Ronda da Cabreira

Após tantos anos a trotar pelos montes da região, é inexplicável como nunca tinha aprofundado o meu conhecimento sobre a Serra da Cabreira, apenas a 45 minutos de casa. As minhas experiências por lá resumiam-se a curtas caminhadas, curiosamente nas extremidades norte e sul da serra, sem nunca ter subido aos pontos mais altos. Também já tinha corrido pelas Torrinheiras, perto de Cabeceiras de Basto, mas aqui já estamos um pouco afastados da área nevrálgica da Cabreira. Foi por isso com determinação que decidi colmatar esta lacuna. Reuni vários percursos conhecidos e defini vários objetivos: subir ao cume do Talefe (1262m) , visitar pelo menos mais um vértice geodésico, explorar a zona da nascente do rio Ave, passar por todas as vertentes da Serra e visitar a mata do Turio, tudo isto sem fazer mais do que 50 km e tentando acumular um desnível positivo decente. Após vários dias a desenhar o percurso, cheguei ao que considero ser um passeio bem demonstrativo pela Cabreira, que pude concretizar com três amigos já habituados a estas andanças – Frederico, Gil e Isaac.

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Como ponto de partida, escolhi a aldeia de Agra, que considero ser o local ideal para uma atividade deste tipo. Com um casco histórico bem preservado, com as suas ruelas empedradas e belas habitações de granito, sentimo-nos a entrar pela Serra sem ainda lá termos subido. A altitude da aldeia (660m) e o seu carácter algo deserto também contribuem para esta sensação. Os locais para estacionamento não abundam, mas como só levámos um carro, não foi difícil aparcar junto à igreja. Antes das 8h00, deixámos a aldeia rumo à Serra.

Durante os primeiros 3 kms fomos subindo calmamente em direção à nascente do rio Ave. O céu ainda com muitas nuvens deixava o sol espreitar e anunciava um belo dia para correr. Já não sentia tanta humidade na terra talvez há mais de meio ano! Que sensação agradável voltar a correr com charcos de água, ficar com o corpo a escorrer depois de raspar pelas giestas cobertas de água, sentir o frio matinal… Estamos finalmente a livrar-nos deste verão interminável! Um verão que deixou as cotas mais altas do rio Ave num estado lastimável. Vêem-se mais pedregulhos do que água no seu leito. Apesar de tudo, fico impressionado e reconfortado pela incansável montanha ainda jorrar água depois de tanta seca. Aforradora sensata, a montanha vai amealhando sempre que pode e guarda muito bem o tesouro líquido nas suas entranhas. Sem exigir nada em troca, vai libertando a sua poupança a toda a hora, distribuindo vida pelos seus vales.

A nossa homenagem à montanha foi prosseguindo encosta acima, contornando a nascente do Ave pelo norte. Por entre uns arbustos, surgiu-nos uma égua com ar muito desgastado. Sozinha, sem energias, cabisbaixa, parecia chorar a perda de entes queridos. Provavelmente, perdeu-se da manada durante os incêndios da semana anterior. O caminho entretanto ficou plano e mais largo e avistava-se ao longe o muro de um dos fojos da Serra. Sendo um local de massacres recorrentes e simbólico da arrogância dos homens sobre os restantes animais, preferi evitar a proximidade com estes vestígios no percurso que desenhei. Enquanto conversávamos, íamos passando por pequenos ribeiros que, no seu conjunto, formam a nascente do Ave. A falta de um ponto de referência que se possa efetivamente chamar de “nascente” e a vegetação alta fizeram com que nos afastássemos sem saber bem onde estava o rio no vale. Pouco depois, já estávamos novamente a subir uma encosta, desta vez em direção ao alto do Trovão.

A conversa girava agora à volta das provas e da saúde dos atletas, que é colocada em risco à medida que se submetem regularmente a esforços extremos. É verdade que uma corrida de 45 km, mesmo num ritmo de passeio, não é propriamente uma dose recomendável, mas estou convencido que, se acontecer com pouca frequência, deixando o corpo descansar devidamente entre os esforços, mal não faz! Sobretudo quando nos permite vivenciar locais e experiências especiais, como a passagem pelo agradável parque de merendas do Seirrão, com a sua verdura e sombra, no sopé do Trovão, ou mesmo a própria subida ao Trovão, com as suas vistas para todas as serranias a sul, que quase todos estamos bem habituados a galgar.

Ainda era cedo e o vento batia forte naquele alto despido e coberto de granito. Voltámos rapidamente para o refúgio do bosque e continuámos agora em direção ao Talefe. O cume da Cabreira apresentava-se misterioso, envolto em nevoeiro escuro. Estávamos apenas a uma diferença de 100m de altitude, mas as condições climatéricas eram bem distintas. Não nos preocupámos, pois as nuvens não tardariam a abandonar o seu poiso noturno. Em vez de seguirmos o caminho mais fácil para o pico, fletimos para nascente e descemos pelo vale da ribeira das Ladeiras, por entre os bosques de bétulas, já amareladas apesar do outono atípico. Iríamos subir ao Talefe pelo lado norte, o mais selvagem, como convém. Continuávamos a observar uma natureza rica, bela e diversa, sem sinais evidentes de ter tido um verão penoso.

À chegada às Fragas do Tremonha, parámos para apreciar o espetáculo da enorme muralha de granito do Gerês, logo ali em frente, do outro lado do Cávado que brilhava na albufeira de Salamonde. Sentimo-nos com sorte por poder viver aquele momento num dia particularmente favorável. Lá em cima, esperava por nós a penumbra e o frio, mas isso animava-nos! Não há nada como uma boa escalada por entre o granito e a carqueja! Sem ligar muito ao percurso desenhado, fomos seguindo montanha acima pelas passagens mais abertas ou que nos arranhassem menos.

Quando finalmente atingimos as eólicas, seguimos pelo estradão já um pouco iluminado pelo sol difuso, até ao Talefe. O frio fez-me sentir vontade de vestir o corta-vento, as mãos já estavam a gelar, com a temperatura a rondar seguramente os 5 graus. Não estivemos muito tempo junto ao gigante de betão e rapidamente voltámos ao estradão, agora para descer para o novo objetivo, a mata do Turio. Um pouco abaixo do Talefe, encontrámos um belo prado e um curral com sinais de ter sido abandonado à pressa. Uma calamidade repentina tinha-se abatido sobre a Serra uns dias antes. O coberto vegetal calcinado que se começava a ver iria tornar-se uma constante no resto do dia. Sem o sabermos naquele momento, esta seria a fronteira entre a Cabreira bela e imponente e a Cabreira desfigurada e destroçada.

Enquanto descíamos até ao parque de merendas da Serradela, tínhamos à nossa frente o cenário desolador da mata do Turio parcialmente queimada. Aos diferentes tons de verde que caracterizam aquele belo vale juntaram-se, nas orlas mais elevadas, as cores da morte. A partir daquele momento, o meu estado de espírito cambiou e foi com algum desânimo que parei no parque para um curto almoço. Depois de repormos os níveis energéticos e de recarregarmos as reservas de água, seguimos pela estrada de asfalto até à entrada para o interior do Turio. Incrivelmente, após uma semana de chuva, os tocos de algumas árvores calcinadas ainda fumegavam… Descíamos o vale pelo caminho largo, tendo do lado esquerdo a vegetação queimada e do lado direito a diversidade vegetal, combinando espécies autóctones com exóticas, com predominância para as acácias. Após alguns quilómetros um pouco monótonos, o percurso voltou a ficar interessante, levando-nos a sair da mata e subir novamente à montanha.

IMG_20171021_141325 (960x1280)Infelizmente, quando chegámos às zonas mais descobertas, deparamo-nos com um cenário ainda pior. À nossa volta, era tudo negro, com poucos sinais de vida. A partir daqui, não há muito a contar, pois a paisagem é quase sempre a mesma, só voltando a ficar verde a poucos quilómetros de Agra. E quando voltámos a ver vida, não foi a mais entusiasmante, pois entrávamos num extenso e pobre bosque de mimosas. A boa disposição só voltou quando apanhámos uma velha calçada que nos levou por entre um belo arvoredo até à ponte medieval da Parada, sobre o rio Ave. Estávamos às portas da aldeia e discutíamos agora os planos para a reposição de proteínas, com Agra na boca!

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Trilhos de Sistelo e Serra do Soajo

As expedições da Ronda têm estado em pousio, tendo havido outros interesses mais prioritários, mas a atração por novas montanhas e territórios continua insaciável. No âmbito de uma caminhada que estou a ajudar a organizar para a Associação Vimaranense para a Ecologia, fui fazer o reconhecimento de dois trilhos na zona de Sistelo, nas faldas da Serra do Soajo. Como o somatório dos percursos mal dava para aquecer a máquina, decidi juntar ao reconhecimento uma boa aventura: uma senhora subida a um dos pontos mais altos da Serra do Soajo, o cume da Peneda (conhecido pelos locais por Castelo do Pedrinho), a 1374m de altitude.

Como em casa já tinha comprado o sábado todo para a aventura, não foi preciso chegar muito cedo ao Sistelo. Apesar do horário tardio e de ser época alta, não tive dificuldade em estacionar na aldeia. O dia prometia ser simpático, com algumas nuvens e temperatura amena. Depois de um pequeno reconhecimento das valências e pontos de interesse da pequeníssima aldeia, carreguei o máximo de água que pude e ataquei sem mais demoras as tarefas do dia. Comecei com o trilho de 13 km ao longo do rio Vez, a jusante de Sistelo. Este percurso não está sinalizado mas em cerca de metade da extensão utiliza vários kms da Ecovia do Vez assim como a totalidade do Trilho dos Passadiços (PR 25). E diga-se que é bem agradável começar a manhã a correr ao lado do rio, à sombra do arvoredo, e divertindo-nos nos passadiços de madeira. É um verdadeiro carrocel, tanto pelo sobe e desce constante, como pelas sucessivas repetições do tema passadiço-arvoredo-ruínas-de-moínhos. Soube bem, mas a montanha ali ao lado chamava por mim!

 

Deixo o rio e, depois de atravessar a N202-2, paro na antiga casa do guarda florestal, perto da Sobreira, antes de começar a subida para a antiga branda da Tabarca. Após as primeiras centenas de metros pouco interessantes, ao lado do asfalto e sob um pinhal, afasto-me da civilização e a montanha começa a perfilar-se à minha direita. Ainda estamos a cotas baixas, a rondar os 300m de altitude, mas a paisagem e a vegetação já estão a mudar. A ascensão começa a ficar mais dura, bastante técnica, e o mato já faz os primeiros rasgos nas pernas. Por entre as nuvens, o sol já brilha mais forte. A meio da subida, passo ao lado de um singular cortelho, a anunciar a branda que não deve estar muito longe.

 

O trilho fica mais selvagem, com muita vegetação, mas já se vêem à esquerda os muros da branda e, pouco depois, deparo-me com uma cancela em muito mau estado. Em tão mau estado que nem sequer tento abri-la, para não a desconjuntar ainda mais. Salto-a com a ajuda dos muros, com muito cuidado, pois estes também se estão a desmoronar. Na dúvida se não estaria a invadir propriedade alheia e focado em sair dali rapidamente, nem sequer me lembrei de tirar fotos da branda, que me pareceu um pouco abandonada. À chegada à aldeia de Tabarca, nova cancela, mas desta vez funcional. Fiquei um pouco desapontado por ver tanto lixo enfiado nas velhas minas que ladeiam a calçada. Passo pela aldeia e inicio a descida para regressar ao vale, atravessando os socalcos, por uma calçada bastante escorregadia. Regresso também ao arvoredo e à sombra que já me estava a fazer falta. Poucos minutos depois, já me encontro junto ao rio Vez e de regresso ao trilho sinalizado. Se tivesse cá passado de tarde, ter-me-ia seguramente refrescado naquelas águas límpidas!

 

À chegada a Sistelo, não há tempo a perder, pois a aventura só agora vai começar. Recarrego os bidões de água, vou ao carro buscar o corta-vento (o céu a escurecer não augura facilidades nas cotas mais altas) e sigo no encalço do Trilho das Brandas de Sistelo (PR 14). Os primeiros metros denunciam rapidamente o que vai ser este trilho: subir, subir, subir sem complacência. Vou caminhando, mais do que correndo, por uma calçada bem preservada que liga Sistelo à branda de Rio Covo. A subida é tão íngreme que a calçada foi feita aos ziguezagues, para aligeirar um pouco o esforço. Penso na deslocação que os aldeões faziam por esta calçada, acompanhados pelo seu gado e eventualmente carregados com mantimentos, para uma estadia em altitude nas pastagens de verão. Provavelmente, deslocavam-se mais ligeiramente do que eu! À minha esquerda, avisto os socalcos que tornaram a aldeia de Sistelo famosa. No final do verão, não têm tanto encanto, de tão amarelecidos que estão!

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Os agora pálidos socalcos de Sistelo

Quando atinjo a Chã da Armada, a paisagem torna-se espetacular. À minha direita, um vale profundo e escarpado, onde ao fundo corre o rio do Outeiro, afluente do Vez. A calçada ao lado do precipício faz-me pensar numa foto que o malogrado João Marinho tirou nos Picos da Europa pouco tempo antes de desaparecer. Mal ultrapasso os 700m de altitude, sinto o ar a refrescar repentinamente e umas gotículas de chuva que começam a cair. Com o céu cada vez mais escuro, preparo-me mentalmente para enfrentar dificuldades sérias no alto da Peneda. As gotículas entretanto aumentam de espessura e o vento sopra mais forte. Aproximo-me de um bosque e fico animado com a perspetiva de ficar mais protegido. À chegada, percebo que estou finalmente na branda do Rio Covo e que a primeira grande subida terminou! À beleza do local, um misto de intervenção humana e força da natureza, junta-se um sentimento de desolação e abandono. Estamos a devolver o território à natureza, talvez para o seu bem.

 

À saída de Rio Covo, atravesso um bosque misto onde predominam coníferas e bétulas. Um perfeito contraste com a vegetação que me acompanhou até ao cimo da serra. Ali, na nascente da Corga da Saramangeira, sinto uma forte humidade que nem nas margens do Vez senti… Pouco depois, volto ao terreno descoberto e encontro o primeiro grande obstáculo do dia: um grande grupo de bovinos com ar de rufias a barrar-me a passagem. Visto a pele de macho ómega e esgueiro-me discretamente pela lateral e depois por entre umas vaquitas mais distraídas. Mal sabia que iria ter muitos mais encontros destes ao longo do dia…

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Vacas, vacas e mais vacas…

Rapidamente alcancei a Branda do Alhal, debaixo de intensa chuva miudinha. Esta branda, anexa à aldeia do Padrão, ainda tem bastante atividade e, por entre os muros e as construções típicas, vêem-se edifícios mais modernos. Uma branda dos novos tempos? Estava com pressa de sair dali, de deixar o trilho marcado e de entrar na fase mais selvagem do dia, que me levaria, quem sabe, ao alto da Peneda. Assim que deixei a rota das brandas, encontrei um casal de idosos que tentou desmotivar-me, alegando que o caminho estava muito fechado. “Vou pelo mato. Já estou habituado!”, respondi. A verdade é que o caminho estava mesmo dificilmente transponível, com várias barreiras feitas de ramos e tábuas e com vegetação densa ao longo daquilo que já foi um caminho de serventia para cortelhos e campos agora semi-abandonados. Fui avançando até ao próximo desafio: uma matilha de cães furiosos que, do outro lado do murinho que ladeava o caminho, ameaçava saltar para o meu lado. Livrei-me rapidamente deles e, um pouco acima, decidi fazer o lanche da manhã, dentro das ruínas de um cortelho. Era quase meio dia e o sol voltava a brilhar por entre as nuvens. De estômago cheio, parti em direção ao ermo da Branda da Gémea. O caminho melhorou durante cerca de 1 km, no vale da Corga do Porto Novo, mas não demorou muito a voltar a ficar bastante selvagem. Se não tivesse o percurso no relógio, ter-me-ia seguramente perdido, sem quaisquer referências na paisagem. Limitava-me a ziguezaguear por entre o mato que, felizmente, era maioritariamente carqueja – bem mais gerível do que o tojo! Por vezes, o caminho voltava a emergir do mato ou caminhava por uma zona com mais granito ou com mais intervenção humana, o que me permitia avançar mais rapidamente e até correr!

 

Depois de uma subida íngreme pelo meio dos afloramentos graníticos, cheguei finalmente à Branda da Gémea, agora abandonada. Era preciso ter muito coragem para vir até aqui com o gado. Estamos muito perto dos 1000m de altitude. À minha volta, muitos cortelhos em ruínas e imensos campos separados por pequenos muros. Foi certamente um assentamento importante. Percorro o arruamento principal da branda e sigo por um caminho que atravessa a Corga dos Cortelhos e desemboca umas centenas de metros acima numa habitação isolada, na Chã do Sono. Tento encontrar pontos de água, mas está tudo seco nesta altura do ano. E a civilização termina aqui, pois agora é só mato e granito até ao alto da Peneda. Mato, granito e… vacas, mesmo muitas… É incrível como se consegue encontrar tanta vaca nesta zona. Vi dezenas espalhadas pela encosta, isoladas, em pequenos grupos, a pastar, a descansar… A concorrer em número com elas só os gafanhotos de asas-azúis, que saltam e voam constantemente à minha volta.

 

A subida torna-se cada vez mais íngreme e a progressão muito lenta, por entre a carqueja. Sempre que encontro granito é um alívio! Acima dos 1300m, a vegetação começa a rarear e deixo de ver uma parede à minha frente. O cume está próximo! Finalmente, revela-se o marco geodésico da Peneda, a 1374m de altitude, no meio de um grande planalto de granito – o Pedrinho, como lhe chamam as gentes da terra. À minha volta, uma vista esplendorosa sobre todas as serras circundantes: Serra d’Arga, Serra da Peneda, maciço do Gerês… São 13h e, apesar de não ter fome, decido almoçar um presunto bem consistente. A água está quase a acabar, mas a descer não faz tanta falta. Sem vontade de ficar parado, decido ir caminhando enquanto mastigo a sandes, cume abaixo, pela vertente sul, por entre os agrupamentos de vacas.

 

Após várias horas de mato e pedra, atinjo finalmente um estradão, perto da Chã da Cruz. Feliz por poder voltar a correr normalmente, acelero um pouco e vou olhando para o relógio, já sem esperanças de estar às 14h30 em Sistelo. Para surpresa minha, o relógio manda-me sair do estradão, poucos metros mais à frente. À minha direita, vejo umas alminhas. Quem raio se lembraria de construir umas alminhas a 1300m de altitude? Só mesmo os devotos de São Brás e Santo António! Gente de fé fervorosa, que certamente é recíproca no espanto de ver maluquinhos a subir a esta serra só porque sim!

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Alminhas com o Pedrinho (alto da Peneda) em fundo

Não tenho estradão, mas por este lado o mato é menos basto e consigo correr rapidamente, à medida que vou descendo pela Costa do Menjoeiro. Deixo o território das vacas e entro no pasto dos garranos. Não são muitos e são mais medrosos. Avisto um juvenil que corre a proteger-se junto da progenitora. Identifico-me mais com estes animais sociáveis, apesar de socializarem apenas entre eles! Rapidamente atinjo o caminho que dantes ligava as brandas do Alhal e da Gémea. De volta às calçadas, os meus joelhos começam a protestar. Lembro-me da última tareia que lhes dei, quando descia a Serra da Freita, e abrando ligeiramente. Já vejo o Alhal lá em baixo. A calçada fica cada vez mais larga à medida que me aproximo. À entrada da branda, sou recebido em ovação, por uns cães muito pouco amistosos. Tento cativá-los, mas não querem conversa. Já me estava a preparar para mudar de linguagem quando ouço a dona a chamar por eles. Estou salvo! Muito obrigado e boa tarde!

Desço como uma seta pela branda do Alhal e retomo o trilho sinalizado. De volta à zona de conforto, vou correndo mais descontraído, sempre pela calçada que me levará até ao Padrão, o lugar onde vivem no inverno os proprietários da branda do Alhal. É fácil perceber quando se chega à aldeia do Padrão, pois à entrada há mesmo um padrão que não deixa quaisquer dúvidas. Com os cantis vazios há já alguns kms, começo a sentir os efeitos da desidratação. A aldeia é bastante pequena e, para minha desgraça, sem quaisquer pontos de água. Mas, felizmente, esta desgraça ficou só, pois tive a sorte de falar com a Dona Esperança, uma senhora com 82 anos, apoiada numa muleta, que se encontrava a varrer a entrada da casa. Oferece-me água, apesar de estar “choca”, diz. Que preciosidade! Quem tem verdadeiramente sede não olha à temperatura da água! Bebo duas malgas muito rapidamente, enquanto a Dona Esperança me fala do seu único filho, que vive em Vidago e trabalha nas termas de Pedras Salgadas. É o filho que a ajuda a cuidar da pequena vinha, carregadíssima de uvas. Aos meus elogios à vinha, a Dona Esperança responde com a proposta de provar do seu vinho. Rejeito várias vezes a oferta, com receio de ficar arrumado para a corrida, mas, face a tamanha generosidade, acabo por aceitar. Acompanho-a à adega e bebo uma malga cheia de um vinho verde tinto que me soube mesmo muito bem. Não sei se foi da sede, mas o vinho da Dona Esperança é do melhor!

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A Dona Esperança, com a malga que mata a sede

Escusado será dizer que, nos minutos seguintes, senti a cabeça ourada. Era um risco correr muito rápido e redobrei a atenção à calçada. Mas não consegui evitar um pequeno engano no percurso, pois já não estava a conseguir seguir bem as indicações! Felizmente que Sistelo se aproximava rapidamente. Dois quilómetros abaixo, atravessei a N202-2 e continuei a descer em direção ao rio Vez, a montante de Sistelo. Finalmente, após várias horas, volto a estar à sombra das árvores! Mas a temperatura continua alta. Apesar da ameaça de chuva e tempestade, acabei por ter um dia com muito sol e bastante quente. Só me faltava agora atravessar as duas velhas pontes oitocentistas, uma para a margem direita e outra de volta para a margem esquerda. Lá em cima, vejo a igreja de Sistelo, mas ainda tenho uma penosa escadaria para subir. Não havia necessidade, depois de 35 km, quase 2000m D+ e 6 horas de corrida-caminhada-escalada!

À chegada à aldeia, corro refrescar-me no fontanário e bebo sofregamente. No tasco da aldeia, bebo finalmente o café que desejava há várias horas. Missão cumprida e que boa aventura! Mais uma que nunca esquecerei. Ou, se esquecer, terei sempre estas linhas que ma relembrarão! 🙂

O percurso pode ser consultado aqui.

 

Grande Ronda pela Serra Amarela

“Um dia pela Serra Amarela, a percorrer vezeiras, a visitar fojos de lobos e a quebrar a cabeça no enigma de quinze ou vinte casarotas perdidas numa chapada.”

Miguel Torga, numa visita à Serra Amarela, em 25 de Julho de 1945

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Tendo por base o percurso da GR34, a grande rota interpretativa da Serra Amarela, promovida pela Adere Peneda Gerês, e da qual se podem consultar mais detalhes aqui, pretendemos realizar uma jornada de trail running norteada pelos princípios da Ronda dos Cumes Sagrados – diversão, descoberta, autonomia, espírito aberto àquilo que a montanha nos pode dar de bom (ou de mau!), tudo corrido de cume em cume em ritmo de passeio.

A aventura terá como ponto de partida a aldeia de Campo do Gerês, em Terras de Bouro. Dali rumaremos em direção à albufeira da barragem de Vilarinho da Furna, e entraremos no trilho da GR do outro lado da barragem. O trilho circular tem cerca de 35 km e percorre em caminhos de pé posto, carreteiros ou calçadas, as duas vertentes da Serra Amarela – a norte voltada para o rio Lima e a sul inclinada sobre o rio Homem e barragem de Vilarinho da Furna. Os principais pontos de interesse da GR34 são, entre outros, o Alto da Louriça (1364m), Branda de Bilhares, Ermida, Vale de Carcerelha, Campos do Vidoal, Germil, Cutelo, Chã do Salgueiral, Vilarinho da Furna, Curral de Porto Covo, Curral do Ramisquedo, Cabana de Bentozelo, Cabana de Martinguim.

Dependendo das condições que encontrarmos, é provável que façamos desvios à GR para visitarmos o Alto da Carvalhinha (1092m) ou o Penedo do Eido.

Logística

Partida

A partida de Campo do Gerês será por volta das 7h30 do dia 12 de novembro, nas imediações da Albergaria Stop, na rua da Geira. Esta data poderá ter de ser alterada caso as condições meteorológicas se prevejam adversas a este tipo de atividade.

Equipamento

Recomenda-se equipamento adequado à dificuldade da atividade e aos riscos inerentes, nomeadamente:

  • mochila com capacidade para água e alimentação suficientes para um dia inteiro na montanha, contando com a existência de pontos de água em vários locais
  • preparação para o percurso: relógio com o track carregado, estudo prévio do percurso
  • preparação para o frio: corta-vento, camisola térmica, luvas, gorro, manta térmica, etc.
  • preparação para imprevistos: telemóvel, frontal, backup do percurso noutro dispositivo

IMPORTANTE: esta atividade é totalmente gratuita e não é coberta por qualquer seguro.

Percurso

O percurso terá entre 40 km e 45 km, contando com o trajeto entre Campo do Gerês e o trilho da GR34 e dependendo dos desvios que se fizerem à rota. Podem obter o track da GR34:

Prevê-se o regresso a Campo do Gerês antes do pôr-do-sol, por volta das 17h00.

 

Uma via sacra na primeira lua cheia da Primavera

Partilhamos o e-mail enviado pelo Miguel Bandeira Duarte, descrevendo a sua aventura de 63 km pelos montes de Guimarães e Braga, numa espécie de via sacra de celebração do início de Primavera, na primeira lua cheia da estação. Foi neste dia que, há um par de milhar de anos, um tal de Jesus galgou um monte antes do sacrifício. O Miguel galgou muitos mais mas preferiu continuar entre nós. Esperemos que o relato sirva de inspiração para mais aventuras trailo-sacras!

Caro Helder

Eis o relato do treino longo que realizei.

Há muito que colocas na natureza estes traçados que simbolicamente designas por ronda. Parece inequívoco dado o seu carácter circular, no entanto a escolha dos locais por onde passa parece enunciar que o acto de correr é investido de referências que ultrapassam o rigor da geometria da informação no terreno. Global positioning system referencia também a experiência egocêntrica (centrada no corredor) a qual, na sua subjetividade, permite o prazer e o desprazer, o gozo da corrida. Quiçá uma sensibilidade treinada sobre as forças telúricas nos permitisse deixar de lado os instrumentos de medida, no entanto somos hoje demasiado eficientes.

Há muito que pretendia continuar a conhecer as elevações entre Guimarães e Braga, que emolduram o Ave. Realizei alguns reconhecimentos, sem sistematização, entre treinos e provas, os quais utilizei mais para encontrar referências visuais do que para voltar a percorrer os trilhos. Sou adepto de passar poucas vezes pelo mesmo caminho por isso o traçado preparatório pelo Google privilegiava novos caminhos nem sempre os mais diretos. Está na altura de dizer que a ideia que antecedeu a corrida não foi propriamente a de uma ronda mas a de passar boa parte de um dia a correr. Isto é sair de casa bem cedo e voltar quando estivesse cansado. Claro que, com outras tarefas já marcadas para o dia, havia um tempo a cumprir de aproximadamente 10 horas. Assim, sair de Guimarães em direção ao Sameiro e depois voltar cumpria também alguns requisitos de quilometragem e segurança, nomeadamente rede de telemóvel, pontos de hidratação e a proximidade de outros meios de auxílio caso algo corresse mal. Como sabes pretendia percorrer os caminhos da primeira ronda de Fafe, porém a intenção de correr mesmo sem companheiros, implicou a alteração do percurso e das condições (assim, felizmente, mantenho a possibilidade de a realizar).

Saí do Salgueiral pelas 5:56, já nascia o dia, em direção à Veiga de Creixomil. A caminho das Ruas da Agrela e da Ressa a “primeira Lua cheia da Primavera” elevada à minha frente. Bom tempo, boa temperatura. Na mochila uma sandes, barritas, magnésio, 1100 ml de líquidos, luz química, manta térmica, frontal, apito e muita vontade para correr. A ideia seria passar na ponte sobre o Ave em Brito que me posicionava para a subida à capela de S. Miguel em Vermil. Da Ressa para Correlos e daí para a Ameixoeira rapidamente cheguei ao Ave para enfrentar alguns metros de asfalto. É difícil atravessar algumas zonas de ligação sempre por terra, por isso procurei minorar por ruas secundárias como Valdante. Por aí ainda tentei fazer parte do monte mas deparei-me com um portão de estaleiro. Seguindo a João Paulo II, iniciei ao km 10 a subida ao S. Miguel [foto 01], 200 metros de elevação com trilhos bastante inclinados e desafiantes. Depressa percebi o desfasamento entre o Google e a realidade, porém os trilhos mais marcados conduziram-me ao topo: um cume bastante aprazível com o marco do Anjo (386m) o qual fotografei e te dediquei [foto 02]. A descida aos 195 metros é rápida e sobre terra fofa bastante confortável. Apesar de tantos eucaliptos ficou a impressão de um monte com grande potencial para treinos curtos mas intensos. De novo a transição para passar por baixo da A11 em Figueiredo e ascender à Sra. da Saúde. Em zona familiar passei bem perto do Outinho (495m), não sem antes entrar, por engano, por um trilho cerrado de tojos. Trata-se de uma zona com rasgos novos não documentados e outros já esquecidos. Do Outinho a Sta. Marta (564m), com um pequeno engano encontro uma descida rápida em ‘single track’, depois atravesso a N101 (278m) na Costa do Gaio. Cheguei à nacional com 3 horas de caminho em 22km percorridos, tudo muito tranquilo! A subida a Sta. Marta são 4 km com forte inclinação cujo atrativo é a bem conhecida parte final. Uma vez no topo a vista da Sra. da Assunção sobre o vale é extremamente agradável. Retomei o caminho, o Sameiro (569m) encontrava-se perto e faria uma pausa mais longa para comer e descansar. A descida pelas traseiras da Falperra é espetacular, tão bruta quanto a subida da N585 ao planalto verdejante já próximo da Sra. do Sameiro [foto 03].

 

Passaram 5 horas e 31km desde Guimarães. Metade do caminho estava percorrido, talvez o mais familiar, sem preocupações de médias e mais importante sem dores. O escadório é monumental [foto 04], a vista sobre Braga assoberbante. Repus as reservas de água e tomei um café, seguindo o caminho na direção das proximidades da Citânia de Briteiros. O percurso tomado não foi o mais curto, o afastamento da estrada permitiu aproveitar um declive suave para percorrer um trilho seco, sem enganos, a bom ritmo, no caminho da Capela de Sto. António [foto 05] nas proximidades de Soutelo. Com um enquadramento aprazível é um ponto fresco com água ideal para recuperar, que bem me soube! Daí até Portuguediz foi um percurso completamente desconhecido, que me deu a boa sensação de não fazer a mínima ideia de onde estava. Neste caso, a segurança do trilho no relógio é fundamental para a perfeita fruição. Para quem ainda tem pernas, o divertimento espreita num percurso variado de piso e paisagem [foto 06]. Adiante, sem prestar atenção, coloquei o trilho a atravessar o Febras, com água acima da cintura, alcançando o lageado na direção de Donim na N309 [foto 07].

Estavam percorridos 40 km, os próximos 5 seriam uma descida animada não fosse o abandono em que se encontra. No final vi marcas de PR ficando sem saber se toda a descida faria parte, mas é um trilho que merece ser percorrido com frequência porque desaparecerá nos próximos anos [foto 08]. Em Santo Emilião notei alguns sinais de cansaço, a temperatura estava quente, tomei uma cola no café e segui à ponte para atravessar de novo o Ave, 30 metros mais alto, para Souto Sta. Maria. A passada estava pesada e o asfalto tardava em ser substituído. Da Rua do Sobreiro tomo, pelo monte, a direção da Gonça. A subida começa a ganhar inclinação em poucos metros, é dura, com pedra solta e restos de corte de eucalipto. A magnífica vista sobre o vale do Ave e todo o percorrido durante o dia [foto 09] aligeira a fadiga. Apesar das dificuldades físicas a satisfação é evidente e motivadora. No sopé do aterro, um campo de cultivo abandonado baralha as dicas do Google, vejo-me rodeado de ortigas e silvas e sem referências para seguir caminho. Foi um momento difícil, se tivesse encontrado o caminho teria atalhado 4km em apenas 100m. Voltei atrás, encontrei habitações e segui a estrada até encontrar o trilho que liga pelos cumes Gonça a Fermentões. Estava nos 50, nos últimos kms do dia, faltariam mais 13. Escolhi o trajeto mais direto num compromisso com o tempo que dispunha. Nesta altura cresceu a sensação que deveria ter realizado uma alimentação mais substancial, precisava de mais energia e o cansaço surgia com facilidade. Felizmente, os últimos kms são a descer e o facto de ser um percurso familiar tornou-o menos penoso. De novo na veiga, estava no ponto de partida 10h e 20min depois.

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[8] Donim

Entre os aspetos mais positivos deste percurso estão a proximidade de casa, a variedade de pisos e paisagens, o acumulado de 4200m, pontos de água e passagem por pontos de elevado interesse, a gestão de esforço e um novo ‘record’ pessoal. Entre o menos positivo está a presença significativa do asfalto nas transições e as minhas dúvidas na interpretação das informações do relógio.

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[9] Vale do Ave

Uma nota especial para o apoio nos bastidores, sei que correram tanto quanto eu: a Micaela, o Mauro e Tu.

Terei muito gosto em tornar a realizá-lo como treino de longa distância ou a utilizá-lo como base para mais uns tantos desafios! Estás convidado!

Um abraço, boas corridas, Miguel

Para quem estiver interessado em repetir a façanha, partilhamos o track cedido pelo Miguel.

 

Caça ao tesouro no monte de São Jorge / PR3 de Felgueiras

Na semana passada, concentrei esforços na exploração, bem perto de casa, de uma região geralmente desconhecida, mas com um passado importante, devido à sua localização estratégica na ligação entre as terras do Baixo Tâmega e do Alto Ave. Os parágrafos seguintes relatam as minhas investidas por Cepães (Fafe), Jugueiros e Sendim (Felgueiras).

Na quinta-feira, fui finalmente fazer algo que vinha adiando desde o início do ano… A exploração do monte de São Jorge, encaixado entre os vales do Vizela e do Ferro, não é fácil. Os poucos que conhecem os segredos que aquele monte esconde não têm disponibilidade para me guiar durante várias horas por entre o penedio e o mato. O pouco que eu conhecia estava confinado ao percurso da Rota do Milénio (PR9 de Fafe) e ao triângulo imaginário que liga a antiga fábrica de cartão (junto ao Vizela), a ponte de Travassós, e a margem do Ferro perto de Mures. A experiência neste triângulo, há uns meses, apesar de ter revelado locais interessantes junto ao leito cavado do Vizela, foi dificultada pela densa vegetação que cobre aquelas encostas. Talvez por isso foi faltando apetite para voltar ao mato grosso.

Arquéologos na obra da REN. Clicar na imagem para ver notícia.

Arquéologos na obra da REN. Clicar na imagem para ver notícia.

Há poucas semanas, fui falar com o presidente da Junta de Freguesia de Cepães/Fareja, um conhecedor de alguns tesouros do monte de São Jorge, que me deu algumas indicações vagas sobre locais de interesse ao longo do PR9. Munido dessas notas e de muita vontade, lá me atirei à exploração, ainda com o sol a despontar por trás das serras de Montelongo. O primeiro objetivo era uma mamoa junto à recém instalada subestação da REN, na Regedoura. Já tinha estado junto a essa mamoa, mas, por ignorância, julguei tratar-se de vestígios de um poço medieval. Mas, para grande desapontamento, redescobri desta vez o local completamente arrasado. As pedras da mamoa encontravam-se espalhadas nas bordas do caminho aplanado! Davam a impressão de desprezo, tanto pela ignorância de quem as moveu com as máquinas, como pela insensibilidade de quem deu as ordens. Na minha mente, incredulidade e raiva! Por muito irrelevantes que fossem aqueles vestígios, sempre seria melhor preservá-los, pois atrairiam curiosos àquelas paragens. Assim, fica apenas a paisagem estéril dos postes de alta tensão, do asfalto, e dos largos caminhos de terra batida. Decisões que custam a perceber.

O abrigo da coruja

O abrigo da coruja

A segunda pista era uma gruta entre penedos, na encosta a sul do PR9. Retomei o trilho e, logo acima da subestação, subi a um pequeno morro, para tentar avistar algo por entre os eucaliptos. Antes sequer de conseguir ver o que me reservava a encosta, fui surpreendido por vestígios de ocupação castreja no topo do morro. O típico amontoado de pequenas pedras, espalhadas em pequenas áreas circulares, com os inevitáveis penedos de várias formas, com marcas de mão humana, à volta… Não muito longe, vestígios de uma possível muralha. Naquele local, como o tojo não vinga, ficou uma manta de fetos e, por baixo, interessantes túneis cavados nas ramagens, provavelmente por raposas ou outros animais de pequeno porte. A coisa estava a começar a ficar interessante! Desci então um pouco a encosta, à procura da tal gruta. A densidade de arvoredo diminuía a luz e, com a anormal quantidade de velhas árvores caídas, o ambiente ficava sinistro. Subitamente, levanta disparada do seu refúgio uma coruja assustada, num belo voo determinado! Não lembra ao diabo andar um tipo por ali! Julgava ela que aquele pequeno abrigo debaixo de duas lajes era o local mais secreto do universo!

Sofá de granito

Sofá de granito

Regressei ao caminho, decidido a continuar a procurar a tal gruta. Umas poucas centenas de metros mais à frente, um ajuntamento de penedos de grande porte despertou-me a curiosidade. Até lá, um pequeno trilho, apesar de muito pouco usado, fazia-me pensar que não seria o primeiro a passar ali. No local, descubro uma espécie de sofá de duas camadas de encosto, trabalhado no granito. Experimento a mobília e confirmo a sensação de boa vida que alguns ali terão sentido. Só faltou mesmo uma caipirinha da Idade do Ferro! Dou a volta aos penedos e encontro uma grande frincha, por onde cabe uma pessoa, e que pode perfeitamente ser um abrigo. Será esta a tal gruta?

Vestígios de mamoa?

Vestígios de mamoa?

A riqueza de monumentos – imaginados ou reais – que aquele monte contém é um sem-fim de descobertas e corria o risco de passar lá todo o dia na brincadeira. Tinha de acelerar as pesquisas e agora também tenho de abreviar as descobertas, senão os meus leitores largam rapidamente o texto! De outeiro em outeiro, lá fui então saltitando pelas pedras, tentando seguir os caminhos de javalis ou de caçadores. E o que fui descobrindo? Mais vestígios castrejos – uns mais óbvios, outros mais ideais -, mais penedos com formas incomuns (ainda hei de encontrar explicação para os rochedos em forma de dente de tubarão que encontro frequentemente), mais uns restos de mamoas há muito despedaçadas, covinhas nas pedras, algumas boas vistas abrangentes sobre os vales de um lado e doutro… Era um fartote! Quase três horas depois, ainda nem tinha feito 10km. Estava prestes a faltar às promessas que fizera à família. Tinha finalmente de correr para o carro e deixar o resto para outra manhã louca!

No final destas explorações, concluo que o monte de São Jorge, pela quantidade de vestígios de ocupação remota, deve ter tido outrora uma grande importância geo-estratégica: com uma vertente abrupta do lado sul, encaixado entre dois rios de vale profundo que se unem perto da encosta poente, e com uma crista com aspeto planáltico em certas zonas, é o local ideal para implantar uma grande população. Não é por acaso que, no sopé deste monte, encontramos duas vilas – Cepães e Jugueiros – com história milenar e, não muito longe, a cidade de Fafe. Foram provavelmente onde se instalaram as populações daquele monte durante a romanização.


Rio Bugio em Corvete

Rio Bugio em Corvete

Menos insensata mas com o mesmo interesse foi a manhã de sábado, em que parti de Jugueiros com o objetivo de seguir na totalidade as marcações preliminares daquele que virá a ser o PR3 de Felgueiras. Iria compensar a falta de treino da aventura anterior, dedicando-me exclusivamente à corrida. À partida, não fazia ideia da distância que iria percorrer, nem do desenho da rota. Os primeiros quilómetros, por Travassós e Perlonga, são bem conhecidos, pois constituem o percurso que habitualmente faço para ascender a São Salvador. A um terço da subida, o trajeto regressa ao sopé do monte, para nos levar a conhecer o carvalhal de Lourido. O arquiteto do PR não nos deixa gozar por muito tempo estas sombras saudáveis, pois voltamos rapidamente a subir a encosta íngreme, por entre o eucaliptal. Demasiado duro para um PR, mas tem de ser, se queremos levar os caminheiros até São Salvador! Com a capela à vista, descemos abruptamente em direção a Corvete, onde encontramos a mini-hídrica e, do outro lado, os moínhos do rio Bugio. Depois, a segunda grande subida do percurso, em direção ao Calvário, a partir de onde é sempre a descer.

Ponte sobre o rio Bugio, em Escavanca

Ponte sobre o rio Bugio, em Escavanca

Suspeitava não estar muito longe de Sendim, quando surgiram as indicações para a famosa vila romana. Decorrem grandes obras de melhoramento da estrutura de cobertura das ruínas e também no centro interpretativo. Inauguração prevista lá para outubro, provavelmente quando irão aproveitar para finalmente publicar o PR. Nesta parte do trajeto, percorre-se muito asfalto, mas, em Gondim, desce-se ao rio Bugio e acompanha-se o leito por baixo de frondosos carvalhos. Esta é talvez a zona mais bonita do percurso, em que avistamos frequentemente velhos e novos moínhos, na zona de Escavanca. E, sem mais elevações, rapidamente se chega ao destino, no velho centro de Jugueiros! 17km de PR, 600m de desnível positivo, talvez algo puxado para o público-alvo. Não seria má ideia haver uma variante do percurso que ligasse diretamente Lourido a Corvete, sem subir a São Salvador. Seriam menos 4km e provavelmente muito menos dores nos joelhos, tanto mais que, excetuando o alto de São Salvador, esta parte do percurso não tem grandes motivos de interesse.

O eterno retorno ao Maroiço

Os trilhos de Fafe têm um apelo especial que me faz lá voltar repetidamente, sem me cansar, como se houvesse sempre algo em falta… A Rota do Maroiço tem esse não sei o quê. Serão os carreirinhos e as sombras ao longo do Vizela? Serão as extensas cumeadas pontilhadas de afloramentos graníticos ou as vistas para os longínquos Gerês, Cabreira, Alvão, Marão? Serão os garranos que encarnam a sonhada liberdade definitiva? Ou será a Laje Branca, local mágico que nos transporta para os tempos dos druídas? Talvez seja isto tudo e muito mais!

Cavalos selvagens no Maroiço

Garranos no planalto do Maroiço. Créditos: “Caminhantes” @ Wikiloc

Já lá tinha ido há poucos meses, mas o meu irmão Frederico andava a pedir uma visita guiada. Aproveitei para convidar mais uns amigos dos trilhos – Miguel e Leonardo – e lá arrancámos, quatro bravos, às 6h30 (antes que o sol nos queimasse!), da Barragem da Queimadela. Estava bem fresco e fomos subindo sem dificuldade, por Pontido e depois Queimadela, acompanhando os cursos de água, molhando os pés, tentando não escorregar nas pedras… Até aqui, poucas vezes sentimos o sol a aquecer-nos. Depois da aldeia da Queimadela, o terreno fica descoberto e já se sente o bafo quente a subir da terra. Vamos seguindo o trilho, animados pelo perfurme das giestas e pelas cores da urze. Temos de ir recorrendo à memória para nos orientarmos, pois as marcações da PR estão a degradar-se e a ser consumidas pela vegetação, tal como tudo o que é obra do homem naquelas terras. Mas a memória nem sempre é de confiar e, de quando em vez, hesitamos numa encruzilhada. Por isso é que se deve escrever, para lutar contra as erosões do tempo. E o que há mais a escrever sobre a Rota do Maroiço? Ficou hoje claro, talvez porque corremos a um ritmo elevado, que este caminho deve ser saboreado lentamente, deve-se parar muitas vezes, deve-se observar e refletir. Deve-se perceber os trajetos que os aldeões percorreram durante séculos e a importância que tais caminhos tiveram. Quais destes caminhos eram usados nas vezeiras e quais eram vias de trânsito para outras regiões? São pormenores que ajudam a perceber a localização das aldeias. Porque está Luílhas encostada ao Maroiço, escondida de tudo? Será por estar no enfiamento de alguma rota em direção ao Barroso? Encontrar resposta para estas questões talvez seja esforço fútil, mas aquelas aldeias vão desaparecer e pouca gente quer saber do seu futuro e muito menos do passado! Divagações à parte, atingimos entretanto o planalto do Maroiço e seguimos em linha reta até à Laje Branca, para o momento especial do dia. Sessão fotográfica obrigatória! O atrevimento do Leonardo levou-me a subir ao topo daquele monte de penedos pela primeira vez. Interessante a quantidade de covinhas que por lá se vêem, em forma de assento, com o tamanho da bacia de uma pessoa. Terão sido tronos de sacerdotes em cerimoniais pagãos? Terão sido locais de descanso de pastores? Ou são simplesmente obra dos elementos da natureza? É claro que prefiro especular sobre uma intenção humana! Ah! Mas, já agora, pensem no significado de “maroiço”: “construção piramidal ou cónica, formada por amontoamento de pedras”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Vamos especular mais um pouquinho?

Miguel e Leonardo na Laje Branca

Miguel e Leonardo na Laje Branca

Pouco antes da longa e por vezes vertiginosa descida de regresso, encontrámos finalmente os garranos que estranhamente tinham desaparecido. E que grande família que era! Eram tantos que nem sequer se incomodaram com a nossa presença. Fiquei feliz por ver quatro potros saudáveis atrás das progenitoras.

A história do regresso à Queimadela foi semelhante à da subida ao Maroiço, mas desta vez a descer. Calcámos calçadas encharcadas, deslizámos no saibro traiçoeiro, atravessámos aldeias quase vazias, até que, com as pernas maçadas pela descida acelerada, atingimos a margem da albufeira… E tudo muda. Sente-se que entramos noutra dimensão, a da modernidade. Talvez por isso começamos a arrastar-nos pesadamente pelo estradão marginal. Ou então, “deixa-te de tretas pá!”, estou apenas cansado!

Na Laje Branca, Ermal ao fundo

Com Frederico e Leonardo na Laje Branca, com o Ermal ao fundo

A primeira Ronda dos Cumes Sagrados irá percorrer uma pequena parte da Rota do Maroiço, num segmento junto à albufeira da Queimadela. Será provavelmente o local onde os corredores-peregrinos se irão refrescar, mais ou menos a meio do trajeto. NOTA: as fotografias deste registo foram quase todas conseguidas graças ao telemóvel do Miguel Bandeira Duarte.

Derrota da Citânia

ATUALIZAÇÃO (22/07/2015): Em nova incursão na Rota da Citânia, há uns dias, verificou-se que o percurso se encontra agora devidamente sinalizado e limpo, permitindo a qualquer visitante usufruir plenamente deste belíssimo traçado.

Derrotar. verbo transitivo. […] fazer sair da rota

A manhã não se anunciava boa para correr, com a chuva a cair a cântaros ininterruptamente. Além disso, ninguém me quis acompanhar para mais uma travessura pelo monte. Mas, como a corridinha do fim de semana não pode falhar, lá fui eu para a aventura do dia: tentar fazer a Rota da Citânia (PR2 GMR). Sim, tentar, porque os comentários de outros aventureiros [1][2] não são abonatórios para a qualidade das marcações. Mas, julgava eu, armado com o meu mapa e com a experiência acumulada de PRs, lá me hei de safar!

O pesadelo

Não, não me safei. A corrida desta manhã foi má, muito má. Ainda bem que ninguém me acompanhou. Esta PR é um atentado à segurança e é um insulto a quem tenta percorrê-la. Se eu me tivesse magoado seriamente esta manhã, teria avançado para vias judiciais. Mas vamos ao resumo dos factos: à saída do Museu da Cultura Castreja, não se vislumbra qualquer marcação e só quem vier munido de um mapa terá uma noção vaga do percurso a seguir. A partir daí, as marcações estão muito pouco visíveis – em muitas, apenas se avista a marca amarela. Fui obrigado a fazer o percurso no sentido dos ponteiros do relógio, contrariando a minha mania, pois não consegui ver as indicações do percurso em sentido inverso. Quando entramos na floresta mais densa, junto ao rio, as marcações desaparecem pura e simplesmente! Durante cerca de 30 minutos, andei para trás e para a frente, várias centenas de metros, e nada, absolutamente nada. Ainda estive tentado a atravessar o rio a vau, mas como o caudal estava forte, preferi seguir um trilho pela margem esquerda. Pedras escorregadias, várias quedas… Sinalética nem vê-la… Insisti no trilho e cheguei a um ponto em que é impossível prosseguir. Já estava prestes a desistir de fazer a PR quando olhei para uns metros acima e vi aquilo que me parecia ser o perfil de uma calçada. Subi a encosta e retomei a rota! Milagre! Mas o pesadelo não termina aqui: perdi a conta às encruzilhadas em que não havia sinalética ou esta induzia em erro. A minha ansiedade aumentava sempre que me aproximava de um cruzamento. Foi demasiado mau. Foi a PR com a pior marcação que já percorri e acreditem que infelizmente já vi muitas PR mal assinaladas.

A Câmara Municipal de Guimarães foi o promotor deste e de outros percursos pedestres do concelho. Segundo a Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal, a Rota da Citânia não está homologada (dados de 2013) e ainda bem! Mas o que me perturba e irrita profundamente é uma autarquia investir numa infraestrutura de promoção cultural e ambiental e depois deixá-la ao abandono, sabendo que a manutenção de um percurso pedestre não é onerosa: bastam no máximo umas poucas centenas de euros em material e dois ou três dias de trabalho anual! Será que a Capital Europeia da Cultura 2012, Capital Europeia do Desporto 2013, candidata a candidata a Capital Verde Europeia 20?? não tem meios para manter os seus percursos pedestres? Ou andarão obcecados com outros projetos mais virados para o betão e asfalto?!

A beleza dos vales e montes de Briteiros e Donim

Apesar da frustração que deu nos parágrafos acima, também houve um lado belo nesta aventura. Todo o percurso ao longo do rio Febras evoca um passado em que uma comunidade trabalhava diariamente na exploração sustentável de um pequeno curso de água e das encostas do seu vale. As ruínas dos moinhos, apesar da sua beleza, ameaçam transformar-se rapidamente em amontoados de pedras em poucas décadas, se não forem objeto de preservação.

Num dia chuvoso como o de hoje, o caudal do Febras tinha uma pujança que obrigava a muitas cautelas em qualquer aproximação. A vegetação, rica em árvores frondosas, torna aquele vale estreito numa garganta sombria. Um cenário inspirador, particularmente num dia em que os raios de sol consigam atravessar a teia de ramos e folhas.

A subida ao monte de São Romão faz-se por uma calçada milenar, provavelmente anterior à nação ou até à civilização romana. Note-se que todo o monte é circundado por calçadas deste tipo, comprovando a importância geo-estratégica e económica que este modesto cume desempenhou num passado longínquo. Quando passamos para a vertente sul do monte, avistamos lá em baixo o vale de Donim. O trilho da calçada sobranceira e a vista sem obstáculos para os campos que cobrem o vale provocam a nossa imaginação. Como seria a vida dos povos que ocuparam a Citânia de Briteiros e diariamente percorriam aqueles trilhos?

Chegado a Donim, vou atravessando campos por entre altos muros de pedra. Não estou habituado a ver com tanta frequência muros robustos e imponentes a ladear as calçadas, o que me faz refletir sobre o sentido de propriedade destas gentes. Já na aldeia, pode-se apreciar o belo moinho de Donim, muito bem preservado e acompanhado de um painel com ilustrações sobre o complexo sistema de moagem.

O regresso a Salvador de Briteiros faz-se por novamente por calçadas milenares, atravessando quintas que outrora tiveram um poder provavelmente equivalente às grandes empresas de hoje. Perto da igreja, idosos regressam da missa pela velha calçada, num ritual que se repete há séculos. Olham espantados para um maluco em calções e manga curta, todo ensopado e com ar atarantado, à procura de mais uma marcação invisível.