Ronda de Basto: o epílogo

A poucos dias da Ronda e ainda com memórias bem vivas das dificuldades na Serra da Freita, sentia-me como um bovino a caminho do matadouro. As temperaturas constantemente elevadas pioravam o meu estado de espírito. À medida que se aproximava a hora do desafio, fui metendo na cabeça que o mais importante em todas as Rondas é a experiência em si, o convívio, a aprendizagem – o caminho, portanto, em detrimento do fim. E de bovino condenado fui evoluindo para um equídeo livre e confiante. Só não sabia ainda se o equídeo viria a ser cavalo ou burro!

Vistas para o Alvão e Marão

Vistas para o Alvão e Marão

Às 4 da manhã do dia da Ronda, acordo bem disposto e com ganas de me atirar ao desafio. Depois de me ter encontrado com o Miguel, o Gil e o Frederico, lançámo-nos estrada fora até Mondim. Com o sol a levantar-se por trás do Monte Farinha, durante a descida pelas curvas da Gandarela, este apresentava-se-nos com um vulto ameaçador, encimado por uma luz verde medonha. Afastamos os maus pensamentos, antecipando os bons momentos que lá passaríamos dali a pouco mais de uma hora. Conseguimos chegar a Mondim ainda antes das 6, ao mesmo tempo que o Fernando que vinha de Espinho. Depois dos últimos preparativos, arrancámos cheios de pressa, querendo galgar a calçada da Senhora da Graça enquanto o ar ainda estava fresco. Tal como no reconhecimento de janeiro, a aparentemente temível subida de 600m fez-se muito bem, sem danos no ânimo e nas forças. Pelo caminho, fomos passando por alguns caminheiros e vários campistas à espera da etapa da Volta a Portugal. Lá em cima, perto dos 1000m, o sol brilhava e já não encontrámos a frescura que esperávamos. Depois de apreciarmos calmamente as vistas para as serranias do Alvão e do Marão e, do outro lado, todas as elevações que nos esperariam durante o dia, seguimos rapidamente em direção ao segundo vértice geodésico, o Alto de Crespo.

Vale cavado antes do Crespo

Vale cavado antes do Crespo

Como estávamos agora na vertente noroeste do maciço do Farinha, ainda sem luz direta do sol e com vários cursos de água a escorrer pela encosta, a temperatura era agradavelmente baixa. O Miguel ia ficando para trás, mas achávamos que se tratava simplesmente de gestão do esforço. Numa zona escondida por arbustos, sentimos repentinamente um forte odor a bicho morto. À nossa direita, encontrava-se um cadáver de um cavalo em avançado estado de decomposição, parcialmente devorado, talvez por algum lobo proveniente do Alvão. Mau augúrio, mesmo que certamente nenhum de nós fosse uma presa apetecível. O susto veio logo a seguir, quando encontrámos dois grandes bois negros à nossa frente, mas os rapazes assustaram-se com a nossa virilidade e deram a fugir pelo trilho fora.

Parte do grupo na Senhora da Graça

Parte do grupo na Senhora da Graça

Depois de passarmos pelo Crespo, descíamos em direção ao rio Tâmega. À chegada à aldeia de Fontelas, a minha cabeça começava a acusar a falta de café e fizemos o primeiro desvio para abastecimento. O café da aldeia não ficava muito longe do trajeto e pudemos repor os níveis de cafeína ou de malte de cevada. Era a primeira vez que queimávamos tempo. Estas paragens atrasam a Ronda e acrescentam quilómetros, mas são fundamentais para que a experiência se mantenha em níveis de desfrute aceitáveis. Retomámos o trajeto pelo asfalto que nos leva à ponte sobre o Tâmega e, ali chegados, descemos à margem do rio para encetar a longa subida a Leiradas. Foi a partir daqui que sentimos que o Miguel não estava nos seus dias. As pernas não queriam colaborar. Apesar do nosso apoio, tivemos de nos separar em Leiradas, após uma pausa no café da aldeia. Ficou melhor do que nós, à sombrinha, aguardando pela boleia. Mas quando se perde um colega de luta, por mais ânimo que ainda se tenha, é sempre menos um. Há sempre um qualquer impacto psicológico negativo, mesmo que inconsciente. Mas continuámos seguindo confiantes.

Vista para o Monte Farinha na subida para Cambeses

Vista para o Monte Farinha na subida para Cambeses

Após paparmos o terceiro vértice geodésico, descemos a Asnela, ao km 31, onde nos refrescámos um pouco antes de subir a Cambeses. A temperatura estava próxima do auge e, sempre que passávamos por água, havia um forte motivo para parar. À nossa volta, a paisagem que na primavera tinha um verde vivaço era agora de um amarelo pálido. No alto de Cambeses, fizemos um pequeno desvio para fotografar o quarto vértice e iniciámos a descida ao vale do rio Ouro. O single track após a igreja de Rio Douro fez-se cuidadosamente, embora eu não conseguisse evitar uma queda estúpida que quase me partia alguns dentes. O golpe não me desanimou e o banho que tomámos à sombra do arvoredo junto à ponte medieval reforçou a vontade de continuar a luta.

Pausa na Levada da Víbora

Pausa na Levada da Víbora

Iniciávamos agora aquilo que considerávamos ser o aperitivo antes do almoço que planeávamos tomar em Abadim. Uma penosa subida, em terreno seco, cercado de giestas, onde o calor se sente ainda mais. Agora era a vez do Gil evidenciar sinais de exaustão. A cara não escondia as marcas do desgaste. Conhecendo eu bem o Gil e já o tendo visto morrer e ressuscitar várias vezes, julguei ser coisa passageira. Mas a verdade é que nunca tinha visto aqueles olhos cavados… Tínhamos desejado estar às 13h em Abadim; chegámos às 14h. Depois de nos termos perdido um pouco antes do quinto vértice (perto da Levada da Víbora), tivemos ainda de fazer um grande desvio para encontrar um dos dois cafés da aldeia. Depois de muitas minis e umas boas sandes, voltámos à estrada e depois ao caminho que nos levaria à travessia do rio Peio. O Frederico estava visivelmente satisfeito por ter batido o seu máximo de distância e por ser inclusivamente maratonista.

Quando descemos ao rio, o Gil estava determinado em abandonar naquele ponto, pois Cabeceiras estava a poucos quilómetros de distância. O Frederico, apesar de ainda estar com forças, já tinha ultrapassado em muito o seu objetivo. Levávamos 47 km nas pernas e vinha agora a segunda maior dificuldade da Ronda: a subida à Lapela. O relógio já passava das 15h. Sabíamos que tínhamos feito metade do percurso ou, de outro ponto de vista, ainda faltava metade! Antes de nos despedirmos do Frederico e do Gil, decidimos ir novamente a banhos numa magnífica piscina natural do rio Peio, no meio do nada. Um tesouro desconhecido de muitos, pois éramos os únicos no local, apesar de não distar muito da civilização.

A caminho da Lapela

A caminho da Lapela

O Fernando e eu tínhamos agora a missão de levar esta Ronda a bom porto. Sentia que o Fernando era gajo para fazer duas Rondas – afinal, tinha vindo ali fazer um treino para as 100 milhas do Grand Raid des Pyrénées. Quanto a mim, surpreendia-me por me estar a sentir incrivelmente bem. Nem uma ponta de fraqueza, ânimo a 100%. Sem darmos oportunidade à razão para nos fazer duvidar, lançámo-nos monte acima, pelo meio do mato e das silvas. A progressão era muito lenta, para evitarmos rasgar muito a pele. A vegetação tinha crescido imenso desde os reconhecimentos. Caminhos que se faziam sem problemas estavam agora semi ou totalmente obstruídos. De quando em vez, valiam-nos as aberturas feitas pelos javalis… Mas lá conseguimos chegar à base do monte da Lapela, onde parámos um pouco à sombra de um carvalho, para comer umas barritas antes do ataque.

Vistas para a Cabreira

A meio da última subida para a Lapela

Naquela tarde, sentia que poderia caminhar e correr ainda horas a fios. Ia ao meu ritmo lentito, mesmo suspeitando que o Fernando estava a fazer um enorme treino de paciência. Sabia que se subisse a fasquia, rebentaria rapidamente. Por isso, lá ia eu, desbravando calmamente tojo e carqueja, tentando encontrar a passagem menos má até ao penedo seguinte – o granito é um material preciosíssimo neste tipo de terreno! Finalmente, depois de escalarmos os enormes calhaus do topo da Lapela, lá estávamos, junto ao sexto vértice, com o sol a perder força a poente. Pedi ao Fernando para ficarmos ali um bom pedaço a desfrutar da imensidão das vistas e do silêncio. Valera a pena ficarmos com as nossas pernas ensanguentadas. Aquele momento zen ficará seguramente gravado na minha mente para sempre. Deitados no granito, sentido a ligeira brisa, ouvindo apenas o som dos insetos, observando as várias montanhas à nossa volta… Mas toda aquela reflexão despertou também a razão e dei por mim a fazer contas… E quando terminei de fazer as contas, partilhei as conclusões com o Fernando: eram 5 da tarde, tínhamos feito 57 km, mais oito do que o previsto, estávamos com um ritmo de 5km/hora e, a manter-se a andança e os desvios à distância, provavelmente chegaríamos a Mondim às 1h ou 2h da manhã de domingo. Não aprecio correr de noite, muito menos por longas horas. Até àquele momento, a experiência da Ronda tinha superado as minhas expetativas. Se continuássemos por muito mais tempo, correríamos o risco de passarmos a fazer um frete. E para fretes a correr não contem comigo. O Fernando concordou com esta conclusão. Se uns quilómetros antes o via determinado a concluir a Ronda, depois da esfrega no mato da Lapela, ficou com muitas dúvidas relativamente às condições do que ainda faltava percorrer. E o homem precisava mesmo de descansar. Com tantos incêndios a combater e com falta de sono, era o que faltava andar com um maluquinho a fazer noitadas em silvados!

Portanto, nem é tarde nem é cedo: assim que chegámos à civilização, demos por concluída a nossa aventura. A aldeia de Bastelo foi o ponto final, com 61 km percorridos em 12 horas. Ainda aproveitámos para despachar mais umas minis e um chouricito e ver a incrível e refrescante aparição de umas loiraças de vestido justinho na aldeola de montanha, enquanto aguardávamos pela boleia do Frederico. À esplanada da tasca, um aldeão ia entretendo-nos com as suas histórias de vida, por Espinho, rua 19, rua 8, Guiné-Bissau…

Momento zen no topo da Lapela

Momento zen no topo da Lapela

A caminho de Mondim de Basto, voltávamos a olhar de perto o Monte Farinha, agora de modo indiferente. Aquela montanha parecia-me agora vulgar, como tantas outras pelas quais tinha passado durante o dia. Talvez fosse da cor que àquela hora a vestia. Talvez fosse pela facilidade com que a subi. Talvez fosse apenas blues. A Ronda chegava ao fim e neste dia senti que se tinha encerrado um ciclo. Um ciclo motivado pelo simples desejo de descobrir e dar a conhecer, mas também pela ambição de marcar o território. A verdade é que as duas marcas que desenhei no território, para além de algo megalómanas para quem quer correr e divertir-se ao mesmo tempo num só dia, estão a ficar esbatidas pelo tempo. A desertificação, o abandono de muitos caminhos, e a rapidez com que a natureza reclama aquilo que sempre foi seu tornaram ou tornarão impraticáveis muitos dos trilhos que idealizei.

As Rondas, como qualquer percurso pedestre, necessitam de manutenção. Como tal, o percurso tem de seguir por caminhos que cumpram um dos seguintes requisitos: serem muito frequentados, terem manutenção anual, ou serem estradões/estrada. As Rondas de Lapinha-Montelongo e de Basto não cumprem totalmente estes requisitos e, como tal, dificilmente poderão voltar a ser realizadas no percurso idealizado, sendo necessário estudar/improvisar alternativas. A exceção será a Ronda do Marão, que oferece melhores condições de auto-preservação.

Quanto a mim, apesar de não ter condições para continuar a descobrir novas Rondas (as distâncias a partir de casa começam a ser injustificáveis), irei procurar ajudar a manter transitáveis algumas partes dos percursos existentes e dedicar-me a outras descobertas territoriais. Entretanto, pode ser que despontem outros Rondeiros por aí que nos proponham novos percursos e novas aventuras!

Podem consultar o álbum completo desta aventura aqui.

Ronda de Basto: a logística

Falta uma semana para a Ronda de Basto! A previsão meteorológica, apesar de não ser das melhores, não é uma calamidade. Em julho, não se espera outra coisa, não é?

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Previsão para Cabeceiras de Basto

Se estás interessado/a em participar na primeira edição da Ronda de Basto, presta atenção aos pormenores abaixo, pois podem fazer a diferença se quiseres passar muitas horas na montanha repletas de boas memórias!

Horário

A partida será no centro de Mondim de Basto, perto do Tribunal Judicial, no ponto onde começa o PR1, às 6h00 da manhã do dia 30 de julho. Este horário vai ser ainda sujeito a votação pelos participantes, podendo sofrer alterações, pelo que agradecemos o teu contributo preenchendo o questionário neste link.

Podes consultar o local exato da partida aqui.

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Percurso

MUITO IMPORTANTE:

  • Deves levar o percurso no teu relógio e deves ser capaz de o seguir autonomamente. Consulta o Roteiro da Ronda para obteres o percurso.
  • Não podes depender de outros para te orientares. Se aqueles de que dependes têm algum problema que os impeça de prosseguir, acaba ali a tua aventura.
  • Se nunca ou raramente usas a função de seguir percurso no teu relógio, deves ensaiar o processo com antecedência.
  • É aconselhável levares um backup do percurso noutro dispositivo, por exemplo no telemóvel. Aplicações como o Maverick são muito boas para esta função.

Deves estar mentalmente preparado para enfrentar dificuldades várias ao longo do percurso: passagens fechadas pela vegetação ou por vedações, calor excessivo, problemas físicos contigo ou com algum colega, etc. Tudo isto pode obrigar-te a fazer alterações ao percurso originalmente previsto e terás de pacientemente procurar retomar o caminho correto ou apoiar o teu colega em dificuldades.

Abastecimentos

Como sabes, na Ronda não há os habituais abastecimentos que vês nas provas. Tens de tratar dos teus próprios abastecimentos, da forma que melhor te convier: carregados na mochila, comprados em algum café/mini-mercado durante a Ronda, ou disponibilizados no percurso por alguém da tua confiança. Deixamos aqui algumas referências que podem ser úteis:

  • Pontos de água (fontanários, bicas de água, civilização)
    • km 6: Senhora da Graça
    • km 15: Fontelas
    • km 25-37: Leiradas-Abadim (várias aldeias)
    • km 44: capela de Santo António
    • km 52-63: Bastelo-Cucana (várias aldeias)
    • km 70: Petimão
    • km 85: Mondim de Basto
  • Sólidos (civilização mais avançada)
    • km 37: Abadim
    • km 52: Bastelo
    • km 85: Mondim de Basto
  • Pontos de encontro – locais mais conhecidos e acessíveis, onde qualquer pessoa pode chegar facilmente:
    • km 6: Senhora da Graça
    • km 18: Ponte do Arco de Baúlhe (sobre o Tâmega, pois há outra sobre o rio Ouro)
    • km 33: Igreja de Rio Douro (fica a poucas dezenas de metros do percurso)
    • km 37: Igreja de Abadim (idem)
    • km 52: Bastelo
    • km 57: Fojos (fica na estrada Norte Fafe – Cabeceiras de Basto, após Várzea Cova)
    • km 70: Petimão (ponte sobre a ribeira de Petimão na estrada que liga a Quintela, abaixo da estrada Leste Fafe – Cabeceiras de Basto, após Gandarela)

Como já percebeste, não é um percurso excessivamente selvagem e terás várias oportunidades para repor as tuas provisões de líquidos e sólidos ou encontrar-te com alguém que te possa ajudar em alguma dificuldade.

Material recomendado

  • Reservatório de líquidos para pelo menos 1 litro
  • Alimentação suficiente para pelo menos 10 horas na montanha
  • Telemóvel com bateria carregada
  • Relógio com função de seguimento de percurso
  • Backup do percurso no telemóvel ou outro dispositivo onde possa ser seguido
  • Protetor solar
  • Manta térmica
  • Frontal

Banhos

O Centro BTT de Mondim de Basto, a 5 minutos (de carro) da zona de partida/chegada, disponibiliza os chuveiros para um banho no final do desafio. O custo do duche é 1€ por sessão. A sua utilização não depende da presença do staff do Centro BTT, pois funciona com um dispositivo de pagamento automático.

Podes consultar o percurso de Mondim de Basto até ao Centro BTT aqui.

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Contactos Úteis

  • Hélder Pinto (Rondeiro organizador): 917 045 555
  • Polícia Municipal de Cabeceiras: 253 669 105
  • Bombeiros Cabeceirenses: 253 662 133
  • Bombeiros de Celorico: 255 321 223
  • Bombeiros de Mondim: 255 381 251
  • GNR de Cabeceiras: 253 669 060
  • GNR de Celorico: 255 321 337
  • GNR de Mondim: 255 381 122
  • Táxis Cabeceirenses: 253 662 893
  • Mondim Táxi: 255 389 000 | 965 398 201
  • Taberna do Carvalho (Bastelo, km 52): 253 118 860
  • Duarte Martins (Centro BTT de Mondim de Basto): 963 423 153

Roteiro da Ronda de Basto

Após 10 meses de reconhecimentos, em que contámos com a preciosa colaboração de vários amigos, é chegado o momento de desvendar o resultado dessas explorações. A Ronda de Basto será provavelmente o percurso mais exigente até hoje, não só pela distância, mas também pelo perfil altimétrico, muito irregular e com elevado desnível positivo. A região de Basto caracteriza-se por vales profundos e serras de altitude geralmente acima dos 600/700 metros. Além disso, é atravessada pelo caudaloso rio Tâmega, onde as travessias viáveis não abundam. Portanto, com todas estas condicionantes e sendo a Ronda um percurso circular, com requisitos geodésicos e culturais particulares e que evita ao máximo zonas urbanizadas, conseguimos um trajeto cheio de pontos de interesse mas naturalmente duro.

A partida/chegada

Mondim de Basto e o Monte Farinha (F. Azevedo)

Mondim de Basto e o Monte Farinha (F. Azevedo)

Cada rondeiro escolherá o ponto de partida que mais lhe convier. No entanto, a vila de Mondim de Basto afigura-se como sendo o local ideal para iniciar e terminar um desafio desta natureza. Acessos, estacionamento, e as comodidades da civilização à chegada são importantes. O largo Adriano Pinto Coelho, perto dos Paços do Concelho e do Parque Florestal, é a proposta para o local de partida. É aqui que tem inicio o PR1 – Caminhos da Senhora da Graça, que servirá de base aos primeiros kms da Ronda. Ao longe, poderemos avistar a primeira dificuldade, o majestoso Monte Farinha. Mas nada de receios, pois é melhor subi-lo no início do que mais tarde!

Senhora da Graça (km 6)

A conquista da Senhora da Graça

A parte final da subida

Os primeiros 2 kms da Ronda atravessam o Parque Florestal e depois sobem gradualmente, passando pelos lugares de Serra e Campos. É um curto aquecimento para a enorme subida ao Alto da Senhora da Graça, o ponto mais alto da Ronda, logo a abrir! Esta subida de mais de 600m em cerca de 3km deve ser respeitada e convém ser feita calmamente, por duas razões: a bela calçada merece ser apreciada até ao topo e… só faltam 80 kms para o fim! Trata-se de um caminho de peregrinação, mantido ao longo de séculos, e ainda em muito bom estado, ladeado por vegetação diversa. Um regalo para a vista, sobretudo à medida que vamos ganhando altitude, com o vale do Tâmega por trás de nós. Tome-se o tempo que for necessário para gozar deste privilégio, sobretudo quando ainda há cabeça e corpo para tal! Chegados aos 961m do topo do Monte Farinha, preste-se homenagem aos peregrinos que ainda sobem o monte a pé, ou às povoações que tiveram a coragem de aqui se instalar no passado (cf. Castro dos Castroeiro e Senhora da Graça). Se já estiver a faltar água, não é má ideia aproveitar o santuário para encher os cantis…

Alto do Crespo (km 13)

Adios, Señorita...

Adios, Señorita…

Tal como relatado no reconhecimento de janeiro, a travessia do maciço do Farinha está repleta de motivos de interesse: a diversidade geológica, de relevo, de vegetação, e de pisos torna estes 7 kms até ao alto do Crespo num divertimento constante. Sentimo-nos viajar por várias montanhas numa só. É uma zona bastante selvagem, onde não será possível encontrar água, a não ser pontualmente em alguns regatos. O alto do Crespo (592m) não oferece grande dificuldade, a não ser o acesso sem qualquer trilho. Tal como muitos cumes desta Ronda, também foi local de assentamento de um antigo povoado. Eram tempos certamente bem difíceis, pois só perante grandes ameaças as pessoas optariam viver em locais tão inóspitos.

Alto de Leiradas (km 26)

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A suave subida até Leiradas

Do Alto do Crespo inicia-se uma longa descida até à passagem sobre o rio Tâmega, na ponte do Arco de Baúlhe. Os primeiros 2 kms dessa descida são muito rápidos, em terreno quase sempre rolante. Na aproximação à ponte, já na aldeia de Fontelas, não há alternativas razoáveis a um troço menos interessante, de pouco mais de 1 km em asfalto. Atravessada a ponte, descemos ao nível do rio e passamos sob aquela em direção a montante, por um trilho marginal. Aqui deixamos o distrito de Vila Real e entramos no de Braga, no concelho de Cabeceiras. Depois de deixarmos o rio, a partir do km 18, iniciamos a subida a Leiradas. É uma subida de 8 km, que se faz gradualmente, quase sempre isolados pelo monte, ao longo de caminhos pouco exigentes, mas descobertos. A única exceção a esta subida é a travessia do belo vale da ribeira de Campelo, onde poderemos se necessário refrescar-nos e gozar de alguma sombra. À chegada a Leiradas, passaremos por um pequeno povoado, onde poderemos encontrar água. Mais acima, teremos o vértice com o mesmo nome, que nos espera no alto dos seus 590m. Podem consultar aqui um álbum com algumas vistas do troço Crespo-Leiradas.

Alto de Cambeses (km 30)

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Vista do alto de Cambeses (foto tontonFredo13)

A partir de Leiradas, começaremos a correr em direção a oeste, para o interior do concelho de Cabeceiras. Desceremos ao vale da ribeira de Asnela, onde poderemos apreciar mais uma típica paisagem de Basto, com velhas calçadas lajeadas e verdes lameiros rodeados de árvores autóctones. Em Asnela, teremos nova oportunidade para abastecer de água, antes de encetar a difícil subida ao alto de Cambeses. Esta subida, além de íngreme, é bastante exposta. Lá cima, a 697m, poderemos avistar um pouco abaixo os remanescentes da atalaia do Outeiro dos Mouros, onde ainda se denotam as antigas muralhas defensivas.

Alto de Abadim (km 36)

De Cambeses a Abadim, percorremos seguramente um dos troços mais bonitos desta Ronda. O vale da ribeira de Rio Douro é bastante cavado, com muita vegetação nas suas encostas, proporcionando muitas sombras e permitindo seguir vários single tracks até ao lugar de Eiró. Aqui, antes e depois da travessia da ribeira, passaremos por uma bela calçada lajeada ainda em muito bom estado. Não esquecer de aproveitar para abastecer de água neste povoado! Depois espera-nos mais uma dura subida, descoberta q.b., até ao alto de Abadim, muito próximo do aeródromo de Cabeceiras. Perto do cume, teremos de atalhar por entre o mato, para evitar fazer uma larga e desnecessária volta. O vídeo abaixo, apesar de ter sido registado num dia de muita chuva, é um bom resumo de muito do que poderão ver nesta parte da Ronda.

Alto da Lapela (km 49)

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Levada da Vibora (foto Basto Radical)

Do alto de Abadim, desceremos até à aldeia ao longo da Levada da Víbora. Será certamente um momento de muita adrenalina e diversão e também uma boa oportunidade para ir refrescando! Depois de Abadim, continuaremos a descer até ao vale do rio Peio (km 40). Aqui teremos de atravessar o rio a vau, razão pela qual se desaconselha realizar esta Ronda no inverno ou em alturas de grande precipitação. Contem com água gélida! Será uma boa oportunidade para uma sessão revigorante de crioterapia, para preparar o corpo para a dureza que se segue.

E o que se segue é a subida ao segundo ponto mais alto desta Ronda, o alto da Lapela (866m). Será uma ascensão de 500m de altitude em cerca de 9 kms. Ao passar pelas aldeias do Queiroal e Casal (capela de Santo António), teremos a última oportunidade de abastecer de água antes de entrar no oeste selvagem de Cabeceiras. Além de não ser fácil, esta parte do percurso atravessa na segunda metade zonas bastante selvagens, onde nem sequer há trilho. A aproximação ao alto da Lapela é particularmente exigente e vai requerer muita paciência para escolher as melhores passagens por entre a vegetação e o penedio. Preparem-se para alguns arranhões e picadas! Na Lapela, estaremos na fronteira com o concelho de Fafe. Podem consultar aqui um álbum com vistas deste troço.

Alto do Ervideiro (km 55)

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A caminho de Bastelo

Depois da tareia da subida à Lapela, desceremos à nascente da ribeira de Bastelo e seguiremos do lado direito da ribeira, por velhos caminhos rurais, até à aldeia com o mesmo nome. Estaremos de volta à civilização e teremos mais algumas oportunidades para reabastecer de água, mas olhem para a água que vão beber, pois às vezes pode estar turva e… já sabem! Deixamos Bastelo e continuamos a descida ao longo do vale, por uma velha calçada, até passarmos sobre a ribeira e iniciarmos a subida ao alto do Ervideiro. Esta ascensão não é muito dura, apesar de exposta, mas com 55 km e muito D+ nas pernas, já não há nada que não seja violento! Do alto dos 793m do Ervideiro, de novo no concelho de Cabeceiras, avistaremos a sul os cumes que nos faltam, com destaque para a imponente Orada que, vista de norte, até nem parece grande coisa… Até lá chegar!

 

Senhora da Orada (km 64)

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Penouta

Logo abaixo do Ervideiro, passaremos sobre a E.N. que liga Fafe a Cabeceiras e estaremos na aldeia de Fojos, no sopé de outro monte – a Penouta – que, apesar de não ter um vértice geodésico, não é brincadeira de se subir. A vantagem desta subida é ser quase toda por caminhos de terra, sem exigências técnicas. Na Penouta, poderemos desfrutar de uma vista espetacular sobre o vale da ribeira de Petimão. Lá em baixo, espera-nos a aldeia de Passos, que iremos visitar de raspão, depois de uma divertida descida pela calçada que peregrinos de outrora faziam à Cruz da Missão – certamente uma cristianização de algum penedo sagrado. Quem ainda tiver pernas no alto da Penouta, ficará com elas empenadas depois desta descida vertiginosa. Segue-se uma zona de terreno mais ou menos plano, embora por vezes acidentado, até à aldeia da Cucana, onde será possível reabastecer de água. É então que chega o momento da subida à Senhora da Orada, inicialmente por uma zona de floresta densa (até ao santuário) e na parte final por um trilho de downhill bastante exposto. No topo dos 798m, há um posto de vigia, onde poderemos subir (se ainda tivermos pernas e cabeça!) e ter uma magnífica vista panorâmica sobre São Clemente de Basto, Gandarela, Alvite… Podem consultar aqui um álbum de fotos de um reconhecimento feito no verão do ano passado.

 

Alto do Ladário (km 74)

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Downhill da Orada

É uma pena descermos da Senhora da Orada com as pernas muito mal tratadas, pois o single track de 1 km pela pista de downhill em direção a Alvite é pura adrenalina! Depois deste momento de divertimento (e risco!), passaremos perto de Alvite e Petimão, por zonas onde a vegetação está a ganhar aos trilhos, e iniciamos a subida ao alto do Ladário, por Quintela, seguindo um trilho de BTT. Nos últimos kms até ao cimo do Ladário, agora no concelho de Celorico, não encontraremos zonas de grande interesse, pois a exploração florestal intensiva e a construção da A7 descaracterizaram aquela vertente do monte. O Ladário, a 642m de altitude, já foi local de implantação de um povoado castrejo. E que sorte que aqueles tipos tinham, pois tinham uma vista fabulosa para o vale do rio de Veade! A paisagem formada por este amplo vale é seguramente das imagens mais belas que se poderá levar desta Ronda!

Chegados ao Ladário, bem se pode dizer que o pior está feito e que só falta descer o monte e terminar a Ronda. Mas ainda faltam uns kms e uma última dificulmaldadezinha…

 

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Vale do rio de Veade (à direita), com o Monte Farinha e o Alvão ao fundo (foto JonSepulveda)

Senhora da Piedade (km 84)

Logo à saída do Ladário, teremos mais um single track divertido, antes de entrarmos nos caminhos florestais que nos levarão encosta abaixo até às quintas do vinho verde de Celorico. A passagem pela Quinta da Raza impressionará pela extensão dos vinhedos. Se ainda tivermos luz solar, voltaremos a ver de perto a Senhora da Graça e recordaremos as primeiras dores do dia. Chegados novamente ao rio Tâmega, no ponto de mais baixa altitude desta Ronda, atravessamos a ponte de Mondim e reentramos no distrito de Vila Real. A meta está a pouca distância, mas ainda nos falta um vértice geodésico! A Senhora da Piedade é mais um antigo povoado da Idade do Bronze, transformado em templo cristão. Iremos subir a este monte sobranceiro ao Tâmega pelo lado menos urbanizado e, portanto, mais selvagem e mais íngreme. Depois desta última dificuldade, só nos falta descer pela rua até ao centro de Mondim e dar graças por ainda estarmos inteiros e termos concluído este enorme desafio, que nos permitiu conhecer as terras de Basto como poucos alguma vez conhecerão!

Ficha técnica

  • Distância estimada: 90 km
  • Desnível positivo estimado: 3500m
  • Duração estimada: 13 a 15 horas (depende de muitos fatores)
  • Traçado do percurso (desenhado com base em vários reconhecimentos, nunca feito na totalidade)

Perfil altimétrico

As distâncias e altitudes abaixo são calculadas pelo Google Earth. A experiência de trabalho com esta ferramenta tem demonstrado que o desnível positivo é sempre inferior em pelo menos 200m ao estimado e a distância superior em cerca de 10%.

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Visão geral

O percurso da Ronda de Basto passa pelos distritos de Vila Real e Braga e por 4 concelhos: Mondim de Basto, Cabeceiras de Basto, Fafe e Celorico de Basto. As freguesias atravessadas pelo percurso são as seguintes:

  • Mondim de Basto: São Cristóvão de Mondim de Basto, Vilar de Ferreiros, Atei.
  • Cabeceiras de Basto: Pedraça, Cavez, Rio Douro, Abadim, Painzela, São Nicolau de Cabeceiras de Basto, Outeiro, Passos, Refojos de Basto, Alvite, Basto, Faia.
  • Fafe: Aboim, Várzea Cova.
  • Celorico de Basto: São Clemente de Basto, Ribas, Vale de Bouro, Corgo, Canedo de Basto, Veade.

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A conquista do Monte Farinha

Há muito que este reconhecimento era aguardado com expectativa, não só por mim, mas por todos aqueles que costumam participar nestes treinos-aventura. Infelizmente, provavelmente por anúncio demasiado em cima da data, só 3 pessoas puderam estar presentes neste desafio que se antecipava duro (35km com 1400m D+), mas com elevada probabilidade de ficar para sempre nas nossas memórias.

Para mim, além do reconhecimento da ligação ao alto da Senhora da Graça e ao vértice geodésico de Crespo, seria um ótimo treino e também uma boa oportunidade para testar equipamento antes da Ronda do Marão – coisas que raramente ou nunca uso, como luvas, gorro, ou buff, mas que serão fundamentais para aguentar os rigores da montanha daqui a três semanas.

À medida que nos aproximávamos de Mondim de Basto, o termómetro aproximava-se dos zero graus, mas a previsão prometia um belo dia de sol. O centro da vila não tinha qualquer movimento àquela hora. Com o dente a bater de frio, não nos demorámos nos aquecimentos. Relógios a postos, percurso mais ou menos localizado, e lá seguimos pelo parque florestal acima. Pouco depois, apercebemo-nos de que o PR1 não era por ali, mas começámos bem, com beleza natural logo a abrir. De novo na rota, fomo-nos aproximando da aldeia de Campos, no sopé do Monte Farinha, onde principia a calçada que os peregrinos seguem há séculos. E que bela calçada! Tão bem preservada e de traçado muito agradável, ziguezagueando com declive acessível, com bela vegetação e com as paisagens do vale do Tâmega a revelarem-se gradualmente. Primeira surpresa do dia! É um percurso definitivamente recomendável a todos os públicos. Nem demos pelos mais de 500m que subimos até ao santuário da Senhora da Graça! Lá cima, o frio fez-se sentir novamente, e lá tive de voltar a colocar tudo aquilo que fui despindo ao longo da ascenção.

Depois da pausa para registar os horizontes a 360º, com destaque para o belo manto de nevoeiro que se avistava lá longe sobre Amarante, iríamos agora entrar pelo maciço dentro, para conhecer verdadeiramente esta montanha. Abandonámos o santuário escoltados por uns cãezinhos agitados e voltámos a outra calçada, desta vez a descer, e na vertente norte. Quem diz norte, diz sombra; quem diz sombra num dia tão frio, diz gelo; e quem diz calçada com gelo, diz… grande malho! Mal tínhamos percorrido as primeiras dezenas de metros da calçada e já o Gil aterrava no granito. Ainda não tinha acabado de rebolar e levava com o Mauro em cima! Olhei para trás e não vi o Gil em bom estado. Com dores fortes no braço, ficámos com receio de ter de terminar a aventura por ali. Lá fomos continuando calçada abaixo, desta vez a medo, muito medo, sempre que víamos o brilho do gelo. A singular Pedra Alta, que a natureza ou o sobrenatural assim quiseram deixar, era como que um aviso para os aventureiros mais incautos.

As dores do Gil foram-se dissipando e o sol espreitava de vez em quando por trás da montanha, animando-nos e aquecendo-nos. Hora de voltar a guardar na mochila a roupa em excesso! Com o Alto dos Palhaços e o santuário já bem para trás, a montanha transformava-se. Deixava de ser tão escarpada e dava lugar a belos prados. A paisagem fazia lembrar outras paragens. Alguns garranos pastavam tranquilos, sem nos darem grande atenção. Pouco se mexiam à nossa aproximação. Percebemos que o dono lhes tinha prendido as patas direitas uma à outra, com uma corrente. Infelizmente, uma técnica bem humana. Ah, animais!

Quando deixámos os prados e enquanto descíamos ligeiros um largo estradão, opera-se nova transformação na montanha: desta vez surgiam as colinas bem típicas das serranias de Fafe e Basto. Entre as colinas, alguns vales bem cavados, cada um com o seu ribeirinho a sulcá-lo. Descemos um desses precipícios por um trilho vertiginoso. Já não havia calçada e a confiança estava em cima. Momento de alegre brincadeira até enfrentarmos a encosta do outro lado, desta vez a subir mais suavemente. Pouco depois, encontrávamos o segundo objetivo geodésico da manhã: o alto de Crespo. Sem possibilidade de seguir caminho a partir do talefe, retrocedemos umas centenas de metros e retomámos o trilho para deixarmos a vertente norte da montanha e passarmos para a face voltada para Ribeira de Pena.

Talvez por estarmos agora a levar com os raios de sol de frente, mas também devido ao relevo muito mais suave desta vertente, a paisagem muda novamente. A vegetação é mais dispersa, o solo é mais árido, mas a beleza continua lá. Com a estrada asfaltada não muito longe, optámos por evitá-la e preferimos seguir pelos caminhos de cabras entre a carqueja e o tojo. Uma longa subida em que nos sentimos a trilhar outro mundo. Abrandamos o ritmo e saboreamos. A alma enche-se. Grandes sortudos que somos por vivermos num território como este!

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A longa subida pelas Covas da Raposa

À nossa frente, prefila-se o pesado maciço de Bentozelos – a entrada para o Alvão. Inesperadamente, surge à nossa esquerda um enorme tanque de apoio ao combate aos incêndios. Se estivessem mais 20 graus de temperatura, talvez lá mergulhássemos! Com o Alvão ao fundo, é obrigatório tirar umas fotos para impressionar a audiência com esta piscina do outro mundo! De regresso ao trilho, passamos por uma manada de vacas que raramente devem ver humanos, tal é o medo com que fogem de nós, a várias centenas de metros de distância.

É então que se inicia a descida para mais uma vertente da montanha, desta vez a voltada a sul. E, adivinhem… mais uma transformação! Surge-nos agora muito mais verdura, novamente as escarpas de granito, campos em socalcos encaixados na encosta… Pasmamos com tanta diversidade. Tantas referências a outras montanhas e outros lugares que nos ocorrem em tão pouco espaço! O traçado leva-nos então até uma cancela. Quando desenhei o percurso, sabia que iria provavelmente encontrar um obstáculo deste tipo, mas queria mesmo atravessar aquela propriedade, pois antevia algo de interessante. Uns metros depois, dois póneis e um burrito pastam calmamente as ervas do caminho. Ao contrário das vacas de lá de cima, estão habituados ao contacto com humanos e toleram-nos. Mais um momento Heidi!

Saímos da propriedade antes que viesse o dono com a sua caçadeira e voltámos ao caminho. Esperava-nos agora um estradão até ao alto dos Palhaços, mas decidimos descer em direção a Bezerral, por mais uma calçada centenária. Adrenalina de novo no máximo, apesar dos músculos já não estarem frescos. Depois de seguirmos em direção à extremidade poente da montanha durante cerca de um quilómetro, só nos faltava agora nova subida até perto do santuário. Era quase outra ascensão à Senhora da Graça. Trepámos por mais uma calçada, que deve servir os peregrinos da povação de Vilar de Ferreiros, e, a custo, reconquistámos novamente o cume. Missão cumprida! Que grande fartote de trail running!

Descíamos agora pelos quilómetros finais do PR1, bem menos interessante do que a primeira parte, com muito estradão e asfalto. A entrada em Mondim fez-se tarde, muito além do estimado, mas ninguém se sentiu incomodado com isso. Estas experiências são únicas e, mesmo que cá voltemos em breve, já não será como da primeira vez, neste dia especial de inverno.

O Monte Farinha é muito mais do que a Senhora da Graça. É muito mais do que o cone gigantesco com uma estrada a serpentear pela encosta que avistamos de poente. O Monte Farinha e o seu prolongamento a nordeste têm muitas faces, todas diferentes, todas com a sua impressionante beleza. Diversidade de vegetação, diversidade geológica, diversidade de paisagens e vistas, calçadas centenárias e muito bem preservadas que irrompem de todos os lados… O Monte Farinha contém um património rico e surpreendente que merece explorações demoradas. Da próxima vez que subirem à Senhora da Graça, não se fiquem pelo santuário. Há um mundo maravilhoso lá atrás para descobrir!

Quem quiser atrever-se a viver esta montanha por 35km e 1400m de desnível positivo, pode encontrar o percurso aqui. O álbum completo de fotografias pode ser visto aqui.

Senhora da Graça à vista!

5h30. Corto rapidamente o pio ao despertador e descolo facilmente da cama. É um daqueles dias em que um gajo não precisa do café para acordar! Pouco depois, encontro-me com o Mauro e o Miguel, habitués destes passeios de descoberta, e seguimos viagem até Gandarela de Basto. A chuva miudinha e as nuvens não prometem uma grande manhã para observar a paisagem. Apressamo-nos a equipar-nos e a acertar o percurso nos relógios, para não termos tempo de nos arrependermos de correr de manga curta! Bem dispostos, como é habitual, disparamos pelo monte do Ladário acima.

Nesta zona das terras de Basto, o território é bastante mais explorado economicamente do que nas serras mais a norte. Nestas, muito menos povoadas, surgem aqui e acolá alguns rebanhos de cabras ou ovelhas, e a vegetação é composta essencialmente pelo mato característico do norte de Portugal e, nos vales, há muitos carvalhos, castanheiros, e sobreiros. Quando chegamos ao Ladário, a paisagem transforma-se: abundam os pinheiros e eucaliptos assim como os estradões de terra batida usados pelos lenhadores. Não é tão agradável à vista e à passada, mas também tem as suas vantagens: corre-se mais rápido!

Em Canedo de Basto, com o Monte Farinha ao fundo.

Em Canedo de Basto, com o Monte Farinha ao fundo.

Vamos descendo pela freguesia de Canedo de Basto até ao Tâmega e a paisagem não muda muito, apesar de no vale começarem a surgir os primeiros vinhedos. Lá à frente, cada vez maior no horizonte, surge o perfil do Monte Farinha e do santuário da Senhora da Graça. Primeira paragem para a fotografia! Depois de atravessarmos a ecopista da antiga Linha do Tâmega, atingimos rapidamente um caminho marginal ao rio. Este corre com pouco caudal, apesar das chuvas recentes. Imagino o que será deste rio se vierem a construir as barragens previstas – absolutamente inúteis e não geradoras de emprego e desenvolvimento, como muitos credulamente pensam.

Chegados à ponte sobre o Tâmega, à entrada para Mondim de Basto, paramos para abastecer e apreciar as vistas de um lado e do outro. Na margem de lá, está o distrito de Vila Real e Trás-os-Montes, embora na verdade ainda estejamos à frente dos montes (Alvão e Marão). Antes de entrarmos na vila, fazemos um pequeno desvio ao longo do rio para abordarmos mais um cume, aparentemente modesto mas com vários motivos de interesse. A subida faz-se por um longo corta-fogo de inclinação abrupta, com o Tâmega em pano de fundo. Lá em cima, espera-nos a bela capela barroca da Senhora da Piedade, trasladada há quase 100 anos da Casa do Eirô. O monte tem vestígios da existência de um povoado da Idade do Ferro. Não surpreende, pela sua localização estratégica e atributos defensivos. É mais um caso de uma conversão de remota ocupação pagã em templo católico, como se vê em quase tudo que é monte nesta região.

Descemos à vila de Mondim de Basto, para uma voltinha de consagração pelo centro histórico e para uma boa mini, na Taverna do Marchante! Nos reconhecimentos da Ronda, dá-se prioridade à camaradagem, à descontração, a ritmos de corrida que possibilitem apreciar o que nos rodeia, e à liberdade de seguir por onde nos der na telha. É uma espécie de “slow-food” do trail running!

Os infindáveis vinhedos da Quinta da Raza

Os infindáveis vinhedos da Quinta da Raza

Mas convém não ser demasiado “slow”, porque há gente que se chateia se chegarmos tarde a casa! Então retomamos o percurso, para enfrentar o melhor possível a longa subida de regresso ao Ladário. Seguimos um percurso mais interior, por Veade e Corgo. Vinhedos infindáveis de um lado e do outro… A panorâmica leva-nos a parar várias vezes para observar a beleza do que fica para trás, com o imponente e omnipresente Monte Farinha. Voltamos a entrar no eucaliptal, onde lenhadores e caçadores labutam sob o sol que começa a surgir timidamente por entre as nuvens.

Já em Vale de Bouro, a maior altitude, temos novamente o mato e a serra nua, sempre mais bonita assim. À nossa frente, um gigantesco vale, de uma beleza que nenhuma fotografia consegue expressar fielmente, espraiado por vários quilómetros, de Mondim a Celorico. Esta é provavelmente a vista mais bonita das terras de Basto. Durante o deslumbre, o Mauro deslinda no cimo de um outeiro um single track muito promissor. Fazê-lo com a companhia daquela paisagem é algo certamente especial.

De regresso ao carro, vou a pensar que este troço da Ronda de Basto, aparentemente resolvido antes de irmos para o terreno, tem ainda muito para correr. E há ainda um mistério para resolver, que poderá ter impacto nestas contas. Há duas semanas, quando reconhecemos o trajeto entre a Orada e o Ladário, encontrámos ao longo de uma boa parte do percurso as marcações de uma rota com n.º 24. Apesar de várias pesquisas, ainda não foi possível descobrir a razão da existência dessa rota. Hoje descobrimos outra rota “irmã”, a 23, mais próxima do rio Tâmega, sempre no concelho de Celorico de Basto. Se analisarmos o traçado completo dessas rotas, certamente que encontraremos mais motivos de interesse. A Senhora da Graça, ali tão perto, talvez ainda tenha de esperar mais umas semanas para ser conquistada!

A Ronda de Basto já tem o primeiro esboço

Após vários reconhecimentos pelos cumes da Penouta e Orada, culminados com o reconhecimento do passado fim de semana, ficaram definidos os primeiros 9kms daquele que será o percurso da Ronda de Basto. Ainda falta muito para explorar, mas é animador ter até agora conseguido identificar um percurso que privilegia os trilhos mais interessantes e desafiadores. Quanto à beleza envolvente, essa é a parte mais fácil destes reconhecimentos. Por onde quer que se vá, há uma vista apaixonante, aqui pelas abençoadas terras de Basto!

A galeria fotográfica abaixo é uma amostra do que se pode ver entre Fojos e Alvite. O registo fotográfico completo do reconhecimento, que incluiu uma subida à Senhora da Guia a partir de Passos, pode ser visto aqui.

Recomendamos fortemente o percurso deste último reconhecimento, com início e fim em Várzea Cova, Fafe. Há zonas que estão mesmo a precisar de ser trilhadas com frequência, para evitar que o mato tome conta dos caminhos. Por isso, descarreguem o percurso disponível aqui e divirtam-se!

Até à data, o percurso da Ronda de Basto está totalmente definido no troço entre Fojos e as proximidades de Alvite (ver cartografia abaixo). Os pontos de interesse deste segmento são a aldeia de Fojos, o alto da Penouta, a capela da Senhora da Orada, e o vértice geodésico da Orada. Em setembro, foi também identificada grande parte do percurso entre o alto da Lapela e Fojos. As próximas investidas estarão focadas na passagem para o alto do Ladário e travessia do Tâmega em direção à Senhora da Graça. Neste momento, o percurso total parece megalómano, mas ainda é cedo para tirar conclusões.

Da Lapela ao Ervideiro, por bosques e fragas perpétuas

Depois do treino da semana passada com os Fafe Runners, em que tentámos ligar os PR3 e PR5, fiquei com duas pulgas atrás da orelha: uma a dizer-me que tinha algum dia de conseguir fazer o PR5 sem me perder; a outra a soprar-me as maravilhas dos altos da Lapela e do Ervideiro ali ao lado, já em terras de Cabeceiras. Não resisti nem uma semana! Saltei para o Google Earth e tentei destrinçar um percurso que aproveitasse o PR e também ligasse o alto da Lapela ao Ervideiro. Ficaria assim completo um belo esboço da sequência que termina na Penouta e Orada. Os companheiros de aventura do dia foram o meu irmão Frederico, que me tem dado grande apoio nestes reconhecimentos por terras de Basto, e a Inês Medeiros, a quem o treino encaixava bem na preparação para a Maratona Trail de Vilar de Perdizes.

Arrancámos de Várzea Cova bem cedo, antes das 7h30, ainda com o ar bem fresco. Seguimos ligeiros sob o maravilhoso carvalhal ao longo do ribeiro até Bastelo. A sensação de correr neste belo trilho faz-me recordar uma leitura desta semana, em que João Baptista de Castro descrevia o Minho de 1745, como um “bosque perpétuo e mui aprazível”. Estes PRs de Fafe permitem-nos contactar com os resquícios desse bosque perpétuo, um verdadeiro tesouro do nosso património natural.

Na Montanha, por entre outeiros

Na Montanha, por entre outeiros

Em Bastelo, um ajuntamento de populares espera… não por nós, mas pelo táxi que os há de levar à missa. Deixamos a aldeia e continuamos a subir, pelo GR43, em direção à Lapela. De um lado e de outro, os outeiros amarelecidos pela seca protegem-nos da brisa matinal. Gosto especialmente deste trilho, muito inspirador e que nos faz sentir a Montanha pela primeira vez esta manhã. Quase a chegar aos limites de Aboim, avistamos, por entre dois pequenos montes, o seu famoso moínho de vento, e, lá longe, o castelo da Póvoa de Lanhoso. Daria um belo postal!

A conquista da Lapela

A conquista da Lapela

Muito próximos da Lapela, percebemos que nos esperava um castelo de penedos, muito bem guardado por altas muralhas. Antes de lá chegarmos, porém, teríamos de atravessar aquela grande chaga aberta na montanha: uma enorme pedreira que descaracteriza toda a encosta poente. À entrada, um portão e um conjunto de avisos ameaçadores tenta desmotivar-nos mas, com vontade e loucura, nada nos impede de avançar. Lá dentro, sigo atento a quaisquer movimentos de um enorme cão imaginário e preparo-me para saltar para cima dos penedos a qualquer momento. Mas o cão não aparece e nós seguimos pedreira acima até bem perto do castelo. Depois de treparmos por todos aqueles gigantescos monolitos, finalmente o quase inalcançável vértice geodésico! Depois de fitarmos calmamente todas as montanhas e vales à volta, vinha o grande desafio da manhã. Descer daqueles penedos em segurança e conseguir alcançar sem grandes desvios o trilho que nos levaria pelo vale em direção ao Ervideiro.

A chegada ao Ervideiro

A chegada ao Ervideiro

Como vem sendo hábito nestes reconhecimentos de má fama, experimentámos a aspereza do mato das encostas da Lapela, por sorte bastante condescendente, talvez por estar uma donzela entre nós! E uma guerreira, também, que sorria de cada vez que acabava de atravessar uma zona de tojo mais densa! Finalmente, demos com o velho caminho e descemos alegremente ao longo dos lameiros até Bastelo. Retomado o PR5, esperava-nos uma divertida descida pela calçada até ao carvalhal de Couto, de onde saímos novamente do PR para a longa subida até ao Ervideiro. Mas, nas calmas, tudo se faz, e lá chegámos a mais um cume com vistas ainda mais deslumbrantes. Então aquele tapete ondulado de fragas até à Lapela é de ficar gravado num lugar especial da nossa memória!

Depois de descermos por um trilho paralelo à estrada até Fojos, tivemos de seguir pela N311 até retomarmos o PR5. Aqueles 10 minutos de asfalto demoraram uma eternidade e já sentia as pernas a entorpecer. Já no PR, e aplicando as lições da semana passada, seguimos sem enganos em direção a Várzea Cova, onde chegámos com o sol já a começar a apertar o garrote. Missão cumprida e acompanhada de boas sensações! Após quase dois meses de prospeção, ainda não tenho nenhum percurso fechado entre os cinco cumes que explorei – Lapela, Ervideiro, Penouta, Orada e Ladário -, mas aprendi que por estas bandas o alimento é rico e deve ser saboreado sem pressas, repetidamente. Concluo com um agradecimento à Inês, por algumas das belas fotos deste registo!