetivamente o percurso original, pois não é improvável que já houvesse caminhos até à Penha no início do séc. XVII – já lá poderia haver uma ermida anterior à capela de Santa Catarina! O terceiro e atual percurso, o mais longo de todos, terá sido desenhado sobretudo tendo em conta as melhores condições viárias que o progresso entretanto trouxe a Guimarães – é bem melhor caminhar com um andor em empedrado ou asfalto, faça chuva ou faça sol, do que em terra batida ou enlameada. Assim, a Ronda da Lapinha é atualmente um percurso essencialmente por estradas municipais ou arruamentos secundários, com cerca de 20km, e atravessa 14 freguesias: Calvos, Infantas, Costa, Mesão Frio, Azurém, Oliveira do Castelo, São Paio, São Sebastião, Creixomil, Urgezes, Polvoreira, Tabuadelo, São Faustino, e Abação.

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Como foi bom descer confortavelmente pelo asfalto até à escola de São Romão, em Mesão Frio! A brisa a soprar agradavelmente, as vistas para Santo Antonino e Atães, poucos carros ainda na estrada… Sigo pela estrada nacional até à Cruz d’Argola e, no entroncamento junto ao Lidl/Intermarché, sigo pela velhinha Rua da Arcela. É por aqui que os rondeiros da Lapinha entram com o andor da Senhora em Guimarães, parando obrigatoriamente frente à capela de Santo António. A Senhora da Lapinha é, pode dizer-se, uma imagem que aprecia os passeios e as visitas às imagens de santos e senhoras das redondezas, prestando-lhes as devidas honras.

Não conhecia em toda a sua extensão a Rua da Arcela, que pertence ao Caminho de Santiago e já foi um dos principais eixos viários que ligava Guimarães a Fafe, e fiquei surpreendido por ainda se observarem construções muito antigas, algumas seguramente ainda a resistir pelo menos desde o séc. XIX. À chegada à igreja de São Dâmaso, viro à direita e sigo pela estrada que passa ao lado do campo de São Mamede até ao Convento de Santo António dos Capuchos (Hospital Velho). Aqui, viro à esquerda e sigo para o centro histórico, até ao Largo da Oliveira. Mais uma vez, apanho mais uma Senhora a dormir. Ainda não são 9 horas e a Senhora da Oliveira ainda está em sono profundo. Quase ninguém cruza o largo e os cafés iniciam timidamente a sua atividade. Tenho dúvidas sobre o trajeto a seguir e questiono um velhote que se arrasta penosamente para um dos cafés. Diz-me, com toda a segurança do mundo, para seguir pela Rua Egas Moniz (antiga Rua Nova). Poucos metros depois, questiono-me se o homem não estaria ébrio, e decido confirmar com uma moradora se vou no caminho certo. Em boa hora o fiz! Regresso ao Largo da Oliveira e sigo agora pela Rua da Raínha D. Maria II até ao Toural. Aqui, já sabia que teria de descer pela Rua de Camões e depois iniciar a subida de 11 kms até à Lapinha!

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Uma rara sombrinha perto do castelo

Rua da Liberdade, Cruz de Pedra (mais um Santo António!), Rua Manuel Tomás e cá estamos perto da antiga fábrica do Castanheiro! Antes das obras de requalificação do caminho-de-ferro, seguia-se em frente para Urgezes. Agora, é necessário ir até à rotunda do Hotel de Guimarães. São mais umas centenas de metros, mas o andor não tem alternativa viável! O sol começa agora a tornar-se desagradável: com os raios de frente, sem óculos de sol, e com o calor a aumentar, a subida vai ser penosa e longa. Felizmente, do cimo de Urgezes até Covas, apanho uma pequena descida e alguma sombra. Depois de passar junto ao apeadeiro de Covas e de passar sobre a ribeira de Nespereira, acabaram as dúvidas de orientação e as benesses do relevo. O percurso não tem nada que saber: é só seguir a estrada até à Lapinha e ir puxando a carroça sob o sol fustigador!

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A procissão à chegada ao Toural (foto Guimarães Digital)

Polvoreira, Tabuadelo, São Simão… Ao longo de toda a subida, vou sempre ultrapassando peregrinos. Deste lado da montanha, ninguém desce. Todos sobem animados de uma vontade de caminhar que dificilmente se observa na rotina do dia-a-dia. Provavelmente, são os mesmos que à semana estacionam o carro em segunda fila à porta do café ou da farmácia. Mas nos momentos sagrados revela-se o melhor das pessoas e tudo se perdoa!

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A azáfama da Lapinha em dia de Ronda

Depois de São Simão, entro em piloto-automático, habituado que estou a correr nestra estrada nos meus treinos a meio da semana. Atravesso Abação e, depois de deixar a Fornalha – é mesmo nome de lugar! -, enceto a última subida até à Lapinha. Anseio por atingir o bosque que antecede a Devesa Escura, um dos poucos troços com sombra de toda a Ronda. Olho para o relógio e estou quase a fazer duas horas de corrida. Meto na cabeça que tenho de terminar abaixo das duas horas e acelero, sempre a ultrapassar, cada vez mais gente. À chegada, não resisto a parar para tirar uma fotografia do santuário e da multidão. No relógio 1h59mh47s… Já não vou conseguir. Último sprint, ainda com muito fôlego e está feito! 23 segundos depois da hora. Temos trabalho a fazer no próximo ano!

No adro, ao lado das centenas de peregrinos, há vários ciclistas que também vieram cumprir alguma tradição. Sou o único corredor, mas talvez não seja o único a correr a Ronda naquele dia. A Ronda tem uma hora e um percurso marcado, mas cada um é livre de a fazer como quer, à hora e ao ritmo que quiser… Desde que passe por todas as capelinhas!

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A vista a partir do Santuário da Lapinha

Dirijo-me até à outra extremidade do santuário. Dali avistam-se as Serras de Fafe, o vale do Vizela, um pouco do vale do Sousa, o Marão, a Aboboreira, Montemuro lá ao fundo… Está na hora de voltar a casa, hoje bem mais cedo do que o habitual. A estrada tem esta virtude de nos despachar mais cedo. Para o ano, voltarei à Ronda da Lapinha e será tradição para manter enquanto as pernas deixarem.

Ficha técnica

Referências

LEITE, Artur M., “Senhora-à-Vila: quatro séculos de fé e tradição cultural”, 2012.

MACHADO, Narciso, “Os Caminhos da Ronda da Lapinha”, Notícias de Guimarães, 23 e 30 de março de 2012.

Uma via sacra na primeira lua cheia da Primavera

Partilhamos o e-mail enviado pelo Miguel Bandeira Duarte, descrevendo a sua aventura de 63 km pelos montes de Guimarães e Braga, numa espécie de via sacra de celebração do início de Primavera, na primeira lua cheia da estação. Foi neste dia que, há um par de milhar de anos, um tal de Jesus galgou um monte antes do sacrifício. O Miguel galgou muitos mais mas preferiu continuar entre nós. Esperemos que o relato sirva de inspiração para mais aventuras trailo-sacras!

Caro Helder

Eis o relato do treino longo que realizei.

Há muito que colocas na natureza estes traçados que simbolicamente designas por ronda. Parece inequívoco dado o seu carácter circular, no entanto a escolha dos locais por onde passa parece enunciar que o acto de correr é investido de referências que ultrapassam o rigor da geometria da informação no terreno. Global positioning system referencia também a experiência egocêntrica (centrada no corredor) a qual, na sua subjetividade, permite o prazer e o desprazer, o gozo da corrida. Quiçá uma sensibilidade treinada sobre as forças telúricas nos permitisse deixar de lado os instrumentos de medida, no entanto somos hoje demasiado eficientes.

Há muito que pretendia continuar a conhecer as elevações entre Guimarães e Braga, que emolduram o Ave. Realizei alguns reconhecimentos, sem sistematização, entre treinos e provas, os quais utilizei mais para encontrar referências visuais do que para voltar a percorrer os trilhos. Sou adepto de passar poucas vezes pelo mesmo caminho por isso o traçado preparatório pelo Google privilegiava novos caminhos nem sempre os mais diretos. Está na altura de dizer que a ideia que antecedeu a corrida não foi propriamente a de uma ronda mas a de passar boa parte de um dia a correr. Isto é sair de casa bem cedo e voltar quando estivesse cansado. Claro que, com outras tarefas já marcadas para o dia, havia um tempo a cumprir de aproximadamente 10 horas. Assim, sair de Guimarães em direção ao Sameiro e depois voltar cumpria também alguns requisitos de quilometragem e segurança, nomeadamente rede de telemóvel, pontos de hidratação e a proximidade de outros meios de auxílio caso algo corresse mal. Como sabes pretendia percorrer os caminhos da primeira ronda de Fafe, porém a intenção de correr mesmo sem companheiros, implicou a alteração do percurso e das condições (assim, felizmente, mantenho a possibilidade de a realizar).

Saí do Salgueiral pelas 5:56, já nascia o dia, em direção à Veiga de Creixomil. A caminho das Ruas da Agrela e da Ressa a “primeira Lua cheia da Primavera” elevada à minha frente. Bom tempo, boa temperatura. Na mochila uma sandes, barritas, magnésio, 1100 ml de líquidos, luz química, manta térmica, frontal, apito e muita vontade para correr. A ideia seria passar na ponte sobre o Ave em Brito que me posicionava para a subida à capela de S. Miguel em Vermil. Da Ressa para Correlos e daí para a Ameixoeira rapidamente cheguei ao Ave para enfrentar alguns metros de asfalto. É difícil atravessar algumas zonas de ligação sempre por terra, por isso procurei minorar por ruas secundárias como Valdante. Por aí ainda tentei fazer parte do monte mas deparei-me com um portão de estaleiro. Seguindo a João Paulo II, iniciei ao km 10 a subida ao S. Miguel [foto 01], 200 metros de elevação com trilhos bastante inclinados e desafiantes. Depressa percebi o desfasamento entre o Google e a realidade, porém os trilhos mais marcados conduziram-me ao topo: um cume bastante aprazível com o marco do Anjo (386m) o qual fotografei e te dediquei [foto 02]. A descida aos 195 metros é rápida e sobre terra fofa bastante confortável. Apesar de tantos eucaliptos ficou a impressão de um monte com grande potencial para treinos curtos mas intensos. De novo a transição para passar por baixo da A11 em Figueiredo e ascender à Sra. da Saúde. Em zona familiar passei bem perto do Outinho (495m), não sem antes entrar, por engano, por um trilho cerrado de tojos. Trata-se de uma zona com rasgos novos não documentados e outros já esquecidos. Do Outinho a Sta. Marta (564m), com um pequeno engano encontro uma descida rápida em ‘single track’, depois atravesso a N101 (278m) na Costa do Gaio. Cheguei à nacional com 3 horas de caminho em 22km percorridos, tudo muito tranquilo! A subida a Sta. Marta são 4 km com forte inclinação cujo atrativo é a bem conhecida parte final. Uma vez no topo a vista da Sra. da Assunção sobre o vale é extremamente agradável. Retomei o caminho, o Sameiro (569m) encontrava-se perto e faria uma pausa mais longa para comer e descansar. A descida pelas traseiras da Falperra é espetacular, tão bruta quanto a subida da N585 ao planalto verdejante já próximo da Sra. do Sameiro [foto 03].

 

Passaram 5 horas e 31km desde Guimarães. Metade do caminho estava percorrido, talvez o mais familiar, sem preocupações de médias e mais importante sem dores. O escadório é monumental [foto 04], a vista sobre Braga assoberbante. Repus as reservas de água e tomei um café, seguindo o caminho na direção das proximidades da Citânia de Briteiros. O percurso tomado não foi o mais curto, o afastamento da estrada permitiu aproveitar um declive suave para percorrer um trilho seco, sem enganos, a bom ritmo, no caminho da Capela de Sto. António [foto 05] nas proximidades de Soutelo. Com um enquadramento aprazível é um ponto fresco com água ideal para recuperar, que bem me soube! Daí até Portuguediz foi um percurso completamente desconhecido, que me deu a boa sensação de não fazer a mínima ideia de onde estava. Neste caso, a segurança do trilho no relógio é fundamental para a perfeita fruição. Para quem ainda tem pernas, o divertimento espreita num percurso variado de piso e paisagem [foto 06]. Adiante, sem prestar atenção, coloquei o trilho a atravessar o Febras, com água acima da cintura, alcançando o lageado na direção de Donim na N309 [foto 07].

Estavam percorridos 40 km, os próximos 5 seriam uma descida animada não fosse o abandono em que se encontra. No final vi marcas de PR ficando sem saber se toda a descida faria parte, mas é um trilho que merece ser percorrido com frequência porque desaparecerá nos próximos anos [foto 08]. Em Santo Emilião notei alguns sinais de cansaço, a temperatura estava quente, tomei uma cola no café e segui à ponte para atravessar de novo o Ave, 30 metros mais alto, para Souto Sta. Maria. A passada estava pesada e o asfalto tardava em ser substituído. Da Rua do Sobreiro tomo, pelo monte, a direção da Gonça. A subida começa a ganhar inclinação em poucos metros, é dura, com pedra solta e restos de corte de eucalipto. A magnífica vista sobre o vale do Ave e todo o percorrido durante o dia [foto 09] aligeira a fadiga. Apesar das dificuldades físicas a satisfação é evidente e motivadora. No sopé do aterro, um campo de cultivo abandonado baralha as dicas do Google, vejo-me rodeado de ortigas e silvas e sem referências para seguir caminho. Foi um momento difícil, se tivesse encontrado o caminho teria atalhado 4km em apenas 100m. Voltei atrás, encontrei habitações e segui a estrada até encontrar o trilho que liga pelos cumes Gonça a Fermentões. Estava nos 50, nos últimos kms do dia, faltariam mais 13. Escolhi o trajeto mais direto num compromisso com o tempo que dispunha. Nesta altura cresceu a sensação que deveria ter realizado uma alimentação mais substancial, precisava de mais energia e o cansaço surgia com facilidade. Felizmente, os últimos kms são a descer e o facto de ser um percurso familiar tornou-o menos penoso. De novo na veiga, estava no ponto de partida 10h e 20min depois.

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[8] Donim

Entre os aspetos mais positivos deste percurso estão a proximidade de casa, a variedade de pisos e paisagens, o acumulado de 4200m, pontos de água e passagem por pontos de elevado interesse, a gestão de esforço e um novo ‘record’ pessoal. Entre o menos positivo está a presença significativa do asfalto nas transições e as minhas dúvidas na interpretação das informações do relógio.

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[9] Vale do Ave

Uma nota especial para o apoio nos bastidores, sei que correram tanto quanto eu: a Micaela, o Mauro e Tu.

Terei muito gosto em tornar a realizá-lo como treino de longa distância ou a utilizá-lo como base para mais uns tantos desafios! Estás convidado!

Um abraço, boas corridas, Miguel

Para quem estiver interessado em repetir a façanha, partilhamos o track cedido pelo Miguel.

 

GR43: um ultra-passeio pelas Terras Altas de Fafe (II)

[recomenda-se a prévia leitura da primeira parte do relato]

Depois da primeira vintena de quilómetros muito entretida, com pisos, relevo e vegetação diversificados, entrávamos agora numa nova fase, com declives suaves e os típicos estradões das cristas das montanhas de Fafe, com o Maroiço no horizonte. Estávamos também em menor número e menos faladores, pensando no desgaste acumulado e no que aí vinha. O percurso por Gontim, Luílhas, Argande e São Miguel do Monte contrastou com o início da manhã. Fez-se mais rapidamente embora tenha sido menos interessante: muita terra batida, asfalto demasiado frequente, e paisagem por vezes monótona. A mente divaga… Pela arquitetura portuguesa do séc. XVIII, pelo espólio do Museu Nogueira da Silva, sobre o significado de “maroiço”, que o Gil nos recorda ser “amontoado de algo”. É realmente uma pena não subirmos ao Maroiço ali ao lado, um belo amontoado de formações graníticas.

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Um pedaço de arquitetura paisagista em Gontim

Ainda não é meio-dia e a larica torna-se cada vez mais incómoda. A GR43 foi concebida para ser feita por pedestrianistas, em várias etapas. Como tal, não é por acaso que as etapas começam e terminam em aldeias onde se pode conseguir dormida e um bom jantar. Para nós, corredores, esses pormenores logísticos não são tão relevantes, mas também precisamos de algumas paragens técnicas, para reforçar mantimentos ou simplesmente para beber uma cerveja ou um café, tão importantes quando o ânimo dá sinais de quebrar. A aldeia do Pontido, tão agradável e munida de um restaurante e de um café, é portanto o sítio ideal para o primeiro abastecimento a sério. Decidimos aguentar até lá.

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O Gil correndo pela margem da albufeira da Queimadela…

Finalmente, o trilho volta a ficar interessante, com a descida pela Rota do Maroiço (PR1) até à barragem da Queimadela. Momentos de adrenalina e brincadeira. Como crianças, saltitamos de pedra em pedra ou imitamos um bobsleigh a fazer curvas. Junto à albufeira, corremos por entre as sombras das árvores e a luz do sol no zénite. Belas sensações visuais que perdurarão nas nossas memórias.

Finalmente em frente ao café da Aldeia do Pontido, as primeiras coisas primeiro: a mais que merecida mini! Descalçamos sapatilhas, soltamo-nos das mochilas, e sacamos das sandes de presunto e dos panados para acompanhar a cerveja. Quase caio na tentação de comer uma sopa, mas as lições do passado lembram-me que encher o estômago mais do que o suficiente costuma trazer maus resultados. Mantenho o regime restrito, se é que se pode falar em restrições de presunto e cerveja na mão. Saboreamos calmamente o alimento e o som da corrente do rio Vizela. Despedimo-nos entretanto do Frederico, que também tinha de regressar a casa mais cedo. Levou trinta e três quilómetros nas pernas e certamente a pena de não poder acompanhar-nos até ao fim. Éramos agora só quatro, mas estávamos convencidos de que os restantes 18 km não iriam resistir à nossa passada.

A verdade é que mal deixámos a barragem foi sempre a subir, a subir, a subir, algumas quase a pique, em que tínhamos de nos esforçar para não cair para trás. Afinal ainda era cedo para estarmos tão convencidos. A ascensão ao alto da Toura era uma das últimas grandes dificuldades, mas poderia deixar mossa. A meio da encosta, tivemos uma nova hesitação devido a marcação deficiente da GR. Desta vez, valeu-nos o relógio que indicava nordeste. Siga!, por entre a vegetação amarelecida pela falta de água e pelo frio. No meio de uma depressão, surge-nos isolado um velho eucalipto que surpreende pela beleza incomum. Tenho um forte preconceito contra eucaliptos, mas este tolero. Parece inofensivo e fica bem na foto.

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A Toura, o seu eucalipto, e o Maroiço ao fundo

Tínhamos combinado não gastar as fichas todas no Pontido e deixar algumas para um bom café em Pedraído. À entrada em Calcões, fechámos os olhos às tentações e continuámos pela estrada. Víamos ao lado do asfalto uns bons trilhos e estranhávamos a GR não passar por lá. Opção estética não será certamente. Para nós, foi mesmo uma obrigação. Já estávamos a ficar saturados de asfalto. Pouco depois, a rota desvia para os campos e leva-nos finalmente à aldeia de Pedraído, fundindo-se com a Rota das Margens do Vizela (PR2). Duplo alívio: não voltaríamos a ver asfalto naquela tarde e o café estava muito próximo.

Perto da igreja, encontramos uma venda de portas abertas, sem ninguém a atender. Chamamos e surge-nos uma mulher de idade avançada embora de aparência enérgica. Sim, tinha mesmo café! Pede-nos para entrarmos para as traseiras da venda e penetramos na… Tasca do Senhor Abel! Uma espécie de lugar secreto de onde jorra um famoso arroz de cabidela e aquele bom vinho. Nós só queríamos café, mas anotámos o contacto, não vá a gente arrepender-se daqui a uns quilómetros e voltar desesperada para trás! O Miguel lembra-se de pedir um cheirinho… Aquele cheirinho. Vem-nos a senhora com uma curiosa garrafa de conhaque. Da torneirinha saem umas gotinhas de precioso cheirinho com o qual lavamos o fundo da chávena de café e aquecemos o estômago. Nunca uma aguardente me soube tão bem!

Deixámos a tasca e, depois de umas voltinhas pelo casario da aldeia, tomámos o trilho em direção a Lagoa. Continuamos em terreno conhecido, tanto de treinos anteriores pelo PR2, como até de provas recentes, como o Trail Serras de Fafe, cujo percurso longo passou por aqui. E, para nosso espanto e revolta, ainda se encontram no trilho as fitas das marcações, sete meses depois. Muitas caídas, semi-cobertas pela lama e folhas, consistentemente espalhadas ao longo de vários quilómetros. Não foi descuido, tão somente falta de respeito pelo ambiente e pela população local.

Com a náusea das fitas para trás, enfrentávamos agora a última grande subida. Uma interminável e muito desgastada calçada a serpentear por entre um denso carvalhal. Sentia o homem da marreta a aproximar-se. Já levávamos mais de 40 km nas pernas. O Miguel galgava as pedras com a motivação de quem estava a bater um recorde. O Gil nem parecia que tinha tido febre nos dias anteriores e puxava por nós. O André continuava a fazer aquilo como se nada fosse. E entretanto o homem da marreta já tinha trepado para as minhas costas! Tinha de me livrar do gajo! Aproveitei um troço mais plano para acelerar o passo e dei um coice impiedoso no tipo, que deve ter ficado a ganir entre os galhos de uma árvore!

Lagoa, enfim! O eldorado da GR43, com a Senhora das Neves a cumprimentar os quase-vitoriosos. Reabastecemos cantis, esticamos tendões, fletimos músculos e ‘bora lá que se faz tarde! Partilhávamos agora o trilho com o PR7, mais uma pérola de Fafe. Pequeno mas mágico, com os seus carreiros escuros, cobertos de musgo e folhas secas. A meio da descida, passamos ao lado da capela mais antiga do concelho – São João de Latrão -, por onde supostamente passavam outrora peregrinos de Santiago.

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Ruínas da capela de São João

No fundo do vale, atravessámos a ribeira de Abrunheiros – que mais abaixo muda de nome para ribeira de Várzea Cova e depois para ribeira de Petimão até desaguar no rio de Ouro. Dali até Várzea Cova, continuámos por belos trilhos de floresta, com os raios de sol cada vez mais oblíquos. Já corríamos ligeiros, com a certeza de completar a Grande Rota. As últimas centenas de metros foram feitas sem pressas. Finalmente, revemos a igreja de Várzea Cova e os nossos carros, mais de sete horas e meia e 51 km depois! Dores? Cansaço? Já esquecemos tudo! A satisfação de chegar ao fim supera sempre tudo!

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Está feito! Venham lá as minis e os rojões!

Era agora chegado o momento de hidratar com mais umas minis, provar as iguarias de rojões que o chefe Miguel partilhou, e refletir sobre a aventura. Não sendo um trajeto duro, esta GR43, pela sua extensão, deve ser encarada com a devida preparação. As expetativas devem contar com um percurso que privilegia os núcleos rurais e as vias de ligação entre estes, em detrimento dos trilhos mais selvagens da montanha. O piso é bastante acessível, apesar de muitas vezes assentar em calçadas e, no nosso entender, demasiadas vezes em asfalto. Há também algumas falhas de marcação que deveriam ser corrigidas pela entidade promotora. Mas, no cômputo geral, a GR43 é uma excelente mostra do melhor que o concelho de Fafe tem para dar aos amantes de natureza e de património rural. Deve ser apreciada ao ritmo certo, em corrida não excessivamente rápida ou, preferivelmente, em caminhada. Ah! E sempre temperada com algumas paragens pelas tascas!

GR43: um ultra-passeio pelas Terras Altas de Fafe (I)

Não é fácil convencer alguém a correr 50 km a feijões, muito menos em novembro, com frio, poucas horas de luz natural e com tantas provas a competir com os feijões. Mas, na verdade, o desafio proposto era bem mais do que um treino mais longo. Era sobretudo uma oportunidade única para conhecer grande parte da zona norte de Fafe e a sua luxuosa coleção de trilhos e paisagens multifacetados, tudo na companhia de gente preciosa, que sabe valorizar e traz grande valor a estas experiências. E também de fazer história, pois seríamos os primeiros a completar a GR43 a correr! E assim oito malucos se decidiram a levantar-se bem cedo numa madrugada gelada de outono, para viver mais uma experiência inesquecível.

Ao contrário de vários ultra-trails em que já participei, não senti qualquer ansiedade antes do desafio. É verdade que a distância já não era novidade para mim, mas sabia também que não iria sentir qualquer pressão durante a longa jornada. Iríamos correr ao ritmo que conviesse a todos e esperar as vezes que fossem necessárias para nos reagruparmos, sem pressões horárias, e isto tudo apesar da heterogeneidade do grupo – desde os rookies até aos atletas com extenso currículo.

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Pedro, Rui, André, Miguel, Frederico, Gil, Mauro e eu atrás da câmara. Não parece, mas estamos todos a tremer de frio!

Antes da hora combinada, já todos estavam a esfregar as mãos de frio à frente da igreja de Várzea Cova. Uma forte geada cobria os campos à volta. Com uma temperatura muito próxima de zero, todos estavam com vontade de arrancar o mais rapidamente possível. Depois das boas-vindas e apresentações dos aventureiros Rui e Pedro, vindos expressamente do Porto para conhecer as montanhas de Fafe, o grupo seguiu calmamente viagem em direção a Bastelo.

Ainda não tinha decorrido 1 km e surgia a primeira hesitação no percurso, devido a marcação deficiente da GR. Valeu-nos o Gil, que já tinha feito o trajeto naquela direção há poucos meses e que rapidamente reconheceu o trilho a seguir. Dali até Bastelo, seguimos a já conhecida Rota dos Espigueiros (PR5), que coincide com a GR. O sol já ia mais alto e já começávamos a libertar-nos de alguma roupa que trazíamos a mais. Deixávamos também para trás os campos, os regatos, e os agradáveis cheiros da aldeia, e entrávamos na montanha, onde são outras as fragrâncias e as vistas, já descritas em anterior aventura.

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Troço exclusivo da GR43, entre Bastelo e Aboim

Lá em cima, avistávamos o Gerês envolto num nevoeiro que mais parecia um manto de neve. Seguíamos agora pelo troço que corresponde à rota de Aboim (PR3). Nesta zona, costumam estar garranos a pastar às primeiras horas do dia, mas é agora difícil avistá-los, com a temperatura mais agreste. Invadimos calmamente a aldeia e trepamos ao morro onde se encontra o ícone da freguesia, em boa hora recuperado. Depois das fotografias obrigatórias ao moínho de vento, regressámos à GR.

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Primeiro postal da manhã, ao lado do moínho de Aboim

Num momento de distração, junto à igreja, quase que perdíamos o trilho, que até nem estava mal sinalizado. De novo no monte, seguimos um belo carreiro que nos leva a Figueiró do Monte. Sabia de antemão que encontraríamos ali uma dificuldade, que se confirmou: o desvio por um pequeno trilho que acompanha um regato está completamente coberto de fetos e tojo, sendo necessário forçar passagem por entre a vegetação. Estes momentos mais selvagens também tornam especiais estas experiências. Todos se queixam dos arranhões, mas, lá no fundo, fica sempre uma sensação de vitória.

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Roça-mato algures entre Aboim e Figueiró do Monte

Pouco depois, estávamos novamente em terreno acessível. Desembocámos numa estrada asfaltada e percorremos assim algumas centenas de metros até à aldeia-fantasma de Figueiró, onde parámos para o primeiro abastecimento, após cerca de 1h30 de corrida. O ponto de água da aldeia estava seco, mas ainda tínhamos algumas reservas nos cantis. Demoramo-nos um pouco, a alimentar uma boa conversa.

Retornámos ao caminho, enérgicos, em direção a Barbeita. Deixámos de correr para norte e estávamos agora a rumar a ocidente, junto aos limites de Vieira do Minho. Não perdemos a oportunidade de tirar umas boas fotos no caminho que ladeia uma bela torre megalítica natural. Está toda a gente bem disposta. Os colegas do Porto deliciam-se com as esplendorosas vistas para a barragem do Ermal e fazem promessas de voltar com mais amigos. É a boa nova do paraíso fafense a espalhar-se.

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A caminho de Barbeita, por um dos trilhos mais bonitos da GR

Chegados às imediações de Barbeita de Cima, enfiámo-nos frequentemente em terras ensopadas e em lamaçais. De nada serve tentar evitar o contacto desagradável, pois há água por todo o lado. Se não entrar bosta de vaca para dentro das sapatilhas, menos mau! Até Mós, iremos encontrar frequentemente este tipo de terreno, com exceção de uma descida vertiginosa e ziguezagueante por entre um belo carvalhal. Lá em baixo, junto ao lameiro, encontrámos uma expressão clara de afirmação de propriedade de alguém que ainda deve estar a disputar a passagem com a PR3/GR43. Saltamos as vedações e subimos até Mós, onde somos recebidos à entrada da aldeia por um cavalo, no meio da estrada, com ar de não saber muito bem o que estava ali a fazer.

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Monte das Lameiras, com a Cabreira ao fundo

Esperava-nos agora uma das subidas mais difíceis da GR, até ao monte das Lameiras, não muito longe do ponto mais alto do concelho de Fafe – o alto de Morgair. Corremos depois ao longo da crista, com vistas ímpares para vários monumentos naturais da região. É obrigatório parar para mais umas fotos e também para recuperar fôlego. Estávamos a chegar à bifurcação onde nos iríamos separar do grupo que vinha fazer os 25 km. O Mauro, que tinha de regressar mais cedo, ia agora acompanhar o Pedro e o Rui – vieram para fazer 15 km e entusiasmaram-se para mais 10 – até Várzea Cova, pelos belos trilhos de São João da Ramalheira, enquanto o restante grupo seguia em direção a Gontim. Estávamos quase a meio da GR, com cerca de 3 horas de corrida. Ninguém se queixava de dores ou de cansaço. O sol continuava a aquecer-nos. Estava um dia perfeito para correr 50 km!

[clique aqui para ler a segunda parte]

Dicas para o Free GR43

Estás a pensar participar no Free GR43, no próximo dia 28? Então lê os parágrafos seguintes com atenção, independentemente de te atirares aos 15, 25, ou 50 km.

Estou com toda a pujança e toda a cagança para os 50 km!

Porreiro! Já somos uns quantos! Mas antes de te aventurares, certifica-te que estás preparado mental e fisicamente para um esforço de corrida muito prolongado, provavelmente superior a 8 ou 9 horas. Vai ser duro, especialmente a partir dos 30 km. Vamos subir elevações que totalizam cerca de 1600 metros. Conta também com outro tanto desnível a descer. É possível que nos percamos uma ou outra vez e que façamos mais alguns kms do que o previsto. Se nos atrasarmos muito, é possível que terminemos a GR de noite. Tens de estar preparado para tudo.

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Vê bem no que te vais meter…

Se estás preparado para tudo, então estuda as notas abaixo. O ponto de encontro é junto à igreja de Várzea Cova (41°30’30.58″N, 8° 4’10.24″W), onde há um amplo parque de estacionamento. A partida será por volta das 7h30m (evento Facebook). Seguiremos a GR 43 na direção contrária aos ponteiros do relógio. Podes encontrar o traçado do percurso aqui. Os principais pontos de referência são os seguintes:

  • Bastelo – km 3 (há um café)
  • Aboim – km 7 (há café e táxi)
  • Figueiró do Monte – km 11 (há água)
  • Barbeita – km 13 (há água)
  • Mós – km 16 (há água)
  • Gontim – km 20 (há água)
  • Luílhas – km 23 (há café e táxi)
  • São Miguel do Monte – km 28 (há café)
  • Pontido (barragem da Queimadela) – km 32 (há café)
  • Pedraído – km 39 (há café)
  • Lagoa – km 45 (há café e táxi)

Lembra-te que as únicas marcações que encontrarás ao longo do percurso são as da própria GR 43, feitas para pedestrianistas e não para corredores! Portanto, olhos bem abertos! Não haverá ninguém a ajudar-te, a não ser que corras juntamente com o grupo – opção mais sensata.

Em Várzea Cova, espera-te um banho quente e uma refeição, no Piovácora Parque Pesca. Se quiseres usufruir dos serviços do Piovácora Parque Pesca, o custo previsto andará à volta dos 15 euros – dependendo do teu apetite -, mas tens de te inscrever previamente aqui.

Recomendamos o seguinte material para transportares contigo durante o desafio:

  • mochila com reservatório de líquidos com capacidade de 1 litro
  • reserva alimentar – não há abastecimentos e não é garantido que haja comida nos cafés que encontrarás no percurso, portanto leva barras, sandes, fruta, qualquer coisa que o teu corpo costuma aceitar bem neste tipo de esforços
  • corta-vento, buff e luvas – vai estar frio e as montanhas de Fafe são muito ventosas
  • manta térmica – se te acontece alguma coisa e ficas imobilizado no meio do nada, pode salvar-te a vida
  • mini-kit de primeiros socorros – pensos e medicação para dores
  • apito – se te perdes do grupo e precisas de chamar por alguém…
  • frontal – nunca se sabe a que horas vamos chegar
  • telemóvel – não é preciso explicar
  • dinheiro – para algum imprevisto e para beber umas minis

Não posso fazer os 50 km, mas também quero divertir-me!

És bem-vindo(a)! Quantos mais alinharem à partida, melhor! A festa será maior. Tens duas opções de trajeto:

  • Acompanhar o grupo até Aboim e depois seguir pelo PR7 (a vermelho no gráfico abaixo) até encontrar novamente a GR 43, e regressar a Várzea Cova. Este trajeto deverá rondar os 15 km.
  • Acompanhar o grupo até ao Monte das Lameiras e regressar a Aboim pelo PR3 (a azul no gráfico abaixo) e depois seguir pelo PR7 até encontrar novamente a GR 43, e regressar a Várzea Cova. Este trajeto deverá rondar os 25 km.
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Ligações ao PR3 (a azul) e PR7 (a vermelho)

Os PR3 e PR7 estão sinalizados, embora não seja garantido que as marcações estejam em perfeitas condições em todo o percurso. Além disso, lembra-te que é provável que, no grupo que te acompanha, ninguém conheça o PR3 ou o PR7! Portanto, recomendamos que leves no teu relógio os respetivos percursos, que poderás descarregar a partir do Wikiloc:

Caso te queiras juntar mais tarde ao convívio que haverá no Piovácora Parque Pesca, em horário imprevisto – depende de quando os participantes da GR 43 terminarem o percurso -, a refeição terá um custo à volta de 15 euros – dependendo do teu apetite. Poderás inscrever-te aqui.

Vê acima o material recomendado, nas dicas para os 50 km. Apesar da distância ser mais curta, nunca se sabe…

O ponto de encontro é junto à igreja de Várzea Cova (41°30’30.58″N, 8° 4’10.24″W), onde há um amplo parque de estacionamento. A partida será por volta das 7h30m (evento Facebook).

 

Correr a Ronda de sol a sol (III): da Queimadela à Lapinha

Para ler os capítulos anteriores desta série, siga as ligações: Lapinha-Lameira e Lameira-Queimadela.

Se a Ronda fosse uma prova convencional, teríamos muitos fatores de pressão: o limite horário, os outros atletas que nos vão ultrapassando e que diminuem a nossa confiança, o receio de nos afastarmos por demasiado tempo do percurso e o vassoura deixar-nos para trás… Mas a Ronda, sendo um desafio completamente livre, permite-nos gerir o esforço como bem entendermos, sem quaisquer pressões e, como tal, permite-nos desfrutar muito mais do que numa prova. Questiono-me se teríamos chegado ao fim caso estivéssemos numa prova convencional. Mas voltemos ao relato dos acontecimentos…

Do alto de Vale Bom a mirar Santa Marinha

Do alto de Vale Bom a mirar Santa Marinha

Quando voltámos ao trilho marginal da albufeira da Queimadela, tentámos correr um pouco, mas tivemos de parar quase de imediato devido a uma dor de burro do Gil. Caminhámos um pouco. Sugeri que controlássemos melhor a respiração, mas não parecia estar a resultar. Pouco depois, fui eu que tive de parar de correr. Fui subitamente atacado por uma forte vontade de dormir. Naquele momento, cheguei mesmo a pensar que deveria deitar-me um pouco. Partilho esta preocupação com o Gil e foi então que começou a reviravolta no nosso estado físico e mental. O Gil chegou mais depressa do que eu à conclusão de que deveríamos mudar de estratégia e começar a cuidar de nós antes que o sol e o calor arrumassem definitivamente connosco. “E se fôssemos tomar um café?”, sugeriu ele. Eureka! Parece uma coisa óbvia, mas se eu estivesse sozinho talvez não tivesse esse cuidado comigo próprio e insistisse no erro de batalhar contra o calor. Concluímos também que seria contraproducente qualquer tentativa de correr enquanto se mantivessem aquelas condições. Iríamos caminhar calmamente e parar as vezes que fossem necessárias e iríamos atirar-nos à agua sempre que possível. E assim foi! Que se lixe se fizermos um tempo fraquinho. Hoje, mais do que nunca, o que interessa é chegar ao fim!

No fontanário de Vila Cova

No fontanário de Vila Cova

Desviámo-nos do percurso e caminhámos calmamente até à aldeia do Pontido, onde estavam um cafézinho e uma fabulosa Mini à nossa espera! Depois deste prémio, voltei ao percurso com outro ânimo. O defunto tinha ressuscitado! Não me lembro de ter passado por novas dificuldades de relevo desde aquele momento decisivo. Fomos subindo ligeiros em direção ao alto de Vale Bom. Íamos tão absorvidos na conversa que nem notámos os quilómetros a desfilar sob nós. Continuávamos a não conseguir digerir alimentos e muito menos ingeri-los, mas isso não nos impedia de irmos avançando. Quando chegámos a Vila Cova, surgiu-nos um café manhoso em que nunca antes tinha reparado. Água fresca, outra cerveja, conselhos sobre o melhor spot para dar um mergulho… De um lado, estava o percurso previsto, em que optaríamos por um tanque de água suja ou pelo rio Pequeno. Do outro, um desvio significativo da rota, mas um tanque de água limpa e fresca. Não foi preciso pensar muito para seguir pela via municipal até ao centro de Vila Cova. Os putos da aldeia brincavam no fontanário como eu já não via há muitos anos. Evitavam a zona mais fria do tanque e nós agradecemos, pois era aí mesmo que queríamos mergulhar e ficar um bom pedaço. Entretanto, o sol começava a descer no horizonte e a subida a Santa Marinha já não era aquela besta que temíamos umas horas antes.

Repouso em Santa Marinha (foto de Inês Medeiros)

Repouso em Santa Marinha (crédito: Inês Medeiros)

Quando deixámos Vila Cova, reparámos que o alto de Santa Marinha estava mesmo à nossa frente e que seria um erro voltar atrás para retomar o trilho inicialmente previsto. Além de agora mais curta, a abordagem ao monte pelo lado norte tinha mais sombras. Seguimos então pelas vias asfaltadas e empedradas até ao sopé do monte. Finalmente, após várias horas, estávamos a conseguir novamente correr consistentemente. Depois de uma pequena paragem para tentar comer alguma coisa, atacámos a subida a Santa Marinha, que até nem custou muito! Lá em cima, descansámos mais um pouco e tivemos a visita da Inês e dos filhotes do Gil, que nos trouxeram um reforço fresquinho. Uma maçã, para tentar provocar gases que aliviassem o estômago, um pouco de limonada e, claro, não podia faltar mais uma cerveja! Já passava das 18h30 e ainda nos faltavam cerca de 20km. Pelos nossos cálculos, se não houvesse surpresas, iríamos conseguir fechar a Ronda ao pôr-do-sol.

O pôr-do-sol que não vimos

O pôr-do-sol que não vimos (crédito: Inês Medeiros)

Com o sol a fraquejar e algumas nuvenzinhas a ajudar, pudemos correr normalmente, ao ritmo a que 55km nas pernas permitem, e rapidamente chegámos aos vértices seguintes, em Rendufe e Atães. Só nos faltavam dois cumes: Santo Antonino e a Penha. Nem que o corpo não quisesse, haveríamos de conseguir chegar à Lapinha! A subida a Santo Antonino fez-se com alguma dificuldade – a fraqueza e o mal-estar agravavam-se. O Gil, como durante quase todo o percurso, seguia na frente. Lá em cima, sentámo-nos nas escadas de acesso ao parque de merendas, enquanto esperávamos que a Simona nos trouxesse o último reforço. O mal-estar passou entretanto a vontade de vomitar, aumentada pelo cheiro que emanava dos contentores do lixo. Afastei-me um pouco e desatei a vomitar imenso… ar! Não havia nada no estômago para pôr cá fora? Entretanto chega a Simona e estava indeciso sobre se deveria tentar ingerir algo. Comemos um pouco de melancia – esse fruto maravilhoso – e pouco depois já nos sentíamos um pouco melhor. As minhas filhas aproveitavam entretanto para devorar as batatas fritas que nós não conseguíramos comer… Pouco depois, descíamos em direção a Paçô Vieira, para a nossa última grande subida. A motivação estava em alta. Subíamos aquela encosta a passadas largas e rápidas. Entretanto, a Inês telefona ao Gil para perguntar se ainda estávamos longe, pois o sol iria deitar-se em poucos minutos. Acelerámos ainda mais o passo. Pela primeira vez em todo o percurso, tínhamos pressa! Quando chegámos ao santuário da Penha, o sol já se tinha deitado… Foi por pouco!

Missão cumprida!

Missão cumprida!

Da Penha à Lapinha, foi um tirinho. Optámos por ir pela estrada em vez do trilho inicialmente previsto, pois quase não havia luz. Corremos a um ritmo elevado (perto dos 5m/km), naquele que foi o troço mais perigoso de todo o percurso. Os carros que vinham de frente apertavam-nos contra os rails de proteção e por várias vezes temi que a festa terminasse mal. Felizmente, chegámos rapidamente ao alto que antecede o santuário da Lapinha e dali foi só deixar o corpo deslizar até à meta, onde nos aguardavam as nossas famílias, já sob o manto da noite! Depois de 73,54km e 15h45m de corrida/caminhada, estávamos radiantes e ainda cheios de energia. Pudera! Poupámo-nos o dia inteiro!

Apesar de termos demorado bem mais do que o previsto, sabemos que fizemos aquilo que era possível fazer num dia impróprio para a prática desportiva. Mas, acima de tudo, partilhámos uma grande experiência de companheirismo e entreajuda e aprendemos imenso sobre o poder da natureza e de como podemos adaptar-nos e conseguir ultrapassar as dificuldades, com os meios que a própria natureza nos dá! É de ficar profundamente maravilhado! Aprendi também a respeitar mais o meu corpo em situações de dificuldade e a saber parar quando é preciso parar. Se voltasse atrás no tempo, não iria alterar a data nem a hora a que partimos para esta Ronda, pois nunca teríamos desfrutado e aprendido tanto como foi possível naquele dia. Foi uma epopeia memorável, em que, com a preciosa ajuda da família e amigos e com sabedoria, conquistámos algo mais de nós próprios e da natureza e deixámos a nossa modesta marca nos sagrados montes desta região. E agora, venham mais Rondas! Já falta pouco para o solstício de inverno!