Rondámos o Marão, mas nunca o venceremos (II)

[veja a primeira parte deste relato aqui]

Depois de passarmos a manhã toda a trepar por vários flancos do Marão, estávamos quase a atingir a cota mais alta. Apesar da nebulosidade, ainda tínhamos conseguido, durante boa parte do tempo, desfrutar de algumas vistas para as belas paisagens maronesas. No entanto, agora que subíamos ao ponto ideal para panorâmicas da Serra, o denso nevoeiro envolvia-nos e apenas conseguíamos avistar até algumas dezenas de metros. Seguíamos eu, André, Gil, Isaac, e Jorge, acompanhados pelo Frederico, que tinha astuciosamente evitado o empeno da manhã para se juntar a nós quando já não tínhamos grandes forças para correrias. Mas essa vantagem também jogou a nosso favor, pois ele ajudou a puxar pelo comboio monte fora. Ele e a locomotiva André, que continuava a correr ao mesmo ritmo dos quilómetros iniciais.

Seguimos pelo estradão de acesso ao Alto do Marão. À chegada, tivemos dificuldade em localizar imediatamente o vértice geodésico e a capela da Senhora da Serra, no meio da bruma cerrada e de tantas construções. Ficámos com a impressão que tudo o que é empresa de comunicações em Portugal possui um naco de território naquele alto. Antes de navegar pelo labirinto de betão, decidimos parar para um breve almoço, abrigados como podíamos do vento. Falávamos pouco. Não chovia, mas pressentíamos que não devia faltar muito para começar a cair. Custou-nos levantar e enfrentar novamente a invernia, mas lá nos animamos para fazer mais uma foto de grupo junto ao vértice geodésico. Depois, escapulimo-nos monte abaixo, passando pela capela, novamente em direção ao estradão.

Sem os guias da manhã e ainda desconfiado da precisão do relógio, hesitei em seguir o trajeto assinalado. Por momentos, confundi o maciço dos Seixinhos com as colinas do Penedo Ruivo. Um rápido telefonema ao António resolvou o problema. O Jorge confirmava no seu telemóvel que estávamos no caminho certo. Dissipadas as dúvidas, atirámo-nos cascalho abaixo até ao caminho de acesso ao Penedo Ruivo. Os quilómetros seguintes foram calmos, correndo a um ritmo moderado, sempre puxados pelo André e Frederico. Serpenteávamos pelas cristas da Serra, perdendo gradualmente altitude. A paisagem mudava de feições, mais suave, mais árida, e mais decorada por penedos de diversos tamanhos. Ali começa uma outra secção do Marão, mais velha, prima direita da Aboboreira.

Saímos um pouco do estradão para visitar o vértice do Penedo Ruivo e logo regressámos à cadência anterior, agora descendo por entre as turbinas eólicas em direção à Chorida. O Gil continuava a lutar contra a sua lesão, decidido em levá-la até ao fim, custasse o que custasse. Os restantes corriam ao ritmo que mais lhes convinha. Por vezes, sentiam-se uns pingos de água. Seria imaginação? A verdade é que as nuvens estavam cada vez mais com aquele aspeto denso que antecede uma descarga. Quando cantávamos de alegria a ultrapassagem da maratona, víamos à nossa esquerda o vértice da Chorida. Nem valia a pena lá subir, tal seria a escalada perigosa que teríamos de fazer. Mais valia mantermo-nos em linha e continuar a descer o mais rápido possível.

Assim chegámos rapidamente à cota dos 900m, no ponto em que o percurso vira para norte. Psicologicamente, esta viragem marca um momento importante, pois estamos com a sensação de que dificilmente algo nos parará. No entanto, é neste momento que a chuva começa a cair. Primeiro sentimos umas gotas grossas dispersas e rapidamente levamos com uma torrente gelada, puxada a vento. Creio que quase todos fomos surpreendidos pelos estragos que esta chuva poderia ainda causar-nos. Com o corpo a produzir menos calor e os músculos a fraquejar, quaisquer paragens agravavam o nosso estado. A descida ao vale da Ribeira do Jogal, que separa as aldeias de Carneiro e Murgido, permitiu-nos distrair um pouco da monotonia dos estradões das cristas, mas por pouco tempo. Um quilómetro acima, estávamos novamente na crista, agora em direção à capela de Nossa Senhora de Corvachã e ao vértice do Mirador.

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No vale da Ribeira do Jogal

À chegada à capela, a chuva antigia maior intensidade e em boa hora pudemos abrigar-nos num cantinho de um edifício de apoio. Oportunidade para atestar bidões numa pequena fonte e para despachar os últimos sólidos que ainda tínhamos na mochila. À vez, íamos rodando pelo cantinho, tentando distribuir equitativamente a exposição à chuva, pois não cabíamos todos no espaço seco. Mas a sensação de frio aumentava a cada minuto que ficávamos parados. Ninguém estava com vontade para fotos e arrancámos logo que recompusemos as mochilas. O vértice do Mirador, a poucos metros da capela, ficou a ver-nos passar, sem lhe termos dado o merecido destaque. Antes de iniciarmos a descida para Bustelo, surpreendemos um casal entretido a embaciar os vidros do carro. Não pudemos fazer nada para evitar que nos vissem. Estávamos mais embaraçados do que eles e obviamente que não quisemos interromper qualquer momento de euforia e tentámos passar pelo carro o mais despercebidos possível. Oxalá tenham continuado felizes a cavalgada. A nossa ia penosa pelo monte abaixo.

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Vértice do Mirador

À chegada a Bustelo, os nossos radares procuravam qualquer sinal do café da aldeia. A nossa necessidade primária era agora uma bebida quente. Não ligámos à rudeza do trato e do serviço, sem quaisquer considerações de higiene. Para desapontamento meu, a cevada foi servida numa chávena de café. Soube a muito pouco. Melhor que nada, mas… Ainda tentei pedir um cheirinho de bagaço, recordando a experiência da GR43 de Fafe, mas o dono do café tardava em voltar para o balcão. Não havia tempo a perder e deixámos rapidamente o café em direção a Gondar.

Os quilómetros finais têm pouca história, embora se destaque a passagem pela bela aldeia de Ovelhinha, a merecer uma nova visita com mais e melhor tempo. A subida até ao Mosteiro de Gondar fez-se lenta mas animadamente. Tínhamos conseguido o objetivo, conscientes da sorte que nos acompanhou durante todo o percurso. Não podíamos queixar-nos de nada. O frio e a dureza do percurso faziam parte obrigatória da experiência e todos, no fundo, queríamos viver algo assim no Marão. Não atravessámos toda a Serra, ficando alguns pontos emblemáticos por visitar (Seixinhos, Fraga da Ermida, Pena Suar, …), mas ficámos com uma amostra representativa da beleza e dureza do Marão e com uma certeza: rondámos o Marão mas nunca o venceremos, pois a montanha é sempre mais forte do que nós, seja qual for a época do ano.

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De regresso ao Mosteiro de Gondar

Infelizmente, não pudemos despedir-nos dos colegas de aventura convenientemente, pois a chuva gelada e persistente obrigou-nos a recolher rapidamente aos carros. Mas fica aqui a devida homenagem individual aos meus quatro colegas finishers desta Ronda do Marão, sem esquecer a devida vénia a António «arquiteto do Marão» Mendes, Frederico Pinto e Urbano Ribeiro, por todo o apoio dado ao longo do percurso, e ainda ao Pedro Lopes que ficou todo o dia de prevenção com o seu jipe, não fosse algo correr mal. E então os novos membros do Clube de Caçadores de Cumes Sagrados são:

  • André Cunha – Neste tipo de desafios, em que as dificuldades podem atingir extremos, é fundamental os participantes serem solidários e evitarem qualquer centelha de discórdia. O André encarna muito bem esta atitude: sempre bem disposto, positivo, orientado aos objetivos, só pensava em papar quilómetros e trepar paredes e puxou pelo grupo durante grande parte do trajeto. Talvez também porque temia que o assadinho que o esperava em casa se estragasse…
  • Gil Oliveira – Já tinha no palmarés a Ronda de Lapinha-Montelongo, feita no dia mais quente de 2015. Foi o meu colega de provação nesse dia infernal e, com a sua persistência e companheirismo, ajudou-me a vencer um desafio que por vários momentos julguei intransponível. Nesta Ronda do Marão, o seu carácter persistente voltou a evidenciar-se, arrastando por dezenas de quilómetros uma incómoda lesão, sem reduzir o ritmo de corrida. Um grande guerreiro!
  • Isaac Costa – Um verdadeiro aventureiro, não só pela determinação desde cedo em participar nesta Ronda, mas por ter seguido um grupo de desconhecidos num desafio tudo menos simpático, durante um dia inteiro. Não é para qualquer um! Fez esta Ronda certamente com o mesmo espírito com que já venceu outros desafios ainda maiores, sem pressas, com determinação e a certeza de que, passada a passada, haveria de chegar ao fim! E não pode ser de outra forma.
  • Jorge Figueiredo – O padrinho da Ronda dos Cumes Sagrados deu-me uma grande satisfação ao anunciar que iria participar nesta Ronda. O Jorge, grande desportista e aventureiro, um dos que já praticava trail running quando ainda era uma modalidade para maluquinhos, despertou em 2011 a minha curiosidade por este tipo de corrida e ajudou-me a preparar para enfrentar as minhas primeiras montanhas. Na Ronda do Marão, foi, como sempre, um exemplo de preparação: levou equipamento para ele e para outros e estava mentalmente pronto para o que desse e viesse. Se a coisa desse para o torto, seria certamente o último a bater a bota!

Um grande obrigado a todos os Rondeiros e a todos os que têm acompanhado estas aventuras e… até à Ronda de Basto!

Podem consultar o track registado nesta ronda aqui e o álbum fotográfico completo aqui e aqui.

 

Rondámos o Marão, mas nunca o venceremos (I)

Faltavam cinco dias para a Ronda e a meteorologia anunciava o pior. Um dia de chuva forte no Marão invernal só poderia obrigar-nos a adiar o desafio ou então levar-nos a arriscar uma aventura que poderia terminar mal. Os dias iam passando, a ansiedade aumentando e as previsões inseguras agravavam a indecisão: por um lado, sonhava atravessar o agreste Marão num dia frio e ventoso; por outro lado, imaginava o nosso grupo aparecendo nos noticiários da noite como mais um bando de tontos que arriscaram infantilmente uma aventura na montanha. A dois dias do evento, sondei os colegas de loucura e os poucos que responderam mantiveram a indecisão, embora sentisse que estavam determinados em pelo menos tentar! Finalmente, na véspera, a previsão menos pessimista prevaleceu: iríamos ter uma manhã de bonança; a tempestade iria abater-se sobre nós apenas durante a tarde. Decidimos então apostar forte na previsão!

À hora marcada, lá estávamos todos em Gondar, mesmo os que vieram de mais longe, como o Isaac, o primeiro a chegar, ou como o Gil, que nos trouxe a boa notícia de que no Alto de Espinho estavam uns tropicais 6 graus. Queríamos arrancar rapidamente, mas ainda faltava um companheiro, que tinha tido uma “fraqueza” súbita! Lá apareceu ele finalmente, já a madrugada se tinha despedido. Seguiram-se as bocas do costume e a sessão de fotos da partida, pelo cameraman Filipe que se levantou expressamente de madrugada, sem ninguém lhe pedir, para aturar uns aluados! E, sem mais demoras, arrancámos para o contra-relógio. Uma luta sobretudo contra o tempo que levaria a sermos fustigados pela chuva, que ameaçava cinzentona lá longe vinda do Atlântico.

Os primeiros quilómetros fizeram-se ligeiros, subindo calmamente pelo Marancinho, primeiro o Picoto, depois até à capela de São Bento e a sua estalagem. Avistávamos à nossa direita os contornos das cristas do Penedo Ruivo, que esperávamos atravessar ainda secos durante a tarde. À esquerda, o Monte Farinha coberto de névoa e as Serras de Fafe ainda iluminadas pelo sol. Quando deixámos São Bento, sabíamos que tinham terminado as facilidades. À nossa frente erguia-se a “terrível”, um longo corta-fogo retilíneo até ao Outeiro Santo. Mas, como ainda nem 10 km tínhamos feito, a terrível até foi mansinha. O Jorge não fez por menos e subiu-a toda a correr. E nós deixamo-lo saborear o primeiro prémio de montanha do dia. Lá no alto, já acima de 800m de altitude, o vento soprava feroz e obrigava-nos a ir à mochila buscar conforto.

Atiramo-nos divertidos à bela descida até Covelo do Monte, inicialmente por um corte de cascalho e depois por caminhos de cabras. Devido à falha do meu relógio, que insistia em dizer que estávamos a 4km do track, dependíamos agora todos do arquiteto desta Ronda, o António, que conhece aqueles trilhos de cor. Em Covelo, o único café da aldeia mantinha o ar desolador e poeirento, fechado há anos. Parámos então no fontanário para um breve reforço e, depois de atravessarmos o labirinto de ruelas, fomos visitar a capela de Santo António. Deixámos a aldeia por uma velha calçada, desgastada com profundos sulcos de rodados. Fomos passando por vários abrigos de rebanhos de ovelhas e cabras. Um destes abrigos era guardado por cães furiosos e, alguns de nós, já traumatizados de encontros passados, estacaram à espera de um sinal de acalmia. É então que o Urbano, intrépido domador de cães, se aproxima confiante dos bichos e lhes transmite a mensagem apaziguadora que eles queriam sentir.

Esperava-nos agora a penosa subida pela Portela dos Trigais até às minas de Fonte Figueira. Era agora a vez do André brilhar, galgando aquela encosta como se nada fosse. Ainda só tínhamos 16 km nas pernas, mas estas já doíam de tanto escalar. O Gil queixava-se de uma pequena lesão contraída nas últimas semanas, que começava a incomodá-lo. Primeira preocupação séria do dia… No final da subida, alguns achavam que a “terrível” do Outeiro Santo tinha sido mais dura do que esta. Para mim, a última é sempre a mais difícil. Faltava pouco para chegarmos ao Alto da Neve. O António e o Urbano alertavam-nos para o perigo de sairmos do trilho, pois havia buracos das minas por todo o lado. Lá cima, não havia pinta de neve, mas voltávamos a levar com o vento a toda a força e eu rendia-me novamente às luvas e ao gorro.

Íamos agora em direção à Lameira, uma bela zona húmida encaixada a 900m de altitude. Pelo caminho, avistámos as ruínas da “casa da neve”, onde no passado se mantinha de inverno e até bem tarde na primavera o gelo que era depois vendido nos vales. Seguimos por entre o arvoredo até à capela da Senhora da Moreira. O meu relógio tinha finalmente atinado e em boa hora, pois faltava pouco para os nossos sherpas António e Urbano nos deixarem. Da capela, avistava-se o vale de Ansiães e agora mais próximo o perfil do trajeto que iríamos ter de percorrer durante o resto do dia. As nuvens escuras mantinham-se ainda longe, embora o Alto do Marão e a nossa próxima dificuldade – o Portal da Freita – já estivessem cobertos de névoa.

Descemos até ao IP4 e à Pousada de São Gonçalo, onde parámos para um novo reforço. Ficámos à entrada do parque de estacionamento, de onde se sentia já o perfume do almoço em preparação. Já levávamos 4 horas de corrida/escalada. Com tantas paragens para fotografias e reagrupamentos, até estávamos a avançar bem! O grupo estava forte e sentia-se o ânimo enquanto se mastigavam umas sandes de presunto. Mas quando retomámos a corrida em direção à fábrica das Águas do Marão, as pernas estavam pesadas. Demasiado pesadas para tão pouca distância. Efeitos do frio e de paragens frequentes! Felizmente, estávamos quase a concluir a longa série de subidas e ainda nem uma pinga tinha caído do céu. Mas faltava a mãe de todas as escaladas desta Ronda: a ascensão ao Portal da Freita.

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Reforço na Pousada de São Gonçalo

Depois de corrermos por cima da entrada do futuro túnel do Marão, tínhamos agora mais um interminável corta-fogo. Ninguém queria agora fugir para o prémio da montanha. Subíamos a par, enganando as dores com a conversa. Aquilo que lá em baixo parecia uma monstruosidade de subida até nem custou muito. Sem darmos por ela, chegámos à velha e desgastada estrada de asfalto de acesso ao Alto do Marão. Passámos por um grupo de ciclistas que deviam estar a sentir menos as pernas do que nós e continuámos a trote até chegar ao caminho de acesso à Freita. O Jorge voltou a destacar-se. A camisola azul parecia definitivamente dele. Mas esta subida, apesar de curta, era mais exposta ao vento e ao frio, e foi a mais custosa de todas. Quase a chegar ao topo, adensava-se o nevoeiro. Estávamos a mais de 1300 metros de altitude. O frio era insuportável e não podíamos ficar parados muito tempo. Surgiu então por entre a névoa o Frederico e o pequeno Simão, como salvadores, munidos de um providencial saco de batatas fritas e de um garrafão de água. Seria a última oportunidade de reforçar as nossas provisões e esquecemos por uns minutos o tempo glacial para nos deliciarmos com aquelas batatinhas! Mas deixámos ficar algumas para o Simão, coitado, que nos via a devorá-las sem se queixar! Já passava há muito das 12 horas e era chegado o momento de nos despedirmos do António e do Urbano que, depois do empeno dos Abutres da semana anterior, ainda fizeram uma perninha na Ronda. Subimos a custo até ao cume da Freita e conseguimos manter-nos por uns momentos agarrados ao chão e sorridentes para uma foto de grupo junto às ruínas da capela.

Estava metade do percurso feito. O grupo reduzia-se agora a seis elementos. O rigor da montanha estava no auge, mas a chuva continuava ausente. A sorte estava connosco. Se conseguíssemos subir à Senhora da Serra e iniciar a descida sem precipitação, estaríamos próximos de alcançar o objetivo.

[veja a segunda parte do relato aqui]

A conquista do Monte Farinha

Há muito que este reconhecimento era aguardado com expectativa, não só por mim, mas por todos aqueles que costumam participar nestes treinos-aventura. Infelizmente, provavelmente por anúncio demasiado em cima da data, só 3 pessoas puderam estar presentes neste desafio que se antecipava duro (35km com 1400m D+), mas com elevada probabilidade de ficar para sempre nas nossas memórias.

Para mim, além do reconhecimento da ligação ao alto da Senhora da Graça e ao vértice geodésico de Crespo, seria um ótimo treino e também uma boa oportunidade para testar equipamento antes da Ronda do Marão – coisas que raramente ou nunca uso, como luvas, gorro, ou buff, mas que serão fundamentais para aguentar os rigores da montanha daqui a três semanas.

À medida que nos aproximávamos de Mondim de Basto, o termómetro aproximava-se dos zero graus, mas a previsão prometia um belo dia de sol. O centro da vila não tinha qualquer movimento àquela hora. Com o dente a bater de frio, não nos demorámos nos aquecimentos. Relógios a postos, percurso mais ou menos localizado, e lá seguimos pelo parque florestal acima. Pouco depois, apercebemo-nos de que o PR1 não era por ali, mas começámos bem, com beleza natural logo a abrir. De novo na rota, fomo-nos aproximando da aldeia de Campos, no sopé do Monte Farinha, onde principia a calçada que os peregrinos seguem há séculos. E que bela calçada! Tão bem preservada e de traçado muito agradável, ziguezagueando com declive acessível, com bela vegetação e com as paisagens do vale do Tâmega a revelarem-se gradualmente. Primeira surpresa do dia! É um percurso definitivamente recomendável a todos os públicos. Nem demos pelos mais de 500m que subimos até ao santuário da Senhora da Graça! Lá cima, o frio fez-se sentir novamente, e lá tive de voltar a colocar tudo aquilo que fui despindo ao longo da ascenção.

Depois da pausa para registar os horizontes a 360º, com destaque para o belo manto de nevoeiro que se avistava lá longe sobre Amarante, iríamos agora entrar pelo maciço dentro, para conhecer verdadeiramente esta montanha. Abandonámos o santuário escoltados por uns cãezinhos agitados e voltámos a outra calçada, desta vez a descer, e na vertente norte. Quem diz norte, diz sombra; quem diz sombra num dia tão frio, diz gelo; e quem diz calçada com gelo, diz… grande malho! Mal tínhamos percorrido as primeiras dezenas de metros da calçada e já o Gil aterrava no granito. Ainda não tinha acabado de rebolar e levava com o Mauro em cima! Olhei para trás e não vi o Gil em bom estado. Com dores fortes no braço, ficámos com receio de ter de terminar a aventura por ali. Lá fomos continuando calçada abaixo, desta vez a medo, muito medo, sempre que víamos o brilho do gelo. A singular Pedra Alta, que a natureza ou o sobrenatural assim quiseram deixar, era como que um aviso para os aventureiros mais incautos.

As dores do Gil foram-se dissipando e o sol espreitava de vez em quando por trás da montanha, animando-nos e aquecendo-nos. Hora de voltar a guardar na mochila a roupa em excesso! Com o Alto dos Palhaços e o santuário já bem para trás, a montanha transformava-se. Deixava de ser tão escarpada e dava lugar a belos prados. A paisagem fazia lembrar outras paragens. Alguns garranos pastavam tranquilos, sem nos darem grande atenção. Pouco se mexiam à nossa aproximação. Percebemos que o dono lhes tinha prendido as patas direitas uma à outra, com uma corrente. Infelizmente, uma técnica bem humana. Ah, animais!

Quando deixámos os prados e enquanto descíamos ligeiros um largo estradão, opera-se nova transformação na montanha: desta vez surgiam as colinas bem típicas das serranias de Fafe e Basto. Entre as colinas, alguns vales bem cavados, cada um com o seu ribeirinho a sulcá-lo. Descemos um desses precipícios por um trilho vertiginoso. Já não havia calçada e a confiança estava em cima. Momento de alegre brincadeira até enfrentarmos a encosta do outro lado, desta vez a subir mais suavemente. Pouco depois, encontrávamos o segundo objetivo geodésico da manhã: o alto de Crespo. Sem possibilidade de seguir caminho a partir do talefe, retrocedemos umas centenas de metros e retomámos o trilho para deixarmos a vertente norte da montanha e passarmos para a face voltada para Ribeira de Pena.

Talvez por estarmos agora a levar com os raios de sol de frente, mas também devido ao relevo muito mais suave desta vertente, a paisagem muda novamente. A vegetação é mais dispersa, o solo é mais árido, mas a beleza continua lá. Com a estrada asfaltada não muito longe, optámos por evitá-la e preferimos seguir pelos caminhos de cabras entre a carqueja e o tojo. Uma longa subida em que nos sentimos a trilhar outro mundo. Abrandamos o ritmo e saboreamos. A alma enche-se. Grandes sortudos que somos por vivermos num território como este!

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A longa subida pelas Covas da Raposa

À nossa frente, prefila-se o pesado maciço de Bentozelos – a entrada para o Alvão. Inesperadamente, surge à nossa esquerda um enorme tanque de apoio ao combate aos incêndios. Se estivessem mais 20 graus de temperatura, talvez lá mergulhássemos! Com o Alvão ao fundo, é obrigatório tirar umas fotos para impressionar a audiência com esta piscina do outro mundo! De regresso ao trilho, passamos por uma manada de vacas que raramente devem ver humanos, tal é o medo com que fogem de nós, a várias centenas de metros de distância.

É então que se inicia a descida para mais uma vertente da montanha, desta vez a voltada a sul. E, adivinhem… mais uma transformação! Surge-nos agora muito mais verdura, novamente as escarpas de granito, campos em socalcos encaixados na encosta… Pasmamos com tanta diversidade. Tantas referências a outras montanhas e outros lugares que nos ocorrem em tão pouco espaço! O traçado leva-nos então até uma cancela. Quando desenhei o percurso, sabia que iria provavelmente encontrar um obstáculo deste tipo, mas queria mesmo atravessar aquela propriedade, pois antevia algo de interessante. Uns metros depois, dois póneis e um burrito pastam calmamente as ervas do caminho. Ao contrário das vacas de lá de cima, estão habituados ao contacto com humanos e toleram-nos. Mais um momento Heidi!

Saímos da propriedade antes que viesse o dono com a sua caçadeira e voltámos ao caminho. Esperava-nos agora um estradão até ao alto dos Palhaços, mas decidimos descer em direção a Bezerral, por mais uma calçada centenária. Adrenalina de novo no máximo, apesar dos músculos já não estarem frescos. Depois de seguirmos em direção à extremidade poente da montanha durante cerca de um quilómetro, só nos faltava agora nova subida até perto do santuário. Era quase outra ascensão à Senhora da Graça. Trepámos por mais uma calçada, que deve servir os peregrinos da povação de Vilar de Ferreiros, e, a custo, reconquistámos novamente o cume. Missão cumprida! Que grande fartote de trail running!

Descíamos agora pelos quilómetros finais do PR1, bem menos interessante do que a primeira parte, com muito estradão e asfalto. A entrada em Mondim fez-se tarde, muito além do estimado, mas ninguém se sentiu incomodado com isso. Estas experiências são únicas e, mesmo que cá voltemos em breve, já não será como da primeira vez, neste dia especial de inverno.

O Monte Farinha é muito mais do que a Senhora da Graça. É muito mais do que o cone gigantesco com uma estrada a serpentear pela encosta que avistamos de poente. O Monte Farinha e o seu prolongamento a nordeste têm muitas faces, todas diferentes, todas com a sua impressionante beleza. Diversidade de vegetação, diversidade geológica, diversidade de paisagens e vistas, calçadas centenárias e muito bem preservadas que irrompem de todos os lados… O Monte Farinha contém um património rico e surpreendente que merece explorações demoradas. Da próxima vez que subirem à Senhora da Graça, não se fiquem pelo santuário. Há um mundo maravilhoso lá atrás para descobrir!

Quem quiser atrever-se a viver esta montanha por 35km e 1400m de desnível positivo, pode encontrar o percurso aqui. O álbum completo de fotografias pode ser visto aqui.

Roteiro da Ronda do Marão

A Ronda do Marão, agendada para o dia 6 de fevereiro (ver evento Facebook), resultou de um percurso idealizado por António Daniel Mendes, da A.D. Amarante Trail Running. Quando surgiu a iniciativa da Ronda dos Cumes Sagrados, o António anteviu um percurso que encaixava perfeitamente nos critérios da Ronda: longa distância, muitos vértices geodésicos e muitos locais sagrados ao longo dos cumes que pontuam o percurso. A proposta foi feita ainda no verão, mas ficou a marinar até ao inverno. Agora que o frio aperta no Marão, está na hora de pôr a rota e os rondeiros à prova!

Escusado será alertar para os perigos da montanha, sobretudo em pleno inverno. Uma boa preparação mental, levar para o desafio víveres suficientes e equipamento adequado às condições climatéricas e do terreno é fundamental para esta aventura ficar positivamente gravada nas nossas memórias!

Partida/Chegada – Mosteiro de Gondar

Igreja do Mosteiro de Gondar

Mosteiro de Gondar (foto de João Sardoeira)

Para aumentar as probabilidades de concluir a Ronda ainda de dia, a partida far-se-á bem cedo, às 7h00, no Mosteiro de Gondar, a cerca de 200m de altitude, a meia encosta no vale do Rio Ovelha. Este antigo mosteiro feminino da Ordem de São Bento data do séc. XII e terá sido fundado por Mendo de Gundar, um asturiano que acompanhou o Conde Henrique de Borgonha na missão de repovoar e redinamizar o noroeste peninsular. O mosteiro está implantado na antiga rota que ligava a villa de Amarante a Trás-os-Montes. Uma pequena parte desta rota será percorrida pela Ronda, como veremos adiante.

Cume I – Alto do Picoto (km 4)

Deixaremos Gondar em direção a nordeste, atravessando a falha geológica que originou a Ribeira do Marancinho e seguindo por caminhos florestais, entre Sanche e Vila Chã do Marão, até ao primeiro cume do dia, o alto do Picoto, a 553 metros de altitude. O Picoto, como muitos outros locais com o mesmo nome, foi um local onde as povoações da Idade do Ferro ou dos tempos da romanização estabeleceram redutos fortificados, mais ou menos permanentes. Daqui, avistam-se as terras de Basto a norte e, do outro lado, as serras do Marão e da Aboboreira.

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O alto do Picoto num treino da AD Amarante Trail Running

Capela de São Bento (km 7)

Descemos do Picoto e retomamos o antigo caminho medieval em direção às entranhas do Marão. Encontramos por vezes vestígios das lajes da calçada. De um lado da crista, temos o vale do Olo, que vem da Serra do Alvão a caminho do Tâmega. Do outro, o vale do Ovelha e a milenar aldeia de Aboadela. Pouco antes de atingirmos o sétimo quilómetro, passamos pelas ruínas de uma antiga estalagem medieval, que assistiu a inúmeras estórias de viajantes que venciam repetidas vezes as dificuldades da montanha. Algumas centenas de metros depois, iniciamos a pequena subida ao alto da Capela de São Bento, a 530m de altitude. Aqui, pode-se dizer que começa verdadeiramente a Serra do Marão e podemos avistar o corta-fogo que nos levará ao alto do Outeiro Santo.

Cume II – Alto do Outeiro Santo (km 11)

Logo após São Bento, iremos abandonar o caminho medieval para encetarmos a longa subida ao Outeiro Santo, por um corta-fogo em área de mato. Somaremos cerca de 300 metros de desnível positivo em pouco mais de um quilómetro. Lá em cima, estaremos a 860m de altitude e atingiremos o extremo norte da rota, com uma panorâmica ímpar para a Serra do Alvão e para o vale da nascente do Ovelha. A descida para Covelo do Monte, lá ao fundo do vale, será ainda mais abrupta e divertida.

Covelo do Monte (km 12)

Esta será a primeira aldeia de montanha que encontraremos ao longo do percurso. Predominam as velhas construções de xisto e granito, algumas com telhados de lousa. A vida pastoril e agrícola ainda é uma realidade bem presente em Covelo. Há aqui um café, mas está quase sempre fechado, pelo que é melhor não contar com esta hipótese de abastecimento. Certo é encontrar aqui vários pontos de água para reforçar as reservas de líquidos.

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Covelo do Monte, com o alto do Outeiro Santo por trás

Cume III – Alto da Neve (km 17)

A saída de Covelo irá fazer-se em terreno quase plano, ao longo do vale, à sombra de florestas autóctones ou de pinhais. Por volta do km 14, inicia-se a longa subida (cerca de 3 km) até ao vértice geodésico da Neve. O trilho ladeia a Portela dos Trigais até à Costa do Pedrado. Aqui encontraremos as minas desativadas de Fonte da Figueira, de onde se explorou estanho e volfrâmio até à década de 70 do século passado. Das minas ao alto da Neve é mais uma descidinha a subir até aos 948m.

Depois do alto da Neve e durante cerca de 10 km, teremos um sobe e desce constante sem grandes declives, mas com um desnível acumulado de 1000m. Portanto, cuidado com as ilusões do gráfico!

Cume IV – Senhora da Moreira (km 20)

A curta passagem até ao alto da Senhora da Moreira, já no território de Ansiães, incluirá a travessia do belo arvoredo do Parque de Lazer da Lameira e a vista para o vale da Ribeira de Leigido onde, do outro lado, vemos a imponente Fraga de Leigido. Segundo a lenda, foi dali que sairam as pedras para a construção do Mosteiro de São Gonçalo de Amarante. No alto da Moreira, a 972m, encontraremos a capela onde acorrem milhares de fiéis todos os anos, numa dura ascensão por um caminho medieval desde Ansiães.

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Parque de Lazer da Lameira

Cume V – Alto de Freitas (km 30)

Quando deixarmos a Moreira, seguiremos pela crista do monte, com o IP4 e o vale do Rio Marão à nossa direita, até à Pousada de São Gonçalo (km 24). Este será um dos raros locais onde poderemos aproveitar para suprir alguma necessidade de líquidos/sólidos. Após a travessia do rio Marão, iniciaremos aquela que será a subida mais dura do percurso, com cerca de 500m de desnível positivo em menos de 4 km. Lá em cima, no alto de Freitas, estaremos a 1347m de altitude. Teremos a companhia das ruínas de uma capela cujas origens estão envoltas em mistério. Avistaremos a sul a aldeia perdida de Montes e, à nossa altura, o cume maior do Marão, a Senhora da Serra.

Cume VI – Senhora da Serra (km 34)

De Freitas à Senhora da Serra, é uma curta distância, em piso fácil. No entanto, já estaremos bastante desgastados pelo esforço e pelas condições climatéricas sempre agrestes àquelas altitudes. A chegada ao cume dos cumes desta Ronda, a 1416m de altitude, será certamente um momento de celebração.

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Senhora da Serra – foto de Francisco Alba

Cume VII – Alto do Penedo Ruivo (km 39)

Quando deixarmos a Senhora da Serra, teremos um castigo para os nossos joelhos, com uma descida abrupta de 200m em cerca de 1 km. Nesta parte do percurso, entraremos no concelho de Baião (freguesia de Teixeira). Depois, espera-nos uma subida gradual ao alto do Penedo Ruivo, situado a 1237m de altitude. Encontra-se aqui um dos muitos parques eólicos do Marão. Vento não irá faltar!

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Descida para o Penedo Ruivo – foto de José Carlos Callixto

Cume VIII – Alto da Chorida (km 43)

A partir do Penedo Ruivo, podemos dizer que será sempre a descer até Gondar. Mais ainda faltam 17km! Continuaremos no limite entre Amarante e Baião, no extremo sul da rota. À nossa esquerda, veremos o belo vale de Mafómedes e do outro lado o imponente maciço dos Seixinhos, uma das vistas mais impressionantes do Marão. Quando chegarmos ao vértice geodésico da Chorida, já só estaremos a 1088m de altitude.

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Alto da Chorida

Cume IX – Alto do Mirador (km 50)

A partir da Chorida, voltamos a entrar definitivamente no concelho de Amarante, alternando entre as freguesias de Candemil e Carneiro. Continuaremos a descida gradual ao longo das cristas da montanha. Nesta altura, já só estaremos a pensar em dar descanso ao corpo. Provavelmente, poucas forças teremos para visitar a Capela de Nossa Senhora de Corvachã, a poucos metros do nosso último cume, o alto do Mirador, a 755m de altitude.

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Capela de Nossa Senhora de Corvachã – foto de Rui Miguel Almeida

Até Gondar, teremos oportunidade de atravessar um dos raros locais civilizados desta Ronda – a aldeia de Bustelo -, onde poderemos celebrar antecipadamente a Ronda com umas boas minis! Poucos quilómetros depois, no fundo do vale, espera-nos novamente Gondar – esperemos que ainda de dia! Convém não esquecer que ainda teremos que subir algumas centenas de metros até ao mosteiro!

Ficha Técnica

  • Distância estimada: 60 km
  • Desnível positivo estimado: 2400m
  • Duração estimada: 8-10 horas (depende de muitos fatores)
  • Traçado do percurso: Wikiloc
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Visão geral

altimetria

Perfil altimétrico

GR43: um ultra-passeio pelas Terras Altas de Fafe (II)

[recomenda-se a prévia leitura da primeira parte do relato]

Depois da primeira vintena de quilómetros muito entretida, com pisos, relevo e vegetação diversificados, entrávamos agora numa nova fase, com declives suaves e os típicos estradões das cristas das montanhas de Fafe, com o Maroiço no horizonte. Estávamos também em menor número e menos faladores, pensando no desgaste acumulado e no que aí vinha. O percurso por Gontim, Luílhas, Argande e São Miguel do Monte contrastou com o início da manhã. Fez-se mais rapidamente embora tenha sido menos interessante: muita terra batida, asfalto demasiado frequente, e paisagem por vezes monótona. A mente divaga… Pela arquitetura portuguesa do séc. XVIII, pelo espólio do Museu Nogueira da Silva, sobre o significado de “maroiço”, que o Gil nos recorda ser “amontoado de algo”. É realmente uma pena não subirmos ao Maroiço ali ao lado, um belo amontoado de formações graníticas.

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Um pedaço de arquitetura paisagista em Gontim

Ainda não é meio-dia e a larica torna-se cada vez mais incómoda. A GR43 foi concebida para ser feita por pedestrianistas, em várias etapas. Como tal, não é por acaso que as etapas começam e terminam em aldeias onde se pode conseguir dormida e um bom jantar. Para nós, corredores, esses pormenores logísticos não são tão relevantes, mas também precisamos de algumas paragens técnicas, para reforçar mantimentos ou simplesmente para beber uma cerveja ou um café, tão importantes quando o ânimo dá sinais de quebrar. A aldeia do Pontido, tão agradável e munida de um restaurante e de um café, é portanto o sítio ideal para o primeiro abastecimento a sério. Decidimos aguentar até lá.

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O Gil correndo pela margem da albufeira da Queimadela…

Finalmente, o trilho volta a ficar interessante, com a descida pela Rota do Maroiço (PR1) até à barragem da Queimadela. Momentos de adrenalina e brincadeira. Como crianças, saltitamos de pedra em pedra ou imitamos um bobsleigh a fazer curvas. Junto à albufeira, corremos por entre as sombras das árvores e a luz do sol no zénite. Belas sensações visuais que perdurarão nas nossas memórias.

Finalmente em frente ao café da Aldeia do Pontido, as primeiras coisas primeiro: a mais que merecida mini! Descalçamos sapatilhas, soltamo-nos das mochilas, e sacamos das sandes de presunto e dos panados para acompanhar a cerveja. Quase caio na tentação de comer uma sopa, mas as lições do passado lembram-me que encher o estômago mais do que o suficiente costuma trazer maus resultados. Mantenho o regime restrito, se é que se pode falar em restrições de presunto e cerveja na mão. Saboreamos calmamente o alimento e o som da corrente do rio Vizela. Despedimo-nos entretanto do Frederico, que também tinha de regressar a casa mais cedo. Levou trinta e três quilómetros nas pernas e certamente a pena de não poder acompanhar-nos até ao fim. Éramos agora só quatro, mas estávamos convencidos de que os restantes 18 km não iriam resistir à nossa passada.

A verdade é que mal deixámos a barragem foi sempre a subir, a subir, a subir, algumas quase a pique, em que tínhamos de nos esforçar para não cair para trás. Afinal ainda era cedo para estarmos tão convencidos. A ascensão ao alto da Toura era uma das últimas grandes dificuldades, mas poderia deixar mossa. A meio da encosta, tivemos uma nova hesitação devido a marcação deficiente da GR. Desta vez, valeu-nos o relógio que indicava nordeste. Siga!, por entre a vegetação amarelecida pela falta de água e pelo frio. No meio de uma depressão, surge-nos isolado um velho eucalipto que surpreende pela beleza incomum. Tenho um forte preconceito contra eucaliptos, mas este tolero. Parece inofensivo e fica bem na foto.

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A Toura, o seu eucalipto, e o Maroiço ao fundo

Tínhamos combinado não gastar as fichas todas no Pontido e deixar algumas para um bom café em Pedraído. À entrada em Calcões, fechámos os olhos às tentações e continuámos pela estrada. Víamos ao lado do asfalto uns bons trilhos e estranhávamos a GR não passar por lá. Opção estética não será certamente. Para nós, foi mesmo uma obrigação. Já estávamos a ficar saturados de asfalto. Pouco depois, a rota desvia para os campos e leva-nos finalmente à aldeia de Pedraído, fundindo-se com a Rota das Margens do Vizela (PR2). Duplo alívio: não voltaríamos a ver asfalto naquela tarde e o café estava muito próximo.

Perto da igreja, encontramos uma venda de portas abertas, sem ninguém a atender. Chamamos e surge-nos uma mulher de idade avançada embora de aparência enérgica. Sim, tinha mesmo café! Pede-nos para entrarmos para as traseiras da venda e penetramos na… Tasca do Senhor Abel! Uma espécie de lugar secreto de onde jorra um famoso arroz de cabidela e aquele bom vinho. Nós só queríamos café, mas anotámos o contacto, não vá a gente arrepender-se daqui a uns quilómetros e voltar desesperada para trás! O Miguel lembra-se de pedir um cheirinho… Aquele cheirinho. Vem-nos a senhora com uma curiosa garrafa de conhaque. Da torneirinha saem umas gotinhas de precioso cheirinho com o qual lavamos o fundo da chávena de café e aquecemos o estômago. Nunca uma aguardente me soube tão bem!

Deixámos a tasca e, depois de umas voltinhas pelo casario da aldeia, tomámos o trilho em direção a Lagoa. Continuamos em terreno conhecido, tanto de treinos anteriores pelo PR2, como até de provas recentes, como o Trail Serras de Fafe, cujo percurso longo passou por aqui. E, para nosso espanto e revolta, ainda se encontram no trilho as fitas das marcações, sete meses depois. Muitas caídas, semi-cobertas pela lama e folhas, consistentemente espalhadas ao longo de vários quilómetros. Não foi descuido, tão somente falta de respeito pelo ambiente e pela população local.

Com a náusea das fitas para trás, enfrentávamos agora a última grande subida. Uma interminável e muito desgastada calçada a serpentear por entre um denso carvalhal. Sentia o homem da marreta a aproximar-se. Já levávamos mais de 40 km nas pernas. O Miguel galgava as pedras com a motivação de quem estava a bater um recorde. O Gil nem parecia que tinha tido febre nos dias anteriores e puxava por nós. O André continuava a fazer aquilo como se nada fosse. E entretanto o homem da marreta já tinha trepado para as minhas costas! Tinha de me livrar do gajo! Aproveitei um troço mais plano para acelerar o passo e dei um coice impiedoso no tipo, que deve ter ficado a ganir entre os galhos de uma árvore!

Lagoa, enfim! O eldorado da GR43, com a Senhora das Neves a cumprimentar os quase-vitoriosos. Reabastecemos cantis, esticamos tendões, fletimos músculos e ‘bora lá que se faz tarde! Partilhávamos agora o trilho com o PR7, mais uma pérola de Fafe. Pequeno mas mágico, com os seus carreiros escuros, cobertos de musgo e folhas secas. A meio da descida, passamos ao lado da capela mais antiga do concelho – São João de Latrão -, por onde supostamente passavam outrora peregrinos de Santiago.

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Ruínas da capela de São João

No fundo do vale, atravessámos a ribeira de Abrunheiros – que mais abaixo muda de nome para ribeira de Várzea Cova e depois para ribeira de Petimão até desaguar no rio de Ouro. Dali até Várzea Cova, continuámos por belos trilhos de floresta, com os raios de sol cada vez mais oblíquos. Já corríamos ligeiros, com a certeza de completar a Grande Rota. As últimas centenas de metros foram feitas sem pressas. Finalmente, revemos a igreja de Várzea Cova e os nossos carros, mais de sete horas e meia e 51 km depois! Dores? Cansaço? Já esquecemos tudo! A satisfação de chegar ao fim supera sempre tudo!

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Está feito! Venham lá as minis e os rojões!

Era agora chegado o momento de hidratar com mais umas minis, provar as iguarias de rojões que o chefe Miguel partilhou, e refletir sobre a aventura. Não sendo um trajeto duro, esta GR43, pela sua extensão, deve ser encarada com a devida preparação. As expetativas devem contar com um percurso que privilegia os núcleos rurais e as vias de ligação entre estes, em detrimento dos trilhos mais selvagens da montanha. O piso é bastante acessível, apesar de muitas vezes assentar em calçadas e, no nosso entender, demasiadas vezes em asfalto. Há também algumas falhas de marcação que deveriam ser corrigidas pela entidade promotora. Mas, no cômputo geral, a GR43 é uma excelente mostra do melhor que o concelho de Fafe tem para dar aos amantes de natureza e de património rural. Deve ser apreciada ao ritmo certo, em corrida não excessivamente rápida ou, preferivelmente, em caminhada. Ah! E sempre temperada com algumas paragens pelas tascas!

GR43: um ultra-passeio pelas Terras Altas de Fafe (I)

Não é fácil convencer alguém a correr 50 km a feijões, muito menos em novembro, com frio, poucas horas de luz natural e com tantas provas a competir com os feijões. Mas, na verdade, o desafio proposto era bem mais do que um treino mais longo. Era sobretudo uma oportunidade única para conhecer grande parte da zona norte de Fafe e a sua luxuosa coleção de trilhos e paisagens multifacetados, tudo na companhia de gente preciosa, que sabe valorizar e traz grande valor a estas experiências. E também de fazer história, pois seríamos os primeiros a completar a GR43 a correr! E assim oito malucos se decidiram a levantar-se bem cedo numa madrugada gelada de outono, para viver mais uma experiência inesquecível.

Ao contrário de vários ultra-trails em que já participei, não senti qualquer ansiedade antes do desafio. É verdade que a distância já não era novidade para mim, mas sabia também que não iria sentir qualquer pressão durante a longa jornada. Iríamos correr ao ritmo que conviesse a todos e esperar as vezes que fossem necessárias para nos reagruparmos, sem pressões horárias, e isto tudo apesar da heterogeneidade do grupo – desde os rookies até aos atletas com extenso currículo.

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Pedro, Rui, André, Miguel, Frederico, Gil, Mauro e eu atrás da câmara. Não parece, mas estamos todos a tremer de frio!

Antes da hora combinada, já todos estavam a esfregar as mãos de frio à frente da igreja de Várzea Cova. Uma forte geada cobria os campos à volta. Com uma temperatura muito próxima de zero, todos estavam com vontade de arrancar o mais rapidamente possível. Depois das boas-vindas e apresentações dos aventureiros Rui e Pedro, vindos expressamente do Porto para conhecer as montanhas de Fafe, o grupo seguiu calmamente viagem em direção a Bastelo.

Ainda não tinha decorrido 1 km e surgia a primeira hesitação no percurso, devido a marcação deficiente da GR. Valeu-nos o Gil, que já tinha feito o trajeto naquela direção há poucos meses e que rapidamente reconheceu o trilho a seguir. Dali até Bastelo, seguimos a já conhecida Rota dos Espigueiros (PR5), que coincide com a GR. O sol já ia mais alto e já começávamos a libertar-nos de alguma roupa que trazíamos a mais. Deixávamos também para trás os campos, os regatos, e os agradáveis cheiros da aldeia, e entrávamos na montanha, onde são outras as fragrâncias e as vistas, já descritas em anterior aventura.

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Troço exclusivo da GR43, entre Bastelo e Aboim

Lá em cima, avistávamos o Gerês envolto num nevoeiro que mais parecia um manto de neve. Seguíamos agora pelo troço que corresponde à rota de Aboim (PR3). Nesta zona, costumam estar garranos a pastar às primeiras horas do dia, mas é agora difícil avistá-los, com a temperatura mais agreste. Invadimos calmamente a aldeia e trepamos ao morro onde se encontra o ícone da freguesia, em boa hora recuperado. Depois das fotografias obrigatórias ao moínho de vento, regressámos à GR.

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Primeiro postal da manhã, ao lado do moínho de Aboim

Num momento de distração, junto à igreja, quase que perdíamos o trilho, que até nem estava mal sinalizado. De novo no monte, seguimos um belo carreiro que nos leva a Figueiró do Monte. Sabia de antemão que encontraríamos ali uma dificuldade, que se confirmou: o desvio por um pequeno trilho que acompanha um regato está completamente coberto de fetos e tojo, sendo necessário forçar passagem por entre a vegetação. Estes momentos mais selvagens também tornam especiais estas experiências. Todos se queixam dos arranhões, mas, lá no fundo, fica sempre uma sensação de vitória.

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Roça-mato algures entre Aboim e Figueiró do Monte

Pouco depois, estávamos novamente em terreno acessível. Desembocámos numa estrada asfaltada e percorremos assim algumas centenas de metros até à aldeia-fantasma de Figueiró, onde parámos para o primeiro abastecimento, após cerca de 1h30 de corrida. O ponto de água da aldeia estava seco, mas ainda tínhamos algumas reservas nos cantis. Demoramo-nos um pouco, a alimentar uma boa conversa.

Retornámos ao caminho, enérgicos, em direção a Barbeita. Deixámos de correr para norte e estávamos agora a rumar a ocidente, junto aos limites de Vieira do Minho. Não perdemos a oportunidade de tirar umas boas fotos no caminho que ladeia uma bela torre megalítica natural. Está toda a gente bem disposta. Os colegas do Porto deliciam-se com as esplendorosas vistas para a barragem do Ermal e fazem promessas de voltar com mais amigos. É a boa nova do paraíso fafense a espalhar-se.

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A caminho de Barbeita, por um dos trilhos mais bonitos da GR

Chegados às imediações de Barbeita de Cima, enfiámo-nos frequentemente em terras ensopadas e em lamaçais. De nada serve tentar evitar o contacto desagradável, pois há água por todo o lado. Se não entrar bosta de vaca para dentro das sapatilhas, menos mau! Até Mós, iremos encontrar frequentemente este tipo de terreno, com exceção de uma descida vertiginosa e ziguezagueante por entre um belo carvalhal. Lá em baixo, junto ao lameiro, encontrámos uma expressão clara de afirmação de propriedade de alguém que ainda deve estar a disputar a passagem com a PR3/GR43. Saltamos as vedações e subimos até Mós, onde somos recebidos à entrada da aldeia por um cavalo, no meio da estrada, com ar de não saber muito bem o que estava ali a fazer.

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Monte das Lameiras, com a Cabreira ao fundo

Esperava-nos agora uma das subidas mais difíceis da GR, até ao monte das Lameiras, não muito longe do ponto mais alto do concelho de Fafe – o alto de Morgair. Corremos depois ao longo da crista, com vistas ímpares para vários monumentos naturais da região. É obrigatório parar para mais umas fotos e também para recuperar fôlego. Estávamos a chegar à bifurcação onde nos iríamos separar do grupo que vinha fazer os 25 km. O Mauro, que tinha de regressar mais cedo, ia agora acompanhar o Pedro e o Rui – vieram para fazer 15 km e entusiasmaram-se para mais 10 – até Várzea Cova, pelos belos trilhos de São João da Ramalheira, enquanto o restante grupo seguia em direção a Gontim. Estávamos quase a meio da GR, com cerca de 3 horas de corrida. Ninguém se queixava de dores ou de cansaço. O sol continuava a aquecer-nos. Estava um dia perfeito para correr 50 km!

[clique aqui para ler a segunda parte]

Dicas para o Free GR43

Estás a pensar participar no Free GR43, no próximo dia 28? Então lê os parágrafos seguintes com atenção, independentemente de te atirares aos 15, 25, ou 50 km.

Estou com toda a pujança e toda a cagança para os 50 km!

Porreiro! Já somos uns quantos! Mas antes de te aventurares, certifica-te que estás preparado mental e fisicamente para um esforço de corrida muito prolongado, provavelmente superior a 8 ou 9 horas. Vai ser duro, especialmente a partir dos 30 km. Vamos subir elevações que totalizam cerca de 1600 metros. Conta também com outro tanto desnível a descer. É possível que nos percamos uma ou outra vez e que façamos mais alguns kms do que o previsto. Se nos atrasarmos muito, é possível que terminemos a GR de noite. Tens de estar preparado para tudo.

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Vê bem no que te vais meter…

Se estás preparado para tudo, então estuda as notas abaixo. O ponto de encontro é junto à igreja de Várzea Cova (41°30’30.58″N, 8° 4’10.24″W), onde há um amplo parque de estacionamento. A partida será por volta das 7h30m (evento Facebook). Seguiremos a GR 43 na direção contrária aos ponteiros do relógio. Podes encontrar o traçado do percurso aqui. Os principais pontos de referência são os seguintes:

  • Bastelo – km 3 (há um café)
  • Aboim – km 7 (há café e táxi)
  • Figueiró do Monte – km 11 (há água)
  • Barbeita – km 13 (há água)
  • Mós – km 16 (há água)
  • Gontim – km 20 (há água)
  • Luílhas – km 23 (há café e táxi)
  • São Miguel do Monte – km 28 (há café)
  • Pontido (barragem da Queimadela) – km 32 (há café)
  • Pedraído – km 39 (há café)
  • Lagoa – km 45 (há café e táxi)

Lembra-te que as únicas marcações que encontrarás ao longo do percurso são as da própria GR 43, feitas para pedestrianistas e não para corredores! Portanto, olhos bem abertos! Não haverá ninguém a ajudar-te, a não ser que corras juntamente com o grupo – opção mais sensata.

Em Várzea Cova, espera-te um banho quente e uma refeição, no Piovácora Parque Pesca. Se quiseres usufruir dos serviços do Piovácora Parque Pesca, o custo previsto andará à volta dos 15 euros – dependendo do teu apetite -, mas tens de te inscrever previamente aqui.

Recomendamos o seguinte material para transportares contigo durante o desafio:

  • mochila com reservatório de líquidos com capacidade de 1 litro
  • reserva alimentar – não há abastecimentos e não é garantido que haja comida nos cafés que encontrarás no percurso, portanto leva barras, sandes, fruta, qualquer coisa que o teu corpo costuma aceitar bem neste tipo de esforços
  • corta-vento, buff e luvas – vai estar frio e as montanhas de Fafe são muito ventosas
  • manta térmica – se te acontece alguma coisa e ficas imobilizado no meio do nada, pode salvar-te a vida
  • mini-kit de primeiros socorros – pensos e medicação para dores
  • apito – se te perdes do grupo e precisas de chamar por alguém…
  • frontal – nunca se sabe a que horas vamos chegar
  • telemóvel – não é preciso explicar
  • dinheiro – para algum imprevisto e para beber umas minis

Não posso fazer os 50 km, mas também quero divertir-me!

És bem-vindo(a)! Quantos mais alinharem à partida, melhor! A festa será maior. Tens duas opções de trajeto:

  • Acompanhar o grupo até Aboim e depois seguir pelo PR7 (a vermelho no gráfico abaixo) até encontrar novamente a GR 43, e regressar a Várzea Cova. Este trajeto deverá rondar os 15 km.
  • Acompanhar o grupo até ao Monte das Lameiras e regressar a Aboim pelo PR3 (a azul no gráfico abaixo) e depois seguir pelo PR7 até encontrar novamente a GR 43, e regressar a Várzea Cova. Este trajeto deverá rondar os 25 km.
gr43-1.png

Ligações ao PR3 (a azul) e PR7 (a vermelho)

Os PR3 e PR7 estão sinalizados, embora não seja garantido que as marcações estejam em perfeitas condições em todo o percurso. Além disso, lembra-te que é provável que, no grupo que te acompanha, ninguém conheça o PR3 ou o PR7! Portanto, recomendamos que leves no teu relógio os respetivos percursos, que poderás descarregar a partir do Wikiloc:

Caso te queiras juntar mais tarde ao convívio que haverá no Piovácora Parque Pesca, em horário imprevisto – depende de quando os participantes da GR 43 terminarem o percurso -, a refeição terá um custo à volta de 15 euros – dependendo do teu apetite. Poderás inscrever-te aqui.

Vê acima o material recomendado, nas dicas para os 50 km. Apesar da distância ser mais curta, nunca se sabe…

O ponto de encontro é junto à igreja de Várzea Cova (41°30’30.58″N, 8° 4’10.24″W), onde há um amplo parque de estacionamento. A partida será por volta das 7h30m (evento Facebook).