Correr a Ronda da Lapinha

Depois de 18 meses a correr os montes da região, inventando ou redescobrindo percursos e trilhos, chegou finalmente o dia de prestar homenagem ao evento que esteve na base da criação deste projeto, a Ronda da Lapinha, uma das mais longas procissões religiosas do mundo, que anualmente atrai milhares de fiéis à encosta da montanha da Penha sobranceira ao vale do Vizela. Trata-se de uma procissão incomum, pela sua motivação, pela extensão do percurso, e pela sua longa história. Realiza-se ininterruptamente há pelo menos quatro séculos e teve supostamente origem numa reação popular desesperada face aos flagelos das condições climatéricas de inícios do séc. XVII. Mas já iremos à história da Ronda…

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Saio de casa ouvindo a voz do padre lá no alto do monte. Inicio a minha corrida calmamente, ultrapassando os vários peregrinos que pela rua acima vão subindo em direção ao santuário. A meio da subida, atalho pelo meio da floresta e chego rapidamente à escadaria que, nos tempos em que treinava mais para o desempenho do que para a fruição, galgava nas minhas fúteis séries. No topo, apesar do dia ainda estar a começar, já se encontra uma enorme multidão que acaba de assistir à primeira missa campal da Ronda. Os peregrinos estão constantemente a chegar e a partir. Apesar da procissão arrancar às 13h00, muitos fiéis decidem fazer a penitência em horários em que o sol pesa menos.

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A primeira missa do dia

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A Ronda da Lapinha é uma procissão mariana com origens remotas, com a primeira referência documental ao culto da Senhora da Lapinha registada em 1612 [LEITE, 2012]. O nome “Senhora da Lapinha” estará relacionado com uma lenda, bastante comum em Portugal, segundo a qual a imagem da Senhora terá aparecido junto de uma lapa (rocha formando uma pequena gruta), neste caso em Calvos, uma freguesia periférica e rural de Guimarães. Segundo o mesmo autor, só em 1663 surge registada a primeira menção à Ronda, embora seja de crer que a procissão se realizasse já antes dessa data. A Ronda da Lapinha terá, segundo a lenda, sido estabelecida devido a uma praga de gafanhotos que surgiu naquele tempo e que levou ao desespero os agricultores do vale do Vizela, que viam as suas culturas serem devoradas pelos insetos. Decidiram levar a imagem da Senhora da Lapinha até à vila de Guimarães, à igreja da Senhora da Oliveira, implorando alívio para as colheitas ameaçadas. Quando regressaram a Calvos, viram o desejo realizado, pois os gafanhotos teriam supostamente morrido.

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Hoje já não há pragas de insetos ou outras maleitas a derrotar, pois a agricultura definha e já poucos querem saber das culturas e, além disso, a indústria química oferece todo o tipo de “milagres”. No entanto, o número de devotos da Senhora não parece diminuir e a Ronda é também uma oportunidade de convívio, romaria e até de atividade física. E por falar nisso, voltemos à corrida! Já passa um pouco das 8h00 e está na hora de iniciar verdadeiramente a minha Ronda, antes que o calor comece a fazer estragos. Sigo em direção à Penha, pela estrada municipal que serpenteia pela floresta, e vou cruzando-me constantemente com peregrinos que caminham em ambas as direções. É agradável sentir a presença de tanta gente por perto. À chegada a São Mamede, a primeira dificuldade, com a subida ao Santuário da Penha. É uma rampa relativamente curta, mas depois do conforto dos primeiros quilómetros a subir gradualmente, custa mais. A Senhora do Carmo ainda não se levantou, pois as portas do santuário ainda estão fechadas. Há pouca gente nas imediações, apesar de hoje ser também dia de festa na Penha, com a romaria de Santa Catarina, a padroeira desta montanha, cujas celebrações coincidem com as da Ronda da Lapinha – coincidência ou não! Contorno o penedo onde está esculpida a homenagem a Sacadura Cabral e Gago Coutinho e inicio a descida para Guimarães, via Mesão Frio.

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Peregrinos partindo e chegando

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A Ronda da Lapinha realiza-se estatutariamente no terceiro domingo de junho, com o solstício de verão sempre próximo. Este ano, realizou-se a 19 de junho, na véspera do solstício. Em 2015, a Ronda coincidiu com o solstício, tendo sido um Ano Magno. Mas, mais do que o simbolismo da data, pretendemos aqui abordar a temática do caminho, pois uma Ronda é acima de tudo um percurso, circular, em que as condições do caminho não devem limitar significativamente a progressão dos peregrinos. O percurso da Ronda terá tido certamente muitas variações ao longo dos séculos, em consequência sobretudo da evolução da rede viária. É difícil determinar qual foi o percurso original, embora haja estudiosos [MACHADO, 2012] que apontam para o caminho romano-medieval Amarante-Guimarães que passava muito próximo da Lapinha. A Ronda saía então da Lapinha, descia ao caminho romano-medieval e seguia-o por Abação, Pinheiro, Urgezes, Campo da Feira, até à igreja da Senhora da Oliveira. O regresso far-se-ia pelo mesmo caminho. Se assim fosse, é de duvidar que a procissão se denominasse então de Ronda, pois com um traçado linear, ninguém concebe uma “ronda”.

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Caminho romano-medieval entre Pinheiro e Abação (abril 2013)

Um segundo trajeto da Ronda poderá mais tarde ter passado pela Penha, admitindo-se que já havia caminho transitável por entre o mato, com descida a Guimarães mais ou menos por onde hoje circula o teleférico. O regresso continuaria a fazer-se pelo caminho romano-medieval de Abação. Fica a dúvida se não teria sido este efetivamente o percurso original, pois não é improvável que já houvesse caminhos até à Penha no início do séc. XVII – já lá poderia haver uma ermida anterior à capela de Santa Catarina! O terceiro e atual percurso, o mais longo de todos, terá sido desenhado sobretudo tendo em conta as melhores condições viárias que o progresso entretanto trouxe a Guimarães – é bem melhor caminhar com um andor em empedrado ou asfalto, faça chuva ou faça sol, do que em terra batida ou enlameada. Assim, a Ronda da Lapinha é atualmente um percurso essencialmente por estradas municipais ou arruamentos secundários, com cerca de 20km, e atravessa 14 freguesias: Calvos, Infantas, Costa, Mesão Frio, Azurém, Oliveira do Castelo, São Paio, São Sebastião, Creixomil, Urgezes, Polvoreira, Tabuadelo, São Faustino, e Abação.

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Como foi bom descer confortavelmente pelo asfalto até à escola de São Romão, em Mesão Frio! A brisa a soprar agradavelmente, as vistas para Santo Antonino e Atães, poucos carros ainda na estrada… Sigo pela estrada nacional até à Cruz d’Argola e, no entroncamento junto ao Lidl/Intermarché, sigo pela velhinha Rua da Arcela. É por aqui que os rondeiros da Lapinha entram com o andor da Senhora em Guimarães, parando obrigatoriamente frente à capela de Santo António. A Senhora da Lapinha é, pode dizer-se, uma imagem que aprecia os passeios e as visitas às imagens de santos e senhoras das redondezas, prestando-lhes as devidas honras.

Não conhecia em toda a sua extensão a Rua da Arcela, que pertence ao Caminho de Santiago e já foi um dos principais eixos viários que ligava Guimarães a Fafe, e fiquei surpreendido por ainda se observarem construções muito antigas, algumas seguramente ainda a resistir pelo menos desde o séc. XIX. À chegada à igreja de São Dâmaso, viro à direita e sigo pela estrada que passa ao lado do campo de São Mamede até ao Convento de Santo António dos Capuchos (Hospital Velho). Aqui, viro à esquerda e sigo para o centro histórico, até ao Largo da Oliveira. Mais uma vez, apanho mais uma Senhora a dormir. Ainda não são 9 horas e a Senhora da Oliveira ainda está em sono profundo. Quase ninguém cruza o largo e os cafés iniciam timidamente a sua atividade. Tenho dúvidas sobre o trajeto a seguir e questiono um velhote que se arrasta penosamente para um dos cafés. Diz-me, com toda a segurança do mundo, para seguir pela Rua Egas Moniz (antiga Rua Nova). Poucos metros depois, questiono-me se o homem não estaria ébrio, e decido confirmar com uma moradora se vou no caminho certo. Em boa hora o fiz! Regresso ao Largo da Oliveira e sigo agora pela Rua da Raínha D. Maria II até ao Toural. Aqui, já sabia que teria de descer pela Rua de Camões e depois iniciar a subida de 11 kms até à Lapinha!

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Uma rara sombrinha perto do castelo

Rua da Liberdade, Cruz de Pedra (mais um Santo António!), Rua Manuel Tomás e cá estamos perto da antiga fábrica do Castanheiro! Antes das obras de requalificação do caminho-de-ferro, seguia-se em frente para Urgezes. Agora, é necessário ir até à rotunda do Hotel de Guimarães. São mais umas centenas de metros, mas o andor não tem alternativa viável! O sol começa agora a tornar-se desagradável: com os raios de frente, sem óculos de sol, e com o calor a aumentar, a subida vai ser penosa e longa. Felizmente, do cimo de Urgezes até Covas, apanho uma pequena descida e alguma sombra. Depois de passar junto ao apeadeiro de Covas e de passar sobre a ribeira de Nespereira, acabaram as dúvidas de orientação e as benesses do relevo. O percurso não tem nada que saber: é só seguir a estrada até à Lapinha e ir puxando a carroça sob o sol fustigador!

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A procissão à chegada ao Toural (foto Guimarães Digital)

Polvoreira, Tabuadelo, São Simão… Ao longo de toda a subida, vou sempre ultrapassando peregrinos. Deste lado da montanha, ninguém desce. Todos sobem animados de uma vontade de caminhar que dificilmente se observa na rotina do dia-a-dia. Provavelmente, são os mesmos que à semana estacionam o carro em segunda fila à porta do café ou da farmácia. Mas nos momentos sagrados revela-se o melhor das pessoas e tudo se perdoa!

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A azáfama da Lapinha em dia de Ronda

Depois de São Simão, entro em piloto-automático, habituado que estou a correr nestra estrada nos meus treinos a meio da semana. Atravesso Abação e, depois de deixar a Fornalha – é mesmo nome de lugar! -, enceto a última subida até à Lapinha. Anseio por atingir o bosque que antecede a Devesa Escura, um dos poucos troços com sombra de toda a Ronda. Olho para o relógio e estou quase a fazer duas horas de corrida. Meto na cabeça que tenho de terminar abaixo das duas horas e acelero, sempre a ultrapassar, cada vez mais gente. À chegada, não resisto a parar para tirar uma fotografia do santuário e da multidão. No relógio 1h59mh47s… Já não vou conseguir. Último sprint, ainda com muito fôlego e está feito! 23 segundos depois da hora. Temos trabalho a fazer no próximo ano!

No adro, ao lado das centenas de peregrinos, há vários ciclistas que também vieram cumprir alguma tradição. Sou o único corredor, mas talvez não seja o único a correr a Ronda naquele dia. A Ronda tem uma hora e um percurso marcado, mas cada um é livre de a fazer como quer, à hora e ao ritmo que quiser… Desde que passe por todas as capelinhas!

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A vista a partir do Santuário da Lapinha

Dirijo-me até à outra extremidade do santuário. Dali avistam-se as Serras de Fafe, o vale do Vizela, um pouco do vale do Sousa, o Marão, a Aboboreira, Montemuro lá ao fundo… Está na hora de voltar a casa, hoje bem mais cedo do que o habitual. A estrada tem esta virtude de nos despachar mais cedo. Para o ano, voltarei à Ronda da Lapinha e será tradição para manter enquanto as pernas deixarem.

Ficha técnica

Referências

LEITE, Artur M., “Senhora-à-Vila: quatro séculos de fé e tradição cultural”, 2012.

MACHADO, Narciso, “Os Caminhos da Ronda da Lapinha”, Notícias de Guimarães, 23 e 30 de março de 2012.