Correr a Ronda da Lapinha

Depois de 18 meses a correr os montes da região, inventando ou redescobrindo percursos e trilhos, chegou finalmente o dia de prestar homenagem ao evento que esteve na base da criação deste projeto, a Ronda da Lapinha, uma das mais longas procissões religiosas do mundo, que anualmente atrai milhares de fiéis à encosta da montanha da Penha sobranceira ao vale do Vizela. Trata-se de uma procissão incomum, pela sua motivação, pela extensão do percurso, e pela sua longa história. Realiza-se ininterruptamente há pelo menos quatro séculos e teve supostamente origem numa reação popular desesperada face aos flagelos das condições climatéricas de inícios do séc. XVII. Mas já iremos à história da Ronda…

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Saio de casa ouvindo a voz do padre lá no alto do monte. Inicio a minha corrida calmamente, ultrapassando os vários peregrinos que pela rua acima vão subindo em direção ao santuário. A meio da subida, atalho pelo meio da floresta e chego rapidamente à escadaria que, nos tempos em que treinava mais para o desempenho do que para a fruição, galgava nas minhas fúteis séries. No topo, apesar do dia ainda estar a começar, já se encontra uma enorme multidão que acaba de assistir à primeira missa campal da Ronda. Os peregrinos estão constantemente a chegar e a partir. Apesar da procissão arrancar às 13h00, muitos fiéis decidem fazer a penitência em horários em que o sol pesa menos.

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A primeira missa do dia

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A Ronda da Lapinha é uma procissão mariana com origens remotas, com a primeira referência documental ao culto da Senhora da Lapinha registada em 1612 [LEITE, 2012]. O nome “Senhora da Lapinha” estará relacionado com uma lenda, bastante comum em Portugal, segundo a qual a imagem da Senhora terá aparecido junto de uma lapa (rocha formando uma pequena gruta), neste caso em Calvos, uma freguesia periférica e rural de Guimarães. Segundo o mesmo autor, só em 1663 surge registada a primeira menção à Ronda, embora seja de crer que a procissão se realizasse já antes dessa data. A Ronda da Lapinha terá, segundo a lenda, sido estabelecida devido a uma praga de gafanhotos que surgiu naquele tempo e que levou ao desespero os agricultores do vale do Vizela, que viam as suas culturas serem devoradas pelos insetos. Decidiram levar a imagem da Senhora da Lapinha até à vila de Guimarães, à igreja da Senhora da Oliveira, implorando alívio para as colheitas ameaçadas. Quando regressaram a Calvos, viram o desejo realizado, pois os gafanhotos teriam supostamente morrido.

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Hoje já não há pragas de insetos ou outras maleitas a derrotar, pois a agricultura definha e já poucos querem saber das culturas e, além disso, a indústria química oferece todo o tipo de “milagres”. No entanto, o número de devotos da Senhora não parece diminuir e a Ronda é também uma oportunidade de convívio, romaria e até de atividade física. E por falar nisso, voltemos à corrida! Já passa um pouco das 8h00 e está na hora de iniciar verdadeiramente a minha Ronda, antes que o calor comece a fazer estragos. Sigo em direção à Penha, pela estrada municipal que serpenteia pela floresta, e vou cruzando-me constantemente com peregrinos que caminham em ambas as direções. É agradável sentir a presença de tanta gente por perto. À chegada a São Mamede, a primeira dificuldade, com a subida ao Santuário da Penha. É uma rampa relativamente curta, mas depois do conforto dos primeiros quilómetros a subir gradualmente, custa mais. A Senhora do Carmo ainda não se levantou, pois as portas do santuário ainda estão fechadas. Há pouca gente nas imediações, apesar de hoje ser também dia de festa na Penha, com a romaria de Santa Catarina, a padroeira desta montanha, cujas celebrações coincidem com as da Ronda da Lapinha – coincidência ou não! Contorno o penedo onde está esculpida a homenagem a Sacadura Cabral e Gago Coutinho e inicio a descida para Guimarães, via Mesão Frio.

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Peregrinos partindo e chegando

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A Ronda da Lapinha realiza-se estatutariamente no terceiro domingo de junho, com o solstício de verão sempre próximo. Este ano, realizou-se a 19 de junho, na véspera do solstício. Em 2015, a Ronda coincidiu com o solstício, tendo sido um Ano Magno. Mas, mais do que o simbolismo da data, pretendemos aqui abordar a temática do caminho, pois uma Ronda é acima de tudo um percurso, circular, em que as condições do caminho não devem limitar significativamente a progressão dos peregrinos. O percurso da Ronda terá tido certamente muitas variações ao longo dos séculos, em consequência sobretudo da evolução da rede viária. É difícil determinar qual foi o percurso original, embora haja estudiosos [MACHADO, 2012] que apontam para o caminho romano-medieval Amarante-Guimarães que passava muito próximo da Lapinha. A Ronda saía então da Lapinha, descia ao caminho romano-medieval e seguia-o por Abação, Pinheiro, Urgezes, Campo da Feira, até à igreja da Senhora da Oliveira. O regresso far-se-ia pelo mesmo caminho. Se assim fosse, é de duvidar que a procissão se denominasse então de Ronda, pois com um traçado linear, ninguém concebe uma “ronda”.

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Caminho romano-medieval entre Pinheiro e Abação (abril 2013)

Um segundo trajeto da Ronda poderá mais tarde ter passado pela Penha, admitindo-se que já havia caminho transitável por entre o mato, com descida a Guimarães mais ou menos por onde hoje circula o teleférico. O regresso continuaria a fazer-se pelo caminho romano-medieval de Abação. Fica a dúvida se não teria sido este efetivamente o percurso original, pois não é improvável que já houvesse caminhos até à Penha no início do séc. XVII – já lá poderia haver uma ermida anterior à capela de Santa Catarina! O terceiro e atual percurso, o mais longo de todos, terá sido desenhado sobretudo tendo em conta as melhores condições viárias que o progresso entretanto trouxe a Guimarães – é bem melhor caminhar com um andor em empedrado ou asfalto, faça chuva ou faça sol, do que em terra batida ou enlameada. Assim, a Ronda da Lapinha é atualmente um percurso essencialmente por estradas municipais ou arruamentos secundários, com cerca de 20km, e atravessa 14 freguesias: Calvos, Infantas, Costa, Mesão Frio, Azurém, Oliveira do Castelo, São Paio, São Sebastião, Creixomil, Urgezes, Polvoreira, Tabuadelo, São Faustino, e Abação.

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Como foi bom descer confortavelmente pelo asfalto até à escola de São Romão, em Mesão Frio! A brisa a soprar agradavelmente, as vistas para Santo Antonino e Atães, poucos carros ainda na estrada… Sigo pela estrada nacional até à Cruz d’Argola e, no entroncamento junto ao Lidl/Intermarché, sigo pela velhinha Rua da Arcela. É por aqui que os rondeiros da Lapinha entram com o andor da Senhora em Guimarães, parando obrigatoriamente frente à capela de Santo António. A Senhora da Lapinha é, pode dizer-se, uma imagem que aprecia os passeios e as visitas às imagens de santos e senhoras das redondezas, prestando-lhes as devidas honras.

Não conhecia em toda a sua extensão a Rua da Arcela, que pertence ao Caminho de Santiago e já foi um dos principais eixos viários que ligava Guimarães a Fafe, e fiquei surpreendido por ainda se observarem construções muito antigas, algumas seguramente ainda a resistir pelo menos desde o séc. XIX. À chegada à igreja de São Dâmaso, viro à direita e sigo pela estrada que passa ao lado do campo de São Mamede até ao Convento de Santo António dos Capuchos (Hospital Velho). Aqui, viro à esquerda e sigo para o centro histórico, até ao Largo da Oliveira. Mais uma vez, apanho mais uma Senhora a dormir. Ainda não são 9 horas e a Senhora da Oliveira ainda está em sono profundo. Quase ninguém cruza o largo e os cafés iniciam timidamente a sua atividade. Tenho dúvidas sobre o trajeto a seguir e questiono um velhote que se arrasta penosamente para um dos cafés. Diz-me, com toda a segurança do mundo, para seguir pela Rua Egas Moniz (antiga Rua Nova). Poucos metros depois, questiono-me se o homem não estaria ébrio, e decido confirmar com uma moradora se vou no caminho certo. Em boa hora o fiz! Regresso ao Largo da Oliveira e sigo agora pela Rua da Raínha D. Maria II até ao Toural. Aqui, já sabia que teria de descer pela Rua de Camões e depois iniciar a subida de 11 kms até à Lapinha!

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Uma rara sombrinha perto do castelo

Rua da Liberdade, Cruz de Pedra (mais um Santo António!), Rua Manuel Tomás e cá estamos perto da antiga fábrica do Castanheiro! Antes das obras de requalificação do caminho-de-ferro, seguia-se em frente para Urgezes. Agora, é necessário ir até à rotunda do Hotel de Guimarães. São mais umas centenas de metros, mas o andor não tem alternativa viável! O sol começa agora a tornar-se desagradável: com os raios de frente, sem óculos de sol, e com o calor a aumentar, a subida vai ser penosa e longa. Felizmente, do cimo de Urgezes até Covas, apanho uma pequena descida e alguma sombra. Depois de passar junto ao apeadeiro de Covas e de passar sobre a ribeira de Nespereira, acabaram as dúvidas de orientação e as benesses do relevo. O percurso não tem nada que saber: é só seguir a estrada até à Lapinha e ir puxando a carroça sob o sol fustigador!

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A procissão à chegada ao Toural (foto Guimarães Digital)

Polvoreira, Tabuadelo, São Simão… Ao longo de toda a subida, vou sempre ultrapassando peregrinos. Deste lado da montanha, ninguém desce. Todos sobem animados de uma vontade de caminhar que dificilmente se observa na rotina do dia-a-dia. Provavelmente, são os mesmos que à semana estacionam o carro em segunda fila à porta do café ou da farmácia. Mas nos momentos sagrados revela-se o melhor das pessoas e tudo se perdoa!

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A azáfama da Lapinha em dia de Ronda

Depois de São Simão, entro em piloto-automático, habituado que estou a correr nestra estrada nos meus treinos a meio da semana. Atravesso Abação e, depois de deixar a Fornalha – é mesmo nome de lugar! -, enceto a última subida até à Lapinha. Anseio por atingir o bosque que antecede a Devesa Escura, um dos poucos troços com sombra de toda a Ronda. Olho para o relógio e estou quase a fazer duas horas de corrida. Meto na cabeça que tenho de terminar abaixo das duas horas e acelero, sempre a ultrapassar, cada vez mais gente. À chegada, não resisto a parar para tirar uma fotografia do santuário e da multidão. No relógio 1h59mh47s… Já não vou conseguir. Último sprint, ainda com muito fôlego e está feito! 23 segundos depois da hora. Temos trabalho a fazer no próximo ano!

No adro, ao lado das centenas de peregrinos, há vários ciclistas que também vieram cumprir alguma tradição. Sou o único corredor, mas talvez não seja o único a correr a Ronda naquele dia. A Ronda tem uma hora e um percurso marcado, mas cada um é livre de a fazer como quer, à hora e ao ritmo que quiser… Desde que passe por todas as capelinhas!

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A vista a partir do Santuário da Lapinha

Dirijo-me até à outra extremidade do santuário. Dali avistam-se as Serras de Fafe, o vale do Vizela, um pouco do vale do Sousa, o Marão, a Aboboreira, Montemuro lá ao fundo… Está na hora de voltar a casa, hoje bem mais cedo do que o habitual. A estrada tem esta virtude de nos despachar mais cedo. Para o ano, voltarei à Ronda da Lapinha e será tradição para manter enquanto as pernas deixarem.

Ficha técnica

Referências

LEITE, Artur M., “Senhora-à-Vila: quatro séculos de fé e tradição cultural”, 2012.

MACHADO, Narciso, “Os Caminhos da Ronda da Lapinha”, Notícias de Guimarães, 23 e 30 de março de 2012.

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Roteiro da Ronda de Basto

Após 10 meses de reconhecimentos, em que contámos com a preciosa colaboração de vários amigos, é chegado o momento de desvendar o resultado dessas explorações. A Ronda de Basto será provavelmente o percurso mais exigente até hoje, não só pela distância, mas também pelo perfil altimétrico, muito irregular e com elevado desnível positivo. A região de Basto caracteriza-se por vales profundos e serras de altitude geralmente acima dos 600/700 metros. Além disso, é atravessada pelo caudaloso rio Tâmega, onde as travessias viáveis não abundam. Portanto, com todas estas condicionantes e sendo a Ronda um percurso circular, com requisitos geodésicos e culturais particulares e que evita ao máximo zonas urbanizadas, conseguimos um trajeto cheio de pontos de interesse mas naturalmente duro.

A partida/chegada

Mondim de Basto e o Monte Farinha (F. Azevedo)

Mondim de Basto e o Monte Farinha (F. Azevedo)

Cada rondeiro escolherá o ponto de partida que mais lhe convier. No entanto, a vila de Mondim de Basto afigura-se como sendo o local ideal para iniciar e terminar um desafio desta natureza. Acessos, estacionamento, e as comodidades da civilização à chegada são importantes. O largo Adriano Pinto Coelho, perto dos Paços do Concelho e do Parque Florestal, é a proposta para o local de partida. É aqui que tem inicio o PR1 – Caminhos da Senhora da Graça, que servirá de base aos primeiros kms da Ronda. Ao longe, poderemos avistar a primeira dificuldade, o majestoso Monte Farinha. Mas nada de receios, pois é melhor subi-lo no início do que mais tarde!

Senhora da Graça (km 6)

A conquista da Senhora da Graça

A parte final da subida

Os primeiros 2 kms da Ronda atravessam o Parque Florestal e depois sobem gradualmente, passando pelos lugares de Serra e Campos. É um curto aquecimento para a enorme subida ao Alto da Senhora da Graça, o ponto mais alto da Ronda, logo a abrir! Esta subida de mais de 600m em cerca de 3km deve ser respeitada e convém ser feita calmamente, por duas razões: a bela calçada merece ser apreciada até ao topo e… só faltam 80 kms para o fim! Trata-se de um caminho de peregrinação, mantido ao longo de séculos, e ainda em muito bom estado, ladeado por vegetação diversa. Um regalo para a vista, sobretudo à medida que vamos ganhando altitude, com o vale do Tâmega por trás de nós. Tome-se o tempo que for necessário para gozar deste privilégio, sobretudo quando ainda há cabeça e corpo para tal! Chegados aos 961m do topo do Monte Farinha, preste-se homenagem aos peregrinos que ainda sobem o monte a pé, ou às povoações que tiveram a coragem de aqui se instalar no passado (cf. Castro dos Castroeiro e Senhora da Graça). Se já estiver a faltar água, não é má ideia aproveitar o santuário para encher os cantis…

Alto do Crespo (km 13)

Adios, Señorita...

Adios, Señorita…

Tal como relatado no reconhecimento de janeiro, a travessia do maciço do Farinha está repleta de motivos de interesse: a diversidade geológica, de relevo, de vegetação, e de pisos torna estes 7 kms até ao alto do Crespo num divertimento constante. Sentimo-nos viajar por várias montanhas numa só. É uma zona bastante selvagem, onde não será possível encontrar água, a não ser pontualmente em alguns regatos. O alto do Crespo (592m) não oferece grande dificuldade, a não ser o acesso sem qualquer trilho. Tal como muitos cumes desta Ronda, também foi local de assentamento de um antigo povoado. Eram tempos certamente bem difíceis, pois só perante grandes ameaças as pessoas optariam viver em locais tão inóspitos.

Alto de Leiradas (km 26)

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A suave subida até Leiradas

Do Alto do Crespo inicia-se uma longa descida até à passagem sobre o rio Tâmega, na ponte do Arco de Baúlhe. Os primeiros 2 kms dessa descida são muito rápidos, em terreno quase sempre rolante. Na aproximação à ponte, já na aldeia de Fontelas, não há alternativas razoáveis a um troço menos interessante, de pouco mais de 1 km em asfalto. Atravessada a ponte, descemos ao nível do rio e passamos sob aquela em direção a montante, por um trilho marginal. Aqui deixamos o distrito de Vila Real e entramos no de Braga, no concelho de Cabeceiras. Depois de deixarmos o rio, a partir do km 18, iniciamos a subida a Leiradas. É uma subida de 8 km, que se faz gradualmente, quase sempre isolados pelo monte, ao longo de caminhos pouco exigentes, mas descobertos. A única exceção a esta subida é a travessia do belo vale da ribeira de Campelo, onde poderemos se necessário refrescar-nos e gozar de alguma sombra. À chegada a Leiradas, passaremos por um pequeno povoado, onde poderemos encontrar água. Mais acima, teremos o vértice com o mesmo nome, que nos espera no alto dos seus 590m. Podem consultar aqui um álbum com algumas vistas do troço Crespo-Leiradas.

Alto de Cambeses (km 30)

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Vista do alto de Cambeses (foto tontonFredo13)

A partir de Leiradas, começaremos a correr em direção a oeste, para o interior do concelho de Cabeceiras. Desceremos ao vale da ribeira de Asnela, onde poderemos apreciar mais uma típica paisagem de Basto, com velhas calçadas lajeadas e verdes lameiros rodeados de árvores autóctones. Em Asnela, teremos nova oportunidade para abastecer de água, antes de encetar a difícil subida ao alto de Cambeses. Esta subida, além de íngreme, é bastante exposta. Lá cima, a 697m, poderemos avistar um pouco abaixo os remanescentes da atalaia do Outeiro dos Mouros, onde ainda se denotam as antigas muralhas defensivas.

Alto de Abadim (km 36)

De Cambeses a Abadim, percorremos seguramente um dos troços mais bonitos desta Ronda. O vale da ribeira de Rio Douro é bastante cavado, com muita vegetação nas suas encostas, proporcionando muitas sombras e permitindo seguir vários single tracks até ao lugar de Eiró. Aqui, antes e depois da travessia da ribeira, passaremos por uma bela calçada lajeada ainda em muito bom estado. Não esquecer de aproveitar para abastecer de água neste povoado! Depois espera-nos mais uma dura subida, descoberta q.b., até ao alto de Abadim, muito próximo do aeródromo de Cabeceiras. Perto do cume, teremos de atalhar por entre o mato, para evitar fazer uma larga e desnecessária volta. O vídeo abaixo, apesar de ter sido registado num dia de muita chuva, é um bom resumo de muito do que poderão ver nesta parte da Ronda.

Alto da Lapela (km 49)

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Levada da Vibora (foto Basto Radical)

Do alto de Abadim, desceremos até à aldeia ao longo da Levada da Víbora. Será certamente um momento de muita adrenalina e diversão e também uma boa oportunidade para ir refrescando! Depois de Abadim, continuaremos a descer até ao vale do rio Peio (km 40). Aqui teremos de atravessar o rio a vau, razão pela qual se desaconselha realizar esta Ronda no inverno ou em alturas de grande precipitação. Contem com água gélida! Será uma boa oportunidade para uma sessão revigorante de crioterapia, para preparar o corpo para a dureza que se segue.

E o que se segue é a subida ao segundo ponto mais alto desta Ronda, o alto da Lapela (866m). Será uma ascensão de 500m de altitude em cerca de 9 kms. Ao passar pelas aldeias do Queiroal e Casal (capela de Santo António), teremos a última oportunidade de abastecer de água antes de entrar no oeste selvagem de Cabeceiras. Além de não ser fácil, esta parte do percurso atravessa na segunda metade zonas bastante selvagens, onde nem sequer há trilho. A aproximação ao alto da Lapela é particularmente exigente e vai requerer muita paciência para escolher as melhores passagens por entre a vegetação e o penedio. Preparem-se para alguns arranhões e picadas! Na Lapela, estaremos na fronteira com o concelho de Fafe. Podem consultar aqui um álbum com vistas deste troço.

Alto do Ervideiro (km 55)

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A caminho de Bastelo

Depois da tareia da subida à Lapela, desceremos à nascente da ribeira de Bastelo e seguiremos do lado direito da ribeira, por velhos caminhos rurais, até à aldeia com o mesmo nome. Estaremos de volta à civilização e teremos mais algumas oportunidades para reabastecer de água, mas olhem para a água que vão beber, pois às vezes pode estar turva e… já sabem! Deixamos Bastelo e continuamos a descida ao longo do vale, por uma velha calçada, até passarmos sobre a ribeira e iniciarmos a subida ao alto do Ervideiro. Esta ascensão não é muito dura, apesar de exposta, mas com 55 km e muito D+ nas pernas, já não há nada que não seja violento! Do alto dos 793m do Ervideiro, de novo no concelho de Cabeceiras, avistaremos a sul os cumes que nos faltam, com destaque para a imponente Orada que, vista de norte, até nem parece grande coisa… Até lá chegar!

 

Senhora da Orada (km 64)

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Penouta

Logo abaixo do Ervideiro, passaremos sobre a E.N. que liga Fafe a Cabeceiras e estaremos na aldeia de Fojos, no sopé de outro monte – a Penouta – que, apesar de não ter um vértice geodésico, não é brincadeira de se subir. A vantagem desta subida é ser quase toda por caminhos de terra, sem exigências técnicas. Na Penouta, poderemos desfrutar de uma vista espetacular sobre o vale da ribeira de Petimão. Lá em baixo, espera-nos a aldeia de Passos, que iremos visitar de raspão, depois de uma divertida descida pela calçada que peregrinos de outrora faziam à Cruz da Missão – certamente uma cristianização de algum penedo sagrado. Quem ainda tiver pernas no alto da Penouta, ficará com elas empenadas depois desta descida vertiginosa. Segue-se uma zona de terreno mais ou menos plano, embora por vezes acidentado, até à aldeia da Cucana, onde será possível reabastecer de água. É então que chega o momento da subida à Senhora da Orada, inicialmente por uma zona de floresta densa (até ao santuário) e na parte final por um trilho de downhill bastante exposto. No topo dos 798m, há um posto de vigia, onde poderemos subir (se ainda tivermos pernas e cabeça!) e ter uma magnífica vista panorâmica sobre São Clemente de Basto, Gandarela, Alvite… Podem consultar aqui um álbum de fotos de um reconhecimento feito no verão do ano passado.

 

Alto do Ladário (km 74)

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Downhill da Orada

É uma pena descermos da Senhora da Orada com as pernas muito mal tratadas, pois o single track de 1 km pela pista de downhill em direção a Alvite é pura adrenalina! Depois deste momento de divertimento (e risco!), passaremos perto de Alvite e Petimão, por zonas onde a vegetação está a ganhar aos trilhos, e iniciamos a subida ao alto do Ladário, por Quintela, seguindo um trilho de BTT. Nos últimos kms até ao cimo do Ladário, agora no concelho de Celorico, não encontraremos zonas de grande interesse, pois a exploração florestal intensiva e a construção da A7 descaracterizaram aquela vertente do monte. O Ladário, a 642m de altitude, já foi local de implantação de um povoado castrejo. E que sorte que aqueles tipos tinham, pois tinham uma vista fabulosa para o vale do rio de Veade! A paisagem formada por este amplo vale é seguramente das imagens mais belas que se poderá levar desta Ronda!

Chegados ao Ladário, bem se pode dizer que o pior está feito e que só falta descer o monte e terminar a Ronda. Mas ainda faltam uns kms e uma última dificulmaldadezinha…

 

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Vale do rio de Veade (à direita), com o Monte Farinha e o Alvão ao fundo (foto JonSepulveda)

Senhora da Piedade (km 84)

Logo à saída do Ladário, teremos mais um single track divertido, antes de entrarmos nos caminhos florestais que nos levarão encosta abaixo até às quintas do vinho verde de Celorico. A passagem pela Quinta da Raza impressionará pela extensão dos vinhedos. Se ainda tivermos luz solar, voltaremos a ver de perto a Senhora da Graça e recordaremos as primeiras dores do dia. Chegados novamente ao rio Tâmega, no ponto de mais baixa altitude desta Ronda, atravessamos a ponte de Mondim e reentramos no distrito de Vila Real. A meta está a pouca distância, mas ainda nos falta um vértice geodésico! A Senhora da Piedade é mais um antigo povoado da Idade do Bronze, transformado em templo cristão. Iremos subir a este monte sobranceiro ao Tâmega pelo lado menos urbanizado e, portanto, mais selvagem e mais íngreme. Depois desta última dificuldade, só nos falta descer pela rua até ao centro de Mondim e dar graças por ainda estarmos inteiros e termos concluído este enorme desafio, que nos permitiu conhecer as terras de Basto como poucos alguma vez conhecerão!

Ficha técnica

  • Distância estimada: 90 km
  • Desnível positivo estimado: 3500m
  • Duração estimada: 13 a 15 horas (depende de muitos fatores)
  • Traçado do percurso (desenhado com base em vários reconhecimentos, nunca feito na totalidade)

Perfil altimétrico

As distâncias e altitudes abaixo são calculadas pelo Google Earth. A experiência de trabalho com esta ferramenta tem demonstrado que o desnível positivo é sempre inferior em pelo menos 200m ao estimado e a distância superior em cerca de 10%.

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Visão geral

O percurso da Ronda de Basto passa pelos distritos de Vila Real e Braga e por 4 concelhos: Mondim de Basto, Cabeceiras de Basto, Fafe e Celorico de Basto. As freguesias atravessadas pelo percurso são as seguintes:

  • Mondim de Basto: São Cristóvão de Mondim de Basto, Vilar de Ferreiros, Atei.
  • Cabeceiras de Basto: Pedraça, Cavez, Rio Douro, Abadim, Painzela, São Nicolau de Cabeceiras de Basto, Outeiro, Passos, Refojos de Basto, Alvite, Basto, Faia.
  • Fafe: Aboim, Várzea Cova.
  • Celorico de Basto: São Clemente de Basto, Ribas, Vale de Bouro, Corgo, Canedo de Basto, Veade.

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A Ronda do Marão contra os relógios

NOTA: Este é um relato produzido por Fernando Santos e Isaac Costa, baseado na experiência de ambos na Ronda do Marão realizada a 18 de abril de 2016.

Bip..Bip..Bip… cinco da manhã toca o telemóvel. Hora de levantar para um dia de aventura no Marão! Rapidamente me levanto e vou tomar o pequeno almoço, flocos de aveia com passas e nozes. A mochila já está pronta com todo o material para enfrentar os quase 57km e 2400d+ da Ronda do Marão, em autonomia total. 5:30 e arranco para casa do Isaac. Este já está à minha espera e rapidamente metemo-nos a caminho, sigaaaa prá montanha.

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Vista sobre o Marão

 

Quando li pela primeira vez algo sobre a Ronda dos Cumes Sagrados e Ronda do Marão, rapidamente esta ficou no meu imaginário. O Marão afinal é aqui tão perto, moro perto de Espinho, e está perfeitamente ao alcance de qualquer doido por trail dar lá um salto para fazer uma perninha. No fundo o que me atraiu para esta aventura foi também a ligação à historia da região e a ligação dos cumes… enfim a envolvência dada a este tipo de desafio. Para dizer a verdade nem me tinha apercebido do contra-relógio. Apenas queria voltar ao Marão pois tenho uma dívida ainda por pagar com essa montanha… Mas isso são outros 500! Além disso tenho como objectivo deste ano o Grand Raid dos Pirenéus e tenho de treinar para ele.

A minha ideia inicial era organizar um dia de trail com a minha equipa ( Núcleo de Montanha de Espinho), mas o pessoal achou muitos kms e aos fins de semana para mim é complicado. Tento o mais possível conciliar os treinos com a vida familiar e laboral, e como trabalho por turnos e a minha esposa também trabalha ao fim-de-semana, além das actividades dos Putos, fica difícil. Assim desde que o meu amigo e colega de trabalho Isaac veio trabalhar para o meu turno, ambos combinamos começar a fazer uns treinos juntos, e foi ele que escolhi para me acompanhar nesta Ronda. Que me desculpem outros amigos de “combate “ mas é complicado estar a convidar muitas pessoas, por causa de horários e marcar dias, é complicado.

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Prontos para a partida

Chegámos a Gondar às 7:00h, mas, e encontrar o Mosteiro… Valeram-nos as novas tecnologias pois o dito aparece no Meo Drive. A manhã estava fresca, cerca de cinco graus com algum vento, mas as previsões eram bastante animadoras, um dia de céu quase sem nuvens neste abril é como agulha em palheiro. Tinha planeado a Ronda para que nada falhasse pois já sei que ir para a montanha em autonomia total e sem conhecer o terreno não é brincadeira. O Hélder Pinto autor do blog dos Cumes Sagrados, deu-me várias dicas e foi muito prestável … obrigado Hélder! Tinha sacado o track para o meu relógio, o A-rival, mas o plano A era seguir o track pelo Garmin do Isaac, pois eu nunca tinha utilizado o relógio a seguir rotas, aliás, raramente utilizo o relógio, só quando vou para provas ou em treinos longos. Este tem a função trackbak que pode ser muito útil se nos perdermos, serve também como orientação pois podemos a qualquer momento ver o mapa do percurso já feito, e ter uma noção da nossa localização. Entretanto como o Isaac comprou a mais recente versão da Garmim, esse seria o plano B, pois ele ficou de levar os dois relógios. Entretanto quando chegamos ao mosteiro de Gondar este diz-me que não conseguiu passar o track para o Garmin antigo. Plano A foi ao ar! E quando liga o outro Garmin este mostrava o percurso sem a ligação final… faltavam cerca de 9km ao percurso… Bonito. Restava-nos o plano C… o meu A-rival.

O inicio foi complicado pois andámos uns 10 minutos para conseguirmos perceber qual o rumo a seguir … e isto era só o principio. O track aparecia sempre ao lado do caminho e nas bifurcações de caminhos tínhamos de andar uns 50 metros para saber se era o trilho correto. O inicio foi complicado com muitas paragens e alguns enganos. A primeira parte da Ronda era quase sempre a subir, e assim o frio rapidamente desapareceu ….mas não por muito tempo.

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Alto do Picoto

Atingimos por fim o primeiro cume, o alto do Picoto, km 4, e começámos a ganhar alento! Seguimos sempre a subir para o Outeiro Santo a 860m, desde o mosteiro já iam 660 de desnível positivo. Mas não estávamos a aquecer! Começava a soprar um vento gelado com rajadas que nos faziam abanar. O Isaac começava a arrefecer e vestiu o impermeável, este vento manteve-se quase todo o percurso, e em alguns locais quase nos atirava para os lados. Curiosamente no ponto mais alto, lá em cima não estava muito forte. Durante essa parte do trajecto recebo uma chamada do Hélder Pinto. Já tinha tentado ligar-lhe informando-o do início desta aventura, mas sem sucesso. Este deu-me mais algumas dicas, e desejou-nos sorte para a nossa viagem… obrigado pela disponibilidade demonstrada!

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Alto da Neve

Chegados ao alto da Neve, não havia neve, heheh mas o vento soprava terrivelmente forte. Aproveitámos o marco geodésico para nos abrigarmos e comer alguma coisa, mas tínhamos de arrancar pois o frio começava a fazer mossa. As paisagens durante esta subida eram soberbas, com vista para o Alvão e Srª da Graça.

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Vista para Senhora da Graça e Alvão

 

A partir do alto da Neve eu sabia que até ao próximo cume faltavam apenas três km, pois levava comigo um pequeno croquis … nisto de andar em sítios que não conheça não gosto de facilitar. Mas mesmo assim foi aqui que metemos água a rodos. O relógio do Isaac ia a ler a 800 m e o meu eu ia alternando entre os 10 e os 100 metros e às vezes afastava mais para ver o percurso completo. O problema é que nessa parte do trajecto precorremos um caminho que nos relógios dava a leitura sempre ao lado, e como não vimos bifuracação nenhuma continuamos a correr e distraídos não nos aprecebemos que o track fazia uma saída à direita, retornando depois quase ao mesmo ponto.

Aqui fizemos cerca de 2 a 2,5km a mais e quando depois de muitas dúvidas finalmente vimos lá atrás a Srª de Moreira, cume 4, nem queriamos acreditar! Tínhamos de lá ir! Estavamos ali para fazer a Ronda, o cronómetro era meramente acesório! Mais 2 a 2,5km para trás foram quatro ou 5 a mais só nesse engano. Não fosse o meu croquis e tínhamos falhado a Ronda… e isso sim tinha sido muito mau!

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O croquis

Sigaaa que o caminho é em frente!

E continuava a subir, primeiro quase em recta até à pousada de São Gonçalo e depois a subir até ao alto de Freitas a 1347m. Aqui pairavam algumas nuvens que estacionaram todo o dia no cume do Marão e não mais de lá saíram. Curiosamente o vento aqui em cima era bastante menos intenso. Fantástico o Alto de Freitas. Acho fascinantes estas fortificações no topo dos montes, verdadeiros arquivos da historia dos nossos antepassados e de como estes se defendiam de ataques inimigos. Adoro!

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Portal da Freita

Daqui descemos um pouco para voltarmos a subir, desta feita até ao cume mais elevado da nossa Ronda. As pernas já começavam a ressentir-se de tanta subida, e eu ia incentivando o Isaac dizendo-lhe …. – a seguir é sempre a descer ….. o pior é que a descer também dói. Depois da Srª da Serra a 1416m realmente foi muita descida, mas antes andamos de novo à nora a tentar encontrar o caminho correcto.

Faltavam apenas três cumes para terminar a Ronda, mas ainda muitos kms. Um dos pontos desta Ronda que não gostei muito, foi ter bastantes partes de estradão e estrada principalmente nos kms finais. Sei que é difícil arranjar alternativas, e se fossem trilhos a leitura pelo relógio seria muito mais difícil.

As descidas não facilitaram muito. O Isaac tinha feito a Geira a abrir há apenas uma semana e começava a ressentir-se a sério do acumular de km e desnível. Conseguia motivá-lo dizendo-lhe:  – Treino para a Ultra Pirenéus, a caminho dos Pirenéus, ainda consegues correr mais 50km …. Heheheh

O pior foi que durante uma descida mais pronunciada voltamos a sair do track, e aí metemos, meti, mais água . Não quisemos voltar a subir aquilo tudo e metemos a corta mato. Heheheheheheheh sem tojo não metia piada, aliás, quem me conhece destas andanças sabe que para ir comigo tem de levar sempre perneiras. Por acaso não levamos e fez falta. Mais meia hora a traçar tojo da nossa altura, agora sim, acabar em menos de 9:22h recorde da Ronda estava praticamente fora de questão! Paciência! O pior é que o raio do caminho nunca mais aparecia. O desvio não foi grande, mas perdemos muito tempo! Não me lembro bem se este lapso foi entre o alto do Penedo Ruivo e a Chorida, ou entre esta e o Alto do Mirador …. Mas pouco importa!

Durante este trajecto tivemos também um encontro imediato de 1ª grau com dois cavalos que desciam a galope um caminho em terra. Não sei se estariam perdidos ou se fugiram, mas quando nos viram travaram a fundo e ficaram no caminho a olhar para nós.

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Encontro imediato

Ainda perguntei ao Isaac se sabia montar …. Mas ele não estava muito receptivo!

A caminho de Gondar ainda pensámos que chegaríamos a tempo de alcançar o recorde apesar de todas as peripécias e enganos. Apareceu-os uma tabuleta “Gondar “ 3km ainda não tínhamos 9:00h e metemos pernas ao caminho. Chegados a Gondar perguntamos a uns camponeses onde era o Mosteiro. Azar! Era do outro lado da Freguesia e segundo estes a uns quatro km . Aí a moral de tentar bater o tempo desmoronou completamente e fomos lentamente, muitas vezes a caminhar até ao fim do percurso.

Valeu a pena! Percurso fantástico, e aventura fantástica!

Revelou-se muito difícil “navegar” pelo relógio principalmente a correr, mas valeu muito a pena, e aprendi muito. Valeu também pelo treino e pelo fantástico Marão e arredores. No fim foram 64.22km e 3220 de desnível positivo pelo Garmin do Isaac, e 63.79km e 2386 de desnível positivo no meu A-rival! Cerca de 6 ou 7 km a mais e muitas paragens e desvios de rota. O Garmin é muito mais preciso a nível de medição de desnível pois tem altímetro e o A-rival não. Nesse ponto já tinha reparado na imprecisão do meu relógio. Outro dos pontos fracos é que traça linhas rectas entre pontos, o que no terreno dificulta a leitura em zona de curva, pois pensamos sempre que estamos a sair da rota.

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Parabéns ao Helder Pinto e amigos por esta iniciativa. Espero ter ajudado a difundir a Ronda e o seu Blog assim como outras Rondas que se avizinham. Excelente iniciativa!

Voltarei ao Marão certamente, e quem sabe se a esta Ronda, desta vez sim para o contra relógio.

Saudações Trailianas ;D

Uma via sacra na primeira lua cheia da Primavera

Partilhamos o e-mail enviado pelo Miguel Bandeira Duarte, descrevendo a sua aventura de 63 km pelos montes de Guimarães e Braga, numa espécie de via sacra de celebração do início de Primavera, na primeira lua cheia da estação. Foi neste dia que, há um par de milhar de anos, um tal de Jesus galgou um monte antes do sacrifício. O Miguel galgou muitos mais mas preferiu continuar entre nós. Esperemos que o relato sirva de inspiração para mais aventuras trailo-sacras!

Caro Helder

Eis o relato do treino longo que realizei.

Há muito que colocas na natureza estes traçados que simbolicamente designas por ronda. Parece inequívoco dado o seu carácter circular, no entanto a escolha dos locais por onde passa parece enunciar que o acto de correr é investido de referências que ultrapassam o rigor da geometria da informação no terreno. Global positioning system referencia também a experiência egocêntrica (centrada no corredor) a qual, na sua subjetividade, permite o prazer e o desprazer, o gozo da corrida. Quiçá uma sensibilidade treinada sobre as forças telúricas nos permitisse deixar de lado os instrumentos de medida, no entanto somos hoje demasiado eficientes.

Há muito que pretendia continuar a conhecer as elevações entre Guimarães e Braga, que emolduram o Ave. Realizei alguns reconhecimentos, sem sistematização, entre treinos e provas, os quais utilizei mais para encontrar referências visuais do que para voltar a percorrer os trilhos. Sou adepto de passar poucas vezes pelo mesmo caminho por isso o traçado preparatório pelo Google privilegiava novos caminhos nem sempre os mais diretos. Está na altura de dizer que a ideia que antecedeu a corrida não foi propriamente a de uma ronda mas a de passar boa parte de um dia a correr. Isto é sair de casa bem cedo e voltar quando estivesse cansado. Claro que, com outras tarefas já marcadas para o dia, havia um tempo a cumprir de aproximadamente 10 horas. Assim, sair de Guimarães em direção ao Sameiro e depois voltar cumpria também alguns requisitos de quilometragem e segurança, nomeadamente rede de telemóvel, pontos de hidratação e a proximidade de outros meios de auxílio caso algo corresse mal. Como sabes pretendia percorrer os caminhos da primeira ronda de Fafe, porém a intenção de correr mesmo sem companheiros, implicou a alteração do percurso e das condições (assim, felizmente, mantenho a possibilidade de a realizar).

Saí do Salgueiral pelas 5:56, já nascia o dia, em direção à Veiga de Creixomil. A caminho das Ruas da Agrela e da Ressa a “primeira Lua cheia da Primavera” elevada à minha frente. Bom tempo, boa temperatura. Na mochila uma sandes, barritas, magnésio, 1100 ml de líquidos, luz química, manta térmica, frontal, apito e muita vontade para correr. A ideia seria passar na ponte sobre o Ave em Brito que me posicionava para a subida à capela de S. Miguel em Vermil. Da Ressa para Correlos e daí para a Ameixoeira rapidamente cheguei ao Ave para enfrentar alguns metros de asfalto. É difícil atravessar algumas zonas de ligação sempre por terra, por isso procurei minorar por ruas secundárias como Valdante. Por aí ainda tentei fazer parte do monte mas deparei-me com um portão de estaleiro. Seguindo a João Paulo II, iniciei ao km 10 a subida ao S. Miguel [foto 01], 200 metros de elevação com trilhos bastante inclinados e desafiantes. Depressa percebi o desfasamento entre o Google e a realidade, porém os trilhos mais marcados conduziram-me ao topo: um cume bastante aprazível com o marco do Anjo (386m) o qual fotografei e te dediquei [foto 02]. A descida aos 195 metros é rápida e sobre terra fofa bastante confortável. Apesar de tantos eucaliptos ficou a impressão de um monte com grande potencial para treinos curtos mas intensos. De novo a transição para passar por baixo da A11 em Figueiredo e ascender à Sra. da Saúde. Em zona familiar passei bem perto do Outinho (495m), não sem antes entrar, por engano, por um trilho cerrado de tojos. Trata-se de uma zona com rasgos novos não documentados e outros já esquecidos. Do Outinho a Sta. Marta (564m), com um pequeno engano encontro uma descida rápida em ‘single track’, depois atravesso a N101 (278m) na Costa do Gaio. Cheguei à nacional com 3 horas de caminho em 22km percorridos, tudo muito tranquilo! A subida a Sta. Marta são 4 km com forte inclinação cujo atrativo é a bem conhecida parte final. Uma vez no topo a vista da Sra. da Assunção sobre o vale é extremamente agradável. Retomei o caminho, o Sameiro (569m) encontrava-se perto e faria uma pausa mais longa para comer e descansar. A descida pelas traseiras da Falperra é espetacular, tão bruta quanto a subida da N585 ao planalto verdejante já próximo da Sra. do Sameiro [foto 03].

 

Passaram 5 horas e 31km desde Guimarães. Metade do caminho estava percorrido, talvez o mais familiar, sem preocupações de médias e mais importante sem dores. O escadório é monumental [foto 04], a vista sobre Braga assoberbante. Repus as reservas de água e tomei um café, seguindo o caminho na direção das proximidades da Citânia de Briteiros. O percurso tomado não foi o mais curto, o afastamento da estrada permitiu aproveitar um declive suave para percorrer um trilho seco, sem enganos, a bom ritmo, no caminho da Capela de Sto. António [foto 05] nas proximidades de Soutelo. Com um enquadramento aprazível é um ponto fresco com água ideal para recuperar, que bem me soube! Daí até Portuguediz foi um percurso completamente desconhecido, que me deu a boa sensação de não fazer a mínima ideia de onde estava. Neste caso, a segurança do trilho no relógio é fundamental para a perfeita fruição. Para quem ainda tem pernas, o divertimento espreita num percurso variado de piso e paisagem [foto 06]. Adiante, sem prestar atenção, coloquei o trilho a atravessar o Febras, com água acima da cintura, alcançando o lageado na direção de Donim na N309 [foto 07].

Estavam percorridos 40 km, os próximos 5 seriam uma descida animada não fosse o abandono em que se encontra. No final vi marcas de PR ficando sem saber se toda a descida faria parte, mas é um trilho que merece ser percorrido com frequência porque desaparecerá nos próximos anos [foto 08]. Em Santo Emilião notei alguns sinais de cansaço, a temperatura estava quente, tomei uma cola no café e segui à ponte para atravessar de novo o Ave, 30 metros mais alto, para Souto Sta. Maria. A passada estava pesada e o asfalto tardava em ser substituído. Da Rua do Sobreiro tomo, pelo monte, a direção da Gonça. A subida começa a ganhar inclinação em poucos metros, é dura, com pedra solta e restos de corte de eucalipto. A magnífica vista sobre o vale do Ave e todo o percorrido durante o dia [foto 09] aligeira a fadiga. Apesar das dificuldades físicas a satisfação é evidente e motivadora. No sopé do aterro, um campo de cultivo abandonado baralha as dicas do Google, vejo-me rodeado de ortigas e silvas e sem referências para seguir caminho. Foi um momento difícil, se tivesse encontrado o caminho teria atalhado 4km em apenas 100m. Voltei atrás, encontrei habitações e segui a estrada até encontrar o trilho que liga pelos cumes Gonça a Fermentões. Estava nos 50, nos últimos kms do dia, faltariam mais 13. Escolhi o trajeto mais direto num compromisso com o tempo que dispunha. Nesta altura cresceu a sensação que deveria ter realizado uma alimentação mais substancial, precisava de mais energia e o cansaço surgia com facilidade. Felizmente, os últimos kms são a descer e o facto de ser um percurso familiar tornou-o menos penoso. De novo na veiga, estava no ponto de partida 10h e 20min depois.

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[8] Donim

Entre os aspetos mais positivos deste percurso estão a proximidade de casa, a variedade de pisos e paisagens, o acumulado de 4200m, pontos de água e passagem por pontos de elevado interesse, a gestão de esforço e um novo ‘record’ pessoal. Entre o menos positivo está a presença significativa do asfalto nas transições e as minhas dúvidas na interpretação das informações do relógio.

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[9] Vale do Ave

Uma nota especial para o apoio nos bastidores, sei que correram tanto quanto eu: a Micaela, o Mauro e Tu.

Terei muito gosto em tornar a realizá-lo como treino de longa distância ou a utilizá-lo como base para mais uns tantos desafios! Estás convidado!

Um abraço, boas corridas, Miguel

Para quem estiver interessado em repetir a façanha, partilhamos o track cedido pelo Miguel.

 

Rondámos o Marão, mas nunca o venceremos (II)

[veja a primeira parte deste relato aqui]

Depois de passarmos a manhã toda a trepar por vários flancos do Marão, estávamos quase a atingir a cota mais alta. Apesar da nebulosidade, ainda tínhamos conseguido, durante boa parte do tempo, desfrutar de algumas vistas para as belas paisagens maronesas. No entanto, agora que subíamos ao ponto ideal para panorâmicas da Serra, o denso nevoeiro envolvia-nos e apenas conseguíamos avistar até algumas dezenas de metros. Seguíamos eu, André, Gil, Isaac, e Jorge, acompanhados pelo Frederico, que tinha astuciosamente evitado o empeno da manhã para se juntar a nós quando já não tínhamos grandes forças para correrias. Mas essa vantagem também jogou a nosso favor, pois ele ajudou a puxar pelo comboio monte fora. Ele e a locomotiva André, que continuava a correr ao mesmo ritmo dos quilómetros iniciais.

Seguimos pelo estradão de acesso ao Alto do Marão. À chegada, tivemos dificuldade em localizar imediatamente o vértice geodésico e a capela da Senhora da Serra, no meio da bruma cerrada e de tantas construções. Ficámos com a impressão que tudo o que é empresa de comunicações em Portugal possui um naco de território naquele alto. Antes de navegar pelo labirinto de betão, decidimos parar para um breve almoço, abrigados como podíamos do vento. Falávamos pouco. Não chovia, mas pressentíamos que não devia faltar muito para começar a cair. Custou-nos levantar e enfrentar novamente a invernia, mas lá nos animamos para fazer mais uma foto de grupo junto ao vértice geodésico. Depois, escapulimo-nos monte abaixo, passando pela capela, novamente em direção ao estradão.

Sem os guias da manhã e ainda desconfiado da precisão do relógio, hesitei em seguir o trajeto assinalado. Por momentos, confundi o maciço dos Seixinhos com as colinas do Penedo Ruivo. Um rápido telefonema ao António resolvou o problema. O Jorge confirmava no seu telemóvel que estávamos no caminho certo. Dissipadas as dúvidas, atirámo-nos cascalho abaixo até ao caminho de acesso ao Penedo Ruivo. Os quilómetros seguintes foram calmos, correndo a um ritmo moderado, sempre puxados pelo André e Frederico. Serpenteávamos pelas cristas da Serra, perdendo gradualmente altitude. A paisagem mudava de feições, mais suave, mais árida, e mais decorada por penedos de diversos tamanhos. Ali começa uma outra secção do Marão, mais velha, prima direita da Aboboreira.

Saímos um pouco do estradão para visitar o vértice do Penedo Ruivo e logo regressámos à cadência anterior, agora descendo por entre as turbinas eólicas em direção à Chorida. O Gil continuava a lutar contra a sua lesão, decidido em levá-la até ao fim, custasse o que custasse. Os restantes corriam ao ritmo que mais lhes convinha. Por vezes, sentiam-se uns pingos de água. Seria imaginação? A verdade é que as nuvens estavam cada vez mais com aquele aspeto denso que antecede uma descarga. Quando cantávamos de alegria a ultrapassagem da maratona, víamos à nossa esquerda o vértice da Chorida. Nem valia a pena lá subir, tal seria a escalada perigosa que teríamos de fazer. Mais valia mantermo-nos em linha e continuar a descer o mais rápido possível.

Assim chegámos rapidamente à cota dos 900m, no ponto em que o percurso vira para norte. Psicologicamente, esta viragem marca um momento importante, pois estamos com a sensação de que dificilmente algo nos parará. No entanto, é neste momento que a chuva começa a cair. Primeiro sentimos umas gotas grossas dispersas e rapidamente levamos com uma torrente gelada, puxada a vento. Creio que quase todos fomos surpreendidos pelos estragos que esta chuva poderia ainda causar-nos. Com o corpo a produzir menos calor e os músculos a fraquejar, quaisquer paragens agravavam o nosso estado. A descida ao vale da Ribeira do Jogal, que separa as aldeias de Carneiro e Murgido, permitiu-nos distrair um pouco da monotonia dos estradões das cristas, mas por pouco tempo. Um quilómetro acima, estávamos novamente na crista, agora em direção à capela de Nossa Senhora de Corvachã e ao vértice do Mirador.

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No vale da Ribeira do Jogal

À chegada à capela, a chuva antigia maior intensidade e em boa hora pudemos abrigar-nos num cantinho de um edifício de apoio. Oportunidade para atestar bidões numa pequena fonte e para despachar os últimos sólidos que ainda tínhamos na mochila. À vez, íamos rodando pelo cantinho, tentando distribuir equitativamente a exposição à chuva, pois não cabíamos todos no espaço seco. Mas a sensação de frio aumentava a cada minuto que ficávamos parados. Ninguém estava com vontade para fotos e arrancámos logo que recompusemos as mochilas. O vértice do Mirador, a poucos metros da capela, ficou a ver-nos passar, sem lhe termos dado o merecido destaque. Antes de iniciarmos a descida para Bustelo, surpreendemos um casal entretido a embaciar os vidros do carro. Não pudemos fazer nada para evitar que nos vissem. Estávamos mais embaraçados do que eles e obviamente que não quisemos interromper qualquer momento de euforia e tentámos passar pelo carro o mais despercebidos possível. Oxalá tenham continuado felizes a cavalgada. A nossa ia penosa pelo monte abaixo.

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Vértice do Mirador

À chegada a Bustelo, os nossos radares procuravam qualquer sinal do café da aldeia. A nossa necessidade primária era agora uma bebida quente. Não ligámos à rudeza do trato e do serviço, sem quaisquer considerações de higiene. Para desapontamento meu, a cevada foi servida numa chávena de café. Soube a muito pouco. Melhor que nada, mas… Ainda tentei pedir um cheirinho de bagaço, recordando a experiência da GR43 de Fafe, mas o dono do café tardava em voltar para o balcão. Não havia tempo a perder e deixámos rapidamente o café em direção a Gondar.

Os quilómetros finais têm pouca história, embora se destaque a passagem pela bela aldeia de Ovelhinha, a merecer uma nova visita com mais e melhor tempo. A subida até ao Mosteiro de Gondar fez-se lenta mas animadamente. Tínhamos conseguido o objetivo, conscientes da sorte que nos acompanhou durante todo o percurso. Não podíamos queixar-nos de nada. O frio e a dureza do percurso faziam parte obrigatória da experiência e todos, no fundo, queríamos viver algo assim no Marão. Não atravessámos toda a Serra, ficando alguns pontos emblemáticos por visitar (Seixinhos, Fraga da Ermida, Pena Suar, …), mas ficámos com uma amostra representativa da beleza e dureza do Marão e com uma certeza: rondámos o Marão mas nunca o venceremos, pois a montanha é sempre mais forte do que nós, seja qual for a época do ano.

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De regresso ao Mosteiro de Gondar

Infelizmente, não pudemos despedir-nos dos colegas de aventura convenientemente, pois a chuva gelada e persistente obrigou-nos a recolher rapidamente aos carros. Mas fica aqui a devida homenagem individual aos meus quatro colegas finishers desta Ronda do Marão, sem esquecer a devida vénia a António «arquiteto do Marão» Mendes, Frederico Pinto e Urbano Ribeiro, por todo o apoio dado ao longo do percurso, e ainda ao Pedro Lopes que ficou todo o dia de prevenção com o seu jipe, não fosse algo correr mal. E então os novos membros do Clube de Caçadores de Cumes Sagrados são:

  • André Cunha – Neste tipo de desafios, em que as dificuldades podem atingir extremos, é fundamental os participantes serem solidários e evitarem qualquer centelha de discórdia. O André encarna muito bem esta atitude: sempre bem disposto, positivo, orientado aos objetivos, só pensava em papar quilómetros e trepar paredes e puxou pelo grupo durante grande parte do trajeto. Talvez também porque temia que o assadinho que o esperava em casa se estragasse…
  • Gil Oliveira – Já tinha no palmarés a Ronda de Lapinha-Montelongo, feita no dia mais quente de 2015. Foi o meu colega de provação nesse dia infernal e, com a sua persistência e companheirismo, ajudou-me a vencer um desafio que por vários momentos julguei intransponível. Nesta Ronda do Marão, o seu carácter persistente voltou a evidenciar-se, arrastando por dezenas de quilómetros uma incómoda lesão, sem reduzir o ritmo de corrida. Um grande guerreiro!
  • Isaac Costa – Um verdadeiro aventureiro, não só pela determinação desde cedo em participar nesta Ronda, mas por ter seguido um grupo de desconhecidos num desafio tudo menos simpático, durante um dia inteiro. Não é para qualquer um! Fez esta Ronda certamente com o mesmo espírito com que já venceu outros desafios ainda maiores, sem pressas, com determinação e a certeza de que, passada a passada, haveria de chegar ao fim! E não pode ser de outra forma.
  • Jorge Figueiredo – O padrinho da Ronda dos Cumes Sagrados deu-me uma grande satisfação ao anunciar que iria participar nesta Ronda. O Jorge, grande desportista e aventureiro, um dos que já praticava trail running quando ainda era uma modalidade para maluquinhos, despertou em 2011 a minha curiosidade por este tipo de corrida e ajudou-me a preparar para enfrentar as minhas primeiras montanhas. Na Ronda do Marão, foi, como sempre, um exemplo de preparação: levou equipamento para ele e para outros e estava mentalmente pronto para o que desse e viesse. Se a coisa desse para o torto, seria certamente o último a bater a bota!

Um grande obrigado a todos os Rondeiros e a todos os que têm acompanhado estas aventuras e… até à Ronda de Basto!

Podem consultar o track registado nesta ronda aqui e o álbum fotográfico completo aqui e aqui.

 

Rondámos o Marão, mas nunca o venceremos (I)

Faltavam cinco dias para a Ronda e a meteorologia anunciava o pior. Um dia de chuva forte no Marão invernal só poderia obrigar-nos a adiar o desafio ou então levar-nos a arriscar uma aventura que poderia terminar mal. Os dias iam passando, a ansiedade aumentando e as previsões inseguras agravavam a indecisão: por um lado, sonhava atravessar o agreste Marão num dia frio e ventoso; por outro lado, imaginava o nosso grupo aparecendo nos noticiários da noite como mais um bando de tontos que arriscaram infantilmente uma aventura na montanha. A dois dias do evento, sondei os colegas de loucura e os poucos que responderam mantiveram a indecisão, embora sentisse que estavam determinados em pelo menos tentar! Finalmente, na véspera, a previsão menos pessimista prevaleceu: iríamos ter uma manhã de bonança; a tempestade iria abater-se sobre nós apenas durante a tarde. Decidimos então apostar forte na previsão!

À hora marcada, lá estávamos todos em Gondar, mesmo os que vieram de mais longe, como o Isaac, o primeiro a chegar, ou como o Gil, que nos trouxe a boa notícia de que no Alto de Espinho estavam uns tropicais 6 graus. Queríamos arrancar rapidamente, mas ainda faltava um companheiro, que tinha tido uma “fraqueza” súbita! Lá apareceu ele finalmente, já a madrugada se tinha despedido. Seguiram-se as bocas do costume e a sessão de fotos da partida, pelo cameraman Filipe que se levantou expressamente de madrugada, sem ninguém lhe pedir, para aturar uns aluados! E, sem mais demoras, arrancámos para o contra-relógio. Uma luta sobretudo contra o tempo que levaria a sermos fustigados pela chuva, que ameaçava cinzentona lá longe vinda do Atlântico.

Os primeiros quilómetros fizeram-se ligeiros, subindo calmamente pelo Marancinho, primeiro o Picoto, depois até à capela de São Bento e a sua estalagem. Avistávamos à nossa direita os contornos das cristas do Penedo Ruivo, que esperávamos atravessar ainda secos durante a tarde. À esquerda, o Monte Farinha coberto de névoa e as Serras de Fafe ainda iluminadas pelo sol. Quando deixámos São Bento, sabíamos que tinham terminado as facilidades. À nossa frente erguia-se a “terrível”, um longo corta-fogo retilíneo até ao Outeiro Santo. Mas, como ainda nem 10 km tínhamos feito, a terrível até foi mansinha. O Jorge não fez por menos e subiu-a toda a correr. E nós deixamo-lo saborear o primeiro prémio de montanha do dia. Lá no alto, já acima de 800m de altitude, o vento soprava feroz e obrigava-nos a ir à mochila buscar conforto.

Atiramo-nos divertidos à bela descida até Covelo do Monte, inicialmente por um corte de cascalho e depois por caminhos de cabras. Devido à falha do meu relógio, que insistia em dizer que estávamos a 4km do track, dependíamos agora todos do arquiteto desta Ronda, o António, que conhece aqueles trilhos de cor. Em Covelo, o único café da aldeia mantinha o ar desolador e poeirento, fechado há anos. Parámos então no fontanário para um breve reforço e, depois de atravessarmos o labirinto de ruelas, fomos visitar a capela de Santo António. Deixámos a aldeia por uma velha calçada, desgastada com profundos sulcos de rodados. Fomos passando por vários abrigos de rebanhos de ovelhas e cabras. Um destes abrigos era guardado por cães furiosos e, alguns de nós, já traumatizados de encontros passados, estacaram à espera de um sinal de acalmia. É então que o Urbano, intrépido domador de cães, se aproxima confiante dos bichos e lhes transmite a mensagem apaziguadora que eles queriam sentir.

Esperava-nos agora a penosa subida pela Portela dos Trigais até às minas de Fonte Figueira. Era agora a vez do André brilhar, galgando aquela encosta como se nada fosse. Ainda só tínhamos 16 km nas pernas, mas estas já doíam de tanto escalar. O Gil queixava-se de uma pequena lesão contraída nas últimas semanas, que começava a incomodá-lo. Primeira preocupação séria do dia… No final da subida, alguns achavam que a “terrível” do Outeiro Santo tinha sido mais dura do que esta. Para mim, a última é sempre a mais difícil. Faltava pouco para chegarmos ao Alto da Neve. O António e o Urbano alertavam-nos para o perigo de sairmos do trilho, pois havia buracos das minas por todo o lado. Lá cima, não havia pinta de neve, mas voltávamos a levar com o vento a toda a força e eu rendia-me novamente às luvas e ao gorro.

Íamos agora em direção à Lameira, uma bela zona húmida encaixada a 900m de altitude. Pelo caminho, avistámos as ruínas da “casa da neve”, onde no passado se mantinha de inverno e até bem tarde na primavera o gelo que era depois vendido nos vales. Seguimos por entre o arvoredo até à capela da Senhora da Moreira. O meu relógio tinha finalmente atinado e em boa hora, pois faltava pouco para os nossos sherpas António e Urbano nos deixarem. Da capela, avistava-se o vale de Ansiães e agora mais próximo o perfil do trajeto que iríamos ter de percorrer durante o resto do dia. As nuvens escuras mantinham-se ainda longe, embora o Alto do Marão e a nossa próxima dificuldade – o Portal da Freita – já estivessem cobertos de névoa.

Descemos até ao IP4 e à Pousada de São Gonçalo, onde parámos para um novo reforço. Ficámos à entrada do parque de estacionamento, de onde se sentia já o perfume do almoço em preparação. Já levávamos 4 horas de corrida/escalada. Com tantas paragens para fotografias e reagrupamentos, até estávamos a avançar bem! O grupo estava forte e sentia-se o ânimo enquanto se mastigavam umas sandes de presunto. Mas quando retomámos a corrida em direção à fábrica das Águas do Marão, as pernas estavam pesadas. Demasiado pesadas para tão pouca distância. Efeitos do frio e de paragens frequentes! Felizmente, estávamos quase a concluir a longa série de subidas e ainda nem uma pinga tinha caído do céu. Mas faltava a mãe de todas as escaladas desta Ronda: a ascensão ao Portal da Freita.

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Reforço na Pousada de São Gonçalo

Depois de corrermos por cima da entrada do futuro túnel do Marão, tínhamos agora mais um interminável corta-fogo. Ninguém queria agora fugir para o prémio da montanha. Subíamos a par, enganando as dores com a conversa. Aquilo que lá em baixo parecia uma monstruosidade de subida até nem custou muito. Sem darmos por ela, chegámos à velha e desgastada estrada de asfalto de acesso ao Alto do Marão. Passámos por um grupo de ciclistas que deviam estar a sentir menos as pernas do que nós e continuámos a trote até chegar ao caminho de acesso à Freita. O Jorge voltou a destacar-se. A camisola azul parecia definitivamente dele. Mas esta subida, apesar de curta, era mais exposta ao vento e ao frio, e foi a mais custosa de todas. Quase a chegar ao topo, adensava-se o nevoeiro. Estávamos a mais de 1300 metros de altitude. O frio era insuportável e não podíamos ficar parados muito tempo. Surgiu então por entre a névoa o Frederico e o pequeno Simão, como salvadores, munidos de um providencial saco de batatas fritas e de um garrafão de água. Seria a última oportunidade de reforçar as nossas provisões e esquecemos por uns minutos o tempo glacial para nos deliciarmos com aquelas batatinhas! Mas deixámos ficar algumas para o Simão, coitado, que nos via a devorá-las sem se queixar! Já passava há muito das 12 horas e era chegado o momento de nos despedirmos do António e do Urbano que, depois do empeno dos Abutres da semana anterior, ainda fizeram uma perninha na Ronda. Subimos a custo até ao cume da Freita e conseguimos manter-nos por uns momentos agarrados ao chão e sorridentes para uma foto de grupo junto às ruínas da capela.

Estava metade do percurso feito. O grupo reduzia-se agora a seis elementos. O rigor da montanha estava no auge, mas a chuva continuava ausente. A sorte estava connosco. Se conseguíssemos subir à Senhora da Serra e iniciar a descida sem precipitação, estaríamos próximos de alcançar o objetivo.

[veja a segunda parte do relato aqui]

A conquista do Monte Farinha

Há muito que este reconhecimento era aguardado com expectativa, não só por mim, mas por todos aqueles que costumam participar nestes treinos-aventura. Infelizmente, provavelmente por anúncio demasiado em cima da data, só 3 pessoas puderam estar presentes neste desafio que se antecipava duro (35km com 1400m D+), mas com elevada probabilidade de ficar para sempre nas nossas memórias.

Para mim, além do reconhecimento da ligação ao alto da Senhora da Graça e ao vértice geodésico de Crespo, seria um ótimo treino e também uma boa oportunidade para testar equipamento antes da Ronda do Marão – coisas que raramente ou nunca uso, como luvas, gorro, ou buff, mas que serão fundamentais para aguentar os rigores da montanha daqui a três semanas.

À medida que nos aproximávamos de Mondim de Basto, o termómetro aproximava-se dos zero graus, mas a previsão prometia um belo dia de sol. O centro da vila não tinha qualquer movimento àquela hora. Com o dente a bater de frio, não nos demorámos nos aquecimentos. Relógios a postos, percurso mais ou menos localizado, e lá seguimos pelo parque florestal acima. Pouco depois, apercebemo-nos de que o PR1 não era por ali, mas começámos bem, com beleza natural logo a abrir. De novo na rota, fomo-nos aproximando da aldeia de Campos, no sopé do Monte Farinha, onde principia a calçada que os peregrinos seguem há séculos. E que bela calçada! Tão bem preservada e de traçado muito agradável, ziguezagueando com declive acessível, com bela vegetação e com as paisagens do vale do Tâmega a revelarem-se gradualmente. Primeira surpresa do dia! É um percurso definitivamente recomendável a todos os públicos. Nem demos pelos mais de 500m que subimos até ao santuário da Senhora da Graça! Lá cima, o frio fez-se sentir novamente, e lá tive de voltar a colocar tudo aquilo que fui despindo ao longo da ascenção.

Depois da pausa para registar os horizontes a 360º, com destaque para o belo manto de nevoeiro que se avistava lá longe sobre Amarante, iríamos agora entrar pelo maciço dentro, para conhecer verdadeiramente esta montanha. Abandonámos o santuário escoltados por uns cãezinhos agitados e voltámos a outra calçada, desta vez a descer, e na vertente norte. Quem diz norte, diz sombra; quem diz sombra num dia tão frio, diz gelo; e quem diz calçada com gelo, diz… grande malho! Mal tínhamos percorrido as primeiras dezenas de metros da calçada e já o Gil aterrava no granito. Ainda não tinha acabado de rebolar e levava com o Mauro em cima! Olhei para trás e não vi o Gil em bom estado. Com dores fortes no braço, ficámos com receio de ter de terminar a aventura por ali. Lá fomos continuando calçada abaixo, desta vez a medo, muito medo, sempre que víamos o brilho do gelo. A singular Pedra Alta, que a natureza ou o sobrenatural assim quiseram deixar, era como que um aviso para os aventureiros mais incautos.

As dores do Gil foram-se dissipando e o sol espreitava de vez em quando por trás da montanha, animando-nos e aquecendo-nos. Hora de voltar a guardar na mochila a roupa em excesso! Com o Alto dos Palhaços e o santuário já bem para trás, a montanha transformava-se. Deixava de ser tão escarpada e dava lugar a belos prados. A paisagem fazia lembrar outras paragens. Alguns garranos pastavam tranquilos, sem nos darem grande atenção. Pouco se mexiam à nossa aproximação. Percebemos que o dono lhes tinha prendido as patas direitas uma à outra, com uma corrente. Infelizmente, uma técnica bem humana. Ah, animais!

Quando deixámos os prados e enquanto descíamos ligeiros um largo estradão, opera-se nova transformação na montanha: desta vez surgiam as colinas bem típicas das serranias de Fafe e Basto. Entre as colinas, alguns vales bem cavados, cada um com o seu ribeirinho a sulcá-lo. Descemos um desses precipícios por um trilho vertiginoso. Já não havia calçada e a confiança estava em cima. Momento de alegre brincadeira até enfrentarmos a encosta do outro lado, desta vez a subir mais suavemente. Pouco depois, encontrávamos o segundo objetivo geodésico da manhã: o alto de Crespo. Sem possibilidade de seguir caminho a partir do talefe, retrocedemos umas centenas de metros e retomámos o trilho para deixarmos a vertente norte da montanha e passarmos para a face voltada para Ribeira de Pena.

Talvez por estarmos agora a levar com os raios de sol de frente, mas também devido ao relevo muito mais suave desta vertente, a paisagem muda novamente. A vegetação é mais dispersa, o solo é mais árido, mas a beleza continua lá. Com a estrada asfaltada não muito longe, optámos por evitá-la e preferimos seguir pelos caminhos de cabras entre a carqueja e o tojo. Uma longa subida em que nos sentimos a trilhar outro mundo. Abrandamos o ritmo e saboreamos. A alma enche-se. Grandes sortudos que somos por vivermos num território como este!

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A longa subida pelas Covas da Raposa

À nossa frente, prefila-se o pesado maciço de Bentozelos – a entrada para o Alvão. Inesperadamente, surge à nossa esquerda um enorme tanque de apoio ao combate aos incêndios. Se estivessem mais 20 graus de temperatura, talvez lá mergulhássemos! Com o Alvão ao fundo, é obrigatório tirar umas fotos para impressionar a audiência com esta piscina do outro mundo! De regresso ao trilho, passamos por uma manada de vacas que raramente devem ver humanos, tal é o medo com que fogem de nós, a várias centenas de metros de distância.

É então que se inicia a descida para mais uma vertente da montanha, desta vez a voltada a sul. E, adivinhem… mais uma transformação! Surge-nos agora muito mais verdura, novamente as escarpas de granito, campos em socalcos encaixados na encosta… Pasmamos com tanta diversidade. Tantas referências a outras montanhas e outros lugares que nos ocorrem em tão pouco espaço! O traçado leva-nos então até uma cancela. Quando desenhei o percurso, sabia que iria provavelmente encontrar um obstáculo deste tipo, mas queria mesmo atravessar aquela propriedade, pois antevia algo de interessante. Uns metros depois, dois póneis e um burrito pastam calmamente as ervas do caminho. Ao contrário das vacas de lá de cima, estão habituados ao contacto com humanos e toleram-nos. Mais um momento Heidi!

Saímos da propriedade antes que viesse o dono com a sua caçadeira e voltámos ao caminho. Esperava-nos agora um estradão até ao alto dos Palhaços, mas decidimos descer em direção a Bezerral, por mais uma calçada centenária. Adrenalina de novo no máximo, apesar dos músculos já não estarem frescos. Depois de seguirmos em direção à extremidade poente da montanha durante cerca de um quilómetro, só nos faltava agora nova subida até perto do santuário. Era quase outra ascensão à Senhora da Graça. Trepámos por mais uma calçada, que deve servir os peregrinos da povação de Vilar de Ferreiros, e, a custo, reconquistámos novamente o cume. Missão cumprida! Que grande fartote de trail running!

Descíamos agora pelos quilómetros finais do PR1, bem menos interessante do que a primeira parte, com muito estradão e asfalto. A entrada em Mondim fez-se tarde, muito além do estimado, mas ninguém se sentiu incomodado com isso. Estas experiências são únicas e, mesmo que cá voltemos em breve, já não será como da primeira vez, neste dia especial de inverno.

O Monte Farinha é muito mais do que a Senhora da Graça. É muito mais do que o cone gigantesco com uma estrada a serpentear pela encosta que avistamos de poente. O Monte Farinha e o seu prolongamento a nordeste têm muitas faces, todas diferentes, todas com a sua impressionante beleza. Diversidade de vegetação, diversidade geológica, diversidade de paisagens e vistas, calçadas centenárias e muito bem preservadas que irrompem de todos os lados… O Monte Farinha contém um património rico e surpreendente que merece explorações demoradas. Da próxima vez que subirem à Senhora da Graça, não se fiquem pelo santuário. Há um mundo maravilhoso lá atrás para descobrir!

Quem quiser atrever-se a viver esta montanha por 35km e 1400m de desnível positivo, pode encontrar o percurso aqui. O álbum completo de fotografias pode ser visto aqui.